O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou, nesta terça-feira, 7 de abril, as ameaças contra o governo do Irã caso o estreito de Ormuz, passagem de navegação comercial por onde passa cerca de 20% da produção de petróleo do mundo. O ultimato de Trump termina hoje às 20h, horário de Washington (21h horário de Brasília) e ocorreu após as tentativas de cessar-fogo dos EUA não se concretizarem.
“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá. No entanto, agora que temos uma mudança de regime completa e total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionariamente maravilhoso possa acontecer, QUEM SABE? Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!”, Donald Trump, em sua conta na rede social Truth.
O conflito foi iniciado em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel coordenaram um ataque conjunto em vários pontos do Irã, acreditando em uma rápida queda do regime, a república islâmica teocrática. Essa aposta não se concretizou.
Na economia, os ataques ao Irã fizeram o barril do petróleo Brent negociado por cerca de 70 dólares no fim do ano passado, passar para mais de 111 dólares na manhã desta terça-feira, 7. Internamente, Trump viu, com a alta do preço dos combustíveis, sua aprovação despencar para menos de 40%, segundo o agregador de pesquisas Silver Bulletin em 26 de março.
Trump iniciou uma guerra que pode não vencer
Para o colunista da Agência Pública, James Green, “a verdade é que Trump iniciou uma guerra que talvez não consiga vencer e que provavelmente lhe trará sérias consequências políticas nos Estados Unidos”. Green ressalta em seu artigo “Trump está perdendo a guerra no Irã”, “a maioria dos analistas políticos nos Estados Unidos desistiu de tentar entender o plano estratégico de Trump para o Irã, em parte porque concluíram que ele não tem nenhum. As justificativas que o governo Trump apresenta sobre por que o presidente está travando uma guerra com o Irã continuam mudando, aumentando ou diminuindo sua importância para a Casa Branca”.
Muito da animação do presidente norte-americano se deu, segundo Green, em função do sucesso da operação na Venezuela. “O presidente dos EUA ainda está eufórico com o que considera uma “operação inacreditável” na qual forças especiais, usando “todo o poderio militar” capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro, causando temor entre os adversários dos EUA. Trump projetou essa confiança no conflito com o Irã”, afirma no artigo.
Por que isso importa?
- O fechamento do estreito de Ormuz pelo Irã, que se mantém há mais de um mês, desencadeou repercussões nos preços mundiais do petróleo e do gás.
- Após as ameaças de Trump, o governo iraniano pediu para a população formar correntes humanas para proteger as usinas de energia do país.
Iranianos cansados de seu governo não significa apoio à invasão de EUA e Israel
A jornalista e coautora do livro “O Irã sob o Chador”, Adriana Carranca, analisou para a Pública que “supor que a maioria dos iranianos, que têm enfrentado a brutalidade do regime em protestos crescentes, apoiaria um ataque unilateral dos EUA e de Israel contra o país soberano é um engano que ignora a história do país”.
Carranca salienta que o “Irã é uma das mais antigas civilizações do mundo. Descende do Império Persa, herança de 6 mil anos que sustenta o forte nacionalismo iraniano. A maioria da população é educada e politizada, especialmente nas áreas urbanas, e as mulheres ocupam 70% das vagas nas universidades”, em seu artigo “No Irã, maioria se opõe ao regime mas não confia em Israel nem nos Estados Unidos”. Por isso, a autora não vê que a população, principalmente das mulheres, que têm se manifestado contra o governo desde 2022, apoiaria um ataque externo.
“Daí a imaginar que receberiam de braços abertos os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel é um erro. Me espantaria ouvir de qualquer um deles que acredita nas intenções altruístas de Donald Trump e Benjamin Netanyahu para libertar o povo iraniano da opressão. Nenhum iraniano seria ingênuo a esse ponto”, avalia a jornalista.
Iranianas enfrentam ditadura, mas também criticam interesses de Trump e Netanyahu
Essa também é a visão da ativista feminista iraniana Parvin Ardalan, entrevistada do podcast Pauta Pública, episódio 207. “No debate feminista, especialmente na rede Feminists for Jina, sempre afirmamos que não concordamos com a guerra. Somos contra a guerra. Não queremos a volta da monarquia nem outra forma de ditadura. A situação atual é muito difícil porque, de um lado, somos contra os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e de Israel, que tentam usar o povo para seus próprios interesses. Por outro lado, enfrentamos a ditadura no Irã, que há muito tempo oprime, mata e reprime a população. Encontrar uma solução é extremamente difícil. Mas precisamos nos posicionar contra essa forma de dominação vinda de ambos os lados”, disse a jornalista durante a entrevista.
Além da tragédia humana, guerra traz caos ambiental
Os danos da guerra não são apenas políticos e econômicos. Como lembrou a colunista da Pública e âncora do podcast “Bom dia, Fim do Mundo”, Giovana Girardi. “Imagens de enormes colunas de fogo e fumaça cobrindo cidades no Irã que começaram a aparecer nos últimos dias, depois que depósitos de combustível foram atingidos pelos ataques de Israel, chamam a atenção para um outro lado da guerra no Irã: ela pode levar a um grande desastre ambiental”, alerta em “Irã entre a seca, a guerra e o colapso ambiental”.
Além da tragédia humana com a perda de vidas, a guerra traz consequências ambientais como contaminação do solo e da água, chuva ácida e efeito estufa, que “tendem a durar muito além da guerra”. “Isso tudo em um país localizado na região de maior escassez hídrica do mundo e que estava sendo gravemente afetado por uma seca que se prolongou pelos últimos cinco anos. No fim do ano passado, o governo chegou a considerar uma evacuação de Teerã, cidade onde vivem 10 milhões de pessoas, pela total ausência de chuvas. Com cinco anos de seca, os reservatórios que abastecem a cidade estavam praticamente vazios”, afirma Girardi.
Conflitos de hoje têm origem na atuação dos EUA no Irã na década de 1970
Ironicamente, para entender como o Irã tornou-se um Estado teocrático é preciso compreender como potências como os Estados Unidos e o Reino Unido atuaram na política do país para garantir seus interesses econômicos. Essas relações estão evidenciadas no artigo “Programa atômico do Irã foi criado pelos EUA que hoje lança “Fúria Épica” sobre o país”, do jornalista e analista político João Paulo Charleaux.
“Entre um evento e outro, houve um mar de mudanças – o Irã passou das mãos de um regime monárquico, que era simpático aos Estados Unidos nos anos 1950, para outro, controlado por clérigos religiosos que, desde 1979, faz da oposição aos americanos uma profissão de fé. Nessa trajetória, mudaram tanto os aliados quanto os inimigos, mas um elemento permaneceu inalterado: a capacidade técnica e os recursos tecnológicos do Irã para desenvolver armas atômicas, a partir de um conhecimento instalado originalmente pelos próprios Estados Unidos”, explica Charleaux.
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