Bilionário da maior rede de supermercados do NE expande negócio com generosidade fiscal

O que têm em comum o ex-prefeito de Recife, João Campos (PSB), de centro-esquerda, e a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), de centro-direita? Ou ainda o governador do Piauí, o petista Rafael Fonteles, e o prefeito de Belém, o emedebista Igor Normando? O governador de Sergipe, o empresário Fábio Mitidieri (PSD) e o ex-prefeito de Maceió, o tucano João Henrique Holanda Caldas, conhecido como JHC em referência ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?

Todos eles foram presença de destaque nas festivas inaugurações do Grupo Mateus, o maior grupo varejista do Nordeste no setor de alimentos.

Via de regra, o lançamento de uma unidade da rede de supermercados é saudado como um marco no desenvolvimento local. Em fevereiro deste ano, durante a inauguração de uma unidade Mix Mateus em Caxias, no Maranhão – com direito a corte de fita e laço vermelho – o prefeito Gentil Neto (PP) deu as boas-vindas: “Sextou com mais empreendimento na nossa cidade de Caxias, onde hoje nós estamos aqui entregando mais um supermercado Mateus”, disse. “Hoje a gente quer agradecer aqui a todo o Grupo Mateus por esse investimento. Isso prova o quanto esse grupo acredita no futuro de Caxias e também no nosso povo caxiense”.

As manifestações são tão efusivas quanto os números do negócio. De acordo com o ranking da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) de 2026, pelo terceiro ano consecutivo, o grupo empresarial maranhense ocupa o terceiro lugar em faturamento no país, mais de 31 bilhões, atrás apenas do Assaí Atacadista, de origem paulista, e do francês Carrefour, que controla o Atacadão S.A. (Os supermercados representam 9,12% do PIB nacional, segundo a Abras).

O faturamento do Grupo Mateus cresceu quase 10 bilhões em relação ao ano anterior. E, segundo consta em relatório da própria empresa, o lucro líquido da rede atingiu R$ 1,6 bilhão em 2025.

Mesmo assim, as notícias mais recentes indicam que o grupo está passando por uma ampla reestruturação. Entre 2025 e o primeiro trimestre de 2026, o Grupo Mateus fechou 28 lojas e dispensou cerca de 6,6 mil funcionários nos estados do Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia.

No comando deste conglomerado empresarial está o homem mais rico do Maranhão e dono da segunda maior fortuna da região Nordeste: o fundador Ilson Mateus Rodrigues, de 63 anos. Em 2020, ele foi incluído pela primeira vez na lista de bilionários da Forbes Brasil, com fortuna avaliada, à época, em R$ 20 bilhões.

Naquele mesmo ano, enquanto milhares de pessoas morriam em consequência da contaminação por Covid-19, o Grupo Mateus crescia com ótima saúde financeira e conseguia entrar na Bolsa de Valores.

Mas não foi sem percalços. Em maio de 2020, a inauguração de mais uma unidade do Mix Mateus em Parnaíba, no Piauí, chegou a ser questionada pelo Ministério Público Estadual. A aglomeração era tanta que acabou virando um risco à saúde pública, e o MP abriu uma investigação.

A prefeitura já tinha um histórico controverso. O prefeito Francisco de Assis de Moraes Souza (DEM), conhecido como Mão Santa, médico com especialidade em Proctologia, ex-governador do Piauí e ex-senador da República, chegou a gravar um vídeo produzido pela própria prefeitura, defendendo a cura da Covid-19 com água potável. “Você bebendo, ó, você empurra o germe pro estômago e lá o germe se lasca porque tem ácido clorídrico”.

Questionado pelo MP, o Grupo Mateus respondeu que houve controle de acesso à loja, higienização com álcool em gel para clientes e carrinhos, além de sinalização para manter a distância recomendada.

Mesmo assim, Mão Santa e a prefeitura municipal foram multados em R$ 75 mil por terem autorizado a festa de abertura do supermercado. A rede varejista saiu ilesa.

Assim, a pandemia foi apenas um soluço no ano de crescimento do grupo. Em outubro de 2020, a empresa fez a maior IPO (Oferta Pública Inicial) da história do Nordeste até então, movimentando em torno de R$ 4,6 bilhões. Em seguida, Ilson Mateus entraria na lista da Forbes.

Mateus, que é evangélico, tem a fala mansa e costuma denominar o Grupo Mateus de “bênção”, ressaltando aspectos religiosos quando fala do sucesso. Em outubro do ano passado, ele apareceu em um vídeo que viralizou na internet entoando o grito de guerra: “quem somos nós?”, pergunta, seguido por um coro de funcionários dizendo: “Mateus!”. “O que temos?”. “Atitude”, respondem. “Nós somos de quem?”: “Jesus!”.

Mas um levantamento da Agência Pública demonstra que a fortuna não se deve apenas à graça de Deus, mas a um longo histórico de benesses fiscais de diferentes governos estaduais.

De Serra Pelada ao Carrinho de Ouro

Ilson costuma ser citado como um homem de origem humilde que se tornou um exemplo de sucesso empresarial. Um material publicitário, produzido por ocasião dos 35 anos do Grupo Mateus cita sua “saga empreendedora”: “foi engraxate, torneiro mecânico, garimpeiro e vendedor de cachaça antes de se tornar bilionário”.

Nascido em Imperatriz, cidade do interior do Maranhão, no dia 6 de março de 1963, aos 21 anos decidiu ir para Serra Pelada, no Pará, trabalhar como garimpeiro. No local, soube que, na cidade de Balsas, no sul maranhense, um conhecido vendia refrigerante. Voltou para Imperatriz e trocou seu único bem, uma caminhonete, por um caminhão para percorrer os mais de 300 km até Balsas e fazer o mesmo. No final da década de 80, abriu uma mercearia de 50m2. Pouco tempo depois, começou a oferecer serviço de fretes de produtos da cidade de Imperatriz para Balsas, distribuindo também produtos no atacado. O negócio cresceu a ponto de surgir o Armazém do Mateus, com vendas no varejo e atacado.

O ex-garimpeiro de Serra Pelada prosperou e acumulou, em sucessivos anos, uma coleção de troféus “Carrinho de Ouro”, organizado anualmente pela Associação Maranhense de Supermercados (AMASP).

Ilson aparece, com frequência, em registros que reforçam uma aparência modesta. No ano em que ingressou na lista de bilionários da Forbes Brasil, posou para uma foto, amplamente divulgada nas redes sociais, almoçando sentado no chão da empresa, vestido de uniforme e boné com a logomarca de uma das suas lojas, a Camiño. Recentemente, em outro vídeo, ele aparece tendo um cartão recusado durante um pagamento em um caixa do supermercado de sua propriedade.

Apesar da proximidade com figuras públicas, “Seu” Ilson, como é chamado pelos funcionários, não costuma dar declarações políticas. Mas teve o nome especulado, em janeiro deste ano, para a disputa ao governo do Maranhão. A informação foi divulgada no blog do jornalista Diego Emir que explicou à Pública que a divulgação foi feita após uma pesquisa encomendada pela Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA), na qual o empresário aparecia bem posicionado O texto exaltava a religiosidade do bilionário, afirmando que ele gosta de citar o Salmo 37, incentivando a “entregar o caminho para Deus e confiar que ele abrirá o caminho”. Este seria o segredo do sucesso dos seus negócios.

Fotomontagem com carrinho de supermercados lotado de imagens de inaugurações de lojas

Modelo de negócio com fome de expansão

O grupo Mateus cresce mesmo tendo apresentado recente queda de suas ações na bolsa. O conglomerado encerrou o ano de 2025 com mais de 1.700 cidades atendidas em 8 dos 9 estados do Nordeste, além de 39 lojas no Pará, na região Norte. Atualmente, de acordo com o último relatório da empresa, são 311 lojas alimentares em operação no Brasil, 78 lojas de eletrodomésticos, 18 centros de distribuição e mais 303 lojas de conveniência.

Ao todo, são 144 lojas no Maranhão, quase metade do total. A onipresença é motivo de piadas no estado de origem. Uma delas alerta: se alguém cavar um buraco em um quintal no Maranhão, nasce um “Mix Mateus”.

A rede oferece modelos diversificados de lojas com bandeiras diferentes: Mateus Supermercados, que funciona como supermercado convencional, com produtos e serviços para o dia a dia; o Mix Mateus, com venda no atacado e no varejo, atendendo tanto aos consumidores domésticos quanto pequenos comerciantes, sendo o “carro-chefe” do grupo; Hiper Mateus, com unidades que incluem, além de produtos alimentícios, eletrodomésticos, restaurantes, padarias, lanchonetes; Eletro Mateus, focado em vendas de móveis e eletrodomésticos; Camiño Supermercados, bandeira de varejo popular, voltada para pequenas cidades e bairros da periferia; o Spazio Mateus, para públicos de maior poder aquisitivo, com adega de vinhos, queijos finos, sushis e importados.

Para abastecer as lojas do grupo e até clientes externos, há ainda o Armazém Mateus, o braço de atacado, com centro de distribuição e logística, considerado a maior empresa desse segmento nas regiões Norte e Nordeste.

A mais nova bandeira do grupo é o Novo Atacarejo, resultado da aquisição de 51% da rede pernambucana Novo Atacarejo, em uma operação financeira anunciada pelo valor de R$ 378,5 milhões, segundo a ABRAS. Dezenas de lojas da rede na Bahia, em Pernambuco, na Paraíba, em Alagoas e em Sergipe agora fortalecem a presença regional do Mateus. A transação comercial precisou ser aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).

Em 2025, a empresa anunciou o fechamento de 28 lojas da bandeira Eletro.

Mesmo assim, no quarto trimestre de 2025, o grupo teve lucro líquido de R$ 324 milhões e receita líquida de R$ 10,6 bilhões, 20,9% a mais do que no mesmo período do ano anterior.

Legislação tributária questionada

Além da proximidade com ocupantes de cargos públicos, reiterada pelas suas aparições em cada nova inauguração, o grupo tem sido contemplado com vantagens fiscais questionadas como “privilégios fiscais”.

Em campanha eleitoral ao governo do Maranhão, em 2018, o então senador Roberto Rocha (filiado ao PSB na época, pré-candidato ao Senado pelo Novo em 2026) alegou que os benefícios fiscais estaduais favoreciam indevidamente “uma única empresa”, prejudicando pequenos supermercados e lojistas maranhenses que não podiam competir com as isenções do grupo varejista. E prometeu, caso fosse eleito governador, ingressar no STF com uma ação para uma lei aprovada pelo então governador Flávio Dino para reduzir a carga tributária do ICMS sobre produtos tributáveis para 2% para atacadistas que se enquadrassem no conceito de Centro de Distribuição.

Mas o Grupo Mateus nem precisou aderir a esta lei. Em entrevista à Agência Pública, o secretário de Fazenda, Marcellus Ribeiro, que é o mesmo desde a época do governo Flávio Dino, esclareceu que, em razão dos rigorosos critérios exigidos, o Grupo Mateus não se interessou em aderir aos benefícios da Lei n.º 10.576/2016.

O Grupo Mateus, de fato, é beneficiado, mas pelo regime especial de crédito presumido para estabelecimentos atacadistas, previsto no Regulamento do ICMS do Maranhão. O benefício reduz a carga tributária efetiva de saída das mercadorias para 2%, com o Termo de Acordo de Regime Especial de ICMS, concedido pela SEFAZ-MA.

O Armazém Mateus S.A. recebe uma redução do ICMS para 2%, na modalidade de crédito presumido. O desconto faz parte do subprograma Mais Atacadista, no âmbito do programa estadual Mais Empresas, lançado em 2016. Marcellus esclarece que o grupo não é o único beneficiado: são quase 180 empresas beneficiadas pelo regime especial de crédito presumido.

No entanto, levantamento feito pela Pública demonstrou que o Mateus é a única rede de supermercado do Nordeste que recebe o benefício, ao lado do grupo francês Carrefour. As demais empresas não são do ramo de supermercado.

Na lista das empresas com incentivos fiscais, na categoria Atacadistas, o Armazém Mateus aparece seis vezes, no ano de 2023, ou seja, com seis inscrições estaduais diferentes.

Mas entre as diferentes empresas beneficiadas com 2% de carga tributária, somente o Armazém do Grupo Mateus e o Atacadão S.A., da cidade de Imperatriz (MA), aparecem como representantes do ramo supermercadista. O Atacadão tem abrangência nacional, é o braço de atacarejo do Grupo Carrefour, líder do setor de supermercados em vendas no Brasil.

Nas últimas décadas, o Maranhão viu fecharem as portas das principais redes de supermercados locais, como o Maciel, o Silmar, Preço Bom e Carone, que trabalha hoje “em parceria”, segundo o dono, com o Grupo Mateus, em lojas que eram da antiga rede e hoje funcionam com a logomarca do grupo. A informação foi confirmada à Pública pelo empresário Antônio Íris, proprietário do antigo Supermercado Carone, para quem “o Maranhão deve se orgulhar muito” do Ilson Mateus.

A falência dos supermercados e a polêmica em torno do suposto benefício fiscal, apontado como “privilégio”, repercutiram tanto que, em janeiro de 2019, o empresário Ilson Mateus convocou uma coletiva de imprensa – uma das poucas que deu na vida – na qual se justificou, afirmando que o grupo “não tem benefício exclusivo dado pelo governo do Maranhão”.

Eu não quero nenhuma vantagem a mais do que ninguém”, declarou.

A única acusação formal de monopólio contra o grupo havia sido feita 10 anos antes, em 2009, em Imperatriz, segunda maior cidade do Maranhão, quando a rede comprou de uma só vez todas as quatro lojas dos Supermercados Liliani, fechando duas de imediato.

O Ministério Público estadual alegou que não sobraram mais supermercados concorrentes de igual porte na cidade. A 2.ª Promotoria de Justiça Cível de Imperatriz ofereceu representação para a Secretaria de Direito Econômico, um órgão do Ministério da Justiça. Segundo o promotor de Justiça, Sandro Pofahl Bíscaro, havia fortes indícios de monopólio no município. A secretaria foi extinta em 2011. As investigações foram transferidas para o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), sem que a representação tivesse resultado.

Hoje, embora tenha fechado lojas no estado, o Grupo Mateus segue crescendo na segunda maior cidade do Maranhão, Imperatriz, onde dois supermercados foram inaugurados somente no primeiro semestre de 2026.

Control C + Control V na legislação do Maranhão

O grupo Mateus também adotou uma estratégia para pressionar outros estados do Nordeste a reduzir o ICMS, conforme explicou o ex-diretor de Relações com Investidores (RI) do grupo, Marcelo Korber em uma entrevista ao programa Conversa Aberta, do portal Genial Investimentos.

“Nos novos estados que a gente vai avançando, a gente já vem tendo sucesso nas negociações que a gente faz. E o estado de Pernambuco foi o primeiro sucesso importante que a gente teve nesse nosso intento de avançar por esses novos estados. Então, lá em Pernambuco, a gente já sabe que a gente tem o governador do Estado e tem a mesma condição de ICMS exatamente igual à do Maranhão”, declarou. Em Pernambuco, são as mesmas condições oferecidas pelo Maranhão – apenas 2% do ICMS.

As negociações foram bem sucedidas também no estado vizinho, o Piauí, e em outros estados do Nordeste. A informação foi confirmada por Korber na entrevista já citada:

“Os estados têm a prerrogativa, lá no Nordeste, de fazer esse Control C e Control V [cópia] na legislação tributária e, claro, com alterações e particularidades aqui e ali do Estado, mas a grosso modo, pra nós, pro negócio, é exatamente a mesma condição”, revelou. “No nosso modelo aqui, nada muda, né? A gente continua em cima do mesmo benefício, com essas inovações já todas dadas e até com possibilidade de novas rodadas acontecerem aí em estados de expansão”, anunciou.

Marcelo Korber foi procurado pela Pública para falar sobre o assunto, mas não quis comentar, informando apenas que está desligado do grupo Mateus desde 2022.

Em Alagoas, a negociação por incentivos fiscais com o governo estadual para abrir mais lojas também esteve no centro de uma polêmica em janeiro deste ano. Para a expansão do investimento, o grupo Mateus reivindicou o mesmo benefício fiscal concedido pelo governo maranhense.

Isso revoltou empresários locais. “Enquanto o empresário alagoano aperta o cinto para manter empregos e segurar preços, grandes redes chegam com incentivos e vantagem competitiva”, publicou Francisco Sales Filho, proprietário de uma rede de supermercados, ex-vereador e vice-presidente da Associação dos Supermercados de Alagoas, em suas redes sociais.

Diante da pressão dos representantes do setor, o governo alagoano recuou.

Em entrevista à Pública, Sales explicou que supermercados de Alagoas não possuem nenhum incentivo fiscal. Ao contrário, tiveram aumento de 17% para 20,5% de ICMS, além de um adicional de 2% no ICMS sobre produtos supérfluos.

Francisco Sales, vice-presidente da Associação de Supermercados de Alagoas, afirma em entrevista que o grupo Mateus é “predador”

“O Mix Mateus é predador e, ao mesmo tempo, tem índole muito duvidosa. Ele é um câncer para o setor produtivo, para quem tem negócio e gera emprego e renda”, afirma.

Francisco Sales acusa o grupo Mateus de “ditar as regras do negócio”. “Além de predador, faz de tudo para se instalar. Aqui em Alagoas existe uma aberração jurídica. O Mix Mateus ocupa um espaço público, um terreno de 500 mil metros quadrados, doado pelo Governo do Estado para a Associação dos Criadores de Alagoas (ACA). Não sei como conseguiu”, reclama.

O Grupo Mateus defende seus benefícios de maneira ferrenha. Em 2017, fechou uma unidade de varejo em Palmas, no Tocantins, quando o governo estadual suspendeu benefícios fiscais em resposta a uma portaria do governo maranhense. 400 pessoas perderam o emprego.

O grupo chegou a divulgar um comunicado sobre o fechamento da loja no Capim Dourado Shopping, justificando: “Essa medida é decorrente de fatores que inviabilizam nossas operações comerciais”. Segundo o grupo, o preço para comercializar produtos vindos do Maranhão tornava o negócio inviável.

A Secretaria da Fazenda do Estado de Tocantins esclareceu que a decisão de fechar a unidade foi exclusivamente do Grupo Mateus, e as alíquotas do ICMS são aplicadas igualmente para todos. 

Benesse fiscal até “pelo menos” 2032

Quase uma década depois, os benefícios fiscais no Maranhão ainda são alvo de questionamentos. Em novembro de 2024, o deputado estadual Yglésio Moyses (PRTB) defendeu, em discurso na tribuna da Assembleia Legislativa do Estado, a necessidade de revisá-los. Ele sugeriu reduzir o benefício do grupo Mateus. “O senhor Ilson Mateus é uma pessoa que eu tenho o maior respeito, pra mim uma das maiores cabeças do Maranhão, mas talvez o incentivo de 2% pra ele já esteja exagerado”, disse.

Entrevistado pela Pública, o deputado afirmou que o grupo empresarial “não é um oligopólio, é um oligopsônio” por controlar o valor de venda e o valor de compra dos produtos.

“Rever benefícios não significa hostilizar o setor privado, mas buscar justiça fiscal e racionalidade no uso dos recursos públicos”, explicou.

“Quando uma empresa atinge elevado grau de consolidação, faturamento bilionário e forte poder de mercado, é razoável questionar se aquele incentivo ainda cumpre sua finalidade original”, alega Yglésio. “Faz sentido manter o mesmo nível de renúncia fiscal para empresas que já operam com alta eficiência, escala e rentabilidade?”

Fontes ouvidas pela reportagem confirmam que o grupo consegue impor o valor de venda e compra dos produtos junto aos fornecedores. Um fornecedor conta que chegou a questionar diretamente o dono da rede – mas confessa que mesmo depois do questionamento, continuou a fornecer seus produtos, por falta de opção.

O Grupo Mateus tem a garantia de redução da carga de imposto até 2032. Isso porque a Lei Complementar 186/2021, aprovada e sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, estabeleceu a prorrogação até 31 de dezembro de 2032 dos incentivos fiscais concedidos pelos estados para empresas. A medida beneficiou setores de comércio atacadista, agropecuária, industrial e infraestrutura.

O ex-diretor de Relações com Investidores Marcelo Korber afirmou, na mesma entrevista ao canal da Genial Investimentos, que o benefício pode se estender para além de 2032. Nas suas palavras, o benefício dura até “pelo menos 2032”. “Se eu não me engano, três anos antes do término em 2032 [vai haver] a rediscussão desses benefícios, pra três anos antes você discutir a possibilidade de renovação ou não de 2032 para frente. Então a gente vê isso hoje com muita tranquilidade ”.

Na época da aprovação da Lei 186/2021, a ABAD (Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados) comemorou. “Demos uma demonstração da força do setor e de sua importância para a economia nacional. Hoje foi um dia de vitória para o comércio atacadista”, postou o presidente Leonardo Miguel Severini, agradecendo às associações estaduais que fizeram lobby junto aos deputados.

O detalhe é que todos os regimes especiais de tributação de ICMS que concedam algum tipo de benefício fiscal precisam ser aprovados pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (CONFAZ), pois a concessão de incentivos de forma unilateral é considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Com a aprovação da lei 186/2021, as vantagens fiscais do Grupo Mateus passaram a ser legais.

Questionado na mesma entrevista à Genial Investimentos sobre como os benefícios impactam o lucro da companhia, Marcelo Korber disse “não ter os números na cabeça”, mas admitiu um “impacto grande” e “difícil de medir”.

Multa de R$ 1 bilhão da Receita Federal

No plano federal, o cálculo dos benefícios do Grupo Mateus foi questionado pela Receita Federal. O grupo foi autuado em mais de R$ 1 bilhão através da marca Armazém Mateus em setembro de 2024, por ter utilizado indevidamente os incentivos estaduais para reduzir o imposto de renda de pessoa jurídica (IRPJ).

A Receita Federal entendeu que houve exclusão indevida de créditos presumidos de ICMS da base de cálculo desses impostos entre 2014 e 2021, para reduzir o pagamento do IRPJ.

Em sua defesa, feita em 7 de setembro de 2024, a empresa alegou que o Armazém Mateus é beneficiário de subvenções (incentivos) de ICMS concedidas pelos estados e que a exclusão da base de cálculo era legal. E informou que o auto de infração ainda está em fase administrativa, mas poderia ser discutido na esfera judicial.

A informação mais recente é que a empresa apresentou defesa e o caso está sob análise em instâncias administrativas. Procurado pela Pública, o Grupo Mateus não se manifestou.

“Máfia da SEFAZ” e absolvição

Muito antes de ter sido beneficiado pela redução do ICMS para 2%, o Ministério Público Estadual já apontava que o Grupo Mateus supostamente buscava evitar pagamento de tributos através do esquema que ficou conhecido como “Máfia da Sefaz”, um dos mais conhecidos escândalos fiscais no Maranhão.

O caso ocorreu durante o último dos governos de Roseana Sarney. Em 2016, a empresa foi citada na denúncia apresentada pela 27ª Promotoria de Justiça de Defesa da Ordem Tributária e Econômica, do Ministério Público do Estado do Maranhão.

O caso tinha envolvimento de servidores da Secretaria de Fazenda do Maranhão (SEFAZ-MA) e, segundo o MP-MA, “envolvia um esquema complexo, revestido de falsa legalidade” em um “modus operandi da organização criminosa”. O esquema teria funcionado de 2009 a 2014.

A operação consistia em acordos judiciais que reconheciam a possibilidade de compensação às empresas pelos débitos tributários (ICMS) com créditos não tributários (oriundos de precatórios ou outros mecanismos). Assim, o governo do estado reconhecia e autorizava créditos tributários compensáveis, funcionando como “moeda” para reduzir o passivo tributário das empresas.

Mas, segundo o Ministério Público, os servidores implantaram um filtro no software da SEFAZ para mascarar compensações realizadas muito acima dos valores estabelecidos por acordos judiciais. Além disso, eles faziam a reativação de parcelamentos de débitos de empresas, que nunca pagavam as suas dívidas, e realizavam a exclusão indevida de autos de infração do banco de dados.

A Promotoria de Defesa da Ordem Tributária classificou como “manobra” os acordos firmados para antecipar pagamentos dos créditos das empresas, denominadas “amigas daqueles que ocupavam os cargos públicos de comando do Estado do Maranhão”. “Em regra, os estados possuem muitas demandas e recursos limitados, não lhes interessando efetuar o adiantamento de pagamento de qualquer dívida antes do prazo imposto pelo Poder Judiciário, respeitada a ordem dos precatórios”, alertava o promotor.

Entre os acordos judiciais vantajosos, feitos pela Procuradoria-Geral do Estado durante o governo de Roseana Sarney, o grupo Mateus foi beneficiado por dois, um com o Mateus Supermercados S/A e outro com o Armazém Mateus S/A, totalizando a quantia de R$ 154 milhões em impostos devolvidos.

Na Ação de Improbidade Administrativa, o MP destacou que era “um processo escandaloso, porque criminoso, de sangramento dos recursos públicos do Estado do Maranhão, sob a proteção de um órgão que deveria defendê-lo”. A soma dos acordos alcançava “a não desprezível cifra” de R$ 196 milhões. Ou seja, a vasta maioria foi destinada a empresas do Grupo Mateus.

O MP sublinhava: “Sem contar valores ainda reivindicados pelo Grupo Mateus e que, somados aos já pagos, fazem com que os valores negociados para atender a supostos interesses do Estado do Maranhão e que, em tese, seriam mais benéficos ultrapassassem, e muito, estratosféricos R$ 200.000.000,00 (duzentos milhões de reais)”.

Após longo processo com diversos recursos, pedidos de habeas corpus no Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para trancamento da Ação Penal, em janeiro deste ano o juiz Itaércio Paulino da Silva, titular da 3ª Vara da Fazenda Pública de São Luís, do Tribunal de Justiça do Maranhão, absolveu, por falta de provas, todos os os acusados, incluindo o ex-secretário da Fazenda do Maranhão, Cláudio Trinchão, e os demais servidores. O gabinete do juiz negou entrevista à Pública sobre o assunto.

É assim que, em 2026, embora passe por reestruturação e demissões, o Grupo Mateus segue com planos de expansão: acaba de entrar no ramo farmacêutico com a loja Mix Toureiro Farma, já pronta no bairro do João Paulo, em São Luís.

Ilson Mateus insiste em agradecer a Deus pelos negócios. No dia 8 de maio, durante a inauguração da terceira unidade do Mix Mateus em Imperatriz (MA), questionado sobre o segredo para crescer tanto, respondeu: “Nós temos que ter fé em Deus, ser temente a Ele porque é Ele que sabe”. E prossegue: “E o trabalho, né? A gente tem trabalhado sério. O que a gente faz é simplesmente o arroz com feijão”.

A reportagem tentou, insistentemente, ouvir o Grupo Mateus, sem êxito. Em uma das tentativas de entrevistar o próprio fundador, a CEO da Cores Comunicação, Juliana Silveira, que assessora o grupo, afirmou: “Me perdoe, mas não vai ser possível, seu Ilson não está mais com agenda aberta para entrevistas”.

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