Caso Nike: Armando Mendonça, vice do Corinthians, é denunciado pelo MP-SP

Por Tiago Salazar

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) ofereceu peça acusatória à Justiça contra Armando Mendonça, vice-presidente do Corinthians, na noite desta quarta-feira. O dirigente foi denunciado pelos crimes de tentativa e apropriação indébita agravada continuada, furto qualificado pelo abuso de confiança e coação no curso do processo no caso que investiga possíveis irregularidades na distribuição de materiais esportivos fornecidos pela Nike.

No documento, ao qual a reportagem teve acesso, o promotor Cássio Roberto Conserino baseia a denúncia não só no inquérito policial, que concluiu não ter ocorrido crime no caso, mas também na auditoria interna conduzida pelo próprio Corinthians por meio do departamento de tecnologia do clube e de oitivas colhidas por ele mesmo. O MP-SP, portanto, divergiu da análise feita pela Polícia Civil.

Armando Mendonça foi um dos principais alvos da auditoria interna realizada pelo Corinthians, que identificou supostas irregularidades na distribuição dos materiais da Nike. O documento dizia que Armando, apontado como pessoa responsável pela gestão dos materiais desde maio deste ano, teria retirado 131 itens adicionais, que não estariam incluídos na cota de “camisas para relacionamento da diretoria” em dias de jogos. De acordo com o relatório, entre seis e 11 camisas extras da equipe foram solicitadas em nome da rouparia, por partida, para tal finalidade. Este foi o motivo que culminou na denúncia pelo crime de apropriação indébita agravada por parte do MP.

(Foto: Reprodução/Instagram @armandoadv)

Outro trecho do documento pontuou que Armando Mendonça teria tentado subtrair 19 uniformes remanescentes que continham o patch comemorativo da NFL, o que levou à denúncia por tentativa de apropriação indébita agravada. A promotoria também ofereceu denúncia por furto qualificado de abuso de confiança, uma vez que ele,”na qualidade de vice-presidente, mediante abuso de confiança, subtraiu para si, coisa alheia móvel, consistente em 8 camisas da NFL”.

Em outra parte do relatório, Marcelo Munhoes, ex-chefe de TI do Timão e um dos relatores do documento, alegou que Armando teria demonstrado “preocupação” com os rumos da auditoria. O funcionário relata que, em uma conversa entre eles, o diálogo teria assumido “caráter mais incisivo, com expressões de natureza agressiva e alusões interpretadas como ameaças”. Além disso, o diretor de tecnologia do Corinthians acusou Mendonça de ter interrompido uma reunião do clube com representantes da Nike, causando constrangimento. Tal trecho gerou denúncia por coação no curso do processo.

MP-SP pede medidas cautelares

O Ministério Público de São Paulo também pediu a adoção de medidas cautelares contra Armando Mendonça, entre as quais estão:

O MP-SP também alerta para um possível caso de adoção de medidas cautelares mais rígidas, como a prisão preventiva, caso Armando Mendonça tente intimidar testemunhas ou pessoas envolvidas no caso novamente.

As testemunhas citadas na denúncia da promotoria constam como Romeu Tuma Júnior, presidente licenciado do Conselho Deliberativo; Marcelo Munhoes, ex-chefe de TI do Corinthians e um dos responsáveis pela auditoria interna; Reginaldo Prados do Nascimento, coautor do relatório; Fábio Soares Souza, ex-diretor administrativo do Corinthians;Corinto Baldoíno Parreira e Costa, conselheiro; Francisco Godoy Silva e Leandro Jorge Ribeiro, almoxarifes; Rodrigo Fernandes Garrote, ex-representante da Nike; e Rafael Josimo da Silva Salomão, ex-gerente administrativo do clube.

Por fim, a denúncia ainda pede que o Corinthians seja indenizado em R$ 100 mil por “danos materiais no importe dos valores de mercado dos bens apropriados que serão calculados no decorrer da instrução criminal e indenização”, sob a alegação de que os fatos teriam causado prejuízo à imagem e à reputação do Timão.

A Gazeta Esportiva tentou contato com a assessoria de Armando Mendonça, mas ainda não recebeu retorno. Caso aconteça, esta matéria será atualizada.

Próximos passos

Agora, o caso está nas mãos da Justiça, que será responsável por decidir se irá acatar ou não a denúncia apresentada pelo MP-SP. Em caso de aceite, Armando Mendonça se tornará réu, dando início ao processo penal. Por outro lado, se a peça acusatória for rejeitada, o caso é encerrado.

Relembre o caso

Em novembro do ano passado, o Corinthians promoveu uma auditoria interna e identificou possíveis irregularidades na distribuição de materiais esportivos fornecidos pela Nike. A instauração da sindicância foi um pedido da diretoria liderada pelo presidente Osmar Stabile, que recebeu o material em mãos nos últimos dias.

O relatório engloba a diretoria do presidente destituído Augusto Melo e também a gestão de Stabile. A auditoria interna foi realizada com base em seis procedimentos distintos: organograma de responsabilidades, levantamento de informações, entrevistas, análise de documentos, testes amostrais e inspeções físicas.

O documento mostrou uma série de irregularidades constatadas na gestão dos materiais esportivos fornecidos ao clube. A equipe responsável pelo relatório identificou não só um aumento elevado no número de itens retirados em comparação com 2024, mas também constatou materiais em condições precárias de uso, assim como almoxarifados com má higiene. Houve, ainda, a identificação de um possível comércio irregular de produtos pertencentes ao clube, por parte, supostamente, de funcionários do próprio Corinthians.

Em 2025, por exemplo, o Corinthians recebeu 41.963 itens da Nike – total contabilizado até o último dia 10 de outubro. Este número representa um aumento de 24% em relação ao apresentado em 2024, que foi de 33.902 itens. Dentro deste período, o valor do montante soma R$ 23.772.090,37 – o que ultrapassa o valor de R$ 4 milhões relativos à “cota anual não cobrável” combinado com a fornecedora de material esportivo.

Destes 41.963 materiais recebidos pelo clube, 64% (26.730 itens) foram destinados ao almoxarifado do Parque São Jorge, que fornece itens para modalidades como futebol feminino, futsal e basquete. O almoxarifado do CT Dr. Joaquim Grava, vale lembrar, é reservado para elenco profissional e diretoria.

Principal alvo da auditoria interna, Armando Mendonça concedeu uma longa entrevista após a divulgação do caso e negou que tenha cometido desvio de materiais do clube. O dirigente acredita que pode estar sendo alvo de manobras políticas e apontou falhas no relatório elaborado pelo clube, o qual ele classifica como “enviesado”.

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