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Cristália: laboratório da polilaminina vendeu cloroquina e fez fortuna sob Bolsonaro

por Redação Capital Brasília
5 de março de 2026
em Brasil, Política
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O laboratório Cristália expandiu os negócios vendendo medicamentos usados no tratamento da covid, que incluiu a cloroquina, durante o governo Jair Bolsonaro – que propagandeava o remédio ineficaz contra o coronavírus. A empresa é a responsável pela produção da polilaminina, substância em fase de testes que se popularizou pela promessa de ajudar a restaurar os movimentos em pessoas com lesão na medula. 

Apesar de ser uma fornecedora antiga do Sistema Único de Saúde (SUS), as vendas da Cristália ao governo federal aumentaram 68% naquele período – passando de R$ 849,4 milhões entre 2015 e 2018 para R$ 1,4 bilhão entre 2019 e 2022, segundo dados do governo. A própria empresa divulgou que seu faturamento total foi de R$ 3 bilhões em 2020, primeiro ano da pandemia, com a produção de anestésicos e dos medicamentos para tratamento da covid.

Foi durante essa bonança, em 2021, que a Cristália se tornou co-proprietária da polilaminina junto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atua a pesquisadora Tatiana Sampaio, a “mãe” da substância. A empresa afirma que já investiu R$ 100 milhões para produzir e comercializar o medicamento. Também solicitou as patentes nacional e internacional, que estavam em vias de serem perdidas pela UFRJ.

Hoje, o fundador da Cristália, Ogari Pacheco, afirma que foi contra o uso do “tal kit para covid” e que nunca defendeu isso. Mas, quando contraiu a doença – e chegou a ser internado –, fez uso de cloroquina, da qual é fabricante, segundo O Estado de São Paulo.

A Cristália foi um dos laboratórios credenciados pelo Ministério da Saúde para vender cloroquina ao SUS durante a pandemia. Um ofício de abril de 2020 assinado por Antonio Barra Torres, ex-diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), aponta que a empresa dispunha de 377 mil comprimidos de difosfato de cloroquina em estoque e previsão de liberação de mais 1,3 milhão de comprimidos em 15 dias.

Por que isso importa?

  • A polilaminina está sendo liberada em alguns pacientes via decisão judicial no país. Pelo menos 55 pedidos na Justiça foram aprovados.
  • Associações médicas e entidades científicas têm se manifestado pedindo cautela no uso da substância antes da finalização dos testes.

Em nota, a empresa afirma que, durante a pandemia, também foi fornecedora do chamado “kit-intubação”, conjunto de sedativos, analgésicos e bloqueadores neuromusculares usados em pacientes graves que precisam de ventilação mecânica em UTIs. Segundo o laboratório, dos 30 medicamentos desse conjunto, 24 são produzidos pela companhia. A Cristália afirma que o kit-intubação foi o principal motivo do impacto no faturamento, mas não detalhou valores.

Na época, contrariando a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Cristália foi uma das únicas fabricantes de cloroquina a não explicitar que o remédio não era recomendado para a covid. A empresa limitou-se a informar que “qualquer recomendação fora das especificadas na bula deve ser feita sob responsabilidade do médico, como ocorre com qualquer medicamento”. A outra exceção foi o Laboratório do Exército, que produziu o medicamento à pedido do governo. 

Agora, a resposta mudou. A empresa disse, em nota, que a cloroquina é utilizada “no tratamento de ataques agudos de malária, artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico. Nunca fornecemos o medicamento para tratamento de covid-19 ou qualquer outra doença que não esteja descrita na bula”. Acesse a íntegra da nota.

A cloroquina fazia parte do chamado “tratamento precoce” defendido pela administração Bolsonaro, que só no primeiro ano da pandemia chegou a gastar R$ 90 milhões com esses medicamentos, antes mesmo de investir nas vacinas produzidas pelo Instituto Butantã.

Pacheco tem histórico ligado ao bolsonarismo. Em 2018, ele foi eleito pelo DEM como 2º suplente do senador Eduardo Gomes (PL-TO), então líder do governo Bolsonaro no Senado. O empresário chegou a assumir a cadeira por quatro meses em 2022.

Naquele pleito, foi um dos candidatos mais ricos do Brasil, com patrimônio declarado de R$ 407 milhões. Ele e outros executivos da Cristália doaram R$ 2,1 milhões para a campanha de Gomes, o que representa quase 90% do que ele arrecadou, segundo a Repórter Brasil. Ao veículo, ele disse que, apesar de ser suplente, teria um “sub-gabinete” junto à equipe de Gomes e seria responsável pelas questões ligadas à saúde. Segundo a empresa, naquele período Pacheco se afastou do laboratório e “se dedicou, no Senado, à formulação do projeto para a criação do Complexo Industrial da Saúde do país”.

Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, o ex-presidente agraciou o aliado com uma visita à inauguração de uma planta da Cristália em Itapira, interior de São Paulo. E não poupou elogios a ele: “o espírito do Pacheco nos faz rejuvenescer, nos faz mais crente, mais objetivo e mais lutador”, disse Bolsonaro na ocasião.

“É uma satisfação estar aqui. Há poucas semanas, adentrou meu gabinete o senhor Pacheco e o senador Eduardo Gomes, do Tocantins, e me fizeram esse convite. A minha agenda realmente é complicada, mas tínhamos um evento em São Paulo, e eu aproveitei para voltar um pouquinho para esse meu querido interior de São Paulo”, continuou.

Apesar da proximidade com nomes da direita, Pacheco e sua empresa também têm trânsito com outras legendas. Executivos da companhia já fizeram doações a partidos como PT, PSDB e DEM. A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) também já esteve em um evento da Cristália, em 2013, quando chamou Pacheco de “um brasileiro valoroso”, que “sempre acreditou em nosso país”. No ano passado, o empresário foi recebido pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A empresa afirma que a visita de autoridades faz parte de eventos institucionais comuns e que diferentes presidentes e governadores já estiveram em suas instalações nas últimas décadas.

Polilaminina: a nova aposta

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Pacheco pode até negar o seu passado “cloroquiner”. Mas agora investe todas as fichas na polilaminina – que, apesar dos indícios promissores, ainda está em fase inicial de testes e não se sabe qual será a sua eficácia em humanos. “Agora, com a polilaminina, teremos a maior descoberta da ciência em décadas. Os benefícios são de tamanha ordem que, assim que a droga estiver disponível à população, terei cumprido minha missão na Terra”, afirmou o empresário à IstoÉ Dinheiro.

A expectativa com o medicamento é tão alta que a Cristália está comprando uma nova unidade fabril em Jaguariúna (SP) para dar conta da possível demanda. “O laboratório Cristália está trabalhando para que a polilaminina esteja disponível de maneira democrática para todos os pacientes, incluindo os crônicos, o quanto antes. Os resultados dos testes em andamento guiarão o caminho para essa disponibilização”, disse a empresa em um comunicado.

No programa Roda Viva, Tatiana Sampaio disse que a Cristália é responsável pela produção e comercialização do medicamento, que a empresa não interferiu em seu trabalho, e que a intenção de Pacheco seria vender a polilaminina ao SUS.

No início deste ano, o Ministério da Saúde e a Anvisa anunciaram o início do estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança do uso da substância. Os testes serão realizados em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, até 72 horas após sofrerem lesões entre as vértebras T2 e T10 da medula espinhal. Ainda haverá novas etapas e não há previsão de conclusão.

Sampaio se tornou uma celebridade após os resultados iniciais de sua pesquisa, desenvolvida por quase 30 anos, viralizarem nas redes sociais. Elogiada tanto pela esquerda como pela direita, ela foi recebida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que pediu prioridade para a pesquisa pelo Ministério da Saúde. 

A pesquisadora também recebeu elogios do provável opositor de Lula na disputa eleitoral de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Flávio deu ênfase ao formato da proteína – que se parece com uma cruz – e disse que seu governo iria investir em “ciência de verdade”.

Tanta euforia fez com que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) emitissem um editorial conjunto pedindo “cautela” sobre a polilaminina. O conteúdo alerta que a substância ainda está sendo estudada e precisa cumprir os ritos científicos de segurança. Também recomendam que se evite judicialização ou exposição midiática prematura.

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