Multiplicam-se, a cada dia, os discípulos de Caio Castro, ator global que disse à imprensa, em mais de uma oportunidade, que não gastaria um centavo além da sua parte ao sair com mulheres. Por outro lado, há moças cuja condição para um date com um homem é não pagar absolutamente nada. Quando os astros se alinham e esses dois tipinhos necessitados de um Pix vão jantar, a cena é feia — mas de dar gosto, porque raramente se vê uma combinação tão perfeita.
No Instagram, a influenciadora Nayara Campos publica áudios de discípulos da seita pão-dura de Castro em ação – homens que fazem o impossível para não investir uma moedinha para sair com uma mulher. Também ali há flagrantes de moças que acreditam que o ato de prover é uma obrigação masculina. Seria coisa de otária pagar ou mesmo dividir uma conta, ainda que a mulher tenha recursos próprios. A condição para que um homem acesse as suas intimidades começaria, sempre, por um investimento em dinheiro.
Embora esses modos definam com precisão a práxis profissional das trabalhadoras sexuais, as mulheres orientadas pelo pensamento acima consideram uma grande ofensa quem as compara às prostitutas. Mas isso é outra discussão, até porque, para esta pobre cronista, vender o cérebro para encher esta página não é mais digno do que negociar outra parte do corpo. A questão aqui é outra: por que, em 2026, acredita-se que um lado deve prover e o outro esperar almoço grátis?
Não trarei novidades. Mulheres caminham lado a lado com a pobreza porque representam quase a totalidade da massa que realiza o chamado “trabalho invisível” (o doméstico, o da criação de filhos e o do cuidado de outras pessoas), que não é remunerado, nem com gratidão. Dissoluções matrimoniais são mais injustas para as mulheres, sobretudo na divisão de bens e, estatisticamente, a mulher que exerce o mesmo ofício que um homem ganha bem menos do que ele. Os cargos de chefia, fontes dos melhores salários, são dificilmente destinados a elas. Seria a conta de um jantar o raro ponto de reparação de uma injustiça social antiga? Fica a dúvida sincera.
É claro que os caras não veem as coisas sob esta ótica, pelo contrário. Ao entender que dinheiro é o passaporte para que a mulher aceite um convite seu, o homem médio comporta-se como se estivesse em uma relação de consumo. A mulher, para ele, vira mercadoria. Se bobear, vão acionar o Procon para uma denúncia caso haja “avarias no serviço adquirido”. O problema é quando este ato é vendido como uma demonstração de gentileza, mas, no fundo, disfarça o objetivo exclusivo de levá-las para a cama. Compram-lhes um pastel com caldo de cana por R$10 e, quando o enlace não se desenrola até o leito, acontece o inacreditável.
“Você pode devolver os R$ 8,80 do cachorro-quente de ontem? É que, como não rolou nada entre a gente, ficou pesado para ‘mim’ pagar pelos dois lanches que você comeu”, diz, mais ou menos, nestas palavras, um dos conteúdos do perfil de Instagram já mencionado.
Ninguém ficará mais rico se for restituído do valor de uma empadinha. Homens só podem cometer esta indelicadeza com o intuito de humilhar, porque o atavicamente furado bolso feminino, nas entrelinhas e noves fora da vida, muitas vezes é entrave para que elas desfrutem dos mesmos prazeres capitalistas que os homens, como degustar um simples lanche na feira.
Por isso, não se deve atribuir à ganância feminina o que pode ser explicado pela miséria. Enquanto elas contam moedinhas numa divisão injusta e solitária, geralmente com filhos que amargam pensões insuficientes ou que nem existem, é normal que homens tenham tanto dinheiro a sobrar que, por exemplo, escolham pagar por sexo em vez de fazer qualquer esforço para conquistá-lo.
Imagina alguém decidir gastar dinheiro para alimentar outro ser humano, desde que este prometa coito ao final da refeição? Por que alguns cabras são capazes de pagar uma média com pão para um desconhecido que pede esmola na rua, mas, quando é para dengar uma mulher que é nada menos que o alvo de seu desejo, não estão dispostos a bancar um mero tabletinho de paçoca?
Em um texto chamado “O boy satanista” (está destacado no topo do meu Instagram, facinho de encontrar), eu conto como, depois de um encontro, recebi a fatura pelas três cervejas que um sacripanta me ofereceu após tentar telepatia com Lúcifer, na minha frente. Por meio de uma mensagem de texto desprezível, fui punida por recusar um convite expresso para conhecer os seus “12 centímetros de puro prazer”, nas palavras surpreendentemente orgulhosas dele. Registre-se, embora não justifique nada, que eu havia beijado os lábios de enxofre do filho do Sete Peles e que aquele era apenas o nosso primeiro encontro. Com engulhos, paguei a cobrança. Não preciso dizer que nunca mais encontrei aquele coração satânico.
Jamais esquecerei do primeiro cara da internet com quem eu decidi me encontrar e que achou que eu estava à venda. Ele era um fotógrafo sete anos mais velho e eu, uma presa fácil. Há 20 anos, encontros assim, gestados no famigerado bate-papo do Uol, eram infinitamente menos corriqueiros. Tudo da esfera virtual era considerado perigoso. Foram meses de preparação até a data marcada.
Ele me buscou em casa depois de ser delicadamente informado de que teria que pagar por tudo, caso saíssemos juntos. O motivo era compreensível e assaz nobre: eu era uma estudante colegial, menor de idade, que ainda não tinha sequer uma anotação na carteira profissional. “Imagina se eu deixasse você pagar, ainda que trabalhasse!”, disparou ele.
Fomos ao restaurante Aconchego da Zuzu, no fim da linha do Garcia, bairro tradicional do centro de Salvador, e curtimos o show do grupo Gente do Choro enquanto beliscávamos delícias e bebíamos cerveja. Os músicos encerraram a apresentação com “André de sapato novo”, clássico de André Victor Corrêa, e, quando chegou a hora de pagar, não houve constrangimentos: o homem passou o cartão na máquina e zarpamos, alegres e ébrios. Ao parar à porta do meu prédio, ele transforma o clima com uma pergunta:
— Eu paguei por todo o jantar, te busquei e te trouxe para casa; não tenho direito a um beijinho?
Meu humilhado “não” precedeu um apressado puxar da alavanca da porta do carona para me libertar. No mesmo milésimo de segundo em que pus os dois pés na calçada, o idiota acelerou o seu Corsa vermelho e sumiu com os pneus a berrar. Foi uma lição e tanto.
Por anos, eu não permiti que homens com a mínima chance de adentrarem a minha esfera afetiva (ou amigos tangendo-a) pagassem o que quer que fosse para mim. Eu sabia que a maioria só faz isso se tiver a remota chance de chegar aos finalmentes, e eu não queria ser perseguida por essa cobrança nunca mais.
O cão é quem ficaria devendo para esses animais, não eu.
Mas assim como há mulheres que não exigem recompensa financeira em troca de suas companhias, existem homens que não enxergam uma etiqueta de preço imaginária acoplada aos corpos femininos.
Lembro de como era tarde quando chamei Roberto para me buscar e ficar deitadinho comigo de costela colada. Ao chegar em sua casa, entretanto, fui tomada por uma súbita vontade de dormir e apaguei no seu sofá. Quando acordo, às duas da manhã, é apenas para gemer que estava morrendo de fome e para dormir novamente. Ao despertar, o cara havia preparado um delicioso jantar para mim.
O natural dos nossos encontros era terminarmos marcadinhos pelos lençois, mas ele me perguntou o que eu queria fazer, como se o nosso roteiro usual fosse uma página em branco. Algo constrangida, eu confessei que queria ir para casa. Sem um rasgo de muxoxo, o homem dirigiu por 45 minutos até o meu lar, sem nem me tocar. Espantada com esse hadouken de candura, tive que escrever-lhe no dia seguinte para agradecer. Por me deixar dormir. Por me alimentar. Por não condicionar nada ao sexo. O homem me respondeu: “Oxe! Para já com isso. Eu fiz o que qualquer um faria.”
Não, Roberto. Não fez.
Homens: cresçam e parem de dar ouvidos a calvos que bebem Campari e a redpills que não gostam de mulheres. Quem tem a possibilidade de pagar algo a quem não pode, seja homem ou mulher, nunca deve deixar de fazê-lo. O que deveríamos fazer pelos amigos e amores quando temos mais dinheiro do que eles é prover delícias e conforto. O resto é bobagem, intriga, ruindade e mesquinharia. Se achar injusto o “investimento”, lembre-se dos 20% a mais que ganha, em média, de salário só por ser homem (dados do IBGE do ano passado).
Mulheres, por favor, amem tanto o dinheiro que tenham o seu próprio. Mirem em todas as formas de inserção econômica, como a excelência profissional e o desprezo ao casamento tradicional e à corrida pela procriação com embustes que vão transformar o seu futuro em intermináveis dias de paupéria. Como disse uma vez a cantora norte-americana Lady Gaga, invista em sua carreira, porque ela não vai acordar, um dia, e te dar um pé na bunda. E, a menos que queiram assumir a digníssima profissão mais antiga do mundo, não deixem que o seu valor seja medido por uma refeição grátis, companheiras. Sempre troquem a lagosta indigesta do patriarcado pelo miojo Turma da Mônica, sabor tomate, da solidão com liberdade.
