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Com já quase três semanas, a guerra iniciada por Estados Unidos e Israel no Irã já causa, de acordo com a Agência Internacional de Energia, a maior interrupção da história no fornecimento do mercado global de petróleo e isso leva a uma questão incontornável: para onde esse conflito pode nos levar, energeticamente falando?
Vamos continuar nos agarrando à ideia de que a saída é buscar novas fontes de combustíveis fósseis e nos segurar até a última gota de petróleo ou pedra de carvão? Ou assumir a transição energética tanto como uma necessidade climática, mas também de segurança energética?
Já falei um pouco disso na coluna da semana passada e também em uma análise que publiquei logo após o início do conflito, mas volto ao assunto porque essa discussão tem se tornado cada vez mais urgente diante do agravamento da crise. E, certamente, ela não tem nem uma resposta fácil de dar, tampouco é algo que pode ser rapidamente adotado.
Também retomo ao tema como um convite para que o caro leitor, a cara leitora mergulhe comigo, com a Marina Amaral e com o Ricardo Terto nesse debate ouvindo nosso episódio de reestreia do podcast Bom Dia, Fim do Mundo, que volta ao ar nesta quinta-feira, 19 de março.
A gente discute os impactos da guerra no cenário da produção e consumo de energia no mundo e também as consequências políticas que o aumento no preço dos combustíveis pode trazer para os Estados Unidos e para o Brasil nas eleições deste ano.
Quem trabalha com a crise climática torce para que isso funcione com um “wake up call”, um chamado para que o mundo realmente se vire pra transição energética tão necessária pra conter o aquecimento global.
O secretário-executivo da Convenção do Clima da ONU, o Simon Stiell, rapidamente afirmou que “a crise demonstra, mais uma vez, que a dependência de combustíveis fósseis deixa as economias, as empresas, os mercados e as pessoas à mercê de cada novo conflito”. E disse que investir em energia renovável é “o caminho óbvio para a segurança energética”.
E segurança energética, obviamente, vai além da questão climática. Os defensores de combustíveis fósseis, como a gente vê bastante no Brasil entre quem milita a favor do gás natural, sempre se valeram do argumento que são essas as fontes seguras – em oposição à intermitência das fontes solar e eólica.
Mas se 20% do mercado global é proveniente de fornecedores que precisam atravessar um estreito de 34 km, como é o caso de Ormuz, sob controle do Irã? E se esse produto é usado como arma de guerra, essa segurança é favas contadas.
De modo que é possível, sim, que ocorra um investimento maior em turbinas de eólicas, em painéis solares, e principalmente em baterias para armazenar essa energia e aumentar a segurança dessas fontes. Mas o que a gente está vendo em um primeiro momento é o oposto disso.
Como falamos no programa, usinas de carvão estão sendo reativadas ou colocadas a pleno vapor em vários países, e os produtores de gás natural liquefeito dos Estados Unidos já estão de olho nos mercados que ficaram desabastecidos sem os combustíveis do Oriente Médio.
Isso me fez lembrar como foi a resposta que o mundo deu quando tivemos as primeiras crises do petróleo, nos anos 1970.
No fim daquela década, cientistas já estavam alertando para o aumento preocupante da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, provenientes justamente da queima acelerada de combustíveis fósseis. Em 20 anos, entre 1958 e 1977, ela tinha subido 10%. A constatação vinha quase na mesma época em que os Estados Unidos enfrentavam uma onda de calor surreal e uma crise de abastecimento de combustíveis.
O então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter (que governou o país de 1977 a 1981) chegou a fazer um pronunciamento à população, “uma conversa desagradável”, como ele chamou, vinculando as duas coisas. “O nosso problema energético tem a mesma causa que o nosso problema ambiental: o uso excessivo de recursos. Preservá-los ajudará a resolver os dois problemas”, disse em rede nacional.
“Conservar energia deve ser um estilo de vida”, disse em outra ocasião. Ele não apenas estava pedindo para as pessoas economizarem no consumo de combustíveis, mas também tentava sensibilizá-las para a complexidade do problema. Logo depois Carter começou a se empolgar com as renováveis, prometendo que, até o fim daquele século, 20% da energia usada pelo país viria do Sol.
Esse momento é retratado em um documentário lançado no ano passado, O Efeito Casa Branca. De acordo com o filme, num primeiro momento a população chegou a demonstrar apoio ao apelo do presidente, mas o consumo continuou subindo, assim como a dependência de importá-lo. E aí veio uma segunda crise.
Entre 1973 e 1974, os Estados Unidos já tinham sofrido com um embargo dos países árabes, que deixaram de exportar petróleo em retaliação ao apoio dos americanos a Israel na guerra de Yom Kippur. Em 1979, com a Revolução Iraniana, que derrubou o regime que era apoiado pela Casa Branca, o país, até então também um grande fornecedor de petróleo, também deixou de vendê-lo aos EUA.
O documentário mostra imagens de filas quilométricas e a população enfurecida com a falta de combustível. Se alguém antes achava que ficar uns dias sem carro talvez não fosse uma má ideia, naquele momento, forçados a empurrar seus carros pelas ruas, o desespero falou mais alto. Daí para frente o documentário desenha como o lucro das companhias de petróleo e o negacionismo climático falaram mais alto, fazendo com que os EUA basicamente desistissem de lidar com o problema.
No Brasil, a reação foi bem diferente. Quando a primeira crise do petróleo se instalou, em 1973, o país procurou um outro caminho. Em 1975, foi criado o Proálcool, que investiu no desenvolvimento do etanol de cana de açúcar. Entre vai-e-vens da economia, pode-se dizer que a alternativa se consolidou, mas não virou a opção número 1. Menos da metade dos veículos do país abastece com etanol.
Por outro lado, o Brasil não tirou da cabeça a ideia do “petróleo é nosso” e se embrenhou na busca por ter autonomia energética, investindo na descoberta de novas fontes, como o pré-sal. Mas isso também não nos garante segurança, uma vez que o preço é vinculado às flutuações do mercado global.
Nesta quinta, enquanto escrevo, o barril Brent, referência internacional para o petróleo bruto, bateu US$ 115, com a piora do conflito.
É um quadro que antecipa aumento da inflação e uma consequente crise econômica mundial, que pode levar a um aumento da fome e, portanto, a mais crises humanitárias, além de, possivelmente, a um aumento de conflitos por recursos. E isso tudo é receita para a deterioração da democracia. Ou seja, não dá mais para confiar nos combustíveis fósseis nem como segurança energética, nem econômica e, muito menos, para a paz.