Semanas antes de ordenar a invasão militar à Venezuela, bombardeando as ruas de Caracas, que pode ter matado até 80 pessoas, Donald Trump já mostrava que não pretende poupar esforços para interferir na política latino-americana em 2026.
Interferências norte-americanas na América Latina
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Argentina – outubro de 2025
Apoio econômico de Trump é decisivo para garantir maioria nas eleições legislativas ao partido de Milei, seu aliado.
Honduras – novembro e dezembro de 2025
Nas eleições presidenciais, Trump apoia o candidato conservador de oposição que, após discussões jurídicas, é declarado eleito, 24 dias após o pleito, por autoridades locais.
Venezuela – janeiro de 2026
EUA invade militarmente Caracas e captura o presidente Nicolás Maduro, que será julgado em solo norte-americano, por narcoterrorismo.
Colômbia – janeiro de 2026
Dois dias após a invasão da Venezuela, Trump afirma em entrevista que ação militar contra o presidente Gustavo Petro “lhe soa bem”.
Cuba – janeiro de 2026
O país caribenho também foi alvo do presidente dos Estados Unidos, que afirmou que o governo em Havana “está pronto para cair”.
Eleições na América Latina
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Costa Rica – fevereiro de 2026
Eleições presidenciais podem ter segundo turno, marcado para abril.
Peru – abril
O país escolhe seus representantes legislativos e o presidente. No caso de um segundo turno, ele acontece em junho.
Colômbia – maio de 2026
Início do processo eleitoral que vai escolher o novo presidente do país. A posse está planejada para ocorrer em agosto.
Haiti – agosto de 2026
As eleições serão gerais e um possível segundo turno presidencial ocorre em dezembro
Brasil – outubro de 2026
Últimas eleições presidenciais na região, ocorrem paralelamente ao pleito legislativo e dos executivos estaduais.
Após condicionar o apoio econômico à Argentina a um voto em aliados de Javier Milei nas eleições legislativas de outubro, o plano ficou ainda mais claro no final de 2025, durante um processo eleitoral pouco comentado no Brasil: as eleições presidenciais em Honduras. Marcado por uma lenta contagem de votos e acusações de golpe e fraude, o pleito – realizado em turno único, em 30 de novembro – se arrastou por semanas, mas acabou ganhando manchetes por outra razão: a flagrante ingerência da Casa Branca.
Para intimidar eleitores do país centro-americano, Donald Trump usou as redes sociais para prestar apoio público ao candidato de direita Nasry “Tito” Asfura – que, após reviravoltas, acabaria sendo declarado presidente eleito pelas autoridades locais 24 dias após a eleição, em plena véspera de Natal. No embalo do aceno trumpista, a conturbada vitória de Asfura (bastante celebrada pelo alto escalão em Washington) também significa o fim do governo socialista de Xiomara Castro, que deve passar a faixa para o sucessor no final de janeiro. Em dezembro, apoiadores de Castro foram às ruas para protestar contra o envolvimento dos EUA no ciclo eleitoral.
As tentativas de Washington de interferir nessa eleição não se limitaram, no entanto, a uma postagem na internet. De olho em dar um recado ainda mais contundente à região, Donald Trump concedeu um indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que governou o país entre 2014 e 2022. Do mesmo partido de Asfura, e também de direita, ele foi condenado em 2024 a 45 anos de prisão por levar toneladas de cocaína aos EUA.
Dois pesos, duas medidas
Trump perdoa aliados de direita já condenados pelos mesmos crimes que diz combater na Venezuela. Enquanto a Casa Branca se escora em acusações arbitrárias, baseadas em medidas antinarcotráfico determinadas por seu próprio governo para executar civis em embarcações no Caribe, a Procuradoria-geral dos EUA anuncia que Maduro será julgado por narcoterrorismo, entre outros crimes.
No sábado, 3 de janeiro, o líder republicano voltou a defender Hernández, mostrando que sua gestão não vê qualquer problema em definir os próprios critérios para chutar o tabuleiro político do continente ao sabor de seus interesses.
Contra Maduro, a invenção de narrativas também ficou explícita. Após sua captura, o Departamento de Justiça dos EUA retirou da denúncia contra o venezuelano a acusação de que ele seria o líder de um suposto grupo criminoso, o “Cartel de Los Soles” – cuja existência os trumpistas não conseguiram provar. Mesmo assim, Nicolás Maduro será processado por narcotráfico.
Por que isso importa?
- Em 2026, cinco países da América Latina escolherão seus presidentes e o governo de Donald Trump já demonstrou que tentará interferir na política da região.
- A região já conta com quatro presidentes alinhados com Trump, na Argentina, Equador, Paraguai e Bolívia. No Chile, a direita também venceu as eleições.
Trumpismo coloca Colômbia, Cuba e outros em linha de tiro
No domingo, 4 de janeiro, quando mal se sabia o paradeiro de Maduro, a América Latina já lidava com a possibilidade de outra invasão dos EUA em um futuro próximo. Dessa vez, Trump ameaçaria Gustavo Petro, presidente da Colômbia, dizendo que uma ação militar em território colombiano, similar à ocorrida em Caracas, lhe “soa bem”. Ele também apontou a mira para Cuba, dizendo que o governo em Havana estaria “pronto para cair”.
Apelando, mais uma vez, à narrativa genérica do “combate às drogas”, e novamente, sem mostrar as evidências de tais acusações, o mandatário chamou Petro de um “homem doente, que gosta de fabricar cocaína e vendê-la aos Estados Unidos”. Petro usou as redes sociais para se defender e, em outra postagem, depois apagada, disse que as acusações de Trump são fruto de um “cérebro senil”.
Em 2026, a Colômbia pode estar diante de um ‘combo’ do que viveram Honduras e Venezuela nos meses recentes: além de se tornar alvo de ameaças de invasão territorial. O país sul-americano realizará eleições presidenciais com a abertura das urnas entre maio e junho e a posse de um novo governante marcada para 7 de agosto. Petro não pode se reeleger e a pressão de Trump deve influenciar o eleitorado e dificultar a tarefa de fazer um sucessor.
Caso a direita assuma o poder em Bogotá este ano, boa parte da América do Sul estaria sob o comando de gestões conservadoras e também simpáticas a Washington. Além de Javier Milei, na Argentina, Daniel Noboa, no Equador, do paraguaio Santiago Peña e do recém-empossado Rodrigo Paz Pereira, na Bolívia, o extremista José Antonio Kast tomará posse como presidente do Chile em março.
Para um presidente que retira um adversário do assento presidencial à força – e, logo depois, diz ser ele próprio o responsável por “mandar” no país que acaba de invadir –, interferências em eleições são apenas uma pequena parte da caixa de ferramentas. Em resposta à postura de Trump, governos da região têm se unido para condenar os últimos eventos. Assim fizeram Brasil, Chile (ainda sob o comando de Gabriel Boric), Colômbia, México e Uruguai, além da Espanha, por meio de um comunicado conjunto.
O governo republicano, no entanto, não se importou com a mensagem: um dia depois, o Departamento de Estado dos EUA publicaria uma imagem com a frase “este é o nosso Hemisfério”. O posicionamento preocupante se soma à menção feita por Trump à Doutrina Monroe, política externa estadunidense adotada nas primeiras décadas do século 19 – e que seria uma das bases do modelo intervencionista e expansionista de Washington na América Latina nos séculos a seguir. “Ela é muito importante, mas nós a superamos por muito”, disse o governante, referindo-se ao modelo como “Donroe Doctrine”, misturando o termo original ao início do próprio nome.
O ano que se inicia terá ainda eleições presidenciais na Costa Rica, onde o cenário se desenha para uma provável vitória da atual gestão conservadora sem necessidade de interferência estadunidense. No Peru, a disputa está pulverizada, difícil de prever, com mais de 30 pré-candidatos. Mas lá, caso se repita o cenário dos últimos pleitos, em que a ultraconservadora Keiko Fujimori avançou ao segundo turno, contra um nome mais ao centro (ou até à esquerda, como foi Pedro Castillo em 2021), não seria surpresa ver Trump pedindo votos para a filha do ditador. Fujimori, morto em 2024, governou o país andino entre 1990 e 2000, um mandato de abusos que rendeu uma condenação por crimes contra a humanidade anos mais tarde.
Brasil deve olhar para trás
Por último, mas não menos importante, vem o Brasil.
O maior país da região também irá às urnas com muita coisa em jogo no final do ano. Ouvindo o eco de crises recentes, como a da Lei Magnitsky e o tarifaço, deixaram o governo Lula em alerta. Autoridades eleitorais brasileiras devem voltar o filme para lembrar de uma crise que poderia ter sido muito maior em 2023, caso os ventos do norte soprassem diferente.
Há cerca de três anos, no infame 8 de janeiro após a terceira posse de Lula, bolsonaristas vandalizaram prédios públicos em Brasília, um episódio que ficou conhecido mundialmente como um dos maiores atentados à democracia brasileira desde o fim da Ditadura Militar. À época (e ainda que, em sua totalidade, não tenha trazido grandes melhorias concretas para a região), a gestão de Joe Biden fez o mínimo: condenou o ocorrido. É plausível especular que Trump, se estivesse no poder à época, endossaria a narrativa bolsonarista de que as eleições foram fraudadas – uma cartilha criada por ele próprio dois anos antes, com os ataques ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.
Em 2026, caso apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) repitam as cenas de terror diante de uma eventual reeleição de Lula (um cenário sustentado por pesquisas de momento), o desfecho pode ser mais grotesco. Tanto no Brasil como nos EUA, as respectivas rebeliões da extrema direita acabaram com muitos sendo presos no processo. Mas, enquanto Bolsonaro foi condenado por seu golpe fracassado, Trump seguiu impune e está outra vez na Casa Branca.
Lula tem contado com uma boa relação pessoal com Trump, desde o encontro de ambos na última Assembleia Geral da ONU, e que ajudou a desenrolar boa parte do tarifaço. Os movimentos erráticos do presidente norte-americano, no entanto, não permitem dar nenhum cenário por garantido. Quando, a hoje decapitada, extrema direita brasileira finalmente se aglutinar em torno de um novo candidato, é de se esperar que Trump repita o que já fez em outros processos eleitorais da região, estendendo seu apoio, seja explícito, ou por meio de pressões e sabotagens. Tal movimento pode dar aos herdeiros do bolsonarismo uma nova aposta no caos urbano em nome de fraudes inexistentes e teorias sem base. Apelos que, desta vez, podem encontrar nos EUA um apoio de intensidade inédita. Basta lembrar como já foi impensável uma invasão norte-americana à América do Sul como a que abriu o ano de 2026.
