Endividamento da população está ligado a questões estruturais, diz pesquisador

O endividamento das famílias brasileiras segue em patamares elevados e, paralelamente, cresce o número de plataformas de apostas online que acabam comprometendo o orçamento de parte da população, sobretudo de pessoas pobres e periféricas. Um levantamento do Procon-SP, divulgado em fevereiro deste ano, revela que 39,7% dos apostadores se endividaram após começarem a utilizar plataformas de apostas online.

Para entender a lógica de consumo e do endividamento a partir da realidade estrutural do país, Kauê Lopes dos Santos levantou dados e análises que resultaram no livro “Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia”, lançado pela editora Fósforo. Geógrafo, professor e pesquisador de economia urbana, ele mostra como grande parte das dificuldades financeiras enfrentadas pelas classes média e baixa está ligada a questões estruturais, como a desigualdade social, o aumento do custo de vida e as transformações do mercado de crédito.

Entrevistado no Pauta Pública desta semana, Kauê destaca que o endividamento é sobretudo um problema social, resultado também da ideologia neoliberal que atribui aos indivíduos a responsabilidade exclusiva por sua situação financeira. “O discurso de que basta esforço individual para vencer ignora uma realidade marcada pela precarização, pela vulnerabilidade e pela desigualdade.” Na sua perspectiva, buscar saídas individualizadas para problemas que são coletivos, esvazia a própria lógica da cidadania.

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 221
O Brasil dos endividados e o acesso à cidadania – com Kauê Lopes dos Santos


Pesquisador analisa como as desigualdades sociais moldam os padrões de consumo e o endividamento da população brasileira

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A ampliação do crédito e dos parcelamentos atende a interesses das empresas e, de certa forma, facilita o consumo dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, não parece haver o mesmo empenho em resolver problemas estruturais que afetam a qualidade de vida da população, como saneamento básico e moradia. O aluguel, por exemplo, costuma ser um divisor de águas na vida de muitas famílias, especialmente nas periferias. Também temos observado uma redução no número de brasileiros que vivem em imóveis próprios. Qual o impacto desse endividamento permanente na vida das pessoas, sobretudo das classes C e D?

Esse processo de consolidação da nossa sociedade de consumo está estruturado no crédito, um dos pilares dessa dinâmica. No livro, também abordo a obsolescência programada e a publicidade, embora o foco principal seja justamente o crédito.

Essa estrutura criou uma forma de consumo cujo ciclo de renovação é muito veloz. As populações de baixa renda já consumiam televisão antes da expansão do crédito; não se trata da chegada de um novo produto. A diferença é que agora elas consomem e pagam depois. Antes, juntavam dinheiro e compravam o produto, que passava a fazer parte do patrimônio da família, sem gerar uma dívida contínua. Com essa nova estrutura, o orçamento doméstico foi sendo comprometido de tal forma que boa parte da renda dos trabalhadores passou a ser capturada pelo sistema financeiro. A [compra de uma] televisão já foi paga muitas vezes e o trabalhador continua pagando por isso. Porque, na verdade, ele está pagando também taxas de juros as mais altas do planeta. Isso é importante ser dito, que há essa captura da renda do trabalhador para o sistema financeiro.

Primeiro, ele já pagou para a indústria, ele já pagou para o varejo, e agora ele está pagando para o sistema financeiro. Isso significa, para a população de baixa renda, para as classes de menor poder aquisitivo, um comprometimento do orçamento significativo, e esse comprometimento começa a afetar as outras áreas da vida, obviamente. Então, a questão do aluguel, a questão da educação, eventualmente, porque você pode ter seu filho matriculado em uma escola particular na periferia também. Enfim, e esse é um debate importante porque isso mostra também a centralidade que consumo ganhou na nossa sociedade. 

A gente vive para consumir, basicamente, A gente sempre viveu para consumir, obviamente, mas é um consumo muito mais associado a uma lógica da necessidade, eventualmente da urgência. Claro, também está no campo da cultura, a nossa cultura do consumo virou uma coisa muito mais acelerada. Isso significa, ao mesmo tempo, um esvaziamento de um campo da cidadania. E isso é uma preocupação importante de ser levantada, porque a saída que a gente vem dado aos nossos problemas estão sempre no campo do consumo, nas alternativas individuais. Se eu estou com um problema na educação, na escola pública do meu filho, qual é a saída rápida para isso? A saída rápida é colocar o filho em uma escola privada. Se eu estou com um problema no transporte público, qual é a saída para isso? A saída para isso, mais rápida, é comprar um carro, uma moto, etc. 

Então, a gente vai encontrando saídas muito individualizadas para os problemas que são coletivos, e vai esvaziando a lógica da cidadania, que seria qual? Juntar os pais e as mães para transformar essa escola [que está dando problemas], fazer pressão na prefeitura e no governo. Juntar os moradores do bairro para reivindicar a melhoria no saneamento básico, para reivindicar a melhoria no sistema de transporte. Mas como as saídas que a gente está observando atualmente são todas muito no campo privado e muito no campo da velocidade, cidade, a gente vai transmutando os nossos problemas do campo da cidadania para o campo do consumo.

O Milton Santos [geógrafo] fala isso de forma brilhante no livro “Por Uma Outra Globalização”. Então, que essa cidadania, esse exercício nosso da cidadania, de busca pela melhoria das coisas coletivas da nossa cidade, vão sendo capturadas pelo mundo do consumidor. Falamos mais de direito do consumidor do que direito do cidadão hoje em dia, em alguma medida. Então, essa complexidade da gente olhar para a periferia e ver esses contrastes, e ver que, ao mesmo tempo que tem uma carência enorme de várias coisas e, ao mesmo tempo, bens modernos de última geração nas casas, reflete um pouco esse momento que a gente vive nas nossas cidades.

Ainda existe uma visão distorcida e estereotipada sobre a vida financeira das pessoas de classe C e D, com o endividamento visto de maneira pejorativa?

Existe e é um discurso muito pernicioso, a ideia de que todo o endividamento na população de baixa renda está ligado, em alguma medida, a um descontrole de gastos. Eu escutava muito os meus colegas e amigos perguntando sobre a minha pesquisa, falavam “mas essa população está comprando televisão? Devia estar investindo em escola”, quer dizer, sempre um julgamento de como as pessoas gastam o próprio dinheiro. E essa ideia da educação financeira, ela aparece nesse discurso como uma saída milagrosa para a questão do endividamento e que responsabiliza o pobre novamente. Ou seja, colocar que o problema é o pobre que não sabe gastar dinheiro. “Se ele fizer o curso de educação financeira, ele vai aprender a se virar”. É quase um discurso de que ele vai virar um grande empresário depois, um receituário muito neoliberal do empreendedor. 

Eu não estou negando que possa, em alguns casos, existir descontrole de gastos. Descontrole de gastos existe em todas as classes sociais, mas o endividamento recai para a população de baixa renda. As alternativas para situações de inadimplência passam pela educação financeira, não nego, acho que a educação financeira é uma frente importante, mas passam também pelas políticas de valorização do salário, passam também pelas políticas de redução de taxas de juros. 

Me parece muito perverso colocar toda a energia na questão da educação financeira porque a gente moraliza o consumo da população de baixa renda e passa a constituir um argumento de que essa população não sabe gastar o próprio dinheiro, sendo que muito pelo contrário a gente tem várias experiências das formas como as pessoas se organizam. 

Temos que olhar para esse debate de forma menos moralista porque essa questão da educação financeira infelizmente recai nesse campo e responsabilizar um conjunto maior de atores que estão envolvidos no processo[…] Tem um cálculo muito curioso nessa história, que é o seguinte: ao mesmo tempo em que a gente está alcançando níveis recordes de inadimplência e insolvência, os bancos estão tendo lucros recordes também. Essas informações não aparecem juntas por algum motivo. Eu gostaria de entender que motivo é esse, que permite que os bancos sejam, no Brasil estejam tendo as maiores taxas de lucros da história, enquanto a população está cada vez mais endividada. Tem alguma coisa aí que precisa ser melhor associada no debate. 

Retomando, acho importante políticas que pensam na educação financeira, mas eu não acho que ela seja a única questão a ser atacada porque de novo a gente coloca na população de baixa renda toda a responsabilidade por um sistema que não foi ela que construiu. 

O que você acha sobre a relação do endividamento com a precarização do trabalho e com as apostas online?

Essa é uma questão que precisaremos observar com atenção, porque as apostas online estão entrando cada vez mais no debate público, o que é fundamental. Elas aparecem como uma suposta saída individual para a crise, uma estratégia baseada na ideia de que a sorte pode resolver problemas financeiros. Toda a publicidade desse setor é construída em torno de promessas de prosperidade, dinheiro e ascensão.

Para quem vive uma situação de vulnerabilidade, essa promessa pode parecer atraente. Mas, muitas vezes, a pessoa rapidamente percebe que não conseguirá melhorar sua condição financeira e acaba se endividando ainda mais, recorrendo ao sistema financeiro para pagar as dívidas acumuladas. Trata-se de uma arquitetura extremamente perversa.

Além dos impactos sobre os indivíduos, há também consequências para a economia. Recursos que poderiam circular nos comércios locais, nos serviços e em outras atividades produtivas acabam sendo drenados para um sistema que não produz riqueza real. É um mecanismo que extrai renda da população sem gerar benefícios para a economia nacional.

Por isso, é importante compreender melhor como funciona essa estrutura. Costumamos responsabilizar quem faz publicidade para as casas de apostas, o que também é necessário, mas ainda conhecemos pouco sobre os agentes que controlam esse mercado. Precisamos tornar mais transparentes os interesses econômicos por trás dessas empresas.

As apostas se somam a um cenário já marcado pela precarização do trabalho e pela insegurança econômica. Nesse contexto, são apresentadas como uma solução milagrosa para a crise. Isso reforça a necessidade de ir além da educação financeira e discutir políticas de valorização da renda e do trabalho.

Quando as pessoas veem seu orçamento e suas perspectivas de futuro comprometidas, elas se tornam mais vulneráveis também do ponto de vista subjetivo. É nesse ambiente que prosperam as promessas de enriquecimento rápido. Por isso, as apostas online precisam ser tratadas com mais seriedade no debate público. Em um país tão desigual como o Brasil, a normalização dessa estrutura é algo que merece profunda reflexão.

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