Jornalistas e imprensa sofreram 204 ataques em 2025, aponta relatório da Abraji

Fazer jornalismo no Brasil continua gerando perseguição e não há uma melhoria estrutural nas condições de segurança em 2025 na comparação com um ano antes. Essa é a conclusão da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) no relatório “Ataques gerais e violência de gênero contra jornalistas no Brasil” que registrou nacionalmente 204 alertas de ataques contra jornalistas e meios de comunicação no ano passado. Os principais alvos, 68,6% do total, foram pessoas físicas, jornalistas ou analistas.

Em 2024, o número de ataques foi um pouco maior, 210, o que na avaliação da Abraji significa uma estabilidade após o recorde documentado em 2022, último ano do governo de Jair Bolsonaro e de eleições, quando foram registradas 557 agressões. “O que a organização destaca é a persistência da violência em um patamar preocupante contra profissionais da imprensa”, aponta o levantamento, que será divulgado pela Abraji no dia 23 de julho e a  Agência Pública adianta com exclusividade.

As agressões a jornalistas e órgãos de imprensa mais comuns no ano passado foram as verbais, escritas e digitais, representando 36,3% dos alertas de violações à liberdade de imprensa acompanhados pela Associação. A violência física foi a segunda mais frequente, com 27%, seguida pelo discurso estigmatizante presente em 25% do total. Outros registros incluem assédio judicial, restrições no acesso à informação, violências mediante o uso de tecnologia digital, violência sexual, detenção arbitrária e uso abusivo do poder estatal.

Segundo o relatório, a esfera digital tem sido um campo de surgimento e repercussão das violências contra jornalistas, uma vez que 55,4% dos alertas tiveram origem ou repercussão no ambiente online, o que dificulta “a identificação dos agressores” e prolonga a “exposição das vítimas”. A cobertura ambiental no ano passado, quando o Brasil recebeu a COP30 em Belém, também gerou uma parte dessas agressões. “Foram 12 ataques relacionados a temas ambientais e climáticos, dos quais 75% ocorreram a partir de setembro, período de maior mobilização em torno da conferência”, explica o levantamento. 

Violência de gênero

Entre os alvos dos ataques que compõem o relatório de 2025 e tiveram o gênero identificado, 30,2% eram mulheres. Já a violência de gênero foi identificada em 15,2% do total de alertas. Entre as agressões explicitamente de gênero, 77,4% eram comentários machistas, misóginos ou LGBTfóbicos, enquanto 16,1% envolveram atos discriminatórios diretos.

Por outro lado, os agressores que tiveram o gênero identificado, a grande maioria, 87,8%, eram homens. Atores não estatais representaram, em 2025, 44,6% dos autores dos ataques seguidos de perto por agentes estatais, com 43,6%. “A proximidade entre os percentuais mostra que a violência contra jornalistas é reproduzida tanto por estruturas institucionais quanto por cidadãos comuns, grupos organizados, autoridades, figuras públicas e atores difusos”, diz a pesquisa. 

São Paulo foi o estado com maior número de alertas, 39, registrados em 2025, seguido pelo Rio de Janeiro e pelo Distrito Federal, 26 e 20 casos registrados, respectivamente. O único estado brasileiro que não registrou nenhum alerta no ano passado, foi Roraima.

Ferramentas de segurança e denúncia

A Abraji no relatório aponta alguns cuidados tanto no ambiente digital como no presencial. No primeiro, são elencados pela associação:

Em coberturas presenciais, várias orientações podem ser aplicadas em manifestações, eventos esportivos, conflitos locais, operações policiais, pautas ambientais ou outras situações de maior tensão, tanto para redações como jornalistas. Entre elas: avaliar os riscos; definir rotas de entrada e saída; estabelecer protocolos de comunicação e de tomada de decisões; sempre que possível, evitar que profissionais atuem sozinhos. 

A associação salienta que “redações e empresas de comunicação também têm responsabilidade direta na proteção de suas equipes. É necessário adotar protocolos de segurança e oferecer treinamento para coberturas de risco”.

“Também é importante preservar evidências. Em casos de ameaças, campanhas de 

assédio, exposição de dados pessoais, mensagens ofensivas ou ataques coordenados, jornalistas devem guardar capturas de tela, links, datas, horários, perfis envolvidos e qualquer outra informação que possa auxiliar na documentação do caso”, explica. 

Entre as ferramentas, as organizações Abraji, Artigo 19 e Repórteres Sem Fronteiras (RSF) disponibilizam quatro materiais com orientações e recomendações para fortalecer a segurança física, digital e jurídica de jornalistas e veículos de comunicação.

Guia de segurança para comunicadores em coberturas políticas (Artigo 19) 

Guia de proteção e segurança para comunicadores e defensores de direitos humanos 

Cartilha aborda princípios de segurança para jornalista freelance 

Segurança digital para jornalistas: como se defender de ameaças online 

A Abraji conta com um Programa de Proteção Legal para Jornalistas, com assistência jurídica gratuita a profissionais que sofrem constrangimentos por meio de ações judiciais ou que buscam responsabilizar civilmente seus agressores. Profissionais que se enquadram nos critérios do programa podem entrar em contato por e-mail

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