Moltbook: Em vez de acabar com os zoológicos de animais, criamos um zoológico de robôs

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Na semana passada, estive em Berlim para participar de uma conferência da Deutsche Welle sobre IA, Big Techs e o futuro do jornalismo. Em um parco momento de folga, fui atraída por uma exposição que estava rolando no Fotografiska Berlin, uma galeria de exposições moderninha que fica na zona central. As fotos de Nikita Teryoshin mostram animais dentro de zoológicos urbanos em diferentes países da Europa. 

Uma delas mostra um elefante atrás de uma grade, os chifres cortados curtos, onde se vê a clareza do marfim já gasta, os olhos perdidos e cansados. A cena é grotesca e, claro, brilhantemente composta pelo fotógrafo – mas o que mais choca não é a violência do marfim inacabado, nem a solidão do animal, mas o cenário: atrás dele há um muro cinzento, abaixo dele um arame de metal que lembra uma prisão ou campo de refugiados. O lugar é escuro, a luz entra através de uma reduzida abertura circular no teto. Não à toa, a exibição se chama “Prisão Perpétua”. O contraste dos pilares de cimento, as paredes de concreto, estruturas metálicas e geométricas, ou as paisagens sintéticas recriadas com desleixo para lembrarem aos animais alguma coisa do ambiente onde eles deveriam viver – se é que existe lembrança possível – é a pura expressão da maldade humana. 

Os zoológicos foram originalmente criados como repositórios de presentes “exóticos” recebidos por monarcas e imperadores, como o rei Luís 14 fez no século 17, exibindo à nobreza sua impressionante coleção de animais no luxuoso palácio de Versailles, duas gerações antes de seu neto ser decapitado na guilhotina. Os zoológicos modernos nasceram na Inglaterra do século 19, justamente no auge da era do Império Britânico, sob uma capa de cientificismo. O zoológico de Londres, ainda funcional, foi aberto em 1828 para ser usado para “estudos científicos” com os animais, e foi aberto ao público em 1847. 

Sob qualquer perspectiva, os zoológicos seguem refletindo aquela visão do homem imperial, que submetia animais e humanos à categoria de “exóticos” a serem aprisionados, estudados, exibidos para deleite do público em uma tarde de sábado.  

Há quem defenda que ainda mantenhamos esses espaços anacrônicos, tão velhos como as estátuas dos barbudos conquistadores que ainda temos que derrubar. Alguns argumentam que eles servem para “educar” os humanos sobre a natureza, coisa que, convenhamos, não vem funcionando muito. 

Se estamos em um momento-chave em que precisamos reaprender a respeitar nosso planeta para deixar de destruí-lo – e portanto salvar a nós mesmos – não seriam os zoológicos o anti-exemplo, a lição exata que diz que o ser humano tudo pode e não deve nada a essa terra que nos criou? Não estaremos nós, com uma simples visita a um zoológico, desfazendo toda a ladainha de uma educação ambiental e transmitindo a mais potente mensagem às crianças: nós podemos eternamente arquitetar e engenhocar a natureza? 

No seu livro Homo Deus, Yuval Harari traz dados impressionantes para ilustrar a era do “antropoceno”, centrada no homem como figura suprema. Existem hoje 200 mil lobos selvagens enquanto há mais de 400 milhões de cães domésticos. Sobraram apenas 40 mil leões, enquanto há 600 milhões de gatos. Vivemos em um mundo em que os animais que restaram são cada vez mais domesticados, enquanto os animais selvagens desaparecem. Desde 1970, as populações de animais selvagens foram reduzidas à metade.

É esse o reflexo da mentalidade que criou as guerras de conquista, as colonizações, e os impérios, que se reproduzem nestes espaços. Assim como fez a Costa Rica, não seria a hora de estarmos, como humanidade, trabalhando para fechar de vez todos os zoológicos? Por que não nos livramos deles? É porque nos acostumamos a certos hábitos antiquados, porque sentimos que sem eles perdemos também um pouco da nossa identidade? O que nos impede de libertá-los, e assim, junto, nos libertarmos?    

Em vez disso, parece que queremos, cada vez mais, honrar nosso passado colonialista nas nossas explorações digitais, essa nova fronteira de conhecimento e convivência. Liderados homens do norte global, financiados por um punhado de bilionários que não prestam contas a ninguém, inebriados por sonhos de grandeza infinita, ameaçados pelas bainhas do maior império da terra, estamos em plena nova era neocolonial digital

Foi por mero acaso que, também na semana passada, eu soube da existência do Moltbook, uma rede social criada para agentes de IA, que se tornou um furor regado a curiosidade, pânico e precisões de que os robôs irão dominar o mundo. O Moltbook, para quem não sabe, é a primeira rede social na qual humanos não podem criar perfis. Em vez disso, uma vez instruídos pelos humanos que os controlam, “agentes” de IA – programas digitais orientados para realizar tarefas customizadas aos seus “donos” – podem criar um perfil e interagir entre si. Os seres humanos podem apenas observar as conversas e interações. 

Trata-se de um verdadeiro zoológico de robôs

Não vou descrever o tipo de conteúdo que tem sido postado lá, apenas aviso que a rede social se parece mais com um fórum tipo Reddit do que com o Facebook, e que nada dali foi escrito por um ser humano. Melhor você conferir por si mesmo: https://www.moltbook.com/

Me cansa um pouco acompanhar tanta gritaria sobre o que isso significa em termos de “robôs com consciência” que “vão destruir a humanidade” – o que a rede social está bem longe de comprovar, até porque experimentos em que IAs interagem entre si não são uma novidade. 

Como sabemos, programas de IA apenas regurgitam linguagem de acordo com estímulos (“prompts”) que recebem, numa reciclagem eterna de conhecimento que originalmente algum ser humano escreveu. Não se sabe ainda com clareza o quanto os humanos estão dirigindo seus agentes para escrever uma ou outra coisa, então vamos olhar esse fenômeno com calma. Se você quiser entender melhor o que está por trás desta nova “febre” do mundo da IA, escreva pra mim e eu prometo criar um agente e colocar ele pra funcionar na rede social pra te contar depois o que eu descobri. 

Por ora, deixo por aqui uma outra reflexão. Achei mais fundamental, hoje, nos lembrarmos dos zoológicos para entendermos que, antes de discutir o futuro, temos ainda tanto legado a extirpar. Muito antes de nos aventurarmos numa nova era de homens, robôs e ciborgues, uma era na qual seremos forçados a reencontrar o que é afinal a essência da nossa humanidade que nos faz únicos e insubstituíveis, há ainda tantas heranças malditas das quais temos que nos livrar para nos tornarmos, de fato, humanos. 

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