Muito obrigada. E até mais!

Cara leitora, caro leitor, hoje não vou falar de boiadas, de riscos iminentes, de incoerências políticas e econômicas, de quem ganha com o caos climático, enquanto todos nós estamos perdendo. Falei disso na maioria das 142 vezes em que nos encontramos neste espaço ao longo de três anos e dois meses. Hoje quero falar de outra coisa. Esta é uma mensagem de reflexões, de despedida e também de agradecimento.

Quando entrei na Pública, em março de 2023, a convite da querida Marina Amaral, o objetivo era coordenar as reportagens sobre emergência climática na redação. Trazer, para a já super tradicional cobertura socioambiental da Pública, um olhar sobre a crise climática. Criar uma estratégia para cobrir esses temas de modo integrado, deixando sempre claro como uma coisa está conectada a outra, tanto pelos efeitos negativos e retroalimentadores, mas também por impactos positivos, quando políticas públicas dão certo, por exemplo.

O convite se estendia para que eu também trouxesse um olhar analítico sobre essas relações aqui neste espaço da newsletter. Com experiências anteriores como editora e repórter, ainda não tinha atuado como colunista e foi um desafio super estimulante desenvolver um novo tipo de escrita. Depois viria também um podcast, o Bom dia, fim do mundo, com a mesma pegada analítica de discutir as hard news pela lente socioambiental e climática. A ideia, nos dois casos, sempre foi fazer um trabalho de conectar pontos que, em geral, são tratados de modo independente na imprensa tradicional.

Mostrar que decisões políticas e econômicas, que crises internacionais, que tudo isso conversa com a crise climática. Que atos do Congresso, do Executivo ou do Judiciário, que guerras, que políticas energéticas, de transporte, habitacionais e agrícolas interferem e são também impactadas pelo aquecimento global. Porque tudo está relacionado, seja como causa do problema, seja como consequência. Seja também como solução.

Na minha primeira newsletter, em 6 de abril de 2023, prometi que meu esforço seria tentar fazer traduções e conexões: da ciência com o dia-a-dia e, principalmente, das decisões políticas e econômicas com os impactos ambientais e climáticos que já estamos sentindo.

Espero que tenha conseguido mostrar isso.

Em tempos em que a humanidade é desafiada por ameaças criadas pela própria forma como lidamos com o mundo – além da crise climática, a destruição de ecossistemas e o esgotamento dos limites planetários –; e diferentes formas de negacionismo são espalhadas por poderosos ecossistemas de desinformação, acredito que o jornalismo científico e ambiental, minhas bases de formação, tornaram-se ferramentas essenciais para a própria democracia.

É possível falar isso do jornalismo como um todo, é claro, mas ajudar a sociedade a compreender o que a ciência revela e a avaliar riscos e tomar decisões informadas sobre questões que afetam diretamente o presente e o futuro coletivo estão nos princípios de um bom jornalismo de ciência e ambiental.

Se no começo da minha carreira eu tinha uma visão talvez um pouco romântica do jornalismo científico como uma ferramenta para traduzir as pesquisas para o público leigo e para colaborar com seu letramento científico, com o passar do tempo vi que ele tem um papel que vai além: fazer a interseção entre ciência e sociedade, em especial em mostrar como pesquisa e políticas públicas deveriam se encontrar.

E quais são os riscos e as consequências provenientes de quando esse encontro não acontece – quando decisões são tomadas à revelia do que orienta o melhor conhecimento disponível ou em evidente contradição ao que ele aponta.

Reportagens e análises que façam essas conexões podem ajudar os leitores e ouvintes a cobrarem políticos por essas decisões. E, em meio ao avanço de mecanismos de desinformação, desempenham também o papel de examinar criticamente narrativas que distorcem evidências ou buscam desacreditar consensos científicos consolidados.

Nada disso importa, porém, se não houver, na outra ponta, leitores e ouvintes interessados nesse conteúdo, que valorizem esse conhecimento e que também nos deem uns puxões de orelha quando a gente escorrega, erra ou falha em perceber o que realmente importa para a sociedade. E, por isso, agradeço demais a todos que, ao receber este texto ou ao ouvirem o podcast, gastaram alguns minutos para mandar uma mensagem, interagindo com o tema, elogiando ou fazendo críticas. Cada comentário foi sempre motivo de alegria para mim.

A Pública tem a prática muito simpática de dar aos novos colaboradores canecas com seus nomes. Logo que entrei, ganhei duas. Uma com meu nome mesmo. Outra – um gracejo de uma das nossas diretoras, a Natália Viana – trazia escrito “editora do fim do mundo”, uma brincadeira que eu abracei e com a qual eu me diverti. Não antecipei na hora, porém, e imagino que ela também não, o peso da alcunha.

Fazer o constante e exaustivo alerta de que rumamos para uma grande enrascada não é algo pelo qual o mensageiro passa ileso. Cientistas que trabalham com esses temas sofrem de um tipo de ansiedade muito específica, que pode adoecer. Jornalistas climáticos, tem se observado nos últimos anos, podem passar por isso também.

Trago essas reflexões todas hoje porque este é o meu último texto na Pública. Meu último episódio do Bom dia ainda vai ao ar na quinta que vem (4/6), mas esta é uma despedida. Saio em busca de novas ideias, de tentar descobrir novas formas de comunicar sobre esses assuntos que são tão difíceis. Muito obrigada pela companhia até aqui e espero continuar contando com vocês em outras paragens. Um grande abraço! Sigamos!

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