Nossas mortes, nosso silêncio, nossa ira

Meu avô por parte de pai, seu Geraldo, foi sequestrado e assassinado. Eu não era nascido, mas meu pai conta que, num dia qualquer, meu avô não voltou pra casa. Depois de três dias sumido, ele soube: levaram o táxi, que era o sustento do lar, um baita torcedor do São Paulo e o esteio moral duma família de oito filhos e uma porção de netos.

Minha avó, segundo meu pai, morreu de depressão em menos de um ano por conta disso. Ficaram apenas as lembranças de um arroz doce imbatível e daqueles olhos castanhos com as pálpebras baixas.

Meu pai nunca deu nenhuma lição de moral sobre o que era a justiça, a vingança. Ele preferia ser o filho favorito, o engraxate na infância, o adolescente que se surpreende ao conhecer sapato, o caipira que não sabia atender telefone, o galã na noite: o mais Valter dos Valters. Da morte de seus pais ele não fala muito.

O que não quer dizer que esse silêncio também não seja, por si só, explicativo. Nesse caso, se o trauma não se cristalizou numa grande revolta em relação ao Estado, ou, ainda, em agressões aos filhos, à esposa, ele virou um silêncio absoluto sobre como meu pai se sentiu em relação a ter visto, numa só porrada, seus pais mortos. O que sei disso, sei por meio de frestas, uma lacuna ou duas dessa história preenchida por ele, uma ou outra informação dada pela minha mãe.

Nunca entenderei tudo sobre isso, nem como, possivelmente, esse evento gerou o humor imprevisível do meu pai, que, de tão teimoso e ansioso, se torna de difícil convivência. Não entenderei o que significava, para ele, abrir uma lata de Kaiser e chorar na rampa em frente à nossa casa depois da morte do meu avô.

O que meu pai viveu foi um desses muitos momentos brasileiros sem precedentes — no caso do meu pai e avô, com contornos raciais específicos — em que a violência irrompe e leva consigo uma família, um pai, um taxista, um torcedor.

Se já nos foi difícil viver esse luto, por conta da impunidade dos executores, imagino qual não deva ser a situação de quem, além da vida que foi tomada de súbito, ainda soma a isso o absurdo das condições: chegam na rua da sua casa, com fuzil na mão, tiros a esmo, facada nas costas, matam uma porrada de gente de forma planejada e chamam isso de sucesso.

É justamente isso que ocorre agora no Rio de Janeiro.

É, no mínimo, atroz, você chamar, sequer, de operação policial, um evento que matou 121 pessoas até o dia 30/10/2025. Dizer então que a operação policial foi um sucesso com esse número de corpos empilhados é, no melhor dos cenários, hediondo. O que o governador Cláudio Castro patrocina nesse momento tem outro nome: chacina. Não que seja novidade o Estado brasileiro atentar contra a vida de pessoas negras, mas a esse choque costumeiro se soma essa camada de escárnio: a operação foi um sucesso.

No entanto, há de se reconhecer que sim, como projeto, essa mentira é um sucesso. Quando esses governantes afirmam se tratar de um combate aos narcoterroristas que assolam a população, se cria uma imagem de espetáculo, como se a criminalidade funcionasse numa dualidade de bons e maus, bandidos e mocinhos. Como se as ações mais efetivas de combate ao crime organizado não fossem as que perseguem a origem do dinheiro, e sim as que invadem casas. A ação dessa corja do governo do Rio, no limite, é a lógica da necropolítica em movimento, que, como assinala Achille Mbembe, é a capacidade do Estado, desde o discurso, de definir quem vive e quem morre.

E eles sabem, a ideia de erradicar um inimigo gera voto. Para eles, tanto faz que esse inimigo seja a população negra.

Tanto essa escalada de violência, que é flagrantemente contra qualquer noção de prerrogativas básicas dos direitos humanos, gera voto, que governadores de uma aliança de direita se reuniram para debater sobre um possível realinhamento de forças em torno da segurança pública. Nem a hipocrisia de condolências rasas Romeu Zema, Tarcísio de Freitas, Cláudio Castro, Ronaldo Caiado têm. Tal organização é para pensar os rumos eleitorais de 2026, para subir em cima de um palanque e bradar uma virtude que não se tem: a do combate ao crime organizado. Falta vergonha.

E o luto das pessoas?

Há, por um lado, pouco espaço de reflexão sobre o luto, se mesmo a esquerda limita sua crítica ao compartilhamento de imagens e imagens de cadáveres baleados. Ao publicarmos stories e mais stories sobre isso, sem nenhuma mobilização política para além das redes sociais, fazemos coro a uma rebeldia performática. Quem aí colou em manifestações, trocou uma ideia no trabalho ou em casa, na igreja, no futebol? Com certeza, o número de pessoas que se dispôs a fazer isso é menor do que aqueles que se mostraram indignados apenas no botão do compartilhamento. Ainda assim, mesmo que o post seja muito pouco ou quase nada, pelo menos ele ainda é uma forma de dizer que tudo isso é hediondo. Fazer o quê: é preferível a performance ao silêncio.

Por outro lado, para o governador do estado do Rio de Janeiro e todos os outros abutres nem deveria haver espaço para luto, porque isso significaria elaboração acerca do que ocorreu, o que é avesso às candidaturas de 2026. Bagulho é dizer que foi uma megaoperação bem-sucedida e ver se a galera engole. Deve ser isso mesmo: mães, pais e crianças lavando de sabão e água sanitária o sangue do asfalto, recolhendo cabeças decepadas, cartuchos de fuzil do chão.

Isso é sucesso.

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