O evangelho da política segundo o diabo: como figura do mal absoluto afeta seu voto

E não é só “ele” quem sabe. No domingo de junho de 2025, na Avenida Paulista, em São Paulo, diante de bandeiras e celulares erguidos, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) subiu em um caminhão de som para evocar o inimigo antigo. “O número de pessoas que apoiam o Bolsonaro cresceu e ultrapassou as pessoas que apoiam o satanás do Lula”, disse, arrancando gritos. Era a repetição de um ritual secular, em que adversários políticos são empurrados para fazer as vezes de príncipe do mal. Ali, o imaginário milenar do diabo se fez. Mais uma vez. 

A persona encarnada atravessa séculos sem perder a utilidade. A proposta é despir o adversário político de história, alianças e contradições e incubi-lo de um papel mais simples e mais eficiente: o do inimigo que não se discute, apenas se enfrenta. No jogo eleitoral, o movimento cumpre função estratégica. “Chamar alguém de corrupto gera indignação. Chamar de diabólico gera pânico”, diz Afonso, que destaca ainda como o medo engaja rápido, o debate empobrece, mas a adesão cresce.

Nesse cenário, Prudencio afirma que o discurso religioso ganha centralidade porque promete soluções fora da política, sem negociação ou contraponto. “É uma resposta simples para frustrações profundas, especialmente em contextos de desigualdade, desemprego e descrédito na classe política”, o que ela descreve como um empobrecimento deliberado do debate. “Quando há demonização, não há debate, há apenas embate”.

Sem necessidade de doutrina ou igreja, a figura do capeta circula livremente por discursos políticos, redes sociais e palanques improvisados. “O diabo sempre reaparece em momentos de crise e incerteza”, lembra o historiador da Universidade Federal do Ceará Pierre Grangeiro. Minorias, opositores e grupos vulneráveis voltam a ocupar o lugar da ameaça. “A diferença é a velocidade, a  demonização agora se espalha em segundos, sem mediação institucional”, avalia.

O mecanismo continua politicamente eficaz. “Quando você transforma alguém em diabólico, elimina a possibilidade de diálogo”, afirma o psicólogo Eduardo Afonso, antes de concluir: “Não é mais um adversário, é um inimigo metafísico. O diabo funciona como projeção coletiva. Não vem de fora, emerge dos medos e desejos que não se quer reconhecer […] O diabo é o vilão perfeito. Não responde processo. Não precisa provar culpa. Basta acusar”.

Capeta, o funcionário-padrão quase sempre desprovido de DNA

É com o cristianismo que ele finalmente assume protagonismo. Influenciado por tradições apocalípticas judaicas e por textos como o Livro de Enoque, o diabo ganha nome, rosto e ambição. Deixa de ser circunstância e passa a ser agente, quando, segundo Grangeiro, “o mal se transforma em entidade”. 

Desde então, o diabo tornou-se indispensável para organizar comportamentos, justificar punições e explicar a desobediência. Ele não apenas existe, trabalha.

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