Desde a Revolução Industrial, a tensão entre homem e máquina permeia o mundo do trabalho. No início do século 19, por exemplo, trabalhadores ingleses do ramo têxtil passaram a sabotar e destruir as máquinas que seriam usadas para os substituir, movimento que depois veio a ser chamado de Ludismo, e é hoje visto, muitas vezes, como ingênuo ou mesmo inócuo. Até hoje, na maior parte das vezes, prevalece a ideia de que nada pode parar o progresso e o que resta aos trabalhadores é se atualizar: aprender a operar as máquinas e assim sobreviver.
O mesmo ocorre agora com a disseminação da Inteligência Artificial (IA) no mundo do trabalho. Os modelos de inteligência artificial não apenas realizam tarefas, mas já mediam processos seletivos, avaliam desempenho de trabalhadores e convocam para um futuro em que sequer exista o trabalhador que opera as máquinas. Se esse futuro é realista ou não, pouco se sabe, mas é fato que cada vez mais empresas investem e obrigam seus funcionários a operar essas tecnologias.
Para conversar sobre a incerteza sobre o futuro do trabalho e os significados práticos e simbólicos deste momento crucial, o Pauta Pública recebeu a socióloga e psicanalista Marta Bergamin, coordenadora do curso de pós-graduação em Sociopsicologia e professora da Fesp (Fundação Escola de Sociologia e Política).
Leia os principais pontos e ouça o podcast completo abaixo.
EP 214
O futuro do trabalho e a incerteza do presente – com Marta Bergamin
Um dos grandes medos do nosso tempo é como a inteligência artificial está mudando ou vai mudar o mercado de trabalho. E eu queria trazer dois exemplos concretos que foram relatados à nossa equipe, porque eu acho que ilustram bem isso. O primeiro é de uma pessoa que trabalhou por doze anos em uma companhia telefônica e todo o setor dela foi substituído por inteligência artificial. Quando essa pessoa saiu em busca de um novo trabalho, ela conta que todos os processos seletivos estão sendo feitos com inteligência artificial na filtragem de perfil, e as perguntas fazem um perfil psicológico, às vezes até ideológico, dos candidatos, entrevistas longas que você depois nem tem um feedback. E o segundo exemplo, é de um programador de alta especialização, com vários anos de estrada, que relata que grande parte do trabalho agora é ensinar a a inteligência artificial a trabalhar. Queria pedir para você falar um pouco sobre tudo isso, sobre esse momento do trabalho com a inteligência artificial em tantas camadas.
É, acho que é um assunto que a gente tá pensando muito agora, porque a inteligência artificial vai entrando na vida das pessoas de vários modos. Parece que ainda não é um impacto que desemprega estruturalmente os trabalhadores, mas alguns setores já estão sendo impactados, e a gente vai pensando num futuro muito inseguro para os trabalhadores em geral, né? E a inteligência artificial é privada nesse momento. São empresas, as Big Techs, que têm donos, que têm uma arquitetura de como a internet vai sendo planejada e está sendo executada, e eles vão determinando o futuro, o que é muito complicado.
Eu acho que tem uma questão importante também, que é o que a gente está anunciando para os jovens em relação ao trabalho. Porque esses discursos de que a IA vai substituir os trabalhadores, de que a IA vai fazer tudo que os humanos podem fazer, é um discurso que interfere nos nossos planos para o futuro. E eu acho que os jovens vão sendo extremamente impactados por uma crise de futuro, e o trabalho é parte importante dessa crise do futuro. Então, tem uma crise ambiental, as crises das guerras todas que estamos assistindo, mas também no trabalho. Acho que a gente tem uma questão de quem vai continuar trabalhando de forma criativa. Tem uma concentração de trabalhos interessantes na mão de pessoas muito qualificadas, e uma massa grande de trabalhadores parece que vai ficar destinada a um trabalho mecânico, sem criatividade.
E eu acho que aqui tem a grande questão, que é que as pessoas deveriam estar fazendo coisas interessantes, que produzam significado, subjetividade, identidade, então acho que parte da identidade do trabalho vai sendo deslocada para outras coisas. A gente já vai vendo isso há várias gerações, não só os mais jovens. O trabalho era muito mais central na composição da identidade das pessoas do que é hoje. Então as pessoas vão encontrando outras fontes de produção de identidade: religião, questões de gênero…
Uma questão muito importante é justamente essas ferramentas na mão dos donos das Big Techs, então a gente está falando aí de uma concentração de riqueza também, de um aumento das desigualdades. A gente tem hoje, por exemplo, donos de Big Techs que têm mais riqueza acumulada que o PIB de alguns países. Como isso entra nessa conta também do mundo do trabalho?
Eles foram acumulando muito poder econômico, ou seja, muito poder de decidir coisas, inclusive sobre a arquitetura da própria IA, e aí o mundo do trabalho vai ficando absolutamente impactado. Acho que a gente vai, daqui por diante, ver impactos cada vez maiores.
Algumas notícias sobre a IA na China talvez possam apontar para nós algum horizonte, ali não são empresas propriamente privadas, tem um Estado mais regulador. Então a sociedade vai convivendo com a IA de uma outra forma, diferente de nós aqui no Ocidente, né?
Eu acho que a gente tem que ir vendo os modelos, mas podendo fazer perguntas. Como é que os países vão regular o uso da IA? Nos interessa substituir os humanos para todo tipo de atividade? Ou a gente vai conseguindo pensar, discutir, disputar e regular de algum modo como a gente quer esse uso?
E também essa questão da distribuição de renda, né?
Eu acho que na saída da pandemia assistimos a uma concentração de renda maior, porque essas Big Techs cresceram. Então a gente tem uma multidão de pessoas precisando se virar entre esse trabalho mediado pelas plataformas digitais que vão sendo coordenadas pela IA, pelos algoritmos. São as formas plataformizadas do trabalho, que vão fazendo com que as pessoas passem a trabalhar com essa mediação das plataformas digitais. Então o mundo do trabalho já está muito transformado nessa saída da pandemia, a gente foi vendo isso muito rapidamente, as plataformas foram chegando e abocanhando pedaços do mercado de trabalho, e novos nichos de lucro também vão se anunciando.
E aí, com a chegada das bets, o Jogo do Tigrinho, outras plataformas, novos nichos de ampliação das atividades empresariais vão se anunciando, e eu acho que elas estão ligadas a uma concentração e a uma apropriação da renda do trabalho. Nem todo trabalho é emprego, a gente já tem uma mudança enorme, então estou chamando aqui de renda do trabalho, que vai sendo apropriada por essas empresas, pelo capital, de uma outra forma, agora pelas apostas. E aí, eu acho que isso vai produzindo um discurso do “você não precisa mais trabalhar, você não vai ganhar um dinheiro substancial com o trabalho. Agora, num golpe de sorte, talvez você possa fazer uma renda muito maior”.
E aqui tem um discurso que vai proliferando de uma forma importante, porque as grandes personalidades públicas estão fazendo propagandas para essas empresas de apostas e também de ativos financeiros. Isso na vida das pessoas comuns, impacta como? Tenho me feito essas perguntas.
E eu estou pensando também que esses discursos, eles se combinam muito com esses desses coaches que vendem cursos de empreendedorismo, também se relacionam com os discursos que são feitos nas igrejas evangélicas, do empreendedorismo. E a gente pensa até nos red pills, nesses influencers da machosfera que tentam vender essa vida luxuosa e se você não consegue alcançar isso, o problema é seu.
A gente tem mudanças importantes mesmo. Primeiro porque os influenciadores vão virando profissão. E as arquiteturas das redes sociais são preparadas para que esses discursos ganhem uma amplitude, e aí tem uma monetização desse tipo de discurso que vai desmontando um pouco o mundo do trabalho nas formas que conhecemos. Ao mesmo tempo, tem um ataque também aos estudos, à formação universitária. E uma elite que vai mandando seus filhos para estudar fora do Brasil, e dessas pessoas que estão estudando fora do Brasil, muitas não vão retornar. Então o que que a gente tá pensando para o nosso mercado de trabalho?
Quando você fala da machosfera, a gente vai vendo o movimento nas redes sociais que vai chegando no aumento do número de feminicídios, da violência contra as mulheres. A gente tem visto nas pesquisas que os jovens meninos estão mais conservadores, e aí eu acho que tem um nicho mesmo dos influencers, que vão capturando os jovens. E aqui a gente está falando de trabalho também. É um trabalho dos influencers, dos canais, das redes sociais, que levam os jovens para um discurso e, portanto, práticas mais violentas, mais excludentes.
É muito complicado. Mas eu acho que a gente também está falando um pouco de planejamento da vida. Tem um sociólogo do trabalho, o Richard Sennett, nos anos 2000 ele já escrevia que o longo prazo não existia mais. Então a gente vai planejando agora no curto e no médio prazo, ficou mais difícil fazer essa prospecção e imaginação do longo prazo. Mas a gente precisa de certo planejamento, de qualificação do trabalho, de se imaginar em trabalhos e, portanto, buscar como realizar sonhos e vontades, e a gente tem que dar esperança para os jovens de que vai ter trabalho, renda do trabalho, modos de aposentadoria, certas formas de planejar, pelo menos, um médio prazo.
