Pesquisa revela que assédios são comuns dentro da polícia científica de São Paulo

Ao embarcar na viatura para mais um dia de trabalho na polícia científica de São Paulo, a perita Milena (nome fictício), de 40 anos, sentiu fortes dores no peito. O colega de perícia, então, desviou da rota em que eles fariam a coleta de provas e levou Milena ao pronto socorro mais próximo. A equipe médica, por fim, fez o diagnóstico: crise de pânico.

A medicação passada para conter a crise incluiu o diazepam – que tem como efeito colateral a sonolência -, além da orientação para que ela ficasse em repouso. Por medo de sofrer algum tipo de retaliação, Milena optou somente por descansar na sede da Polícia Técnico-Científica e retomar as atividades periciais mais tarde. No entanto, sua chefe a encontrou e, mesmo sabendo que a servidora havia passado por uma crise, ordenou: “você tem local para atender. Pode ir!”. “Eu fui chapada de diazepam fazer [coletas provas de ocorrências]”, contou a perita.

Essa é apenas uma das histórias caracterizadas como assédio por uma pesquisa realizada entre peritos da polícia científica de São Paulo. O levantamento do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), feito em maio de 2025, e obtido com exclusividade pela Agência Pública, mostrou que 60% dos respondentes disseram já terem sofrido assédio moral na instituição e outros 28% que foram vítimas de assédio sexual praticados por colegas de trabalho.

A pesquisa foi convocada pelo MPSP, após o Sindicato dos Peritos do Estado de São Paulo (Sinpcresp) identificar um volumoso número de casos que envolviam suspeitas de assédios morais e sexuais dentro da instituição. Participaram da pesquisa, de forma anônima, 574 pessoas, que responderam a um formulário com 21 perguntas. Isso representa cerca de 25% do efetivo.

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP), sob gestão do delegado Nico Gonçalves, respondeu que a Superintendência da Polícia Técnico-Científica “repudia qualquer conduta incompatível com os princípios que regem a administração pública.” A resposta afirma ainda que, ao “ser formalmente notificada pelos órgãos responsáveis sobre a pesquisa, a instituição prestou os esclarecimentos cabíveis. O fortalecimento institucional incluiu medidas como a instituição da Comissão Permanente de Enfrentamento ao Assédio Moral e Sexual, criação de um novo canal exclusivo para denúncias”. Leia aqui a nota na íntegra.

Maioria deixa de denunciar por medo

Os peritos que toparam compartilhar os assédios sofridos dentro da instituição pediram que setores, nomes e a identificação de seus chefes não fossem divulgados, por uma questão de segurança. “Eles [peritos] temem ter algum tipo de retaliação. Isso é evidente e é algo que eles comentam comigo de forma recorrente”, explicou Bruno Lazzari, presidente do Sinpcresp.

O presidente disse que até mesmo o sindicato enfrenta dificuldades em coletar denúncias e tomar providências, pelo medo dos servidores em compartilhar detalhes e documentos. “Eu atribuo [o medo] parcialmente a falta de comunicação entre a instituição e os funcionários, ou seja, falta de divulgação a respeito do que é assédio e a ausência de meios possíveis para que esses assédios sejam denunciados”, disse.

Milena ingressou na Polícia Científica em 2019, em um movimento de contratação feito durante a gestão do ex-governador João Dória, na época do PSDB. Pouco depois de sair da Academia de Polícia (Acadepol), ela passou a integrar o time de peritos da Grande São Paulo.

O seu primeiro chefe na instituição, na época, foi descrito pela servidora como agressivo, ofendendo colegas de trabalho. No entanto, o receio dos servidores em denunciar o dirigente tinha uma justificativa: “ele andava armado ostensivamente o tempo todo, até mesmo internamente”, contou a perita, que hoje não convive mais com esse chefe.

A pesquisa feita pelo MPSP apontou que 66% dos peritos que responderam ao questionário não fizeram denúncias aos superiores ou à Corregedoria da Polícia Civil, que realiza as investigações internas da instituição. Os dados apontam, também, que os casos denunciados não costumam ter resultados: apenas 4% das ocorrências levadas às instâncias superiores surtiram efeito.

Esse contexto, segundo Lazzari, alimenta também o medo de servidores denunciarem irregularidades e sofrerem retaliações. “Nas polícias, a hierarquia é muito mais rígida do que em outras instituições. Por isso, os servidores se sentem intimidados a fazer qualquer tipo de denúncia”, afirmou.

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