Com cordões e batucadas registrados desde o período colonial, a tradição carnavalesca de São Paulo se consolidou no início do século passado, e desde então vem ganhando força e notoriedade na cidade. Em 2026, serão 32 Escolas de Samba desfilando no Sambódromo do Anhembi, segundo à Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, e 630 blocos programados para sair às ruas no Carnaval em SP no mês de fevereiro, de acordo com registros da prefeitura.
É nesse clima de carnaval que o Pauta Pública desta semana recebe a cantora Eliana de Lima, uma das primeiras intérpretes e puxadoras de samba no Carnaval em SP e que seguiu fazendo sucesso em carreira solo. Com hits como “Volta Pra Ela” e “Desejo de Amar”, a cantora ganhou destaque dentro e fora do Brasil, com mais de dois milhões de discos vendidos e cantando ao lado nomes como Jorge Aragão, Aldir Blanc e Luiz Carlos, do Raça Negra, e muitos outros.
Lima relembra que, principalmente nos primeiros anos de sua trajetória, foi preciso persistência e enfrentar o machismo, apesar de todo seu talento. “O samba ganhou na minha voz, mas porque eu era mulher, não me deixaram ir para a avenida”.
Na conversa com Andrea Dip, Lima também fala sobre preconceitos que persistem até os dias atuais e as transformações do samba e da indústria da música ao longo das décadas. Entre memórias e reflexões sobre o que faz uma música atravessar o tempo, ela relembra os sucessos que fizeram ela e o público se emocionarem na Avenida.
“Teve um momento magnífico com a escola de samba Leandro de Itaquera, que a Leci Brandão contou em uma entrevista que a arquibancada estremeceu. Naquela época ainda não era sambódromo, eram arquibancadas de madeira.”
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 203
Carnaval: a expressão popular que sobrevive através do tempo
Você abriu as portas para a presença das mulheres no carnaval de São Paulo, foi uma das primeiras puxadoras de samba do carnaval brasileiro. Queria começar te ouvindo sobre como foi ocupar esse espaço.
Eu comecei a cantar no final de 1979, tinha 18 anos, e logo em seguida fui conhecer uma Escola de Samba que foi a Cabeções de Vila Prudente. Na mesma avenida tinha Príncipe Negro, e fui convidada para defender o samba enredo, para eles. Não me prometeram nada, só que o samba ganhou na minha voz e eu fui para a Avenida. [..] Foi uma loucura e uma surpresa. Choveu muito e eu fiquei toda ensopada, mas foi uma experiência tão incrível que pensei: é aqui que eu quero ficar. Aí começou a minha trajetória, puxando o samba enredo da escola de samba Príncipe Negro.
E aí eu fui conhecer [outras Escolas de Samba] e fui convidada para cantar na Avenida pela Peruche, em 1981. Naquela época, eu ainda não sabia onde queria ficar, estava conhecendo as escolas. Então gravei para o Cheio de Samba, da Barroca. Não, eu não só gravei: eu defendi o samba, o samba ganhou na minha voz, mas, porque eu era mulher, não me deixaram ir para a avenida.
Depois, eu defendi o samba na Imperador também. O samba ganhou na minha voz, mas eu não puxei nem cantei na avenida. Tudo isso foram experiências pelas quais a gente tem que passar.
As coisas foram acontecendo e é isso, estou até hoje cantando samba.
[Mas, sim, foram muitos preconceitos], porque imagina você defender um samba enredo e não te deixarem cantar no disco e não deixarem você ir para a Avenida. Mas eu não desisti. Foram longas noites de choro e eu não desisti.
Eu falei: uma hora eu vou conseguir, eu porque eu sei o que eu quero, eu sei fazer o que eu estou fazendo. E persisti. Fiquei dois anos na ala de compositores e de cantores da Mocidade Alegre. Eu tive várias experiências. Preconceito, sim, teve e tem até hoje. Infelizmente.
Como você está vendo esse momento atual do carnaval? Pensando na relação entre a tradição do samba como expressão popular e a festa, que hoje é cada vez maior e move cada vez mais dinheiro…
Tem o sambista e o sambeiro. O sambista vai ao show, vai à escola de samba para curtir o samba, porque ele gosta do samba. Não é simplesmente [como o sambeiro] pegar um copo de cerveja e sair dançando o tempo inteiro, sem prestar atenção no que está ouvindo. [Mas ainda assim] tem espaço para todo mundo.
A coisa mais incrível é o pagode dos anos 1990. Eu vi o pessoal do samba dos anos 90 chegar: Zeca, Jovelina, Almir Guineto, Fundo de Quintal, Eliana Machado, enfim, toda essa nata de pessoas maravilhosas. E o pagode dos anos 1990, já há uns três ou quatro anos, está estourado de novo. Por quê? Porque tem essência, porque tem poesia, porque tem melodia.
Uma música ficava seis, oito meses na parada de sucesso. Eu fiquei mais de um ano tocando “Desejo de Amar”. E hoje se fabricam muitas músicas: lança uma hoje, daqui um mês outra, daqui um mês outra. Passaram seis meses, você nem lembra das músicas, porque nem esquentaram no coração das pessoas. É tudo para vender muito rápido. O nosso trabalho era diferente.
Eu tenho admiração por grandes pessoas desse movimento novo. Sorriso Maroto é maravilhoso. O Ferrugem, da nova geração, é uma das maiores vozes, dos maiores talentos que nós temos. Então, tem gente muito boa.
Eu gosto de samba, samba mais raiz, entendeu? Eu sou dessa linhagem. Admiro, acho que tem espaço para todo mundo. Mas eu quero músicas que eu ouça e me emocione.
Eu acho que, hoje em dia, graças a Deus, o samba está em alta, está num momento bom. E o pagode dos anos 90 faz parte novamente dessa era e dessa fase. Tanto é que tem grupos de sucesso que só regravam coisas dos anos 80 e 90 para cá, e estouram novamente. Então, isso é bom.
É bom saber que o que a gente plantou, as pessoas estão colhendo frutos. Porque, até chegar aos anos 90, São Paulo não existia no mercado do samba. Era só nas comunidades, nas casas noturnas, alguns cantores que eram de escolas de samba. E, a partir de 1990 para cá, tudo mudou.
Do carnaval surgiram muitas escolas novas, que estão conseguindo se manter com presidentes de punho forte. E o componente frequenta a escola de samba, quer ver a escola pelo menos em quarto, quinto lugar. Se desfilou um ano, dois, três, quatro, e não vê resultado, já passa para outra escola.
Então, infelizmente, as escolas antigas estão batalhando para voltar ao que eram antes, mas está difícil. Porque, se um presidente fica um ano sem verba, dois anos, três anos, é difícil recuperar o carnaval. É com a verba que ele consegue mostrar um trabalho bonito na avenida, trazer os componentes. Então vai ficando mais difícil.
Mas eu torço muito para que as escolas de tradição voltem novamente ao desfile do grupo especial. É isso.
Quais foram os momentos mais marcantes que você lembra ter vivido na sua história no Carnaval e na sua carreira solo?
Eu tive várias emoções como puxadora de samba. Houve uma época que o povo da arquibancada chamava o nome da escola, mas chamava o meu nome também: Eliana, Eliana, Eliana.
Teve também um momento magnífico com a escola de samba Leandro de Itaquera, que a Leci Brandão contou em uma entrevista que a arquibancada estremeceu. Naquela época ainda não era sambódromo, eram arquibancadas de madeira. Foi marcante porque eu nunca vi, na avenida, eu puxando samba, e o público cantando tanto com aquele samba.
Permaneci, se não me engano, sete anos, na Leandro de Itaquera. É uma escola também que vem lutando, batalhando para voltar, e encontra muitas dificuldades.
Em shows, também teve muitos momentos marcantes. Quando eu ganhei o Troféu Rádio Globo, em 1992, como a melhor cantora de samba do Brasil, eu ainda ganhei uma piscadinha do Roberto Carlos. Eu falei: ‘Será que é comigo? É, foi comigo mesmo’.
Além dos programas de televisão, como o programa do Silvio e do Gugu Liberato… Tem muitos momentos maravilhosos, em vários shows, até hoje, graças a Deus, é uma bênção. A música, quando ela é boa, ela não tem tempo de validade.
