A prefeitura de São Paulo pagou R$ 1,2 milhão por 21 shows realizados entre 2023 e 2025 a artista e produtoras investigados na Operação Narco Fluxo, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em abril deste ano, que apura suposto esquema de lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas, apostas ilegais e rifas clandestinas. Os funkeiros MC Ryan SP e Poze do Rodo foram presos, além de influenciadores, como o dono da página Choquei, Raphael Sousa de Oliveira. Eles tiveram a prisão preventiva revogada na semana passada.
Segundo a PF, os recursos ilícitos seriam misturados com receitas lícitas, como cachês de shows pagos por prefeituras ou empresas privadas, para dificultar o seu rastreamento. Os investigados também convertiam os valores em carros de luxo, mansões e até aeronaves para mascarar a origem do dinheiro. O esquema criminoso teria movimentado R$ 1,6 bilhão e existiria pelo menos desde 2023.
Ao todo, a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) contratou 21 shows dos músicos e empresários investigados entre o início de 2023 e o primeiro semestre de 2025, conforme documentos internos da pasta que a Agência Pública teve acesso com exclusividade. Os dados embasam a série de reportagens Festival de Irregularidades, sobre shows pagos pelo município sem transparência.
A reportagem identificou nomes conhecidos dos palcos paulistas, como MC Hariel – que recebeu R$ 270 mil por dois shows em 2023 e 2024 – e MC Livinho – R$ 70 mil por uma apresentação em 25 de junho de 2023. Mas também há outros com menos audiência nas redes sociais, que receberam cachês mais baixos.
MC Ryan recebeu R$ 150 mil por um show na Semana das Juventudes, em agosto de 2023. Ele faria mais um show pelo mesmo valor no ano seguinte, mas o pagamento foi cancelado pela SMC porque o artista não se apresentou na data combinada, segundo os documentos.
Os shows identificados são de funkeiros agenciados pela Love Funk e GR6, que são investigadas, além da Fundação do Funk, que é ligada à GR6 e aparece nos documentos da SMC com um e-mail com domínio da GR6. As empresas e os citados sempre negaram irregularidades. A reportagem entrou em contato com os artistas e produtoras citadas, por e-mail e redes sociais, mas não recebeu retorno até a publicação. O espaço segue aberto.
Em nota, a prefeitura de São Paulo afirmou que “os contratos mencionados foram realizados em 2023, 2024 e 2025, antes da deflagração da operação da Polícia Federal, em 15 de abril”. “À época das contratações, não havia qualquer informação oficial sobre investigações envolvendo os artistas ou as empresas citadas, tampouco comunicação de órgãos de controle ou autoridades policiais que impedisse a formalização dos contratos”.
A administração municipal enfatiza que todas as contratações seguiram regularmente os trâmites administrativos, “com análise técnica e documental pelas áreas responsáveis, incluindo a verificação de antecedentes, conforme exigência legal aplicada a todas as contratações, por meio da emissão de certidões negativas e consultas de regularidade.”
A maioria dos contratos foi registrada em planilhas da SMC sob a anotação “Gabinete”, uma sinalização de que o pedido para a contratação poderia ter vindo da chefia da secretaria – no período comandada por nomes próximos ao prefeito Ricardo Nunes (MDB). Apenas um show (uma apresentação de MC Livinho em 2023) não recebeu essa indicação na tabela.
Os eventos fizeram parte do “Circuito de Rua”, que promove shows em localidades afastadas do centro da capital, e em datas comemorativas de localidades, como aniversários de bairros e festas juninas. A SMC não respondeu os questionamentos da reportagem até a publicação.
Notas da GR6 emitidas em poucos minutos
A reportagem encontrou uma sequência de nove notas fiscais emitidas pela GR6 com indícios de direcionamento de valores. Os documentos foram gerados com poucos minutos de diferença para os artistas MC Livinho, MC Don Juan e Neguinho do Kaxeta no mesmo dia, 22 de maio de 2023, às 16h33, 17h04, 17h22, 17h29, 17h34, 17h36, 18h, 18h02 e 19h36 – inclusive para shows que ainda não haviam acontecido.
As notas têm valores idênticos. As de MC Livinho e Don Juan foram padronizadas em R$ 80 mil, e as de Neguinho do Kaxeta em R$ 60 mil. A prefeitura se baseia nos valores das notas enviadas pelos artistas para definir o valor do cachê a ser pago. A lei municipal manda que seja pago um valor igual ou inferior aos das notas, para comprovar que se está cumprindo o valor de mercado das apresentações.
Com a apresentação das notas, os artistas de fato receberam valores similares aos valores mencionados por elas. Don Juan foi contratado por R$ 80 mil; Livinho, R$ 70 mil; e Neguinho da Kaxeta, R$ 60 mil. No caso deste último, porém, um parecer da própria SMC aponta que o cachê do artista sofreu um aumento injustificado de R$ 35 mil, de uma apresentação anterior, para R$ 60 mil sem justificativa necessária.
Uma das empresas que contratou Livinho e Don Juan, a Oh Gloria Produção Musical, tem o mesmo endereço comercial da GR6 em São Paulo, no bairro Vila Paiva – ou seja, emissor e tomador de serviço funcionariam no mesmo local. O representante da Oh Gloria também usa um e-mail com o domínio da GR6, indicando uma conexão entre as empresas.
As demais empresas que contrataram os serviços também se repetem entre os artistas. Uma casa de swing em São Paulo contratou Livinho e Neguinho da Kaxeta, e uma arena de beach tênis contratou Livinho e Don Juan.
Entre os documentos enviados para a prefeitura, há três notas de shows programados para dias depois, em 26 e 27 de maio. Outras seis se referem a shows dos artistas ocorridos até 18 dias antes, desde o início daquele mês.
Maioria dos shows não teve autorização jurídica
Dos 21 shows, apenas cinco receberam autorização do setor jurídico da SMC para serem realizados, o que é obrigatório para qualquer contratação musical. A maioria (14) não recebeu nenhum parecer, indicando que a área não tomou conhecimento dos eventos.
Os dois restantes obtiveram pareceres negativos. Nestes casos, a área recomendou que os processos não fossem adiante por se tratarem de eventos privados, que não poderiam ser financiados pelo órgão público. Ainda assim, a chefia da pasta mandou dar andamento aos pagamentos.