Dia desses, eu estava varrendo a casa e achei um escorpião galego enorme! Lukas ficou encantado, se acocorou pra olhar, maravilhado com aquele corpo inusitado, um misto de doideira de aranha, caranguejo e perigo.
O encantamento meio inocente de Lukas mudou a minha perspectiva sobre o que geralmente significa encontrar um escorpião em casa (ou em qualquer canto). Fui do medo à piedade: o escorpião não tem culpa de ser escorpião, nem de carregar consigo um veneno letal.
Depois, fui da piedade à filosofia: talvez o escorpião sequer saiba que é um escorpião, sequer saiba que seu corpo carrega um veneno letal. É como se ele, escondido numa fresta da porta, fosse a minha barata, e eu fosse uma GH que se mudou pro Ceará. Fui da filosofia à doidice completa: será que existe algo no corpo humano (ou seja, no meu corpo) que seja veneno letal para algum ser no universo?
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De toda forma, o encontro com o escorpião foi trágico (sobretudo pra ele kkk), mas também muito rico em significado.
No primeiro momento, o que pertence ao instinto, senti apenas a urgência de matá-lo, no melhor (ou pior) estilo “ou eu, ou ele”. Depois, quanto mais olhava pra ele, mais fui imaginando quem ele poderia ser, sua história única de vida, sua personalidade, que bichinhos ele teria comido na noite anterior, como tomou a decisão de se esconder naquela fresta, se ele já tinha matado um gato, uma criança, uma pessoa, se já era casado, se tinha filhos, quais eram os planos dele ou dela pra aquele dia, para seu futuro.
Não sendo daqui e sem saber o que fazer, pedi pra Lukas ligar pro caseiro, o maravilhoso Seu Zé Maia, que, antes de ser caseiro, é pescador e filósofo. Ele respondeu prontamente: “Infelizmente, precisa matar, porque ele é venenoso”.
O “infelizmente” me pegou e olhei pra Lukas, que estava com aquela cara de enterro, triste pelo pobre aracnídeo. Queríamos arrumar um jeito de salvar o bicho, mesmo tendo recebido a orientação de matá-lo, de alguém que não somente era nativo, mas também muito sábio. E aí vieram mais alguns minutos de elucubração: e se a gente varrer o animal pra longe? Não, cairia no terreno do vizinho. E se a gente simplesmente ignorar a presença do escorpião e deixar ele aí? Não, a gente podia esquecer que ele estava em casa e assustá-lo sem querer e levar uma picada – além disso, tem Chulé, o gato, para quem a picada seria mais dolorosa e letal. E se a gente botar o bicho num pote e soltar num terreno baldio? Lukas adorou a ideia – vale ressaltar que dois dias antes, ele tinha se recusado a matar uma barata do tamanho de um navio, porque ela estava lá na dela, tão grande e tranquila, dando seu rolê no jardim.
Assim fizemos: pegamos um copo e um prato e, a partir daí, tudo aconteceu muito rápido. O objetivo inicial de Lukas era “orientar” o escorpião a entrar no prato e, depois, colocar o copo em cima. Quando tentou fazer isso, o bicho se encaralhou e, sabiamente, se escondeu debaixo das bordas do prato (que era fundo) e ficou andando em círculos em volta do prato, numa rapidez admirável, pra confundir seus predadores (a gente).
Quando Lukas foi pegar no prato, o escorpião tentou picá-lo; não sei como não conseguiu, e foi aí, numa fração de segundo, que Lukas acabou matando o pobre. Foi horrível, ficamos arrasados, porque aquele foi um embate claramente desproporcional: dois humanos enormes, armados de chinelo e pau, contra um bicho que não pesa nem 10 gramas, não chega nem a 10 centímetros.
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Aqui entra em cena uma coisa que qualquer humano é ótimo em fazer: inventar histórias pra justificar coisas na gente que a gente não gosta, ou que a gente fez e desaprova. Pra isso, perguntei ao Google se o escorpião amarelo era perigoso e, pra minha surpresa, ele é, e muito.
Existem mais de 200 espécies de escorpião no Brasil, mas apenas quatro são perigosas, incluindo o “escorpião amarelo do nordeste”, que provavelmente era o que tinha lá em casa. Seu veneno é neurotóxico; causa dor intensa imediata e pode levar à morte por complicações cardíacas e respiratórias. É uma espécie urbana que se reproduz rapidamente, porque a fêmea não precisa de macho pra se reproduzir (essa parte eu amei!). Só em 2025, mais de 200 pessoas morreram no Brasil em decorrência da picada de escorpião!
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Um dia antes do escorpião aparecer, tive uma conversa muito bonita com Seu Zé Maia, sobre a barata que Lukas não quis matar. Entre as muitas coisas bonitas que ele disse, uma me marcou bastante: “Adelaide, tudo o que vive quer viver”.
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Difícil sair desse impasse moral. Só agora, semanas depois e escrevendo essas linhas, acho que consigo chegar numa pista que talvez me ajude a sair da sinuca de bico: o verbo “precisa” na frase “infelizmente precisa matar”.
Numa outra, das muitas conversas que tivemos, enquanto ele abria com maestria e uma faquinha cega uns cocos que ele mesmo plantou e colheu, Seu Zé Maia filosofou sobre a precisão: sobre como é ela quem determina as escolhas das pessoas, sobretudo dos mais pobres, muitas vezes colocando-os em situações também moralmente desafiadoras, que os fazem tomar decisões questionáveis, mas que os ajudam a sair de um perrengue imediato.
Seu Zé Maia concluiu dizendo que nem ele nem ninguém pode julgar decisões tomadas com base na precisão – é ela quem determina a escolha de quem não tem o que perder.
Talvez esteja aí o X da questão: a precisão de matar o escorpião, já que ali era uma aposta entre viver e morrer (ou, pelo menos, sofrer muito ou nada). Vovó foi picada por um que estava escondido dentro do sapato dela e diz que foi a maior dor que ela sentiu na vida (e olhe que ela teve 16 filhos de parto normal!).
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“Precisar” matar o escorpião me colocou diretamente em confronto mental com as histórias que as mulheres agricultoras de um vilarejo no sertão do Moxotó me contaram meses antes. Para elas, “cobra é cobra” e elas não têm muita cerimônia em assumir que o resultado do encontro com uma cobra é quase sempre a morte da bicha.
Duas histórias em particular me chamaram a atenção: um dia, Dona Neusa foi trabalhar no mato, na coleta de caju. Levou a filha pequena, que ela não tinha com quem deixar, e deixou a menina brincando no chão. Certa hora, ela viu uma língua de cobra saindo por entre as folhas caídas ao redor da árvore, bem pertinho de onde a filhinha dela estava. Dona Neusa não teve dúvida: arrancou um galho de caju e deu na cobra até ter certeza de que a tinha matado. Quando retirou as folhas de cima, se deu conta, com certa tristeza, mas sem nenhum remorso, de que a cobra em questão era uma espetacular salamanta arco-íris da caatinga, uma cobra rara, em risco de extinção, que não tem peçonha e não representa nenhum perigo para humanos – além de ser belíssima, por ser iridescente, como o nome já indica.
Em outro momento, Milena contou outra história espetacular: depois de amamentar seu filho recém-nascido, ela colocou um colchão no chão, na frente da casa, porque era uma noite de muito calor, e foram dormir. Ela acordou com uma cobra preta se aninhando perto dela e do bebê, confirmando, na visão dela, a lenda rural de que cobras pretas colocam a ponta do rabo (cobras têm rabo? Enfim, botam a pontinha do corpo) na boca do bebê, enquanto bebem o leite materno. No susto e no escuro, Milena gritou e seu marido matou o animal, pra só depois descobrirem que se tratava de uma cobra preta – um bicho de estonteante beleza e que, além de não ser perigosa para humanos, ainda por cima se alimenta de cobras venenosas, como a cascavel, ajudando no seu controle.
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Ouvindo as histórias das mulheres, fiquei triste pelas cobras, mas a verdade é que, no ponto de politização em que me encontro, não posso mais cometer o erro de achar que sei melhor como viver num território, do que as pessoas que vivem nele. Assim, como forasteira citadina, que nunca tive que catar caju pra viver ou levar filhos nas costas pra trabalhar, eu tenho mais é ouvir e aprender, não ouvir e julgar. Não posso me dar ao luxo da decepção moralista, pois preciso simplesmente aceitar que não tenho nada a ver com isso. E tem mais: nesses dois exemplos, ainda que não se possa falar de “precisão” ao matar uma cobra, dá pra falar muito bem do instinto de sobrevivência e da reação impulsiva de proteger a cria contra qualquer ameaça, que é completamente compreensível.
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No entanto, é impossível falar o mesmo sobre maus tratos e torturas intencionais, atos que nada têm a ver com a precisão sobre a qual Seu Zé Maia filosofou. Por isso, fazer justiça por Orelha, sobretudo tendo em vista as patacoadas do judiciário de Santa Catarina, não é fazer justiça só a um ser vivo em particular – a responsabilização precisa ocorrer como um marco civilizatório no nosso país.
