O enredo não é novo: sob o pretexto de que é preciso salvar a população de uma ditadura e da espoliação econômica que ela promove, os Estados Unidos da América bombardeiam países, derrubam o governante da vez e passam a gerir o estado, sempre sob a promessa de redemocratização. Desde o fim da Guerra Fria, foi assim no Panamá (1989), Afeganistão (2001), Iraque (2003), Haiti (2004), Líbia (2011) e, agora, na Venezuela.
Para os analistas ouvidos pela Agência Pública, entretanto, o sequestro de Maduro demonstra uma característica singular: a forma explícita com que os EUA agora admitem seus interesses econômicos. E, se agora, Trump sequer se esforça em dissimulá-los, a ausência de um plano mínimo para a reestruturação da Venezuela – que, ao menos no papel, existiu nas guerras anteriores – aponta para o fim de uma era: a da ordem liberal internacional.
Estabelecida após o término da Segunda Guerra, sob a liderança dos próprios EUA, essa ordem baseou-se até poucos anos no livre comércio, no respeito aos acordos internacionais, às instituições globais como a ONU e na defesa da democracia e da paz – ainda que, em diversos momentos, tais elementos tenham sido defendidos apenas em discursos e não em atos.
“Existe um diagnóstico muito cru, muito duro por parte da elite política estadunidense, de que a ordem internacional liberal não serve mais aos interesses dos EUA. O país vai perdendo liderança, capacidade de ditar os rumos e, portanto, se fez necessário, no cálculo dos tomadores de decisão dos EUA, mudar a estratégia. É isso que vem sendo feito nos últimos anos e de forma muito acentuada na gestão do Trump”, explica Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Por que isso importa?
- Donald Trump não esconde o interesse de seu governo de controlar o petróleo venezuelano e manter a América do Sul sob influência exclusiva dos EUA.
- O presidente norte-americano tem afirmado que outros países da região, como a Colômbia, podem sofrer ações semelhantes a da Venezuela.
Já para Neusa Bojikian, que é professora de Ciências Políticas na Universidade Estadual de Campinas e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos, os atos aparentemente ‘insanos’ da gestão do republicano são motivados por um sentido de urgência cultivado pelo grupo político de Trump frente à ascensão econômica da China e a retomada da influência da Rússia na Europa.
“No cálculo deles, não há mais tempo a perder. Daí esse gesto de explicitar força agora, para aplacar um pouco esses movimentos [de aproximação de outras nações junto à China e à Rússia], gerando um certo medo nos países da América do Sul, que até então não eram o foco direto da ação dos EUA”, avalia.
Semelhanças com outras invasões norte-americanas no mundo
Segundo Belém Lopes, se os Estados Unidos utilizam com certa frequência o poder militar para garantir seus interesses, os países que são invadidos, na maior parte das vezes, saem perdendo. “Os resultados, eu diria que quase invariavelmente, são muito negativos para as sociedades que sofrem essas intervenções. Gera-se desestabilização política e econômica e certas desigualdades costumam se aprofundar”.
A avaliação de Lopes está baseada em fatos: no Iraque, de 2003 a 2010, a invasão norte-americana deixou mais de 100 mil mortos. No Haiti e na Líbia, a derrubada dos governos, patrocinada pelos EUA, resultou em conflitos civis que prolongam-se até hoje. Já a suposta “democratização” do Afeganistão foi um vento passageiro: tropas estadunidenses permaneceram 20 anos no país, e tão logo bateram em retirada, em agosto de 2021, o Talibã, movimento político e militar fundamentalista que havia sido expulso da região pelos EUA, retomou o controle do estado.
Bojikian concorda que as promessas norte-americanas de mais democracia, liberdade e pujança econômica, que beneficiariam as populações dos países invadidos justamente sob essas premissas, historicamente não se concretizaram. “Todos esses projetos fracassaram estruturalmente. As economias tornaram-se dependentes da ajuda externa e não desenvolveram uma base produtiva sustentável”.
Para os professores, o que a história aponta é que quando os EUA se aventuraram a tensionar os limites do direito internacional, chegando mesmo a violá-lo, como na guerra do Iraque, que aconteceu sem o respaldo da Organização das Nações Unidas (ONU), e no sequestro de Nicolás Maduro, estão em busca de se distanciar dos demais países com os quais disputam a hegemonia global.
Os objetivos são simples: manter-se na liderança global e não deixar nenhum competidor se aproximar”, pontua Bojikian. Com poucas variações, as finalidades das últimas guerras patrocinadas pelos EUA e da invasão da Venezuela são semelhantes. “A segurança internacional, mas basicamente neste caso [da Venezuela] a segurança regional, pois os EUA querem ter o domínio por aqui [na América do Sul], e o acesso a recursos estratégicos. Isso é muito claro”, completa a pesquisadora.
“O caso da Venezuela está aí para mostrar que existe um componente muito forte de interesse empresarial nas reservas de petróleo. Trump tem dito isso, não estou especulando aqui, estou repetindo o que foi dito pelo mandatário dos EUA”, analisa Lopes. “Isso ajuda a explicar muitas coisas que têm sido feitas e que parecem irracionais [da perspectiva do bem-estar da sociedade], mas que para determinados grupos de interesse são absolutamente consistentes e racionais”, prossegue.
Assim, enquanto as populações locais não enxergam os benefícios propagandeados antes das intervenções armadas – sejam elas sob a liderança de republicanos como George W. Bush e Donald Trump ou democratas como Barack Obama, que presidia o país durante a guerra na Líbia –, há, nos EUA, quem comemore o saldo desses conflitos. “As empresas americanas tomaram a frente [nos países invadidos], e o complexo industrial militar dos EUA foi sempre o grande vencedor, se a gente for pensar em termos materiais”, aponta Bojikian.
Os riscos para os Estados Unidos também existem
Se os benefícios para as indústrias bélica e petroleira norte-americanas são evidentes, não é isenta de riscos a empreitada dos EUA na Venezuela, como, aliás, também não foram os outros exemplos citados até aqui.
A professora Neusa Bojikian pondera que, por ironia, o próprio imperialismo bélico trumpista pode acarretar em vantagens para seus adversários globais. “Involuntariamente, ele coloca a China no ‘papel de adulto na sala’. Como se a China dissesse: ‘olha, além do meu dinheiro, que é um saco sem fundo, eu tenho também ideias normativas, como, por exemplo, os Brics [aliança entre Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia, Irã e Indonésia], vocês querem me ouvir?’”, afirma.
Já para o presidente russo Vladimir Putin, a invasão da Venezuela também pode converter-se em ganhos políticos. “A Rússia vai buscar uma capitalização política, discursiva, em cima dessa intervenção dos EUA. Vai tratá-la como mais uma prova do lateralismo, da violação da soberania de outra nação por parte dos EUA. Para Moscou, ela reforça a narrativa de que os EUA operam fora da regra do jogo quando convém a Washington”, finaliza a professora.
O que virá no lugar da ordem liberal internacional não está claro, mas, para o professor Belém Lopes, escasseiam os motivos para otimismo. “Os contornos ainda não estão completamente definidos, estão sendo desenhados, mas tem a ver com o uso da força mais intensamente, menos do poder moral, do poder diplomático e da projeção pelo chamado soft power, e mais do poder duro, o poder que emana das canhoneiras e da dominação econômica, científica e tecnológica”, conclui.
