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No jornalismo, chamamos de “evergreen”, ou “sempre-verdes”, os conteúdos que têm uma longa duração, que podem, depois de meses ou anos, trazer o mesmo frescor, as mesmas descobertas.
Ao longo destes 15 anos, data que celebramos na Agência Pública nesta semana, publicamos um sem-número de reportagens de longo alento, calcadas em histórias que não morrem nunca, boa apuração, olho para detalhe e textos bem escritos. Sabemos que o jornalismo investigativo e inovador é aquele que não se limita a um gênero e jamais se fecha em um modelo estanque; as longas reportagens “sempre-verde” são apenas um tipo dentre tantos que podem – e devem – ser usados para informar o público. Mas há uma delícia particular nelas, em especial depois de uma década e meia: elas nos permitem um reencontro peculiar.
Para celebrar os nossos 15 anos, decidi fazer um apanhado de 15 destas histórias para dar de presente ao leitor e também aos nossos colaboradores. Fiz questão de buscar histórias que pouco envelheceram, em especial as mais antigas, que devem ser pouco conhecidas para aqueles que chegaram recentemente à nossa casa.
São reportagens que, tirando algum dado ultrapassado aqui ou ali, podem ser lidas ainda hoje, uma década depois, com o mesmo encantamento. Algumas foram escritas em contextos muito diferentes do que hoje – a reportagem sobre o agente da ditadura, por exemplo, foi escrita antes ainda da Comissão da Verdade, e muito antes da tentativa de Golpe de Estado de 2023; a matéria sobre os suicídios indígenas, antes da criação do Ministério dos Povos Indígenas. E por aí vai.
Juntas, elas contam não só a história da Agência Pública, escrita a múltiplas mãos. Elas contam a história de um Brasil que ainda hoje é surpreendente, triste, avassalador, mas ainda assim, Brasil, Brasis. Fiz questão de juntar histórias insuspeitas, pouco prováveis, que até hoje são pouco conhecidas. Nisso, ela retoma um pouco a essência do que é ser jornalista na Pública: um descobridor de histórias profundamente humanas.
Boa leitura!
Mas antes, convido-o para dois eventos especiais que acontecem esta semana para celebrar nosso aniversário. No dia 10/3 teremos o evento “Contando o Brasil: Uma celebração do jornalismo que informa e mobiliza”, em parceria com o Sesc-SP. A partir das 14h, teremos 3 palestras sobre ameaças, mobilização e o futuro do jornalismo, com nomes como Patrícia Campos Mello, Daniela Lima, Raull Santiago, Carol Pires e Eugênio Bucci. É só chegar e retirar seu ingresso na hora. E no dia 14/3, teremos festa a partir das 14h, no Parquinho, bar recém-aberto na Santa Cecília, em São Paulo. Garanta seu ingresso no Sympla.
Agora sim: boa leitura!
Para escrever essa reportagem, a cofundadora e diretora Marina Amaral passou seis meses entrevistando o ex-delegado da ditadura, José Paulo Bonchristiano. Aos 80 anos, o “Mr Dops” foi revelando aos poucos, diante da escuta atenta e checagem minuciosa de cada detalhe por essa grande repórter, uma das maiores do país.
Reli recentemente essa reportagem escrita pela nossa brilhante repórter Andrea Dip, que hoje apresenta o Pauta Pública, e fui tomada pela mesma emoção da minha primeira leitura. Nela, Dip mergulha na própria experiência para explicar o que é violência obstétrica e tentar entender por que o Brasil tem um número tão alto de partos via cesárea. Uma precursora do jornalismo feminista e do “personal essay” no Brasil.
Para realizar este vídeo, a premiada diretora de cinema Eliza Capai (que não era tão premiada ainda) viajou para Guaribas, de câmera na mão, e passou semanas ao lado de mulheres e meninas do sertão do Piauí. Conseguiu captar a revolução que acontece quando os recursos vão para a mão das mulheres, foco do Bolsa Família. Eliza foi com pouca grana, pegou dengue, ardeu em febre, mas transformou a história do empoderamento feminino através dos programas sociais em dois filmes de grande sucesso: No Devagar Depressa dos Tempos e A Fabulosa Máquina a do Tempo, que acaba de estrear no Festival de Berlim, mostrando até onde essas meninas, hoje alimentadas, podem sonhar. Bons frutos daquela primeira viagem para a Pública.
Uma história daquelas de filme de ficção científica: uma fábrica da empresa Moscamed fazendo testes com mosquitos transgênicos e soltando 18 milhões deles, segundo dados da empresa, para combater a dengue no interior da Bahia – sem avisar a população. A tecnologia é dos laboratórios da empresa inglesa Oxitec, em Oxford, implementada pela empresa brasileira, e obteve aparente sucesso. O método foi estudado posteriormente em estudos científicos e gerou até uma briga da empresa inglesa com pesquisadores.
Minha única reportagem da lista, um catatau de mais de 80 mil toques que tenta desvendar o que está por trás de uma onda de suicídios de adolescentes indígenas em São Gabriel da Cachoeira, a 850 quilômetros ao norte de Manaus, na beira do Rio Negro.
Um relato dilacerante e detalhado, escrito pelo filho do radiojornalista Valério Luiz, de Goiânia. O jovem advogado relata o emaranhado de interesses que levou ao assassintao do repórter esportivo que não media palavras para denunciar a corrupção no estado.
Para fazer essa reportagem, nosso Ciro Barros frequentou rodas de conversa de homens condenados pela lei Maria da Penha, e se permitiu como poucos a se transformar ao longo da experiência. Ele descreve: “Nas seis horas que passei na salinha durante os três encontros, quebrei todos os meus preconceitos. Esperava encontrar monstros agressores, sádicos contumazes, malfeitores violentos próximos ao ‘estereótipo Datena’. Encontrei homens constrangedoramente comuns, uma amostra masculina fidedigna de toda a pirâmide social brasileira como raramente vi. O ‘homem brasileiro’ estava ali em todas as suas nuances”. Uma aula sobre o que é fazer jornalismo de peito aberto.
Dentre os diversos filmes feitos pelo editor de foto e vídeo da Pública, José Cícero, este ainda me marca fundo. Com a sensibilidade de quem vive a vida na periferia sul de São Paulo, e o olhar de um grande jornalista e videomaker, José nos leva a níveis novos, profundos, do que significa enfrentar as mazelas da vida sendo pobre neste país.
Rogério Daflon foi um dos jornalistas que abrilhantou as páginas da Pública com seu texto saboroso e suas observações perspicazes sobre a vida no Rio de Janeiro. Esta história crua foi contada da maneira que devia ser, nua, sem disfarces. Rogério, a quem tive a honra de editar as principais reportagens aqui pela Pública, morreu em 2019, aos 55 anos.
Não poderia faltar a reportagem que fica entre as mais lidas quase todo ano. Para explicar ao público brasileiro como se faz a maconha que consumimos aqui, o repórter Matias Maxx, que é meio brasileiro e meio paraguaio, cruzou a fronteira ao país vizinho e se infiltrou em uma plantação de maconha, vivenciando como é a rotina dos trabalhadores do preparo do “prensado”. A reportagem fez tanto sucesso que Matias foi chamado para participar de uma audiência na Câmara dos Deputados do Paraguai, anos depois.
Reportagem dolorosa na qual a jornalista Anna Beatriz reconta detalhes da história de Janaina Aparecida, moradora de Mococa, no interior de São Paulo, que foi esterilizada a força depois de uma decisão do juiz Djalma Moreira Gomes Júnior, respondendo a uma ação civil pública proposta por Frederico Liserre Barruffini, promotor da Infância e da Juventude da cidade. Nossa repórter testemunhou, depois, no julgamento do processo que deu direito a reparação à Janaína pela violência inenarrável sofrida nas mãos do Estado.
Aposentado em 2022, o ex-presidente do STJ, Jorge Mussi, encerrou sua trajetória na cúpula do judiciário sem ter jamais respondido pelo filho que teve com a doméstica de sua casa quando ainda era jovem – e que jamais reconheceu. Contamos a história de Tiago Silva, jovem, negro e periférico, que se reinventou à luz dessa violação brutal do seu direito à própria identidade. A história também pode ser assistida em formato de videoclipe, ou ‘Lyric Video’, no Canal Reload.
Nosso repórter Pedro Grigori desencavou uma história esquecida da memória brasileira, o caso da Cidade dos Meninos, um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil. Um antigo orfanato em Duque de Caxias (RJ) que na década de 40 passou a abrigar uma fábrica de inseticidas altamente tóxicos, hoje proibidos, e que ao fechar as portas abandonou no local 400 toneladas de um pozinho branco, de aparência inofensiva, o pesticida organoclorado mais conhecido como “pó de broca”. A mistura altamente tóxica foi usada por gerações da comunidade, causando uma contaminação generalizada. Em 1999, todos os animais da Cidade dos Meninos foram sacrificados para diminuir a contaminação.
Reportagem hors concours feita ao longo de seis meses por uma grande equipe liderada pelo nosso diretor e editor Thiago Domenici – Ciro Barros, Clarissa Levy, Mariama Correia, Rute Pina, Andrea Dip. Conta em detalhes como o fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, criou uma rede de exploração sexual infantil usando prédios, carros e “presentinhos” das Casas Bahia. Um dos maiores escândalos empresariais do país, tristemente ainda não recebeu cobertura decente da imprensa tradicional, que ainda recebe anúncios das Casas Bahia. É o Caso Epstein brasileiro. A investigação também pode ser ouvida em formato Podcast.
O especial Escravizadores, realizado por uma enorme equipe, entre eles nossos repórteres Bianca Muniz, Amanda Audi, Mariama Correia, Rafael Custódio e Rafael Oliveira, – e vencedor de diversos prêmios, já é um clássico aqui no portfólio da Pública, que terá uma longa duração no tempo. Vale ler toda a série, mas para essa coluna resolvi selecionar esta pequena reportagem de Bruno Fonseca, tão bem escrita como só nosso mineiríssimo chefe de redação sabe escrever, como sem nenhum esforço.
– Estas 15 reportagens fazem parte da história da Agência Pública. Muitas delas continuam atuais porque os problemas que investigamos ainda pedem atenção. É claro, mas não custa lembrar, que essa seleção não representa nem de longe todo o conteúdo de excelência produzido pela nossa equipe (ou nossas equipes, já que já foram algumas gerações) ao longo de 15 anos. Mas, para isso, convido-o a mergulhar no nosso arquivo.