Com uma beleza valiosa, a miss Beatriz Pastana Abdalla de Oli, 47 anos, prometia um retorno de “centilhões” de euros para as pessoas que investissem apenas R$ 100, depositando a quantia em uma conta apontada por ela. A mulher, que venceu o Miss Lady DF 2022, se descreve como modelo profissional, terapeuta, quiropraxista, esteticista, publicitária e estudante. Para além de tantas funções, agora, ela é uma das investigadas pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) no âmbito da Operação Falso Profeta.
A miss é a principal administradora de um grupo no Telegram, chamado “Grupo de Ajuda David Miranda”. O nome do homem é citado como um “gestor” e está relacionado a outros pastores que foram presos por aplicar golpes. Os religiosos conseguiam ludibriar fiéis e fazer com que eles investissem suas economias em falsas operações financeiras ou falsos projetos de ações humanitárias, com promessa de retorno financeiro imediato e rentabilidade estratosférica.
Em conversas com possíveis “investidores”, Beatriz explica, de forma mirabolante, como funcionava o retorno financeiro. As aplicações se baseriam em um aporte de títulos públicos valiosos de supostas dívidas do governo. Segundo ela, o gestor “David Miranda” seria a pessoa com mais ações do tipo, com containers de títulos.
Apesar do retorno de “centilhões”, ela ressalta que a pessoa receberia em “porcentagens” graduais. Inicialmente, seria cerca de 2% do lucro e, nos outros meses, o dinheiro liberado seria maior com “ações humanitárias” feitas pelos próprios investidores.
Mensagens da miss Beatriz Abdalla Reprodução/Telegram
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A quantia de centilhão é referida por 600 zeros. Para se ter ideia da quantia prometida, ela é bilhões de vezes superior à do PIB mundial (em 2022, a soma de todas as riquezas produzidas no mundo foi de US$ 101,6 trilhões).
Em outro áudio, após as primeiras prisões feitas pela PCDF, a miss DF afirma: “O que está surgindo de áudio de gente ameaçando, que não quer receber só 1%. Vou repetir mais uma vez, o pagador se chama David Miranda. Eu não prometo nada de pagamento, o dia e a hora. Quem estiver preocupado, pode procurar nosso jurídico. Fiquem tranquilos. A benção vai chegar.[…] Vocês vão receber logo, eu creio. Tudo está acontecendo, já sabem que, no Brasil, tudo está liberado”.
Operação Falso Profeta
Nesta nova etapa da investigação, em que participaram cerca de 100 policiais civis, foi realizado o cumprimento de mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em quatro estados: Goiás, Mato Grosso, Paraná e São Paulo.
Também foram cumpridas medidas cautelares de bloqueio de valores, bloqueio de redes sociais e decisão judicial de proibição de utilização de redes sociais e mídias digitais.
Além do Decor/PCDF, participaram da operação policiais do Departamento de Polícia Especializada, e das Polícias Civis dos estados de Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina, Paraná e São Paulo.
Os alvos poderão responder, a depender de sua participação no esquema, pelo cometimento dos delitos de estelionato, falsificação de documentos, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, crimes contra a ordem tributária e organização criminosa.
Estelionato e “Nesara Gesara”
Invocando uma teoria conspiratória apelidada de “Nesara Gesara”, os estelionatários investigados pela PCDF diziam, por exemplo, que com um depósito de apenas R$ 25 as pessoas poderiam receber de volta nas “operações” o valor de R$ 1 octilhão. O principal líder do grupo é identificado como o pastor Osório José Lopes Júnior.
Osório também chegou a prometer para uma vítima retorno financeiro de R$ 2 quatrilhões Reprodução/Instagram
Pastor é acusado de aplicar golpe milionário
Apesar de se apresentar como pastor, ele não é ligado a uma igreja. Reprodução
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A investigação aponta que os suspeitos formavam uma rede criminosa muito bem organizada, com estrutura ordenada e divisão de tarefas, especializada no cometimento de diversos crimes, como falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e estelionatos por meio de redes sociais. Osório Júnior foi preso em Tocantins, na quinta-feira.
A ação é coordenada pela Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Ordem Tributária (Dot), vinculada ao Departamento de Combate a Corrupção e ao Crime Organizado (Decor).
O golpe pode ser considerado um dos maiores já investigados no Brasil, uma vez que foram constatadas, como vítimas, pessoas de diversas camadas sociais e localizadas em quase todas as unidades da Federação, estimando-se mais de 50 mil vítimas.
De acordo com a investigação, iniciada há cerca de um ano, o grupo é composto por cerca de 200 integrantes, incluindo dezenas de lideranças evangélicas intituladas pastores, que ludibriam as vítimas, normalmente fiéis que frequentam suas igrejas, e fazem com que ela acreditem no discurso de que são pessoas escolhidas por Deus para receber a “bênção”, ou seja, as quantias bilionárias.
Os investigados mantinham empresas “fantasmas” e de fachada, simulando ser instituições financeiras digitais com alto capital social declarado.
Para dar aparência de veracidade e legalidade às operações financeiras, os investigados celebravam contratos com as vítimas, ideologicamente falsos, com promessas de liberação de quantias surreais provenientes de inexistentes títulos de investimento, que estariam registrados no Banco Central do Brasil (Bacen) e no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
A investigação também apontou movimentação superior a R$ 156 milhões, nos últimos cinco anos, cerca de 40 empresas “fantasmas” e de fachada e mais de 800 contas bancárias suspeitas.