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Ana Jansen: Lenda de terror, magnata que escravizou 800 negros batiza cartão postal no MA

por Redação Capital Brasília
14 de janeiro de 2026
em Brasil, Política
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Ana Jansen: Lenda de terror, magnata que escravizou 800 negros batiza cartão postal no MA
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Ao cruzar o Centro Histórico de São Luís e atravessar a ponte que leva o nome do ex-governador maranhense José Sarney, cruzando sobre o rio Anil, o traçado urbano se reorganizada e dá lugar aos edifícios residenciais e hoteis de alto padrão, que rodeiam um dos pontos turísticos mais famosos da cidade: a Lagoa da Jansen.

O cartão postal de 150 hectares tem um parque ecológico, atrai praticantes de esportes e vira palco de eventos culturais de grande escala na capital maranhense. Quem visita o local, lar da estátua da serpente Lulu, passa ao largo do significado que carrega o nome do ponto turístico, batizado em homenagem a uma das mulheres mais ricas da história local, que mantinha pelo menos 800 pessoas escravizadas em suas vastas propriedades de terra e cuja crueldade deu origem a uma das mais tradicionais lendas de assombração da cultura local.

Lagoa da Jansen, no coração de São Luis, um dos pontos turísticos mais conhecidos da capital maranhense, leva o nome de uma latifundiária que manteve mais de 800 pessoas escravizadas
Lagoa da Jansen, no coração de São Luis, um dos pontos turísticos mais conhecidos da capital maranhense, leva o nome de uma latifundiária que manteve mais de 800 pessoas escravizadas

A homenagem se refere à comerciante e latifundiária Anna Joaquina Jansen Pereira, originalmente com dois enes, mas conhecida como Ana Jansen ou somente “Donana”, matriarca lendária do Maranhão, que no século 19 era uma das mulheres mais ricas do estado. Seu poder econômico era tanto que ela financiou o Exército Imperial contra revoltas populares que eclodiram pelo Brasil. 

As mais de oito centenas de pessoas escravizadas foram um dos pontos usados para justificar um pedido de titulação ao imperador Dom Pedro II, em 1843. Jansen queria ser a baronesa de Santo Antônio, o que poderia lhe render prestígio político e acesso direto à corte brasileira.

Por que isso importa?

  • O processo de revisão dos nomes de ruas, escolas e outros ambientes públicos já passou pelo escrutínio público no que diz respeito a figuras da ditadura, mas ainda falha no que diz respeito a personagem reconhecidamente promotores de violações aos direitos humanos.

Segundo o requerimento de título, os trabalhadores escravizados trabalhavam no plantio e colheita de algodão e arroz, em suas 30 propriedades de imóveis e terras que somavam 14 léguas à época. “É um nome que paira no imaginário popular aqui no Maranhão e geralmente está associado à imagem dessa senhora, proprietária de escravos e muito cruel”, explica a coautora do livro Senhora do Maranhão: uma biografia de Ana Jansen, Elizabeth Abrantes.

A Lagoa da Jansen se situa no que já foi uma das propriedades da latifundiária, o antigo Sítio Olaria, que condensava mangues e igarapés. Segundo Abrantes, que também é professora e historiadora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), a área era então conhecida como “Igarapé da Jansen”. Outras terras do Olaria foram desmembradas, vendidas e ocupadas desordenadamente após a morte de Ana Jansen, conforme descreve a historiadora Maria de Lourdes Lauande Lacroix no livro São Luís do Maranhão, Corpo e Alma.

Representação da carruagem de Ana Jansen, lenda urbana contada até hoje em São Luís
Representação da carruagem de Ana Jansen, lenda urbana contada até hoje em São Luís

A sociedade escravocrata e conservadora do século 19, em São Luís, era extremamente violenta com as pessoas escravizadas, o que, segundo a obra de Abrantes fazia “parte dos costumes de muitas famílias a utilização da tortura física”. Jansen não era vista com bons olhos nem pelos pares, que questionavam sua moral. A imagem negativa da latifundiária contribuiu para a criação da lenda da “assombração da carruagem”, compartilhada pelos moradores de São Luís após sua morte e associada às supostas crueldades que Donana teria praticado em vida, o que teria feito sua alma ser condenada a vagar pela Terra.

“As pessoas, quando ouviam pela noite o toque dos cavalos passando pelas ruas aqui no centro histórico de São Luís, as pessoas ficavam com tanto medo que não tinham coragem nem de abrir a cortina da janela”, contou a professora Abrantes. No entanto, a historiadora pondera que não há indícios de que as práticas de Donana fossem diferentes das que os senhores escravocratas praticavam à época. “Ana Jansen, como uma mulher do seu tempo, senhora de escravos, certamente não foi muito diferente dos seus congêneres, o que não significa que tenha sido a mais cruel, como fizeram crer os seus críticos”, argumentou. 

Além da lagoa, no bairro São Francisco, onde pesquisadores sugerem que tenha sido uma das propriedades de Ana Jansen, uma das mais importantes avenidas da capital que interliga o bairro à Ponta D’areia, também leva o nome da aristocrata. “É nesse contexto em que, infelizmente, muitas das vezes as homenagens se davam: posição política e econômica dessas pessoas, sendo principalmente no meio da elite”, explicou Abrantes. “Eu vejo a Ana Jansen nesse bojo aí, esse tipo de homenagem que não levava em consideração esse outro aspecto também, da opressão aos sujeitos escravizados”, concluiu. 

O dinheiro de Donana X o povo

Durante o século 19, eclodiram pelo território brasileiro revoltas populares, que exigiam a instauração de uma república, o fim da escravização e movimentos separatistas, que foram duramente reprimidos pelas forças do Exército Imperial, financiadas pelas elites econômicas.

Agradecimento público do então presidente da província do Maranhão Cândido José Araújo Viana publicado em nota no jornal O Maranhense
Agradecimento público do então presidente da província do Maranhão Cândido José Araújo Viana publicado em nota no jornal O Maranhense

De posse de mais de 30 propriedades e de 800 pessoas escravizadas, Ana Jansen foi um das que financiou a repressão a revoltas populares, como a Balaiada (1838-1841) e a Farroupilha (1835-1845), com dinheiro e até sacas de arroz, como forma de garantir as regalias que o regime imperial lhe rendiam.

Disputas políticas, pobreza, miséria e um alto número de pessoas escravizadas dominavam o Maranhão em meados do século 19, o que resultou na Balaiada. O movimento liderado por Manoel dos Anjos Ferreira e pelo quilombola Preto Cosme exigia a decentralização de poder, o fim do regime de escravidão e a separação do Maranhão do restante do território brasileiro.

Isidoro Jansen Pereira, segundo filho de Ana Jansen, recebeu o título de tenente-coronel da Guarda Nacional e atuou nas ações de repressão, que resultaram em mais de 10 mil mortes.

O apoio de Donana à repressão também se deu contra os farroupilhas no Rio Grande do Sul, fato destacado no pedido do título de baronesa ao imperador. “Tem prestado parte de seus bens a benefício da causa pública, e, ultimamente, fez o donativo de mil arrobas de arroz pilado e ensacado, por ano, enquanto durar a luta com os rebeldes do Rio Grande de São Pedro do Sul”, descreveu o procurador Manuel Jansen Pereira, também filho da latifundiária. Em março de 1841, um agradecimento público do então presidente da província do Maranhão Cândido José Araújo Viana foi publicado em nota no jornal O Maranhense.

Vida e morte de uma lenda urbana

Anna Joaquina de Castro Jansen Albuquerque nasceu em São Luís, em 1798, em uma família de comerciantes descendentes de portugueses. A ascensão social ocorreu após o casamento com Isidoro Rodrigues Pereira, um dos homens mais ricos da província no início do século 19. 

Pereira, 40 anos mais velho que a esposa, foi apenas um dos três homens com quem Ana Jansen se casou, passando quase 10 anos ao seu lado, até sua morte, em 1825. Viúva aos 27 anos e com seis filhos, ela herdou boa parte da fortuna do primeiro marido.

Donana casou-se outras duas vezes, primeiro com o desembargador Francisco Carneiro Pinto Vieira de Melo, ficando viúva aos 60 anos, e então com o empresário paraense Antônio Xavier da Silva Leite. 

Embora tivesse incorporado o sobrenome de seus companheiros no decorrer de seus casamentos, “nenhum deles conseguiu se sobrepor ao nome que escolheu para ser conhecida e que contribuiu para definir sua identidade: Ana Jansen”, descreveu Elizabeth Abrantes.

Donana era mal vista. Casada três vezes, todas após viver relações extraconjugais, era reprovada pela sociedade conservadora da época e, com isso, a população ludovicense passou a criar uma imagem ruim sobre sua vida. “Ela vai ser tratada como sendo uma mulher fora do padrão e algo que não deve servir de exemplo ou de modelo para ninguém”, explicou a professora da UEMA. 

“Então, a gente acredita que essas rivalidades, intrigas políticas, disputas mesmo nesse meio, isso vai contribuir muito para criar essa imagem de Ana Janssen como essa mulher cruel com essa violência extrema”, disse Abrantes. 

Ana Jansen morreu aos 71 anos, em São Luís, e contemplou os 11 filhos, netos e bisnetos em seu testamento, deixando pessoas que ela escravizava, terras, propriedades e dinheiro como herança. Ela jamais obteve o título de baronesa que buscava durante o império, mas teve o nome eternizado em logradouros públicos em São Luís até os dias de hoje.

Procurado pela Agência Pública para justificar a manutenção do nome de figuras escravocratas em importantes partes da capital ou se há iniciativas para a troca de nome em andamento, o Governo do Maranhão não respondeu até o momento. Em caso de manifestação, esse espaço será atualizado.

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