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Home Brasil

O que você deve fazer para pagar menos no Uber – e aprender no caminho

por Redação Capital Brasília
19 de janeiro de 2026
em Brasil, Política
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O que você deve fazer para pagar menos no Uber – e aprender no caminho
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No último fim de semana, minha viagem de volta de São Paulo até minha casa foi embalada por uma longa conversa com Lourival, o motorista do Uber. Alto, cabeça raspada e falante, ele era novo no trabalho – está no aplicativo há pouco mais de 4 meses – e parecia tão curioso sobre a minha experiência como usuária quanto eu estava sobre a sua, como motorista. Foi só eu falar que os preços estavam altos que ele me pediu, “me desculpe, mas quanto eles tão te cobrando?”. A corrida me custou 125 reais, e ele só recebeu 75. Mais de 40 minutos na estrada. Comentei que motoristas mais antigos reclamam que o pagamento tem sido cada vez mais achatado, e engatamos um papo sobre como funciona o “preço dinâmico” ou “preço de vigilância algorítmica”, uma prática que está sendo cada vez mais adotada por empresas de transporte, vendas de ingressos e até produtos online – e que viceja na falta de regulamentação do mercado digital.

Mas antes, eu relatei algo que me aconteceu na semana anterior. O trajeto até a casa dos meus pais, que são idosos, costuma custar, no máximo, 50 reais. Mas daquela vez, ao pedir a corrida, fui surpreendida com o preço de cerca de 100 reais, mais que o dobro do valor corriqueiro. Não havia nenhum fator externo que fizesse valer a sobretaxa. Era sábado, não havia trânsito em São Paulo e além do mais eu ia no contrafluxo. Então comentei que da última vez que tinha feito a viagem, cinco dias antes, foi um momento delicado: saí no meio da noite, peguei minha mãe, e fomos para o hospital. Seria possível que o algoritmo, de alguma maneira, tivesse registrado que aquele endereço se relacionava com alguma emergência à qual eu correria sem pestanejar, mesmo se o valor fosse o dobro?

Não vou afirmar que foi esse o motivo, porque aqui na Pública somos jornalistas sérias e só afirmamos o que podemos checar. Mas as dúvidas em relação à precificação de vigilância têm aumentado nos últimos anos e levado a questionamentos às empresas. Em dezembro do ano passado, diversos usuários de Uber em São Paulo relataram que as corridas estavam duas ou três vezes mais caras. As reclamações foram tantas que a prefeitura notificou, via Procom, as empresas Uber e 99, pedindo explicações sobre o salto no preço que ocorre em um período que a cidade está cheia de visitantes que vêm para fazer compras de Natal. A mesma coisa ocorreu em Manaus, no Amazonas, onde igualmente o Procom pediu explicações à Uber.

O princípio da precificação de vigilância é simples: dependendo de diversos fatores – que são sempre uma incógnita já que as Big Techs não revelam que fatores são esses – o preço do produto, neste caso da corrida, pode variar pra cima. Por exemplo, se há muita demanda de um lugar para outro, se está chovendo, se há falta de motoristas.

Agora, para fazer esse cálculo, o Uber usa IA, o que tem gerado, segundo reclamações de usuários, mais preços altos.

Mas o problema, apontado por um relatório de 2025 do Federal Trade Commission dos EUA (FTC), a autarquia que monitora a livre concorrência, na época sob o comando da excelente Lina Khan, é que as empresas usam uma enorme variedade de dados dos usuários sem eles saberem, o que pode gerar práticas abusivas. Por exemplo, as empresas podem comprar dados sobre as compras online anteriores em diferentes lojas, endereço do IP, tipo de celular, informações do navegador, padrões de visitas de sites e visualização de vídeos. Cruzando esses dados, dá pra saber até quem você está paquerando no Instagram. O crush vale a corrida mais cara?

O Uber nega peremptoriamente que use dados individualizados para fazer a proposta de precificação. Mas a própria Lina Khan afirmou, depois de lançar o relatório: “as evidências mostram que os aplicativos de transporte estão cobrando preços diferentes pelas mesmas corridas, no mesmo horário”.

Um dos motivos apontados, segundo ela, seria o fato de um usuário ter mais bateria no seu celular – quem tem menos bateria está mais no sufoco e topa pagar mais.

Em 2023, uma investigação do jornal belga La Dernière Heure simulou corridas iguais para o mesmo destino, e descobriu que elas eram mais caras para celulares com menos bateria. O Uber negou ao jornal que use essa informação para fazer sua precificação.

Outro argumento do Uber para adotar o preço dinâmico é que ele “é aplicado para incentivar que mais motoristas se conectem ao aplicativo e assim os usuários tenham um carro sempre que precisar. Quando a oferta sobe novamente, os preços voltam aos valores normalmente praticados. De qualquer forma, o preço dinâmico sempre é informado ao usuário no momento em que a viagem é solicitada”, explicou a Big Tech ao site G1. 

Mas há outro problema. Enquanto o preço dinâmico se torna uma realidade, diversos relatos e estudos dão conta que os valores pagos aos motoristas têm diminuído em vez de aumentar.

Quando contei ao Lourival como funciona o preço dinâmico, ele me disse que sentia, sim, que havia valores tão baixos que ele preferia não pegar a corrida. “Mas se você recusa muito, eles te penalizam”. 

Em resumo, o preço dinâmico é uma maneira de cobrar o máximo possível de você pela sua corrida, e, ao mesmo tempo, tentar pagar o menos possível do motorista.

Luã Cruz, coordenador de direitos digitais do Idec, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, diz que o nosso Código de Direitos do Consumidor é de 1990, quando ainda não existia esse tipo de precificação. “Mas ele tem regras contra práticas abusivas, como ‘elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços’”, diz. “Só que para comprovar uma prática abusiva dessas é preciso ter provas robustas, o que é muito difícil, por causa dos sistemas algorítmicos”.

Ou seja, a falta de transparência das Big Techs não nos permite saber muito sobre que tipos de critérios estão sendo usados nessa cobrança. Como são elas que têm os dados sobre todas as corridas, e não existe nenhum órgão que tenha a prerrogativa de fiscalizar esses dados, ficamos todos no escuro.

As poucas pesquisas sobre o assunto trazem revelações bem assustadoras.

Por exemplo, um estudo publicado na revista New Scientist verificou que, nos EUA, o Uber cobra mais em áreas com população não branca. Outro estudo, feito pela Universidade de Oxford em parceria com a organização Worker Info Exchange (WIE), constatou que muitos motoristas de Uber estavam ganhando “substancialmente menos” desde a adoção do preço dinâmico em 2023. A WIE alega que o Uber violou regras de proteção de dados da União Europeia ao usar os hábitos dos motoristas para treinar os algoritmos, e agora está processando a empresa.

Eu não soube direito como ajudar o Lourival, a não ser dizendo a ele que há tentativas de regular essas empresas que acabam sendo derrotadas no Congresso porque os próprios motoristas são enganados pela Uber com campanhas mentirosas.

Mas para você, tenho dicas fáceis. Primeiro, verifique se o Uber está te cobrando mais do que a pessoa ao seu lado. Por exemplo, você pode pedir um Uber para um local e pedir para seu amigo ou familiar pedir para o mesmo endereço – os preços são muitas vezes desiguais, e quando testei aqui em casa chegaram a 20 reais de diferença.

Se for esse o caso, vai com o dessa pessoa – e faz um pix do valor.

Vale também ter outros Apps de corridas, como o 99 ou outros, para poder comparar os preços e ir no mais barato.

Terceiro: nunca aceite o primeiro preço. Abra o app, peça a corrida, feche o app e torne a verificar em 5-10 minutos.

No meu caso, quando pedi a corrida para a casa dos meus pais, em 7 minutos o valor caiu de R$ 100 reais para R$ 62 – uma queda de quase 40% o que só comprova que não havia nenhuma demanda real para o valor exorbitante nem algum fator externo, apenas a grande coincidência que na minha última visita acabamos indo para um hospital.

E, finalmente, converse com o motorista. Converse sempre. Ouça a sua história, faça com que ele conte o quanto a Big Tech o tem explorado, e avise: se os motoristas e os usuários não se unirem para apoiar uma regulação, o preço só vai aumentar e o salário só vai achatar.

Talvez você que lê essa coluna já tenha entendido, mas não custa lembrar: só conseguiremos vencer os abusos das Big Techs com ações coletivas.

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Redação Capital Brasília

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