A BYD, uma das maiores montadoras de carros elétricos do mundo, entrou — e saiu — da lista suja do trabalho análogo ao escravo brasileira em uma semana. Na verdade, em menos de três dias.
Na segunda-feira, 6 de abril, a montadora chinesa apareceu junto a outros 168 nomes na classificação do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que reúne pessoas e empresas responsabilizadas por trabalho escravo.
A lista traz apenas quem já foi autuado, teve direito à defesa administrativa e o processo passou por duas instâncias no ministério. Quem entra na lista fica nela por 2 anos, e o nome é retirado caso não apareçam novos casos e a situação seja regularizada junto à fiscalização.
A BYD, contudo, ficou menos de três dias na lista. A empresa entrou com um mandado de segurança na Justiça para sair do cadastro. Na noite de quarta-feira, 8 de abril, o juiz Luiz Fausto de Marinho Medeiros, da 16ª Vara do Trabalho de Brasília, entendeu que não ficou comprovada a existência de vínculo direto entre a BYD e os trabalhadores, e concedeu o pedido para retirada do nome.
“Não é possível vislumbrar a existência da subordinação estrutural, quando se percebe que o objeto social da impetrante é a fabricação de veículos, e o auto de infração menciona que os trabalhadores foram contratados para atuar na construção e instalação da fábrica da BYD no Brasil, o que afasta, em princípio, a inserção destes na estrutura organizacional da empresa”, escreveu o magistrado na decisão.
A reportagem procurou a BYD para se manifestar sobre a situação, que ainda não respondeu. O espaço segue aberto e caso haja manifestação, o texto será atualizado.
Fábrica da BYD na Bahia: Pública revelou denúncias de maus tratos a funcionários chineses
Ministério Público do Trabalho resgatou 163 trabalhadores chineses em fábrica da BYD na Bahia
As denúncias de infrações trabalhistas na BYD surgiram primeiro na Agência Pública, em uma reportagem de novembro de 2024. Na época, a Pública mostrou como quase 500 funcionários estariam em condições degradantes na construção da primeira fábrica de carros elétricos do Brasil, celebrada pelo governo baiano e pelo federal.
Os relatos e registros apontavam agressões físicas, alojamentos sujos, banheiros imundos e operários atuando sem equipamentos de proteção individual, com rotinas de 12 horas por dia, de domingo a domingo. A reportagem apontou que a BYD havia contratado cerca de 470 operários chineses através de três empresas do país asiático.
Em 2024, menos de um mês após a denúncia, o Ministério Público do Trabalho (MPT) resgatou 163 operários chineses que estariam sendo submetidos a condições análogas à escravidão.
No ano seguinte, a empresa foi processada pelo MPT por trabalho escravo e tráfico de pessoas junto às empresas terceirizadas que atuavam na instalação da fábrica. No início de 2026, a BYD fechou um acordo com o MPT, junto às terceirizadas, com o pagamento de R$ 40 milhões em danos morais individuais e coletivos.
Após a primeira denúncia da Pública, nova reportagem mostrou que a empresa teria instalado câmeras de filmagem nas áreas administrativas e nos galpões de obras para vigiar os funcionários. Além disso, segundo a denúncia, foi instalado um programa de computador que cria uma marca d’água com nome de cada funcionário para identificar de que máquina partiu materiais compartilhados com o público externo.
Procurada na época, a BYD disse, em nota, que “medidas relacionadas à proteção de segredos industriais são práticas comuns e essenciais em indústrias de ponta, especialmente para empresas líderes em inovação tecnológica” e que “essas ações refletem a responsabilidade de proteger ativos estratégicos e são adotadas de forma consistente, respeitosa e dentro da lei em todas as unidades de negócios do grupo”.