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Líder neonazista da Escandinávia vive em liberdade no Brasil

por Redação Capital Brasília
27 de maio de 2026
em Brasil, Política
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Líder neonazista da Escandinávia vive em liberdade no Brasil
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Criar uma colônia de supremacistas brancos e nazistas em Santa Catarina e, a partir de uma rede online, instigar ataques terroristas, tendo como alvos judeus e negros. Estes eram os objetivos de Vincent Alexander Pacheco Weidlich. Filho de mãe brasileira e pai alemão, nascido nos Estados Unidos, o homem de 36 anos foi preso pela Polícia Federal em Blumenau (SC), no fim de 2024, e condenado, em setembro de 2025, pela Justiça Federal, sob a acusação de terrorismo e incitação ao genocídio por meio da veiculação de material relacionado ao nazismo e ao discurso de ódio. Mas, menos de um ano depois, foi solto e segue em liberdade, em São Paulo. 

Naquele ano, a partir de uma denúncia no TikTok, a Polícia Federal interceptou publicações na rede social e grupos nas plataformas de mensagem Telegram e Signal em que ele convocava atos terroristas para o dia 16 de outubro – mesma data em que Adolf Hitler faz seu primeiro discurso público em uma reunião política e em que dez dos principais líderes nazistas foram executados após os Julgamentos de Nuremberg. 

De acordo com os documentos processuais aos quais a Agência Pública teve acesso, os alvos dos atentados convocados por Weidlich seriam grandes bancos, corporações de mídia e diversas empresas, além de sinagogas e mesquitas, “com vistas a propagar terror social e generalizado”, conforme destacou um dos documentos do processo judicial. Tudo isso teria como pano de fundo uma suposta revolução neonazista. “Vamos fazer deste um dia inesquecível”, afirmava ele nos grupos de mensagem. 

Os grupos mantidos pelo neonazista reuniam pelo menos 140 pessoas de vários estados brasileiros e até de outros países, como Alemanha, Suécia, Rússia e Estados Unidos. Ele se apresentava como um facilitador, oferecendo meios para aquisição de armas e também arquivos ensinando como fazer bombas. Segundo as investigações da PF, Weidlich operava ao menos dois perfis no TikTok para divulgar seus planos de criar a colônia neonazista e cooptar membros para grupos no Signal e no Telegram. 

Os dados levantados pela polícia apontam conexões diretas de números de celular e de IPs vinculados a Weidlich com a criação de ao menos dois perfis no TikTok, entre agosto e setembro de 2024, em que ele publicava supostas receitas de um possível explosivo caseiro com a mistura de diversos produtos químicos – um dos números cadastrados estava registrado justamente no endereço que ele apresentou à Justiça Federal em 2023 como sua residência, para justificar seu pedido de nacionalidade brasileira. 

Um dos grupos, no Telegram, segundo o processo, era intitulado “Black Sun Rising Militia”. O Sol Negro (Black Sun) é um símbolo frequentemente associado ao movimento neonazista e ornava a sede da SS (Schutzstaffel/Esquadrão de Proteção), organização paramilitar e polícia política do regime nazista. Todos os grupos foram extintos após a prisão dele, segundo a polícia.

Publicação na rede social Instagram do perfil “Black Sun Rising Militia”; o Sol Negro (Black Sun) é um símbolo frequentemente associado ao movimento neonazista

A PF fez buscas em um endereço ligado a Weidlich em São Paulo e encontrou uma máscara de gás, além de diversos materiais químicos que, de acordo com as investigações, poderiam ser utilizados para fazer bombas.

Segundo os documentos, após a detenção em Santa Catarina, Weidlich passou pouco mais de um ano recolhido, entre um Centro de Detenção Prisional e o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Doutor Arnaldo Amado Ferreira, em Taubaté.

Em 5 de fevereiro deste ano, ele foi liberado pela Justiça de São Paulo, após cumprir período de internação em um hospital psiquiátrico. “Em outras palavras, embora tenha cometido o crime, a falta de culpabilidade exclui a reprovabilidade da conduta”, registrou o juiz federal Marcelo Duarte da Silva. No dia 20 de fevereiro, já em liberdade, ele requisitou liberação de viagem para deixar o Brasil. Além do passaporte alemão, Weidlich também tem documentos norte-americanos e, desde 2023, a cidadania brasileira, que foi concedida também pela Justiça Federal.

Por que isso importa?

  • Weidlich mantinha grupos e perfis em plataformas como Signal e TikTok, com participantes de vários estados brasileiros e de outros países, onde convocava atos terroristas em bancos, sinagogas e mesquitas;
  • Apontado como um dos principais articuladores do movimento neonazista da Escandinávia, ele foi preso em Blumenau (SC), mas solto pouco tempo depois por alegação de insanidade mental. Agora, vive em São Paulo, onde aguarda liberação para sair do Brasil.

Colônia supremacista

No dia 21 de fevereiro de 2024, Weidlich lançou a seguinte proposta em um grupo do Telegram: “E se começarmos uma espécie de cidade nossa, como conseguir empregos/comprar terras/casas em uma cidade específica que já existe? Eu tive uma ideia parecida antes de começar uma micronação dentro da Noruega, mas isso não funcionou por causa dos ‘judeus’, pelo menos por enquanto. E Blumenau no Brasil?”. A ideia seria direcionada a “ultratradicionalistas, nacional-socialistas, nórdicos, germânicos e eslavos do oeste” – em suma, códigos para supremacistas brancos e neonazistas.

No Google Maps, um perfil vinculado a ele chegou a criar um local no bairro Velha, em Blumenau, que seria uma espécie de ponto de organização do projeto da colônia supremacista, com a oferta de serviços de aquisição de visto de trabalho e investimento imobiliário. Poucos dias antes de ser preso pela Polícia Federal, Weidlich informava nas redes sociais que estava abandonando os planos de Blumenau por um local na Rússia, nas imediações de Moscou, segundo as investigações.

A mensagem de “boas-vindas” do grupo no Telegram era direta: “Recém-chegados. O objetivo de nossa milícia é matar todos os judeus do mundo, enviar todos os negros e peles de merda de volta para onde vieram (ou matá-los se eles se recusarem). O caminho para o nosso objetivo inclui aumentar nossos números e nos armar com fogo, bombas, balas, etc., e obter mais exposição por meio do ativismo comunitário e clubes ativos, outros grupos nacional-socialistas e muito mais. Também estaremos intervindo para preencher os vácuos de poder que se abrirão em muitas de nossas nações, quando os governos entrarem em colapso”, destacava o trecho inicial, que se seguia. “Sim. Eu sou claramente um terrorista, isso deveria ser óbvio pelo nome do grupo, bem como pela mensagem de boas-vindas”.

Aparentemente temeroso de uma exposição por meio do Telegram e do Signal, Weidlich chegou a montar um grupo menor, com cerca de 40 membros, intitulado “Pátria do Passado”, no Signal. Nele estaria o núcleo principal da rede neonazista, que seria formado por empresários e por lideranças do partido “A Pátria”, agremiação alemã de extrema direita tida como a sucessora do partido nazista, apontam os documento do processo. O objetivo do grupo não seria ações terroristas, mas sim a criação da colônia “ariana” no sul do Brasil. Todo o plano de criação da comunidade, com 140 páginas, segue disponível on-line na plataforma Weebly, sediada nos EUA.

A reportagem fez contato com o TikTok e o Signal para saber como os grupos neonazistas foram mantidos ativos sem nenhuma intervenção das plataformas, mas não conseguiu retorno até a publicação. Também tentamos contato com a Weebly sobre a manutenção das informações da comunidade neonazista, mas não tivemos retorno até a publicação.

O plano de criação da comunidade neonazista, com 140 páginas, segue disponível on-line na plataforma Weebly, sediada nos EUA

Conexões brasileiras

A primeira passagem de Weidlich no Brasil foi em 2007. Aqui, ele fez trabalhos como DJ e conseguiu o registro do seu CPF. No ano anterior, a mãe dele estabeleceu negócios e residência no Rio Grande do Norte. A empresa São Jorge Empreendimentos teve sede inicial em uma residência de alto padrão nos arredores do campus central da Universidade Federal do RN, com direito a piscina e guarita de segurança.

Ele viveu na Inglaterra e em Kongsberg, na Noruega, onde passou cerca de dois anos. A cidade de 27 mil habitantes abriga o grupo Kongsberg, importante produtor de armas e sistemas de defesa do país. Uma investigação conduzida pela jornalista sueca My Vingren, publicada em 2023, aponta que ele mudou-se para a cidade justamente pela presença da empresa e que tentou abordar diversos membros da companhia, além de ter alugado a casa de um diretor do grupo.

Vingren identificou Weidlich como o principal articulador do movimento neonazista escandinavo na época, através de um grupo chamado Federação Nórdica, que disseminava conteúdos racistas, LGBTfóbicos e xenofóbicos. A história foi transformada no documentário “Hacking Hate”, dirigido por Simon Klose, que venceu o prêmio de sua categoria no Festival de Tribeca, em Nova York, já na sua estreia mundial, em junho de 2024.

Após ter sua atuação na extrema direita escandinava exposta, Weidlich apagou rastros digitais e fechou redes sociais

De acordo com a reportagem de Vingren, nos grupos da chamada Federação Nórdica ele falava constantemente sobre a importância do apoio militar aos grupos de extrema direita, que seria mais central até do que apoio político. “Primeiro tentamos votar pela mudança. Se isso não funcionar, então é uma tomada militar”, escreveu Weidlich. Após a exposição de sua atuação como mobilizador da extrema direita na Escandinávia, Weidlich passou a apagar seus rastros digitais. Contas em redes sociais foram deletadas ou fechadas.

Mesmo depois do documentário, Weidlich não foi preso. Ele deixou a região já perto do fim do primeiro semestre de 2022. Passou por Moscou e São Petersburgo, na Rússia, e Istambul, na Turquia, sempre frequentando locais de luxo. Isso tudo a poucos meses após a invasão russa à Ucrânia. Na época, sua companheira era russa. Ela esteve no Brasil até novembro de 2024, retornando ao seu país após a prisão de Weidlich, como apontam registros da Justiça Federal.

Ainda em 2022, o neonazista voltou ao Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Norte. Imagens publicadas em redes sociais dele e da pessoa que seria sua namorada, mostram registros nas praias do estado nordestino, incluindo a estadia em um dos mais caros hotéis da praia da Pipa, destino famoso da região, compras em shopping, visita a cafés e cabeleireiros da capital.

Em 2022, o neonazista voltou ao Brasil, no Rio Grande do Norte. Redes sociais mostram passeios, compras e hospedagem em hotel de luxo na praia da Pipa

Para além das redes sociais, naquele período, Weidlich também estabelecia-se como sócio de sua mãe na São Jorge Empreendimentos, que permanece em atividade. A empresa, no início de 2025, concluiu a infraestrutura de um condomínio de casas localizado a poucos quilômetros do Aeroporto Internacional de Natal, no que é o único registro de empreendimento da empresa no Rio Grande do Norte em 17 anos. A área, no entanto, até a publicação desta reportagem não dava sinais de ocupação ou construção de casas, nem muito menos anúncio de vendas dos lotes. Segundo os documentos de registro, o terreno tem mais de 69 mil m² e o loteamento terá 200 terrenos de 200 m².

Outros rastros mostram a conexão permanente de Weidlich no Brasil, mais especificamente em São Paulo, nos meses seguintes à sua passagem pelo Rio Grande do Norte. Novamente, registros nas redes sociais dele indicam diversos passeios e estadias em hotéis na capital e no interior paulista, bem como visitas a Gramado, no Rio Grande do Sul. Em março de 2023, por intermédio de um advogado, ele apresentou à Justiça Federal em São Paulo uma petição pela opção de nacionalidade brasileira.

A alegação central era de que não ter a nacionalidade estava causando constrangimento e impedindo a vida plena dele no país, incluindo nisso abertura de conta bancária, e que a “vida civil” estaria dependente da mãe. Na condição de filho de brasileira e apresentando o contrato de aluguel de um apartamento com valor mensal superior aos R$ 6 mil, ele conseguiu que seu pedido fosse atendido cinco meses após a abertura do processo.

A vida no Brasil

Assim que voltou ao Brasil, em meados de 2022, também por meio de um perfil no TikTok, Weidlich postava vídeos e mensagens em português sobre o Grupo Wagner, algumas delas tratando de convocação para atuar na organização paramilitar russa. O Grupo Wagner notabilizou-se mundialmente a partir da invasão à Ucrânia como um importante braço armado de Vladimir Putin, mas que antes atuava em missões na Síria e em países da África utilizando, para além dos fuzis e pistolas, táticas de desinformação e desestabilização social e política. O time de mercenários também é conhecido por frequentemente contar com neonazistas em suas fileiras – o próprio nome do grupo é em homenagem ao músico alemão Richard Wagner, antissemita e compositor de ópera favorito de Hitler.

A presença em Blumenau também dá pistas das intenções de Weidlich. A cidade catarinense, que já passou por diversas operações policiais de combate a células neonazistas, foi a primeira visitada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) em 2024 dentro do trabalho da relatoria especial criada pelo órgão para o enfrentamento ao neonazismo no Brasil.

A missão é chefiada pelo advogado Carlos Nicodemos. “Quando assumi essa relatoria não tinha ideia do tamanho do problema. São inúmeros casos. A crescente presença do neonazismo na nossa sociedade precisa ser enfrentada de forma sistemática. No caso de Blumenau, encontramos dificuldade até com as autoridades, que, em tese, investigariam os crimes, mas questionavam a existência do problema. Ainda temos muito trabalho pela frente, mas já tenho claro que precisamos de mudanças de postura, de legislação, e o neonazismo deve ser combatido a nível federal”, disse ele, que representa os movimentos sociais dentro do CNDH.

Ainda segundo Nicodemos, o fato de Vincent Weidlich já estar solto após pouco tempo da operação policial que o prendeu reforça a necessidade da mudança de olhar institucional para a questão do neonazismo no Brasil. “A sentença retrata o cenário nacional quanto à ausência de uma política nacional para o efetivo enfrentamento ao tema. A ausência de uma institucionalidade normativa objetiva leva o Judiciário à busca de ajustes normativos penais atípicos. É deste contexto que nascem decisões judiciais como nesse caso, que atacam a questão normativamente, mas se furtam, se omitem no campo das políticas públicas”, completou o relator.

Procurada por e-mail e por telefone, a defesa de Vincent Weidlich não deu retorno à reportagem até o fechamento da matéria. Procuradoria do MPF e delegacia da PF em São Paulo alegaram sigilo no caso e não quiseram comentar.

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