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Além do Globo de Ouro: a ditadura e o poder civil exibidos ao mundo por “O Agente Secreto”

por Redação Capital Brasília
12 de janeiro de 2026
em Brasil, Política
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Além do Globo de Ouro: a ditadura e o poder civil exibidos ao mundo por “O Agente Secreto”
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Cartaz de divulgação do filme "O Agente Secreto"
Cartaz de divulgação do filme “O Agente Secreto”

No filme “O Agente Secreto”, que venceu neste domingo o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, a ditadura militar no Brasil não foi apresentada ostensiva, como de costume nos documentários. Não há tanques, nem soldados nas ruas. A ditadura retratada pelo diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho é quase invisível a olho nu (ou desinformado), mas está presente o tempo todo, nos detalhes. E isso é tudo que se pode dizer até aqui se o leitor não assistiu à obra pré-selecionada para o Oscar e não é afeito a spoilers. Continue por sua pirraça e risco.

A história ficcional, escrita por Mendonça, acompanha o retorno ao Recife do ex-professor universitário Armando Solimões, vivido por Wagner Moura, numa tentativa de resgate do próprio filho para tentar fugir do país no ano de 1977, quando a ditadura, supostamente, está perto do fim. A capital pernambucana ferve em meio ao Carnaval e a população se distraía com a história sensacionalista da perna cabeluda, que atacaria os amantes em um parque da cidade (rumor que, de fato, já circulou e foi publicado por jornais locais).

Por que isso importa?

  • É preciso entender as nuances da ditadura, que alguns descreveram como “discreta” num produto que apresenta o contexto histórico brasileiro a públicos de todo o mundo para apreender o nível de realidade apresentado num produto fictício que bebe na história nacional.
Wagner Moura interpreta o ex-professor universitário Armando Solimões

A relação entre empresas e a ditadura

Armando usa o nome falso de Marcelo Alves para voltar à cidade. Há contra ele uma ordem judicial que o impede de deixar o país. Uma investigação criminal no Ministério Público Federal pesa contra o professor envolvido num feudo com o empresário Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), dono da Ghirotti Energia, empresa de São Paulo com ligações diretas com a ditadura militar. Os dois se cruzaram quando Armando, em 1975, foi destacado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) para receber Ghirotti em reunião do departamento de engenharia elétrica da universidade, para tratar da patente de um carro elétrico com bateria de lítio, que atrapalharia os planos da empresa.

A ligação entre o poder civil aliado da ditadura e sua capacidade de articulação para destruir adversários, velhas conhecidas dos leitores da Agência Pública que já tiveram contato com a série “Empresas Cúmplices da Ditadura”, é o eixo narrativo do perigo que conduz a história de O Agente Secreto. 

Na vida real, antes mesmo do golpe militar de 1964, empresas se reuniam com militares golpistas, planejando como seria “fatiado o bolo”, como aconteceu em Minas Gerais, por exemplo, com a participação da Belgo Mineira e da Mannesmann. Outras empresas, como a Folha de S. Paulo, tinham entre seus funcionários agentes da ditadura. No jornal, os irmãos Quass, lotados no Dops, chefiavam a segurança. 

Os registros históricos mostram que alguns empresários “metiam a mão na massa”, caso de Albert Boilesen, dono da Ultragaz, que gostava de ir pessoalmente à Oban (futuro Doi-Codi) assistir às torturas que financiou. “Duas companheiras foram torturadas na presença dele e sob orientação dele”, conta o ex-preso político Ivan Seixas, mestre em história pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Ao saírem da prisão, as duas mulheres reconheceram Boilesen, que foi assassinado por guerrilheiros em abril de 1971, em São Paulo. 

Como muitos civis influentes na ditadura real, o empresário fictício Ghirotti exerce papel duplo, sendo representante da indústria no conselho da Eletrobrás, e usa seu poder para desmantelar o departamento da UFPE. Além disso, não pega diretamente em armas contra Armando, mas contrata o ex-capitão do Exército Augusto (Roney Villela) e seu enteado para eliminá-lo, com a ajuda de policiais civis. Um modus operandi inspirado em fatos recorrentes cuja semelhança com a realidade pode ser vista ou não como coincidência, dependendo de a quem você questione.

Em cena, Dona Sebastiana,  personagem interpretada pela atriz Tânia Maria
Em cena, Dona Sebastiana, personagem interpretada pela atriz Tânia Maria

Comunidade em risco: abrigo, apoio e planos de fuga

É uma entidade de defesa dos direitos humanos criada por opositores do regime militar que ajuda Armando a conseguir uma identidade falsa e documentos para viabilizar a fuga dele e do filho a partir do Recife. A organização visava apoiar perseguidos como o professor. O abrigo na capital pernambucana antes da tentativa de sair do país, é no Edifício Ofir, onde o personagem de Wagner Moura conhece Dona Sebastiana (Tânia Maria) e diversos outros personagens que formam uma espécie de comunidade, em que quase todos os integrantes são ameaçados de morte. 

Na vida real, os registros históricos mostram que ao menos duas instituições ligadas à Igreja Católica, a Cáritas, no Rio de Janeiro, e a Clamor, em São Paulo, atuavam de forma semelhante à situação retratada no filme, dando suporte a estrangeiros, especialmente fugidos das ditaduras do Cone Sul.

No Rio, a Cáritas, com o apoio insuspeito do cardeal dom Eugênio Salles, entre 1976 e 1982, recebeu estrangeiros que buscavam apoio no Brasil para fugir de outras ditaduras sul-americanas, em especial da Argentina, Chile e Uruguai. Os refugiados eram abrigados no próprio Palácio de São Joaquim, na rua da Glória, sede da arquidiocese do Rio, e não eram perseguidos pelo regime brasileiro, a pedido do cardeal, como trazem o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e a dissertação de mestrado em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF) de Bárbara Geromel Campanholo, “Antes do Refúgio: A História Não Contada da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro”.

A Cáritas não providenciava documentos, mas fazia a ponte entre os estrangeiros e o ACNUR, órgão para refugiados da ONU, pois o Brasil não podia abrigar sul-americanos como refugiados, de acordo com a legislação da época, explica Campanholo. Do Brasil, os argentinos, chilenos e uruguaios eram encaminhados, em sua maioria, para a França e a Suécia. “A Cáritas fazia o acolhimento social, de organizar moradia. Havia atendimento psicológico e médico também”, explica a historiadora.

A situação mostrada no cinema, afirma Bárbara, também lembra o trabalho do Comitê pelos Direitos Humanos no Cone Sul (Clamor), que atendia estrangeiros que queriam ficar no Brasil, ainda que na clandestinidade. “O Clamor [que existiu entre 1978 e 1991] tinha muita essa preocupação da denúncia. Eles editavam um boletim no qual denunciavam violações de direitos humanos e colhiam as informações com esses refugiados”, afirma.

A solidariedade com opositores da ditadura no exílio ou na clandestinidade poderia custar a vida ou a liberdade de quem tentasse ajudar. O deputado federal cassado Rubens Paiva foi sequestrado, torturado e morto por supostamente receber e encaminhar cartas de refugiados no Chile, como visto no filme brasileiro “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2025. 

Cena do filme “O Agente Secreto”

Mortes banalizadas: a união entre polícia e pistoleiros

Em O Agente Secreto, cabe ao ex-militar e matador por encomenda Augusto (Roney Villela) a missão de assassinar o professor Armando. E, ao chegar ao Recife, é um delegado de polícia que ele busca para pedir ajuda para cumprir o crime encomendado. Os dois se reúnem dentro de uma viatura de polícia em que dois suspeitos de roubo estão prestes a ser executados. O movimento não é mera ficção cinematográfica.

No relatório da Comissão Nacional da Verdade há relatos de operações cruzadas entre os órgãos de repressão. O delegado da Polícia Civil do Espírito Santo Claudio Guerra confessou à CNV o que havia dito no livro “Memórias de Uma Guerra Suja”: que foi a São Paulo realizar assassinatos para o Doi-Codi e, no Rio de Janeiro, levou para incinerar em Campos de Goytacazes os corpos das vítimas da Casa da Morte, comandada pelo Centro de Informações do Exército, em Petrópolis. 

Já o delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops, de São Paulo, realizou várias operações em conjunto com o Centro de Informações da Marinha (Cenimar), no Rio de Janeiro. Em Pernambuco, Fleury comandou o Massacre da Chácara São Bento, na Região Metropolitana do Recife, que dizimou seis membros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e teve apoio das Polícias Civil e Militar, além, do apoio crucial do ex-militar cabo Anselmo, infiltrado na VPR e que entregou a própria namorada Soledad Barret Viedma, morta grávida. 

Também em Pernambuco ocorreu o caso do Teatrinho da Caxangá, uma ação que envolveu o Doi-Codi de São Paulo, do Recife, o Exército na Bahia, e forças policiais locais, para simular um falso tiroteio entre membros da Ação Popular Marxista Leninista. “Casos como estes criaram no Recife, como o filme muito bem retrata, uma sensação de estado policial, a banalidade do mal descrita por Hannah Arendt. E essa banalidade vai produzindo a execução sumária, a morte de pessoas inocentes e de pessoas presas sem o devido processo legal”, afirma o professor de direito da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Manoel Moraes, integrante da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. 

Moraes vê, por exemplo, a aparição da “perna cabeluda” no filme como uma resposta distópica à ditadura, uma vingança dos corpos jogados no mangue e depois devorados pelos tubarões. “É uma crônica da realidade de execuções sumárias que eram praticadas naquela época e a perna é uma reação ao mal-feito, à indignidade da ditadura”, afirma.

O doutor em sociologia e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Lucas Pedretti acrescenta que, a partir de 1967, a ditadura passou a intervir na autonomia dos Estados na área de Segurança Pública. “Os cargos de secretário de segurança pública passam a ser indicados pelo governo federal e as polícias militares passam a ser definidas como força auxiliar do Exército e isso faz com que o aparato policial comum, digamos assim, passe a ser guiado pela lógica da doutrina de segurança nacional, do combate ao inimigo interno”, afirma. 

Capa do livro "O Agente Secreto", com roteiro de Kleber Mendonça Filho
Capa do livro “O Agente Secreto: um roteiro de Kleber Mendonça Filho”

Memória x História

No texto “A História na ordem errada”, prefácio do livro “O Agente Secreto: um roteiro de Kleber Mendonça Filho”, o diretor e roteirista diz que queria “reconstruir uma atmosfera histórica que fosse verídica, mas cuja trama fosse ficcional e fantasiosa. A lógica, o sabor e o cheiro do Brasil – num momento histórico brasileiro – seriam verdadeiros”.

O roteiro foi preparado durante a pandemia, durante o governo Bolsonaro. “Foi escrevendo o roteiro que eu percebi como o conservadorismo do Brasil no século 21 era uma versão nostalgia-cor-de-rosa da ditadura civil-militar do século 20. Não só a ditadura retardou o desenvolvimento da sociedade brasileira em pelo menos trinta anos, como deixou milhões de brasileiros confusos sobre o que significa viver num país moral e democrático”, escreveu. 

O diretor afirma que ‘a lógica histórica do Brasil permanece intacta em vários níveis da nossa vida nacional, e não são cinquenta anos que vão nos distanciar de um país tão íntimo de nós mesmos”.

O “Agente Secreto” é, enfim, um filme sobre a memória do Brasil, aquela real e histórica que a maioria de nós conhecemos e que outra parte de nós tenta negar, combinadas com as memórias de cada um, as que não seguem a lógica histórica. Resta saber se a democracia no Brasil seguirá forte o bastante para que os momentos mais infames vividos pelo país não se repitam. 

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