Em 2022, logo depois do primeiro turno eleitoral, o hoje conselheiro sênior para políticas sobre o Brasil do Departamento de Estado do governo Trump, Darren Beattie, participou do podcast de Steve Bannon para comentar a eleição brasileira e concordou com suspeitas infundadas sobre o resultado.
Na ocasião, o ex-redator de discursos da Casa Branca disse que havia muito em jogo no pleito brasileiro, definido por ele como uma competição entre um “representante exatamente do tipo de nacionalismo que todos nós queremos e apoiamos”, Jair Bolsonaro, e “a versão mais destrutiva e corrosiva” do comunismo, representada por Lula.
Beattie ainda disse “reforçar” as suspeitas levantadas pelo jornalista americano Matthew Tyrmand sobre o resultado do primeiro turno, como mostrou reportagem da Agência Pública, que à época acompanhava o podcast War Room, criado por Bannon, ex-estrategista de Trump e amigo da família Bolsonaro, para entender como a extrema direita americana estava tratando o pleito brasileiro.
“Houve fraude lá, definitivamente houve fraude lá”, disse Tyrmand, sem apresentar nenhuma prova, apenas citando como indicativos o fato de que as primeiras urnas apuradas naquele primeiro turno deram vantagem a Bolsonaro e os resultados das eleições para o Senado, em que o partido do ex-presidente fez a maior bancada. “Eu quero ecoar e reforçar a excelente análise do nosso amigo Matthew Tyrmand”, disse Beattie na sequência.
Para ele, a eleição brasileira era “crucial” e um possível “ponto de virada” para a política global dependendo do vencedor. No podcast, Beattie afirmou ainda que o pleito do Brasil tinha dinâmicas similares às dos Estados Unidos: “de trapaças até a censura promovida pelas big techs”. Na ocasião, Tyrmand citou a análise conduzida pelo Ministério da Defesa sobre as urnas eletrônicas. Em novembro daquele ano, após o segundo turno que deu vitória a Lula, a pasta entregou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um relatório no qual não apontou a existência de fraude ou inconsistência nas urnas e no processo eleitoral.
Quase quatro anos depois, Beattie fará uma visita ao Brasil a partir de segunda-feira (16) com o objetivo de entender o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro, como noticiou a Folha de S.Paulo. Após um pedido da defesa de Bolsonaro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes autorizou a visita de Beattie a Bolsonaro na prisão, na próxima quarta-feira (18).
A Pública questionou o Departamento de Estado do governo americano sobre os objetivos da visita de Beattie e qual seria o motivo do encontro com Bolsonaro. O órgão se limitou a responder que Beattie viajará ao Brasil para “avançar a agenda de política externa America First [EUA em 1º lugar, em tradução livre]”. “America First” é uma diretriz do governo Trump de priorizar os interesses do país em decisões políticas internas e externas.
A defesa de Bolsonaro agora pede reconsideração da data do encontro por restrições da agenda do norte-americano, que deve participar de um evento sobre minerais críticos na quarta-feira em São Paulo.
Bolsonaro está preso no 19º Batalhão da Polícia Militar no Distrito Federal, no Complexo Penitenciário da Papuda, conhecido como “Papudinha”. Ele foi condenado a 27 anos de prisão por golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, organização criminosa armada, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.
Governo levanta suspeita de interferência
Nesta quinta-feira (12), Moraes perguntou ao Ministério das Relações Exteriores informações se Beattie terá agenda diplomática no Brasil e se ele fez uma solicitação para visitar o ex-presidente na prisão. O ministro Mauro Vieira informou que a visita “de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”.
O pedido de Moraes por mais detalhes veio depois de reportagem da Folha revelar que, até esta quarta-feira (11), Beattie não havia solicitado nenhuma reunião com o Planalto ou o Itamaraty. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também disse que não recebeu nenhum pedido de reunião com o conselheiro de Trump, ainda que pessoas ligadas a Eduardo Bolsonaro tenham dito antes ao jornal que Beattie teria agenda com o TSE.
