A rotina da família Fontenele nunca mais foi a mesma após a morte do pedreiro Francisco das Chagas Fontenele, de 56 anos, assassinado durante uma operação da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PM) em um baile funk no Jardim Macedônia, área do Capão Redondo, na Zona Sul da capital paulista. Além da dor de enfrentar um luto, os familiares afirmaram à Agência Pública que têm sido seguidos e abordados de forma constante por policiais militares.
Na madrugada do último sábado, 14 de março, Francisco Fontenele e Kauan Gabriel Cavalcante Lima, de 22 anos, foram mortos em uma ação da PM durante um baile funk. Outras cinco pessoas ficaram feridas. Segundo os policiais militares, houve uma troca de tiros entre os agentes e suspeitos que estariam em duas motos.
Fontenele foi atingido no abdômen, enquanto ia para o trabalho. Já Lima, segundo familiares, foi baleado quando seguia para a casa de sua namorada, que fica próxima ao local onde acontecia o evento. Segundo informações da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSPSP), todos os policiais envolvidos na ocorrência foram afastados das atividades operacionais e cumprem funções administrativas.
Na última segunda-feira, 16 de março, enquanto voltava do velório de Fontenele, um dos familiares – cuja identidade será preservada por pedido do entrevistado – foi abordado por policiais, que apontaram uma arma e questionaram: “Para onde você vai?”
“Nós chegamos do cemitério […] e eles colocaram o fuzil na cara do meu cunhado, que respondeu: ‘estou indo pra casa’”, contou a técnica de enfermagem Milena Santos Fontenele, de 32 anos, filha do pedreiro.
A rotina de abordagens não parou por aí. Nesta quarta-feira, 18 de março, a técnica de enfermagem saía de casa, quando passou por uma praça que há no bairro, o que chamou a atenção dos PMs. “Eles viram a gente saindo da viela e automaticamente vieram atrás”, relatou.
Na noite da terça-feira, 17 de março, familiares, amigos e moradores do bairro caminharam pela rua Póvoa de Varzim vestidos com camisetas brancas, segurando balões, velas e cartazes para pedir por justiça. Foi um ato simbólico para exigir que as autoridades investiguem o caso com profundidade e também um pedido de paz à periferia.
Logo após o ato, amigos e familiares de Fontenele seguiam para casa, quando foram, mais uma vez, abordados pela Polícia Militar. “Quando a gente chegou na entrada da viela [onde moram], mandaram a gente remover a camiseta e enviaram mensagem para a imprensa falando que a gente ia fazer uma manifestação queimando colchões e pneus”, disse Milena Fontenele.
Comunidade do Jardim Macedônia realizou um ato pedindo justiça para Franscisco Fontenele e Kauan Lima
Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP), sob gestão do secretário delegado Osvaldo Nico Gonçalves, respondeu que “até o momento, a Corregedoria da PM não recebeu denúncia relacionada ao caso e permanece à disposição para registrar e apurar todas as informações relatadas”. [Leia aqui a nota na íntegra]
Família da vítima é gravada pela Polícia Militar
Milena estava dormindo quando foi acordada pela mãe, que dizia: “o seu pai levou um tiro no pé e está ferido na viela”. Ambas seguiram com rapidez para socorrê-lo o mais rápido possível. No entanto, quando chegaram no local, encontraram o pedreiro caído e com um ferimento no abdômen.
“[Ele] estava jogado no chão, cercado de polícia, e não deixaram a gente socorrer o meu pai”, contou Milena.
Francisco das Chagas Fontenele, 56 anos, foi alvejado por policiais militares enquanto ia para o trabalho
“Quando eu cheguei, eles [policiais] falaram que o meu pai fugiu da abordagem e que tinha trocado tiros. Falei que era impossível o meu pai ter feito isso, porque ele não aguentava correr, tinha oito hérnias de disco. [Além disso] não tinha como o meu pai ter trocado tiros, porque ele nunca teve arma e nenhuma passagem pela polícia. E não me deixaram tocar no meu pai”, relatou Milena Fontenele em tom de inconformidade.
Enquanto a família lutava pelo direito de fazer o resgate do pedreiro, os policiais militares passaram a filmar e tirar fotos de todos aqueles que pediam para levá-lo ao pronto-socorro o mais rápido possível.
Segundo a família, depois de muita insistência, foi possível carregar Fontenele até o carro de um vizinho e levá-lo até o pronto-socorro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Jardim Macedônia, mas, ele já havia falecido.
Segundo a SSP, “em ocorrências com necessidade de socorro, o atendimento segue o Procedimento Operacional Padrão (POP), que prevê o resgate por equipes especializadas do Corpo de Bombeiros ou do SAMU, evitando a remoção por terceiros e possíveis danos às vítimas.”
Por que isso importa?
Número de pessoas mortas por policiais militares em serviço cresceu em 2025 na comparação com 2024, chegando ao total de 672 vítimas, segundo o Ministério Público.
O mesmo levantamento aponta que em 2024, foram 653 mortes, um número bastante expressivo frente aos óbitos da mesma natureza em 2023: 357.
Kauan Lima sonhava em construir uma família
Lima estava com o seu primo, quando decidiu ir ao encontro da namorada, que mora a poucas ruas de distância de onde ocorria o baile funk. Nas últimas mensagens trocadas com a mãe, o jovem de 22 anos manifestava preocupação com o evento no caminho até a casa de sua companheira. “Fecha a porta, tá tendo baile na praça […]”, escreveu por volta das 03h20.
Kauan Lima, 22 anos, foi acusado pela PM de ter atirado contra os policiais, mas não há provas desse fato
O jovem nunca chegou à casa da namorada. Foi baleado no peito e no abdômen. Mesmo ferido, conseguiu pilotar por mais alguns metros, até colidir no portão de uma casa, onde os moradores fizeram o seu resgate e o encaminharam até a UPA do Jardim Macedônia, onde morreu.
“Era muito bom ter ele como filho, era muito educado, muito divertido. Ele brincava muito com a irmã, de 2 anos, era muito extrovertido”, descreveu o armador de ferragens Luciano Dias Lima, de 42 anos.
O pai de Lima disse ainda que estava pagando um curso de eletricista para ajudar o filho a crescer profissionalmente. Segundo o pai, o jovem sonhava em construir uma família com a namorada, vender a moto e comprar um carro.
“Ele falou pra minha esposa: ‘mãe, eu vou vender minha moto, vou comprar um carrinho pra mim’. Eu ia dar meu carro pra ele, porque a felicidade de ver meu filho querendo conquistar as coisinhas dele é a felicidade de qualquer pai”, desabafou.
Como se o luto não bastasse, os pais ainda precisam encarar o fato de o filho ter sido acusado como um dos autores dos disparos que supostamente levaram os PMs a reagirem com os disparos, o que também foi registrado no Boletim de Ocorrência (B.O.). A afirmação gerou revolta na família, que nega veementemente que ele tivesse uma arma.
“Pensa você escutar toda hora na televisão que o seu filho estava armado, atirando […] Não dá para acreditar, não. Estão inventando que a arma estava com ele. Infelizmente, para quem mora na periferia, a gente tem que escutar e aceitar. A nossa [palavra] não vale de nada”, disse.
A família pretende recorrer à Defensoria Pública do Estado de São Paulo para transformar o atual luto em justiça.
PM que registrou B.O. não presenciou tiroteio
Na tarde de sábado, 14 de março, o caso foi formalmente registrado no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), divisão encarregada de investigar mortes ocorridas em decorrência de intervenção policial na capital paulista.
Segundo o B.O., quem apresentou o caso à Polícia Civil foi a policial militar Ana Julia Leal de Araujo, e que ela não presenciou o confronto. “A policial militar condutora da ocorrência disse que foi designada para apresentar a ocorrência no DHPP […] que não presenciou o confronto, e sobre o mesmo apenas tomou ciência pelo policial militar envolvido na ocorrência sobre as respectivas circunstâncias”, diz o documento.
Em ocorrências policiais, é comum que os agentes diretamente envolvidos na ação sejam também encarregados de apresentar o caso à Polícia Civil, instituição que deve prosseguir com as investigações.
Apenas um tenente, identificado no B.O como Rogger Milton Barbosa, é citado no documento como o autor dos disparos, tendo o seu fuzil apreendido. Também consta, como recolhido pela Polícia Civil, uma pistola de calibre 32, que supostamente foi usada por um dos suspeitos de iniciar o conflito.
Ainda de acordo com o boletim de ocorrência, o 37º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M), onde os PMs envolvidos na ocorrência são lotados, foi comunicado sobre o registro das câmeras corporais e sobre a disponibilização do material para as investigações.
A nota da SSP disse que o caso segue sob investigação pelo DHPP e também por um inquérito policial militar. A pasta acrescentou ainda que “os policiais envolvidos na ocorrência encontram-se afastados temporariamente do serviço operacional, cumprindo funções administrativas, e passam por avaliação interna.”