
O colapso: um dia que ainda exige respostas
Em 17 de novembro de 2025, por volta das 22h, o banqueiro Daniel Vorcaro foi detido pela Polícia Federal (PF) no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Ele tentava embarcar num jato particular com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, com escala em Malta. No celular que carregava, havia uma mensagem enviada horas antes, que tem sido atribuída ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes — que negou a troca de mensagens: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” O que Moraes teria respondido permanece desconhecido — as mensagens foram trocadas no modo de visualização única, que desaparecem no momento em que o destinatário as lê.
Naquele mesmo dia, Vorcaro participou de uma videoconferência com o diretor de fiscalização do Banco Central (BC), Ailton de Aquino. Na ocasião, afirmou que o Master tinha uma proposta de compra do Grupo Fictor e de um consórcio de investidores árabes — mas não apresentou documentos.
“O controlador limitou-se a relatar iniciativas que alegadamente estariam em curso”, registrou o BC em relatório enviado ao Tribunal de Contas da União (TCU). Às 15h29 daquele dia, o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, havia assinado a ordem de prisão de Vorcaro. Dezoito minutos depois, a defesa do banqueiro enviaria uma petição à mesma vara pedindo que fossem barradas “medidas cautelares eventualmente requeridas”. Às 17h24, o Master anunciou a venda ao grupo Fictor por R$ 3 bilhões. Segundo mensagens vazadas da investigação, dois minutos depois, às 17h26, Vorcaro escrevia para alguém identificado como Moraes. Às 22h, o banqueiro foi preso pela primeira vez em Guarulhos.
Periciadas pela PF nas semanas seguintes, as mensagens no celular de Vorcaro se tornaram o centro de um dos escândalos mais recentes da política brasileira. O que estava armazenado no aparelho começou a vazar para a imprensa em cascata após a sua segunda prisão, na semana passada, no dia 4 de março: jantares com o presidente da Câmara, Hugo Motta; conversas com senadores como Ciro Nogueira; contratos milionários com o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes; e mensagens íntimas com a então namorada e influenciadora, Martha Graeff. O conteúdo provocou um terremoto que atravessa o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, impactando principalmente o STF.
Mas o celular guardava ainda outra camada, mais sombria. Nele, a PF encontrou mensagens que revelavam a existência de uma estrutura paralela de coação e violência — batizada, num grupo de WhatsApp, de “A Turma” — liderada por um homem identificado como “Sicário”. Segundo a PF, Vorcaro integrava uma organização criminosa que atuava como “milícia privada”, recorrendo à violência e à coação contra adversários do banqueiro. Esse dado, que seria confirmado apenas na terceira fase da Operação Compliance Zero da PF, até então desconhecido, impulsionou a segunda prisão de Vorcaro na semana passada.
Por que isso importa?
- O caso Master foi considerado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), como a maior fraude bancária da história do Brasil, e talvez uma das maiores do mundo.
- O Banco Central já liquidou 8 instituições financeiras em função das fraudes do Banco Master e o FGC deve arcar um prejuízo que pode chegar a cerca de R$ 52 bilhões.
Como chegamos até aqui? O esquema de Daniel Vorcaro
Parte dessa história começa em 2017, quando o banqueiro tentou, pela primeira vez, obter autorização do BC para assumir o controle do Banco Máxima, instituição que mais tarde seria rebatizada de Master. À época, o pedido foi rejeitado por Sidnei Marques, então diretor de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central. Vorcaro não desistiria.
Uma reportagem do ICL Noticias, desta segunda-feira, 9 de março, afirma que a operação de compra do Banco Máxima por Daniel Vorcaro, tinha entre seus investidores, Oliver Ortiz de Zarate Martin, um narcotraficante espanhol. Segundo a matéria, a relação entre Martin e Vorcaro foi constituída por meio do operador Benjamim Botelho de Almeida, ligado à corretora Sefer Investimento. Por sua vez, a Sefer administrava fundos do Grupo Aquilla, administrado por Botelho, com investimentos de Martin, e que participou, em 2017, da compra do Banco Máxima.
Dois anos depois, em 9 de fevereiro de 2019, um sábado, Vorcaro enviou uma mensagem a Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor de Fiscalização do BC — mensagem recuperada pela PF no iCloud do banqueiro e enviada à CPMI do INSS, conforme revelou o Estadão. O tom era de quem se sentia injustiçado: “Estou há dois anos sendo rechaçado, humilhado pelo BC, mesmo depois de ter feito todas as mudanças e concessões”. E o pedido, direto: “Precisamos resolver isso, precisamos de sua ajuda para que o Sidnei aprove agora, antes da sua saída.”
Dois dias depois, Vorcaro e Isaac Sidney, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), se reuniram com Souza. A autorização não veio de imediato, mas, em agosto de 2019, o BC voltou a analisar o pedido. O Banco Máxima foi autorizado, rebatizado de Master e passou a crescer de forma acelerada. O modelo era agressivo em relação aos padrões de investimento no país: CDBs com taxas que chegavam a 140% do CDI, vendidos com o argumento de que estavam cobertos pelo FGC — o Fundo Garantidor de Créditos, que assegura o reembolso de até R$ 250 mil por pessoa física em caso de liquidação do banco. O que os investidores não sabiam era que o banco de Vorcaro estava construindo um castelo de areia enquanto seu criador vivia uma vida nababesca, com direito a festas luxuosas dentro e fora do país.
Paulo Sérgio Neves de Souza, o mesmo diretor de fiscalização que Vorcaro havia abordado naquele sábado de 2019, seria mais tarde identificado pela PF como um dos servidores do BC cooptados pelo Master. Segundo as investigações da terceira fase da Operação Compliance Zero, ele e Belline Santana — ex-chefe do departamento de supervisão do órgão regulador — recebiam uma “mesada” de Vorcaro para atuar de dentro do BC em favor do banco — nomeados para seus cargos durante a gestão de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, nomeado para o cargo por Jair Bolsonaro em 2019.
O crescimento do Master se deu em um ambiente regulatório que, ao menos por um período, foi considerado permissivo por analistas. Durante todo o primeiro semestre de 2024, o BC deixou passar operações mais do que suspeitas e assistiu passivamente à crise contínua de liquidez do banco: de um mínimo de R$ 15 bilhões esperados para garantir essa liquidez, o Master captou apenas R$ 2 bilhões. O barco seguiu com o reforço dos aliados de Vorcaro no Congresso Nacional.
Como os fundos de renda fixa do Master dependiam fortemente do FGC, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) — que ficou conhecida como “emenda Master” — quadruplicando o valor da cobertura do FGC, que passaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. A proposta foi rejeitada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em agosto de 2024, após resistência dos grandes bancos tradicionais, que contribuem com a maior parte do valor desse fundo e também contam com lobistas no Congresso.
Em 2024, o esquema começou a desmoronar. Em agosto de 2025, Vorcaro se reuniria com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, para definir, segundo suas próprias palavras, em mensagem vazada com a então namorada, Martha Graeff, uma “estratégia de guerra”. Ibaneis afirmou que os encontros foram rápidos e que nunca discutiu a aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB), que tem como maior acionista o governo do DF.
A aproximação entre o Master e o BRB não foi espontânea. Em julho de 2024, o BRB começou a comprar carteiras de crédito inexistentes do Master — negócios que chegariam a R$ 12 bilhões, segundo estimativa da PF. Os interlocutores de Vorcaro no BRB, que o teriam aproximado de Ibaneis Rocha, seriam o senador Ciro Nogueira e o presidente do União Brasil, Antonio Rueda.
Sob o governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, o partido comanda a Rioprevidência, que, por sua vez, comprou quase R$ 1 bilhão em letras podres do Master. Este não foi o único fundo de funcionários estaduais arrastado para o esquema: no Amapá, onde o amigo de Vorcaro é o senador Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, o prejuízo foi de R$ 400 milhões.
A triangulação com o BRB tinha uma engrenagem específica: o Master firmou contratos com uma empresa recém-criada chamada Tirreno, que os investigadores da PF identificaram como de fachada, criada pelo próprio Vorcaro. A Tirreno vendia créditos ao BRB por R$ 12,2 bilhões — embutindo um prêmio (lucro) ao banco. O Master não precisava pagar a Tirreno à vista, mas recebia do BRB à vista.
A investigação aponta que esses créditos nunca existiram na origem: os contratos seriam fabricados. O BC questionou o Master em março de 2025 sobre a falta de documentação. A resposta do banco — de que duas associações de servidores da Bahia seriam as originadoras do crédito — não se sustentou: o órgão identificou que CPFs de diversas localidades do país foram utilizados para justificar a origem do crédito, e que 130 contratos analisados aleatoriamente não tinham lastro algum.
Em setembro de 2024, a compra do Master pelo BRB foi vetada pelo Banco Central — um ponto de inflexão que acelerou a deterioração do banco de Vorcaro.
Muito antes, em novembro de 2024, quando a situação já era crítica, o deputado Filipe de Barros (PL-PR), próximo a Eduardo Bolsonaro, e investigado no inquérito das Fake News, apresentou um projeto de lei para ressuscitar a “emenda Master” na Câmara — uma tentativa de acenar para os investidores cada vez mais incrédulos de que haveria luz no fim do túnel. Também não funcionou. Houve ainda uma tentativa de aprovar, em regime de urgência, um projeto de lei que permitiria ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC, encabeçada pelo deputado Cláudio Cajado, vice-presidente do PP.
Enquanto isso, a PF abria um inquérito sigiloso na 10ª Vara Federal de Brasília. Saberia-se depois que Vorcaro obteve conhecimento do inquérito por meio de acesso ilegal aos sistemas da própria corporação — e que teria utilizado o site O Bastidor para tornar pública a informação, “esquentando” o dado para, então, apresentar uma petição diretamente ao juiz.
No dia 18 de novembro de 2025, o Master foi liquidado pelo Banco Central. A liquidação do Master e do Will Bank — que pertencia ao grupo — deixou um rombo de aproximadamente R$ 47 bilhões no FGC, consolidando o maior rombo bancário do país.
Suprema Corte se torna parte do escândalo
Na primeira prisão, Vorcaro ficou detido por 11 dias. No dia 28 de novembro de 2025, um sábado, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou sua soltura. Ele saiu com tornozeleira eletrônica e foi impedido de realizar operações financeiras. Naquele mesmo dia, o ministro Dias Toffoli embarcou para Lima, no Peru, para assistir à final da Copa Libertadores, a bordo de um jato particular do empresário Luiz Oswaldo Pastore. No mesmo voo estava o advogado Augusto Arruda Botelho, que defende o diretor de compliance do Master, Luiz Antonio Bull. À tarde, Toffoli foi sorteado como relator do caso no STF.
O processo havia chegado à Suprema Corte a pedido da defesa de Vorcaro, após a PF apreender, em um dos endereços ligados ao banqueiro, um envelope com o nome do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) — sem que houvesse indícios de qualquer ligação entre Bacelar e o caso Master.
Com a liquidação decretada, uma nova tropa de choque entrou em ação. Um dos ministros do Tribunal de Contas da União, Jhonatan de Jesus — ex-deputado federal de Roraima e filho do líder dos Republicanos no Senado, indicado para o TCU pelo deputado Arthur Lira (PP-AL), amigo de Vorcaro — tentou questionar a decisão do BC. O prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC, aliado de Lira, investiu R$ 110 milhões do fundo dos funcionários municipais (Iprev) no Master.
Em 3 de dezembro de 2025, Toffoli decidiu que os próximos atos da investigação ficariam sob a competência do STF e decretou sigilo sobre as investigações. Entre as polêmicas de sua relatoria, está a determinação de que todo o material apreendido na Operação Compliance Zero fosse lacrado e mantido sob custódia do STF — o que, na prática, paralisou as análises. A designação nominal de peritos da PF para analisar o material apreendido (prática que, segundo investigadores, desvia do procedimento padrão da corporação) é outra. Além de uma suposta tentativa de orientar a PF a buscar “omissões” e “contradições” no depoimento de Ailton de Aquino, diretor do BC, com anotações feitas pelo próprio ministro, indicando o objetivo de cada questionamento. Em 14 de janeiro, Toffoli determinou o lacre de bens estimados em R$ 5,7 bilhões, incluindo carros de luxo, relógios e dinheiro em espécie, apreendidos pela PF.
A crise em torno de Toffoli ganhou outra dimensão quando veio a público que a família do ministro possui um resort, o Tayayá, que realizou transações milionárias com fundos vinculados ao Banco Master. A empresa Maridt — em nome de dois irmãos do magistrado — foi sócia de um fundo vinculado ao Master no resort. A PF apurou transferências de dinheiro da Maridt para o ministro. Toffoli afirmou aos interlocutores que recebeu pagamentos por ser sócio da empresa, junto a outros familiares. Nos bastidores, investigadores classificavam a situação de Toffoli como “insustentável”.
A dimensão do envolvimento de Toffoli com o Master ganhou contornos ainda mais precisos quando o Estadão revelou, em 16 de janeiro de 2026, que o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel — preso na segunda fase da operação —, era o dono dos fundos de investimento que compraram parte da participação dos irmãos de Toffoli no resort Tayayá, por R$ 6,6 milhões. O elo entre o cunhado do banqueiro e a família do ministro relator do caso era, portanto, direto e documentado.
A PF solicitou formalmente a suspeição de Toffoli na relatoria do processo ao presidente do STF, Edson Fachin, com base em um relatório de 200 páginas. Fachin intimou Toffoli a se manifestar sobre possíveis conflitos de interesse. O ministro classificou o pedido como “ilações” e questionou a legitimidade da PF para tanto, argumentando que a instituição não é parte no processo. Apesar de Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, afirmar publicamente que “não há estranhamento nenhum” com Toffoli, a condução do caso pelo ministro havia sido marcada por atritos crescentes com a corporação.
A situação culminaria numa reunião de mais de três horas entre ministros do STF, quando Toffoli deixou a relatoria “a pedido” dele. A reunião sigilosa teria um toque adicional de incredulidade, quando uma reportagem do Poder360 reproduziu frases inteiras que magistrados teriam dito. Pela fidelidade com que as frases foram citadas, os ministros declararam, nos bastidores, suspeitar que teriam sido gravadas pelo ministro Dias Toffoli, que negou, segundo noticiou a Folha.
As transações envolvendo o Tayayá Resort voltaram a ser investigadas pelo PF, segundo reportagem da Folha desta segunda-feira, 9 de março. Com o intuito de investigar a suspeita de crimes financeiros, a Polícia Federal solicitou a quebra de sigilo de fundos relacionados ao Banco Master e com conexões, inclusive indiretas, com o Tayayá. O ministro Dias Toffoli não é investigado, mas transações financeiras ligadas a ele e à sua família podem estar entre os dados coletados.
Com a saída de Toffoli, o novo relator passou a ser André Mendonça, que convocou, por videoconferência, uma reunião com os delegados da PF para o dia 13 de fevereiro, para obter um panorama completo da investigação.
Em 18 de fevereiro, o BC decretou a liquidação do Banco Pleno — antigo Banco Voiter, que havia sido transferido para o ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima, em agosto de 2025. Com isso, o custo total do colapso do conglomerado para o FGC subiu para R$ 56 bilhões, somando as liquidações do Master, do Will Bank, do Letsbank e do Pleno.
Violência: “A Turma” com “Sicário” aparece no tabuleiro
A segunda prisão de Vorcaro, em 4 de março, revelou ainda uma dimensão que vai além das fraudes financeiras: a captura de parte do aparato regulatório. A decisão do ministro foi tomada sem o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR) — fato que o próprio Mendonça registrou como “lamentável” na decisão.
A terceira fase da Compliance Zero trouxe à tona a face mais violenta do esquema. Além de Vorcaro, foi preso novamente o cunhado, Fabiano Zettel, e Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado que fazia espionagem e captura de dados ilegais a serviço do banqueiro. O preso que mais chocou, porém, foi Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — identificado nos autos como “Sicário”.
Segundo a PF, ele era o líder da milícia privada de Vorcaro, batizada de “A Turma” nas mensagens do celular do banqueiro. Era o executor das “práticas violentas” da organização. Nas conversas recuperadas pela PF, Vorcaro diz sobre o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo: “Esse Lauro, quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes num assalto.” O mesmo padrão de ataques coordenados foi identificado contra a jornalista Malu Gaspar, também de O Globo, que deu inúmeros furos de reportagem sobre o caso. A PF identificou que Vorcaro financiou uma rede de sites para atacar jornalistas — prática que, segundo investigadores, não diferia em nada dos métodos empregados por grupos de desinformação bolsonaristas.
O desfecho do Sicário foi trágico. Preso na superintendência da PF em Belo Horizonte, Luiz Phillipi tentou se enforcar com uma camiseta na cela. Foi internado em estado gravíssimo. No dia 6 de março de 2026, sua defesa confirmou o óbito após o protocolo de morte encefálica. Com ele, morreu também a possibilidade de os investigadores ouvirem o que ele sabia.
Com Vorcaro preso, as mensagens começaram a vazar
As mensagens obtidas pela CPMI do INSS a partir da quebra de sigilo telefônico — entre 2024 e agosto de 2025 — revelam que Vorcaro construiu uma rede de relacionamentos que se estendia pelos três Poderes. Em conversas com Martha Graeff, sua ex-namorada, o banqueiro descrevia encontros com autoridades como parte de uma rotina banal.
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) era chamado de “um dos meus grandes amigos de vida”. Em agosto de 2024, Vorcaro comemorou a apresentação de uma proposta do parlamentar para ampliar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. “Ciro soltou um projeto de lei que é uma bomba atômica no mercado financeiro!”, escreveu para Graeff. “Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes! Está todo mundo louco”, completou.
A proposta era justamente a “emenda Master”, citada anteriormente, e engavetada após resistência do setor bancário. Nogueira, que aparece ao menos 14 vezes nas conversas divulgadas pela CPMI do INSS, afirmou à imprensa que mantém diálogo com “centenas de pessoas” e negou qualquer conduta inadequada.
A PF encontrou no celular de Vorcaro diálogos com o senador e ordens do empresário para o pagamento a uma pessoa de nome “Ciro”, sem sobrenome. O senador negou ter recebido pagamentos e disse não ter proximidade com o empresário. A contradição entre a negativa e o conteúdo das mensagens — nas quais Vorcaro o descreve como “grande amigo de vida” e comemora iniciativas legislativas do senador — é uma das várias que o caso está produzindo.
Em fevereiro de 2025, Vorcaro também participou de um jantar com Hugo Motta (Republicanos-PB), recém-eleito presidente da Câmara, e seis empresários na residência oficial do presidente da Casa. Em dezembro de 2024, descreveu à namorada uma reunião “ótima” com o presidente Lula no Palácio do Planalto, com a presença do então diretor do BC, Gabriel Galípolo, e de três ministros do governo — reunião fora da agenda, confirmada pelo Palácio do Planalto. A agenda telefônica de Vorcaro continha ainda os contatos de Davi Alcolumbre (presidente do Senado), dos ministros Alexandre de Moraes, Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli, além de empresários como o ex-governador de São Paulo, João Dória.
A conversa com Moraes: as mensagens que ninguém sabe o que dizem
Entre todos os contatos revelados pelas mensagens, o que supostamente envolve Alexandre de Moraes, do STF, é o mais polêmico. Em 19 de abril de 2025, Vorcaro escreveu para Martha Graeff que estava “indo encontrar Alexandre de Moraes aqui perto de casa”. Ela perguntou: “Como assim amor. Ele está em Campos???? Ou foi pra te ver?”. Vorcaro respondeu: “Ele tá passando feriado.” Dias depois, Graeff voltou ao assunto: “Ele gostou da casa amor!?? Tá muito mais astral.” Vorcaro: “Sim. Falou que é bem melhor. E ele adorava apto.”
Há registros de outros encontros. Em 20 de março de 2025, Vorcaro disse à então namorada: “Estou sim, acabou chegando Hugo e Ciro aqui pra falarem com Alexandre.” Em 29 de abril: “To aqui na correria. Agora to com Alexandre.” Em maio: “Hoje a noite eu teria encontro com Alexandre então estou marcando jantar com as mulheres fabio e dele ok.”
Em dezembro de 2025, a PF encontrou no celular de Vorcaro um contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O documento previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos a partir de 2024. O STF afirmou que o escritório “jamais atuou na operação de aquisição do Banco Master pelo BRB”. Moraes não se manifestou sobre o contrato. A PGR, sob Paulo Gonet, entendeu que não havia irregularidades no acordo.
O contrato, revelado pela colunista Malu Gaspar de O Globo, em 9 de dezembro de 2025, previa que o escritório Barci de Moraes Associados trabalhasse na defesa dos interesses do Master e de Daniel Vorcaro no BC, na Receita Federal e no Congresso Nacional.
Há ainda o episódio do Fórum Jurídico do Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024. Segundo mensagens obtidas pela colunista Mônica Bergamo, da Folha, Moraes era quem dava a última palavra sobre os convidados do evento patrocinado por Vorcaro. Quando o nome de Joesley Batista apareceu na lista, Vorcaro relatou: ‘Só Joesley foi bloqueado [por Moraes]. Não comentou os demais. Entendo que aprovou.” A explicação: a presença de Michel Temer, que seria homenageado no evento, criaria uma “saia justa” com Joesley, que o delatou na Lava Jato. Ministros do STF e do STJ teriam sido convidados pessoalmente por Moraes.
Os até agora poucos esclarecimentos do ministro do STF desenvolveram-se em cinco notas à imprensa, segundo a coluna de Ranier Bragon no SBT News. As mais recentes, de 5 de março e 6 de março, diziam, respectivamente, que Moraes “não recebeu essas mensagens” e argumentava que as mensagens de visualização única enviadas por Vorcaro “não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos”. As notas não explicam quem fez a análise, como o ministro teve acesso a dados sob sigilo no próprio STF e na CPMI do INSS, nem o que ele teria tratado com o banqueiro. As conversas, segundo análise do jornal O Globo, reproduzindo a tela de WhatsApp que mostra conversa do banqueiro com um contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASÍLIA”, teriam ocorrido em 17 de novembro, dia da primeira prisão.
Peritos da PF ouvidos pelo Estadão apontaram que o argumento de Moraes na última declaração “apresenta lacunas e não explica a maior parte dos textos escritos no bloco de anotações do banqueiro para serem enviados por mensagem a interlocutores”. A nota, além disso, não nega que Moraes tenha conversado com Vorcaro — o que, por si só, levantou uma série de novas perguntas.
A advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Moraes, se manifestou enviando uma nota à coluna da jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo, sobre os serviços prestados pelo seu escritório de advocacia ao Banco Master. Nela, a banca afirma que foi contratada de fevereiro de 2024 e novembro de 2025, quando o banco foi liquidado. No período, “realizou ampla consultoria e atuação jurídica, por meio de uma equipe composta por 15 (quinze) advogados. Para a realização dos serviços, também contratou outros três escritórios especializados em consultoria, que ficaram sob sua coordenação”. Também afirma que o escritório “nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do STF (Supremo Tribunal Federal)”.
O que vem por aí: delação, direita e o peso do que ainda não foi dito
Há uma dimensão do escândalo que a narrativa do “caso suprapartidário” tende a obscurecer. Como apontou a coluna de Marina Amaral, na Agência Pública em 30 de janeiro de 2026, os nomes que de fato atuaram a favor dos negócios de Vorcaro, ou foram beneficiados por suas doações, não deixam margem para ambiguidade até agora: “é um escândalo da direita.”
O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, foi o maior doador privado das campanhas de Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões) e Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) em 2022. O senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, foi o principal articulador parlamentar do banco. O deputado Filipe de Barros, próximo de Eduardo Bolsonaro e investigado no inquérito das Fake News, tentou ressuscitar a “emenda Master” na Câmara. O BC que deixou o esquema crescer ao longo de anos era presidido por Roberto Campos Neto, nomeado por Bolsonaro. Os servidores cooptados na autarquia foram indicados durante essa mesma gestão. O que Vorcaro ainda tem a dizer, se e quando decidir falar, pode ser o capítulo mais revelador dessa história.
Preso numa cela de 7 metros quadrados na Penitenciária Federal de Brasília, Daniel Vorcaro enfrenta agora uma equação sem saída fácil. Nos bastidores da investigação, um entendimento começa a se consolidar: com o ministro André Mendonça na relatoria do caso, a única saída jurídica viável para o banqueiro passaria por ele. Ao contrário do período em que Dias Toffoli conduzia o processo — quando interlocutores avaliavam que a saída poderia ser construída por meio de articulações políticas —, a mudança de relator recolocou a delação premiada no centro do radar. O que uma eventual delação de Vorcaro poderia revelar é uma das perguntas mais perturbadoras que o caso Master coloca.
