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BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master

por Redação Capital Brasília
3 de fevereiro de 2026
em Brasil, Política
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BRB, rombo bilionário e a questão: o que Ibaneis Rocha tem a ver com crise do Banco Master
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Em 30 de dezembro de 2025, em uma sala da Polícia Federal (PF), o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do recém-liquidado Banco Master, afirmou ter se encontrado com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), “em algumas poucas oportunidades” para tratar da proposta de aquisição de seu banco pelo Banco de Brasília (BRB). Vorcaro mencionou visitas mútuas às residências um do outro para “conversas institucionais”.

Do outro lado, Ibaneis Rocha, cujo governo é acionista majoritário do BRB, afirmou que, em momento algum, nas quatro vezes em que encontrou Vorcaro, tratou de assuntos relacionados ao BRB/Master. “Entrei mudo e saí calado”, declarou o governador à imprensa, atribuindo a responsabilidade ao ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, até então de sua confiança.

A divergência, exposta em vídeos dos interrogatórios, sob sigilo até serem liberados pelo ministro do STF Dias Toffoli, são mais uma peça de um quebra-cabeça no escândalo que ameaça não apenas o futuro do banco público do Distrito Federal, mas também as ambições políticas de Ibaneis, que almeja uma vaga no Senado nas eleições deste ano.

O quanto Ibaneis sabia?

A questão não é apenas quem diz a verdade, mas o que aconteceu nos bastidores de uma operação que pode ter exposto o BRB a um rombo de pelo menos R$ 5 bilhões, valor que superaria o patrimônio líquido do próprio banco, avaliado em R$ 4,9 bilhões no final de 2025. O valor foi calculado pelo diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, em depoimento à PF no final de 2025. Na ocasião, Aquino alertou que o desfalque poderia ser ainda maior caso não houvesse uma solução para outro problema: o Will Bank, o banco digital de Vorcaro, também em situação delicada e liquidado em 21 de janeiro deste ano.

No depoimento à PF, Aquino afirmou que a direção do BRB, ao aplicar as técnicas corretas, “deveria ter identificado” os problemas nos créditos adquiridos do Master. “Não tenho dúvidas disso”, afirmou. Mas sobre o tema, Ibaneis se limitou a declarar que o “valor só poderá ser afirmado quando terminarem as auditorias”. “O resto é chute”, afirmou.

Enquanto o governador tenta se distanciar da negociação, apresentando-se como figura traída por um subordinado, o depoimento do próprio ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa desenha um cenário diferente.

Costa confirmou à PF que “costumeiramente prestava contas” ao governador. Ele descreveu a existência de “pontos de controle periódicos” com Ibaneis, nos quais levava uma lista de assuntos a serem tratados e reportava o andamento das iniciativas do banco, incluindo a aquisição do Master e afirmou: “Eu não levaria adiante uma tentativa de aquisição de banco sem que isso fosse comunicado ao acionista controlador”.

Entre 2024 e 2025, o BRB injetou R$ 16,7 bilhões no Banco Master, inclusive com a compra de carteiras de crédito de polêmicos precatórios, bem como ativos de baixa liquidez, operações que mais tarde se revelaram fraudulentas. Para se ter uma ideia, a carteira de crédito do BRB saltou de R$ 37 bilhões para R$ 57 bilhões em doze meses, dos quais ao menos R$ 12,2 bilhões vieram de operações com o Master.

Além disso, em agosto de 2025, o governo do Distrito Federal enviou à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), em regime de urgência, um projeto de compra de 49% das ações ordinárias do Master pelo BRB, além de 100% das ações preferenciais do capital social da empresa. O movimento fez os deputados distritais reféns, já que, pelo regulamento da casa, eles teriam que priorizar a votação da questão dentro de 45 dias e seriam impedidos de destravar outros assuntos da Câmara até uma resolução.

O resultado veio a jato: 14 distritais aprovaram a compra do Master por meio do Projeto de Lei 1882/2025. O texto virou lei e foi sancionado por Ibaneis. Tudo em apenas uma semana. A aquisição só não foi para frente por ter sido impedida pelo Banco Central no mês seguinte.

Com ações financeiras dessa dimensão e articulação política para a aquisição do Master conduzidas sob a lógica desses “pontos de controle” regulares, como afirmou o ex-presidente do BRB, sobre a participação de Ibaneis Rocha, outra dúvida importante é levantada: como o governador, informado sobre o negócio, não percebeu ou questionou os riscos de uma operação de tal magnitude com uma instituição financeiramente instável?

Sem que haja mais investigações dessa comunicação constante entre o Palácio do Buriti e a direção do BRB, por ora, torna-se difícil sustentar a defesa de Ibaneis, segundo a qual seu único erro foi o “excesso de confiança”.

BRB foi essencial para adiar ruína do Master

O Banco Master não era um parceiro de negócios trivial do BRB. A instituição de Daniel Vorcaro já era acompanhada com desconfiança pelo Banco Central desde 2024, ainda na gestão de Roberto Campos Neto, devido ao seu modelo de negócios agressivo e a sinais de desequilíbrio.

A investigação da PF, batizada de Operação Compliance Zero, revelou um suposto esquema de “engenharia contábil”, no qual o Master teria adquirido créditos duvidosos de uma consultoria chamada Tirreno, sem efetuar pagamentos, para depois revendê-los ao BRB como se fossem ativos sólidos.

O próprio BC, segundo o diretor de fiscalização da autarquia, já havia identificado, em meados de 2025, que o Master tinha problemas de liquidez por não fazer os depósitos compulsórios – valores que os bancos são obrigados a manter no Banco Central para garantir a liquidez e reduzir riscos sistêmicos. Era um castelo de cartas que, segundo as informações iniciais das investigações, só se mantinha de pé graças às sucessivas injeções de liquidez do BRB.

Ailton Aquino, diretor do BC, também disse, em depoimento, que, antes da liquidação, o Master possuía apenas R$ 4 milhões em caixa, valor incompatível com uma instituição de seu porte. “Um banco de R$ 80 bi tem liquidez de R$ 3 bi e R$ 4 bi em títulos livres. O Master, antes da liquidação, só tinha R$ 4 milhões em caixa”, revelou.

​Em setembro de 2025, o BC vetou a compra do controle do Master pelo BRB, alegando irregularidades e falta de documentação. Poucas semanas depois, em 18 de novembro, decretou a liquidação extrajudicial do banco de Vorcaro, momento em que a PF deflagrou a operação que levou à prisão do banqueiro e ao afastamento do presidente do BRB.

A questão que permanece sem resposta é por que a diretoria do BRB, com suposto conhecimento do governador, continuou a acelerar os negócios com o Master diante dos sinais de alerta emitidos pelo mercado e pelos órgãos de controle?

Quando a crise se torna política

O blog da jornalista Natuza Nery, no G1, revelou que o crime de gestão fraudulenta de instituição financeira, com pena de 3 a 12 anos de reclusão, é o de maior pena sob investigação no caso. Ainda segundo o blog, a investigação no STF, sob relatoria do ministro Dias Toffoli, tem três frentes: a tentativa de compra do Master pelo BRB, fraudes financeiras por meio de fundos de investimento e a atuação de influenciadores digitais supostamente pagos para atacar o Banco Central.

A crise, no entanto, escalou para além das investigações policiais e atingiu o campo político e institucional. Na CLDF, a oposição protocolou, em 23 de janeiro de 2026, três pedidos de impeachment contra Ibaneis, assinados por PSB, Cidadania e PSOL. Os pedidos aguardam análise da Casa e foram classificados pelo presidente da CLDF, Wellington Luiz (MDB), aliado de Ibaneis, como de “caráter político”. Eles atribuem a Ibaneis sete crimes de responsabilidade, incluindo omissão dolosa, expedição de atos contrários à Constituição, procedimento incompatível com o decoro do cargo e negligência na guarda do patrimônio público.

A disputa eleitoral no Distrito Federal tem levado governo e oposição a trocarem acusações sobre a responsabilidade pela crise do BRB/Master, com aliados do governador acusando a oposição de disseminar boatos sobre a quebra do banco, o que o atual presidente da instituição nega.

Nesta terça-feira (3), na volta do recesso parlamentar, Hugo Motta, presidente da Câmara, declarou que a CPI do Master vai entrar na fila. Resta saber, qual a CPI, diante de mais de um pedido em andamento na casa, seja da oposição ou da situação.

Parlamentares da oposição, puxados pelo deputado Carlos Jordy, reuniram 279 assinaturas para protocolar pedido de abertura de uma CPMI — são necessárias 171 assinaturas de deputados e 27 de senadores, o equivalente a um terço da Câmara e do Senado. O requerimento foi protocolado nesta terça-feira.  No entanto, Hugo Motta, presidente da Câmara, declarou que a CPI do Master vai entrar na fila. Resta saber, qual a CPI, diante de mais de um pedido em andamento na casa, seja da oposição ou da situação.

Escândalo em rede e à direita

Não custa lembrar, como registrou a última coluna de Marina Amaral na Agência Pública, que a rede de conexões políticas de Vorcaro inclui figuras proeminentes da direita.

O cunhado de Vorcaro Fabiano Zettel, por exemplo, foi o maior doador privado das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas em 2022. Já o senador Ciro Nogueira (PP-PI) propôs uma PEC para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que beneficiaria o Master. Antônio Rueda, presidente do União Brasil, teria intermediado a aproximação entre Vorcaro e Ibaneis. Além disso, já é sabido que fundos de previdência vinculados a políticos do União Brasil e do PP investiram centenas de milhões em ativos do Master.

Com um rombo bilionário em análise, o futuro do BRB está em xeque. O atual presidente do banco já admite a necessidade de buscar socorro no FGC e no próprio Governo do Distrito Federal para cobrir o prejuízo. A conta, ao que tudo indica, será paga com dinheiro público.

Em meio à crise, um movimento de Ibaneis acendeu mais um alerta: a indicação, em janeiro de 2026, de Edison Garcia para o conselho de administração do BRB. Garcia é conhecido por ter conduzido, no próprio governo Ibaneis, a privatização da distribuidora de energia do Distrito Federal (CEB). Para sindicatos e a oposição, a indicação é um sinal de que o roteiro clássico de “sucatear e depois vender” estaria em marcha.

Em nota, o BRB informou que “qualquer estimativa de necessidade de capital considerará integralmente todos os efeitos identificados na avaliação dos fundos e ativos repassados pelo Banco Master” e que a avaliação integra a apuração do Banco Central e a investigação conduzida pelo escritório Machado Meyer com apoio técnico da Kroll. A instituição informou ainda que “após o encerramento das apurações será estabelecido o valor do aporte necessário para cobrir eventuais perdas” e que “já está desenhado um plano de capitalização que será encaminhado ao órgão regulador após a conclusão das análises”.

Enquanto isso, as perguntas se acumulam: O que mais foi dito nas “conversas institucionais” entre o governador e o banqueiro? Por que Vorcaro, em seu depoimento, interrompeu uma frase ao começar a dizer quem mais estava presente nos encontros? Qual foi o papel de Juliana Monici, chefe de gabinete de Ibaneis e, ao mesmo tempo, conselheira fiscal do BRB, que foi tornada ré pela Comissão de Valores Mobiliários em um processo que investiga as operações? Quem mais da área política está envolvido? E, por fim, no caso do governador, resta entender: o que Ibaneis Rocha tem a ver com a crise do BRB?

Por enquanto, as versões só indicam que a verdade ainda parece ser um ativo em liquidação.

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