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CIA: como agência americana impulsionou Marcha da Família com Deus pela Liberdade

por Redação Capital Brasília
30 de março de 2026
em Brasil, Política
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CIA: como agência americana impulsionou Marcha da Família com Deus pela Liberdade
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A noite de 13 de março de 1964 caía sobre o Rio de Janeiro quando o presidente João Goulart (Jango), diante de uma multidão na Central do Brasil, anunciou medidas que alterariam o curso da história nacional. A fala de Jango sobre a limitação das remessas de lucro estrangeiro e a promessa de reforma agrária ecoaram não apenas nas ruas, mas também nos gabinetes de Brasília, nas sedes de corporações multinacionais e nos corredores de Washington, nos EUA. 

Em Belo Horizonte, dias antes, o deputado federal Leonel Brizola, cunhado do presidente, havia sido impedido de discursar por um grupo de senhoras que empunhavam terços como escudos contra o que consideravam uma ameaça vermelha. “Rosários de fé não podem ser levantados contra o povo”, advertiu Goulart na Central do Brasil. A resposta a essa advertência viria menos de uma semana depois, não em orações silenciosas, mas no ruído de meio milhão de pessoas marchando sobre o asfalto de São Paulo, na tarde de 19 de março, dia de São José, padroeiro da família.

João Goulart e Maria Thereza Goulart durante comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964
João Goulart durante comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade começou na Praça da República às 16 horas e seguiu rumo à Praça da Sé. Faixas empunhadas pelos manifestantes traziam dizeres que misturavam devoção religiosa e anticomunismo visceral: “Nossa Senhora Aparecida, iluminai os reacionários”, “Vermelho bom, só o batom”, “Verde, amarelo, sem foice nem martelo”. Mas o que parecia ser uma manifestação espontânea de fiéis preocupados era, na verdade, o resultado de uma engrenagem muito mais complexa, como explica a doutora em história Janaína Cordeiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que pesquisa a atuação de grupos femininos conservadores no período do Estado de exceção.

Segundo Janaína, o movimento não surgiu do nada, mas sim de um contexto de intensa polarização política. “A primeira marcha acontece em São Paulo e é concebida como uma marcha de desagravo ao Rosário, que teria sido ofendido pelo Jango ali no Comício da Central do Brasil no dia 13 de março”, explica. Ela detalha que essas mulheres, majoritariamente donas de casa e professoras primárias de classe média, organizaram-se rapidamente: “Essas mulheres são fundamentalmente donas de casa. Quando elas exercem profissões, elas são, em geral, ligadas ao cuidado, consideradas até na época femininas”.

Mulheres marcham com uma faixa com os dizeres O Brasil não será uma nova Cuba durante a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, entre 19 de março e 8 de junho de 1964
Mulheres durante a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, exibem uma faixa contra o regime cubano

A organização do evento durou apenas cinco dias e contou ainda com a articulação de figuras como o deputado federal Antônio Sílvio da Cunha Bueno, do PSD, e o vice-governador de São Paulo, Laudo Natel. O nome da marcha foi sugerido pela freira Ana de Lurdes, que a via como “um ato de fé, numa hora de trevas”. Nos bastidores, o governador de São Paulo, Ademar de Barros, recolhia fundos junto ao empresariado na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para equipar a Força Pública e garantir a ordem do evento.

Com base em documentos e no depoimento do ex-agente da Agência Central de Inteligência Americana (CIA), Philip Agee, a historiografia indica que a agência fornecia dinheiro ao Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática).

Também teriam recebido contribuições da CIA e do empresariado para organizar a marcha, o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), a Camde (Campanha da Mulher pela Democracia), a FAUR (Fraterna Amizade Urbana e Rural) e a SRB (Sociedade Rural Brasileira). 

Um documento sobre as “marchas da família”, organizado por Rodrigues Matias, obtido pela revista Caros Amigos em 2002, registra que “João Batista Leopoldo de Figueiredo, presidente do Ipes, foi uma das peças angulares da articulação do movimento”.

João Batista Leopoldo de Figueiredo, presidente do IPES
João Batista Leopoldo de Figueiredo, do Ipes, que teria recebido apoio da CIA

“Padre da CIA”: religião como arma de Guerra Fria

A trajetória de um padre irlandês que acreditava ter sido salvo por um milagre também ajuda a explicar como a fé religiosa se transformou em instrumento de política externa americana. Patrick Peyton, membro da Congregação de Santa Cruz, havia contraído tuberculose durante sua formação sacerdotal nos Estados Unidos. Quando se recuperou, atribuiu sua salvação à intercessão de Nossa Senhora e do Rosário. A partir desse momento, Peyton dedicou sua vida a criar um movimento transnacional de devoção que se tornaria um dos instrumentos mais sofisticados de influência americana na América Latina durante a Guerra Fria.

Peyton produzia filmes e programas de rádio que promoviam a devoção ao Rosário. Em 1962, quando chegou ao Brasil, sua Cruzada do Rosário em Família se transformaria em um vetor de mobilização política de proporções inesperadas, também impulsionando a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

O governador de São Paulo Adhemar de Barros recebe em audiência no Palácio dos Campos Elíseos o padre Patrick Peyton (à direita)
O padre Patrick Peyton (à direita) com o governador de São Paulo Adhemar de Barros

A doutora em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Isabella Villarinho Pereyra, descreve o papel dessa organização religiosa como fundamental para compreender o golpe de 1964. “As marchas eram meio que uma catarse coletiva daquele grupo de mulheres, que tinham uma agenda muito específica: salvar o Brasil do comunismo”, explica Pereyra. “E, naquele contexto, existia toda uma dinâmica de palavras que travavam uma batalha contra o comunismo, não apenas no âmbito físico dos militares, mas também na esfera espiritual”.

O Rosário não era simplesmente um símbolo religioso. Era, na narrativa construída pela Cruzada, a única arma capaz de salvar o Brasil do comunismo. “As mulheres que marchavam acreditavam estar apelando a todos os tipos de ajuda possíveis, mobilizando não apenas a fé, mas também a mídia, as paróquias, as missas e a estrutura da Igreja Católica”, relata Pereyra.

A conexão entre a Cruzada do Rosário em Família e a CIA não foi acidental. Ela havia sido construída por Peter Grace, um grande empresário do ramo de exportações, amigo pessoal de Alan Dulles, então diretor da CIA. “O Peter Grace era um grande empresário do setor de exportações. E ele era muito católico”, descreve Pereyra.

Grace havia conhecido o padre Peyton em uma viagem a navio para a Europa, onde ambos participavam de uma feira de inovações tecnológicas. Impressionado pelos filmes e programas de rádio de Peyton, Grace se tornou seu principal financiador e, mais importante, seu intermediário junto à inteligência americana. Grace foi quem propôs levar o movimento das Cruzadas para a América Latina. A ideia encontrou apoio tanto na CIA quanto no Vaticano, que tinha suas próprias preocupações com a região. A Igreja Católica enfrentava dois problemas na América Latina: um número reduzido de padres e clérigos e a crescente influência de movimentos de esquerda. A combinação de interesses religiosos institucionais com os objetivos geopolíticos dos EUA criou uma aliança. O financiamento viria de Washington, mas a face pública seria religiosa.

Quando a Cruzada do Rosário em Família se estabeleceu no Brasil, não foram homens de terno e gravata que fizeram a articulação inicial. Foram mulheres ligadas a grupos leigos católicos que criaram escritórios em Recife, no Rio de Janeiro, em Salvador, no Paraná e em Belo Horizonte. O clero católico, por meio de arcebispos e bispos, estabeleceu o primeiro contato com os fiéis, que se tornaram o braço direito da Cruzada. Essas mulheres, em sua maioria donas de casa e professoras primárias de classe média, ligadas à Igreja Católica, começaram a organizar-se em grupos que se multiplicaram rapidamente.

Em São Paulo, a União Cívica Feminina (UCF) havia iniciado suas atividades em 1961, fundando núcleos no interior do estado, em Santos e outras cidades. No Rio de Janeiro, seis meses depois, foi fundada a Camde, que rapidamente expandiu seus núcleos para outros bairros e cidades da região. Mas havia um detalhe crucial: muitos dos maridos, irmãos e homens da família dessas mulheres eram militares, empresários ligados ao Ipes e ao Ibad, ou executivos de corporações multinacionais.

Janaína Cordeiro ressalta que, embora as mulheres tivessem um papel de liderança muito forte e importante naquela conjuntura, essas outras organizações envolvidas também foram centrais. “Tinham o que eles chamavam, na época, de classes produtoras; tinham setores do empresariado; tinham alguns sindicatos organizados que também chamavam para a marcha; tinham outras igrejas para além da Igreja Católica.”

  • Cruzada do Rosário em Família no Rio de Janeiro
    Cruzada do Rosário em Família no Rio de Janeiro
  • Cruzada do Rosário em Família no Rio de Janeiro
    Cruzada do Rosário em Família no Rio de Janeiro
  • Poster do Jornal do Dia de 17/11/1963 sobre a Cruzada em Porto Alegre
    Poster do Jornal do Dia sobre a Cruzada em Porto Alegre

​A orquestração invisível

Segundo a pesquisa de Pereyra, a CIA determinava para onde as marchas do Rosário tinham de ir. “Sempre que eles chegavam no movimento, eram marcados jantares com empresários e a mídia local. Então, eles recebiam muitos empresários e associações comerciais e industriais e enviavam muitas cartas a essas pessoas”, detalha Pereyra.

O financiamento não vinha apenas da CIA. Grandes corporações americanas, bem como empresários brasileiros ligados ao capital nacional, injetaram recursos para sustentar o movimento uma vez estabelecido nos estados brasileiros. A Aliança para o Progresso, programa de cooperação econômica americano, servia como um canal adicional de recursos. Havia uma narrativa que permeava todas as cruzadas, uma frase que aparecia em documentos da época: “A verdadeira revolução foi sua mãe que fez”.

Essa construção narrativa permitia que as mulheres exercessem poder político sem que isso fosse reconhecido como tal. Permitia que a CIA operasse por meio de estruturas religiosas e familiares, evitando a aparência de intervenção externa. Segundo Janaína Cordeiro, a narrativa funcionou: “a mobilização legitimava o golpe, que era apresentado como resposta ao clamor das ruas”.

Um dos documentos mais reveladores da pesquisa de Pereyra indica que Peter Grace menciona a necessidade de uma entrevista entre o Padre Peyton e a CIA, na qual se evidencia que a conexão entre a religião, o empresariado e a inteligência americana não era informal ou acidental.

Carta de 1961 revela elo entre Cruzada do Rosário, Peter Grace e o diretor da CIA, Allen Dulles, em articulação política-religiosa
Carta de 1961 revela elo entre a Cruzada do Rosário, Peter Grace e o diretor da CIA, Allen Dulles

O legado de uma marcha funesta

Para compreender como as Cruzadas do Rosário em Família e, posteriormente, a própria Marcha da Família com Deus pela Liberdade encontraram terreno fértil no Brasil, é preciso considerar o contexto de polarização política que marcou o início dos anos 1960. O governo de Jango enfrentava uma poderosa coalizão de forças conservadoras e ultrarreacionárias. 

As reformas de base propostas por Goulart desagradavam profundamente os setores conservadores. A limitação às remessas de lucro estrangeiro afetava as multinacionais. A reforma agrária aterrorizava os fazendeiros. A mobilização dos sindicatos e dos trabalhadores, coordenada pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), assustava a burguesia. Nesse contexto de radicalização política, as Cruzadas do Rosário em Família ofereciam uma linguagem que permitia aos setores retrógrados expressar suas preocupações em termos religiosos e familiares, em vez de puramente econômicos ou políticos.

Manchete do Jornal do Brasil sobre marcha em São Paulo

O historiador Boris Fausto, em entrevista para a Agência Pública em 2019, ressalta que a marcha demonstrou que o golpe possuía um lastro social significativo no meio urbano, especialmente nas classes média e alta, mas adverte que “daí a falar em ‘movimento representativo do conjunto da sociedade’ vai uma enorme distância”.

A grande imprensa, com raras exceções, como o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, desempenhou um papel crucial na construção do clima de pânico, mobilizando à exaustão o tema do perigo vermelho. O Estado de S. Paulo, por exemplo, publicou em suas páginas o manifesto de convocação da marcha, alinhando-se abertamente aos conspiradores.

“A ameaça imediata de implantação de um regime comunista não havia”, afirma Fausto. O que existia era uma radicalização política e uma disputa pelos rumos do desenvolvimento nacional. O golpe de 1964, longe de ser uma mera “quartelada”, foi uma articulação civil-militar-empresarial que surpreendeu as forças democráticas e se instalou com absoluta força. A ditadura que se seguiu evidenciou a verdadeira natureza do movimento.

Quando a Marcha da Família terminou no começo da noite de 19 de março e a Catedral da Sé realizava a última missa do dia, o destino do governo Jango estava selado. Doze dias depois, o golpe seria consumado. A marcha havia fornecido a chancela civil que os militares precisavam para agir.

A primeira marcha em São Paulo serviu de rastilho de pólvora. No Rio de Janeiro, uma marcha foi planejada para 2 de abril, mas o golpe foi antecipado para 31 de março e efetivado em 1° de abril, transformando a manifestação em uma “Marcha da Vitória”. A que ocorreu no Rio reuniu cerca de 800 mil pessoas, segundo estimativas mais prudentes, enquanto São Paulo contabilizava 500 mil.

Janaína Cordeiro pontua a dimensão dessa mobilização: “A marcha do Rio foi a maior que teve. A partir daí, essas marchas passaram a ser de comemoração”. Ela acrescenta que o fenômeno se espalhou pelo país: “ao que parece, o Brasil marchou até setembro”.

O ar daquele março de 1964 estava carregado de eletricidade, recordaria o historiador Jacob Gorender em entrevista sobre a véspera do golpe militar. A Operação Brother Sam, articulada por Washington, posicionou a Marinha e a Força Aérea americanas prontas para intervir no Brasil caso o golpe enfrentasse resistência armada ou resultasse em guerra civil. A intervenção direta não foi necessária, mas a presença da frota ao largo da costa brasileira serviu como garantia de que o projeto de deposição de Goulart não falharia. A derrubada do governo legítimo era uma prioridade na lógica da Guerra Fria, em que a retórica do “perigo vermelho” justificava a supressão das liberdades democráticas.

Mas o entusiasmo de muitos participantes logo se transformaria em desilusão. Parcelas da sociedade que apoiaram a queda de Jango, acreditando em uma intervenção breve para “restaurar a ordem”, viram-se presas a um regime autoritário que duraria 21 anos. Em 1968, muitos dos que haviam marchado com terços nas mãos estariam nas ruas protestando contra a violência de Estado. A ditadura que se seguiu suprimiu as liberdades, fez uma limpeza no parlamento, perseguiu e torturou opositores, até matá-los, como retrataram os filmes “Eu ainda estou aqui” (2024) e “O Agente Secreto” (2025).

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