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Home Brasil

Colonialismo de dados: especialista explica o que querem os donos das big techs

por Redação Capital Brasília
1 de fevereiro de 2026
em Brasil, Política
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Colonialismo de dados: especialista explica o que querem os donos das big techs
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O colonialismo, enquanto sistema de dominação política, econômica e cultural, foi historicamente justificado por ideologias de superioridade. Diferentemente dos séculos passados, hoje ele não se manifesta apenas pela exploração de recursos naturais e da força de trabalho, mas se materializa também na coleta massiva de informações e dados para o desenvolvimento de tecnologias. Esses dados, concentrados nas mãos de grandes corporações do Norte Global, passam a operar segundo interesses políticos e econômicos que aprofundam desigualdades sociais e flertam com ideologias autoritárias.

Como superar esse colonialismo digital e de dados? Existe um caminho para o Brasil garantir sua soberania digital? Essas são algumas das questões levantadas neste episódio do Pauta Pública, que conta com a participação de Sérgio Amadeu. Sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Amadeu é referência no debate sobre tecnologia e sociedade. Segundo ele, o colonialismo de dados aprofunda a dependência tecnológica ao concentrar informações, infraestrutura e poder nas mãos das grandes corporações globais. “As corporações levam os dados das sociedades, das populações e dos indivíduos para suas grandes infraestruturas, em geral localizadas nos Estados Unidos ou no Norte Global. Elas trabalham esses dados e, depois, com base nessas informações coletadas, oferecem produtos e serviços para a mesma população de onde os dados foram extraídos,” explica.

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.








EP 201
O que querem os donos dos seus dados – com Sérgio Amadeu


30 de janeiro de 2026
·

Episódio analisa a lógica do colonialismo de dados exercida pelas grandes corporações de tecnologia








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Veja mais episódios desta série
Sérgio Amadeu, sociólogo, defensor e divulgador do Software Livre, fala sobre e o colonialismo de dados com o Pauta Pública.

O que é o colonialismo de dados?

O termo colonialismo de dados, nasce ao mesmo tempo em vários lugares, inclusive no Brasil, embora os autores mais conhecidos sejam norte-americanos. O termo diz respeito ao colonialismo histórico, quando se buscava na colônia, matérias-primas que eram levadas para a matriz [países colonizadores] e, depois, os produtos lá processados, eram vendidos nas colônias muito mais caros.

Então, o que acontece hoje é um processo similar. Como os dados são o insumo fundamental da inteligência artificial e de grande valor na economia digital, o que está acontecendo?

As corporações levam os dados das sociedades, das populações e dos indivíduos para suas grandes infraestruturas, em geral localizadas nos Estados Unidos ou no Norte Global. Elas trabalham esses dados e, depois, com base nessas informações coletadas, oferecem produtos e serviços para a mesma população de onde os dados foram extraídos.

Esse processo é análogo ao colonialismo clássico e, por isso, é denominado colonialismo de dados. Ele não ocorre isoladamente, mas está inserido em um processo mais amplo de dependência tecnológica.

O Brasil segue uma linha que acabou virando política tecnológica aqui, que é uma linha pensada por um grupo de intelectuais e que é praticada pelas elites, mas que o Fernando Henrique Cardoso consolidou [Teoria da Dependência]. É uma ideia de que a dependência não atrapalha a nossa modernização. E isso não é sustentável, não é correto a longo prazo, não só do ponto de vista econômico, mas também porque ele mata a nossa criatividade.

A região da América do Sul é culturalmente vibrante e rica, é um absurdo estarmos subordinados a essas arquiteturas de informação digitais pobres do grupo Meta e não termos nenhuma rede para competir com isso. Num país do futebol, quem está tomando conta do que seriam ações em rede são as Bets, que a maior parte delas, inclusive, são estrangeiras, de capital internacional, do capital financeiro, criando vícios nas pessoas. É absurdo, mas a gente está submetido às softwares, aos hardwares, às infraestruturas vitais, que estão na mão dessas grandes corporações. […] Esse bloqueio à nossa criatividade, acho que é um dos principais problemas do colonialismo digital e de dados.

Como pensar o papel das redes sociais neste contexto?

Tem um texto do Andy Cameron e do Richard Barbrook, do século passado, chamado A Ideologia Californiana. [O texto] mostrava que existia naquela região, onde as tecnologias emergem, com a chamada revolução informacional, um misto de pessoas que são ligadas a ideias da liberdade individual. Pessoas com forte influência dos chamados libertarians, ou libertários, que são ultracapitalistas.

Eles são a favor da liberdade individual total, são ligados muito fortemente a uma ideia estranha, onde a liberdade, ela é quase sinônimo de força. Ou seja, o indivíduo tem que poder aplicar aquilo que é sua capacidade. Na verdade, a liberdade individual passa a ser quase que violência.

E muitos desse grupo cultuam isso [..] que está no coração do Vale do Silício. E interfere, sim, no modelo de negócios. Modelos de negócios que não são exatamente a tecnologia. A tecnologia digital me permite fazer coisas de modo ambivalente até, seja para um lado ou para o outro. Ocorre que eles não pensam muito em separar a tecnologia de modelo de negócio. Então, eles vão em Davos e falam que para a tecnologia digital funcionar, para a inteligência artificial funcionar, é preciso destruir direitos trabalhistas e sociais. Para a tecnologia moldada deste modo [deles], sim, você tem que destruir direitos sociais. Não que não se possa fazer um uso da tecnologia de modo distinto, mas não nesse modelo de negócios.

A gente tem que construir outras arquiteturas de interação nas redes, sim. Se não, só vão ficar os endinheirados da classe dominante.

[…]

Há um processo sim de fascistização nos Estados Unidos, onde mesmo aqueles que não eram fascistas no Vale do Silício, aderiram ao grupo fascista ou neofascista que sempre foi de extrema direita. Uma das características do fascismo é a incoerência, porque o fascismo ele é um fenômeno anti-iluminista, reacionário. Ele propõe a volta a um passado que nunca existiu, [a volta] ao culto. Ele trabalha aquilo que a Hannah Arendt falou [sobre] a percepção do homem comum, aquele que se sente existencialmente ameaçado.

[…]

Você vê o Curtis Yarvin, que veio até no Brasil no lançamento da Missão, que é o antigo MBL. Ele propõe que os estados sejam transformados em corporações e que não exista mais um monarca, mas exista um CEO. E se você for ver, o Trump age não como um dirigente do Estado, ele age como um CEO. Um CEO daqueles bem maluquetes, que são disruptivos. E isso está lá por trás do quê? Nick Land, que é um filósofo britânico que é cultuado nos Estados Unidos, tem um diálogo muito forte com o Curtis Yarvin, são caras extremamente autoritários, e com essa concepção de liberdade que é fascista.

A partir de dados citados pela jornalista Natalia Viana, que mostram que, em 2025, a produção de textos por ferramentas de inteligência artificial já superou a produção humana em inglês, a internet entra em um novo estágio. Diante dessa tendência que já é realidade, como disputar a produção de sentido, informação e realidade nesses espaços digitais? O que esse dado nos diz sobre o futuro da internet?

Primeiro, a internet permite várias atividades, inclusive, a atividade de comunicação, a atividade de imprensa e do jornalismo. O jornalismo nunca vai ser feito integralmente por robôs. Eu não acredito nisso. Uma reportagem é uma reportagem. Então, nós vamos continuar utilizando redes digitais para comunicar informações de qualidade, e tenho pena daqueles que não se interessarem por isso, porque o que vai acontecer é que eles vão estar no universo da fantasia.

Mas, então, eu não acho que tudo será feito por sistemas de linguagem, grandes modelos de linguagem, que é o chatGPT, o que se chama de IA generativa.Agora, a maior parte do entretenimento, de várias outras perspectivas em que se usa a internet, vai ser feita por robôs. Não é bem robô, é que a gente fala robô, mas são sistemas automatizados. E o grande problema é que os sistemas automatizados vão se referenciando neles próprios. Então, vieses vão se tornando realidade e verdades, e isso está acontecendo, vai acontecer. E é muito difícil, por exemplo, você chegar para uma agência de publicidade e falar: não, não use a [inteligência] generativa.

É difícil. Por quê? Porque é muito rápido, tem certa qualidade. Mas eu acho que todo e qualquer uso de IA, a justiça eleitoral tem que exigir que se fale: este vídeo é feito por IA ou este texto foi tratado por IA.

A matéria que a Natalia fez é a realidade. Eu acho que a pesquisa é extremamente consistente, só que eu não acho que tudo aquilo que a gente faz, que é importante, vai ser feito por IA. Sou professor, né? Bom, primeiro que o conhecimento é coletivo.

Eu acredito muito na interação, no grupo, para aprender coisas, para discutir e tal. E sei que a vida é dura. As pessoas na minha universidade têm que trabalhar. Ela é federal, é uma universidade de nível. A gente tem muita cota, muita gente que não nasceu em berço esplêndido. Esse cara está premido, a sociedade capitalista quer produtividade. Todos esses sistemas, na verdade, são de alta produtividade. Ele vai pegar o chatGPT e fazer o trabalho dele lá.

O capitalismo atingiu sua condição máxima, que é: vocês têm que me servir, servir ao capital. Então, sejam produtivos, rápidos, o tempo todo. Tudo que a gente faz é feito não com qualidade. Porque você se sente mal se não usar um negócio que te faz rápido.

É uma loucura. Isso é um redesenho da subjetividade. É óbvio que você vai ter grupos menores que dizem: não, eu não vou fazer isso. Mas, socialmente falando [é diferente].

Tem um professor, o Matteo Pasquinelli. Ele tem um texto que é The Eye of the Master (Os olhos do mestre), e ele diz o seguinte: a IA não reproduz a inteligência humana, ela reproduz o trabalho humano. Ela tira coisas que a gente faz, inclusive, uma parte do trabalho cognitivo, e põe em sistema automatizado.

Só que isso vai criando alterações e não adianta, na minha opinião, você fazer só um discurso moral, de certo ou errado. Eu estou avaliando as consequências. Vai ter alterações muito dramáticas. Mas é assim: eu acho que a gente vai ter que discutir cada vez mais ética junto da educação, mas não no sentido meio ingênuo. No sentido de dizer: olha, você tem que ter esses cuidados porque se você for ético, significa que você também vai estar usando sua capacidade cognitiva para fazer coisas que você mesmo fez. Isso é uma qualidade que ninguém vai tirar de você.

[…]

Por isso que a gente está vendo esses fenômenos, esses zumbis, essa truculência. Eu nunca imaginei. Em geral, os Estados Unidos, quando invadem um país, invadem em função da liberdade, da democracia, de altos valores. Agora não. Você tem o Trump. O Trump fala: não, eu quero o petróleo, eu quero os minerais, eu não quero o Pix, porque atrapalha o grupo Meta.

Eles forjaram pessoas de baixo requinte, pouca sofisticação, como disse o primeiro-ministro do Canadá no Fórum de Davos, há alguns dias. Ele falou que a ordem mundial baseada em regras acabou. Agora é a força. E isso tem tudo a ver com o que eu estava falando, da ideia de liberdade do Vale do Silício. Agora é a força. É nesse contexto que a gente está navegando. Mas é incrível o Brasil: por mais que eles tenham esse poder descomunal, por mais que a gente tenha tido, há 130 ou 140 anos, uma sociedade escravocrata, a gente está resistindo com vigor.

A gente tem uma força, uma vibração cultural e uma força ética muito grandes. E a gente tem que aproveitar isso. Se a gente tiver política pública, a gente transforma isso em plataformas. A gente não tem capital, mas ainda temos que discutir isso seriamente.

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