Enquanto casos aumentam no mundo, América do Sul avança no combate à dengue

A primeira paciente chegou há pouco mais de dois anos. Janeiro deveria ser um mês tranquilo no Hospital Santa Rosa, no bairro de classe média Pueblo Libre, em Lima, no Peru. A paciente, uma mulher na casa dos 20 anos, havia viajado 430 quilômetros com a mãe até a cidade.

Ela tinha febre alta e uma dor abdominal insuportável, que ela temia ser resultado de um aborto recente que havia dado errado. Os médicos fizeram radiografias e encontraram sangue na cavidade abdominal. Em uma tentativa desesperada de estancar a hemorragia, decidiram remover seu útero.

Mas a hemorragia continuou. Os médicos pediram todos os exames possíveis. Apenas um deu positivo, e era algo que a maioria deles nunca havia visto. A paciente não estava com complicações relacionadas à gravidez ou ao aborto. Ela estava na fase mais grave da dengue, doença rara em Lima naquela época, devido ao clima temperado da cidade.

Em outro ano, o caso teria sido um ponto fora da curva. Afinal, a paciente não era da cidade e vinha de uma área pouco povoada da Amazônia peruana, onde doenças transmitidas por mosquitos, como a dengue, são riscos constantes.

Mas, dessa vez, era o início de uma epidemia.

A dengue já foi um risco nas Américas, mas campanhas de pulverização com o uso de pesticidas aparentemente erradicaram a doença em meados do século XX. O Peru declarou o Aedes aegypti erradicado em 1958. Mas, com um surto em 1990, a situação começou a mudar, no país e em todo o mundo.

Agora, o número de casos de dengue registrados no mundo vem crescendo há décadas, passando de 500 mil reportados à Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2000 para mais de 5 milhões em 2019.

Embora a melhoria na notificação de doenças explique parte desse aumento, especialistas atribuem o crescimento principalmente à urbanização — que cria condições ideais para o Aedes se reproduzir e aumenta a densidade demográfica para picar mais pessoas — e à explosão das viagens aéreas, que permite que a doença escape de zonas endêmicas. Como resultado, a dengue é hoje a doença mais comum e de crescimento mais rápido a ser transmitida por mosquitos no mundo.

Mas algo mais aconteceu nos últimos anos. Em 2023, o número global de casos se aproximou de 7 milhões, salto de 40% em um ano. E mesmo esse novo recorde foi superado em 2024, quando 14 milhões de casos de dengue e 9 mil mortes foram registrados no mundo, a maioria nas Américas.

“É diferente de anos anteriores, quando a dengue existia, mas a gente não via tanto”, diz Luciano Andrade Moreira, engenheiro agrônomo e entomologista brasileiro. Em 2024, 17 cidades do Brasil declararam estado de emergência. Hospitais ficaram superlotados.

No hospital Santa Rosa, em Lima, a cirurgiã Yolanda Sánchez lembra que os primeiros pacientes com dengue “chegaram como uma onda”. Assim que a jovem que, sem saber, se tornou a paciente zero e recebeu alta, seu leito foi imediatamente ocupado por outro paciente com dengue, e depois por outro. Alguns corredores ficaram tão lotados de pacientes que os funcionários tinham dificuldade para atravessar a multidão. Os doentes ocuparam todas as salas disponíveis, se espalharam pela rua e se aglomeraram perto do portão de ferro na entrada.

No auge do surto, em fevereiro e março de 2024, o Santa Rosa atendia entre 40 e 60 pacientes com dengue por dia, número sem precedentes para uma unidade que havia recebido apenas 13 pacientes desse tipo em todo o ano de 2022. Os doentes pareciam uma amostra aleatória da população peruana: jovens, idosos, pessoas com doenças crônicas e outras perfeitamente saudáveis.

Quando uma mulher com menos de 60 anos, sem comorbidades, deu entrada no hospital e morreu menos de 24 horas depois, um médico chamado Solomon Durand percebeu que o Santa Rosa precisaria se adaptar se quisesse sobreviver à epidemia. Durand, epidemiologista, havia chegado recentemente ao Santa Rosa após passar 15 anos em um hospital em Iquitos, cidade amazônica no norte do país há muito tempo considerada um foco de doenças transmitidas por mosquitos. Ele era o único médico do Santa Rosa que já havia trabalhado durante surtos de dengue, e sabia o que fazer.

Durand montou uma tenda no estacionamento dos fundos do hospital para avaliar rapidamente os novos pacientes. Aqueles com dengue grave eram transferidos para a unidade de terapia intensiva. Todos os demais eram encaminhados para diferentes alas do hospital, tratados e liberados o mais rápido possível.

Durand acompanhava os prontuários dos pacientes internados. O que lhe chamou atenção foi a proximidade do surto. Cada vez mais pacientes vinham de distritos ao redor do hospital. Esses bairros não sofriam com a superlotação e as condições sanitárias precárias que geralmente favorecem a disseminação da dengue em áreas urbanas. “Isso chamou nossa atenção”, contou Durand. Ele sabia que algo mais havia mudado.

Entrada de um quarto no Hospital Santa Rosa, em Lima. Perto dali, uma funcionária transporta suprimentos entre os quartos. No auge do surto de dengue em 2024, a unidade chegou a atender até 60 novos pacientes por dia.

A pista seguinte surgiu quando o surto se estendeu durante um verão excepcionalmente quente e avançou pelo outono. Um ano antes, o fenômeno climático El Niño havia se desenvolvido nas regiões tropicais do Pacífico, alterando os padrões de chuva e elevando as temperaturas médias em todo o mundo pelos 12 meses seguintes.

Durand percebeu os efeitos do El Niño em Lima. Antes e depois da chegada da primeira paciente com dengue, chuvas muito intensas haviam inundado a cidade, que normalmente vive em um estado quase permanente de seca, levando o governo peruano a declarar estado de emergência. As chuvas deram lugar a um sol de verão implacável.

“Naquele ano houve mais sol em Lima”, lembrou Durand. “O verão durou mais.” Foi o ano mais quente do país em mais de seis décadas.

Durand começou a se perguntar se o fator desconhecido que impulsionava o surto era a mudança climática.

Condições mais quentes atuam como um acelerador da dengue. O aumento das temperaturas não apenas favorece o desenvolvimento dos mosquitos Aedes aegypti e do mosquito-tigre-asiático, que transmitem a doença, como também acelera a replicação do vírus da dengue dentro desses insetos. Nos últimos anos, pesquisadores têm buscado isolar o efeito do aquecimento global sobre a disseminação da doença.

Em setembro de 2025, cientistas da Universidade de Washington mostraram que, nos 21 países da Ásia e das Américas com maior exposição à dengue, 18% dos casos entre 1995 e 2014 não teriam ocorrido na ausência de mudanças climáticas causadas pelo ser humano. Trata-se da primeira evidência científica direta que liga o aquecimento global à expansão da dengue no mundo, confirmando a suspeita que Durand teve mais de um ano antes, quando percebeu a propagação da doença em um ambiente antes considerado inóspito.

O problema tende a piorar. Até meados do século, descobriram os autores do estudo, as mudanças climáticas poderão levar a um aumento adicional de 50% nos casos nos países analisados. E isso se novas emissões de gases de efeito estufa ficarem suficientemente baixas para limitar o aquecimento a menos de 2 graus Celsius.

Mais de 30 anos de pesquisas e esforços para encontrar uma vacina que proteja simultaneamente contra os quatro sorotipos da dengue em circulação produziram sucesso limitado. O Brasil aprovou uma vacina de dose única. Mais de um milhão de doses estão sendo distribuídas em cidades-piloto.

Enquanto isso, cerca de metade da população mundial tem risco de contrair dengue.

Em Lima, a epidemia de 2024 atingiu 40 dos 43 distritos da cidade ao mesmo tempo. Mas, graças à rapidez de raciocínio de Durand e à sua experiência anterior, apenas quatro dos quase 2 mil pacientes diagnosticados no Santa Rosa morreram. Mesmo depois de a crise finalmente diminuir em junho, o médico continuou estudando o que havia acontecido, publicando posteriormente um artigo sobre o surto em uma revista de ciências da saúde. 

Em toda a América do Sul, pesquisadores e departamentos de saúde pública trabalham intensamente para dar esse tipo de alerta. A estratégia, que vem sendo desenvolvida há anos, tem duas vertentes. 

Uma delas é o uso de inteligência artificial para prever surtos com meses de antecedência. A outra recorre à natureza para impedir a disseminação da dengue desde o início: a liberação de centenas de milhões de mosquitos infectados com uma bactéria que bloqueia a transmissão da dengue, para que se reproduzam com os mosquitos selvagens, reduzindo a transmissão da doença no processo.

Diferentemente das campanhas reativas de pulverização de pesticidas que definiram o controle de doenças transmitidas por vetores ao longo do século XX, esses programas buscam uma cooperação mais deliberada com os ecossistemas existentes. Mas também enfrentam desafios logísticos e políticos significativos, exigindo que autoridades públicas invistam recursos em programas cujos resultados não serão evidentes por anos. 

Mas à medida que a dengue muda de perfil, autoridades de saúde em países como Peru e Brasil começaram não apenas a reconhecer o valor dessa abordagem, mas a exigi-la.

A experiência do Brasil 

Nos arredores de Curitiba, um prédio baixo no campus universitário do Instituto de Tecnologia do Paraná abriga milhões de Aedes aegypti. Os ovos desses mosquitos, infectados com a bactéria Wolbachia, serão enviados para cidades de todo o país, onde serão incubados e liberados para se reproduzirem com mosquitos selvagens.

Luciano Andrade Moreira conheceu a Wolbachia na Austrália, quando visitou o pesquisador Scott O’Neill, em Queensland, em 2008. A hipótese de O’Neill era que a bactéria reduziria o tempo de vida dos mosquitos e isso lhes daria menos tempo para transmitir doenças. 

Moreira chegou à Austrália a tempo de ver O’Neill fazer uma descoberta surpreendente: a bactéria fazia algo ainda mais poderoso, pois impedia que o vírus da dengue se replicasse dentro dos insetos. A Wolbachia cria um ambiente hostil para o vírus da dengue no intestino do mosquito ao ativar o sistema imunológico do inseto para combater a doença, competir com o vírus por recursos celulares e literalmente expulsar a dengue das células.

Agora, quase duas décadas depois, na fábrica de mosquitos em Curitiba, chamada Wolbito do Brasil, filas de grandes máquinas armazenam tubos com ovos de mosquito. Quando eclodem e se transformam em pupas, os insetos recebem uma mistura de água e proteína em pó.

Em seguida, as pupas são levadas para uma sala, onde são lavadas entre duas placas de vidro: as pupas menores, os machos, saem primeiro pela parte inferior da máquina, seguidas pelas fêmeas maiores. Todas as fêmeas que botam ovos e um em cada três machos seguem para outra sala, quente e úmida, onde são colocados em compartimentos de malha e alimentados com sangue quente de cavalo e água com açúcar.

Essas gaiolas de malha são a etapa final de um processo de criação de mosquitos que, até esse ponto, foi realizado quase inteiramente por máquinas, supervisionadas de perto pelos cerca de 70 funcionários da fábrica. Depois que as fêmeas depositam seus ovos em tiras de papel branco no fundo das gaiolas, os trabalhadores levam as gaiolas para uma sala refrigerada, onde os mosquitos finalmente encontram seu fim.

São cerca de 1 milhão de ovos coletados por gaiola, o que significa 100 milhões produzidos por semana. Desde que a fábrica começou a operar em meados de 2025, seis cidades no Brasil começaram a espalhar mosquitos que combatem a dengue em seus bairros, além das 10 cidades que já recebiam ovos produzidos manualmente por Moreira e outros funcionários que trabalharam arduamente para popularizar o método Wolbachia antes de o processo ser automatizado, em 2025.

Joinville (SC) é uma dessas cidades. Em uma manhã de meio de semana, funcionários do Departamento de Saúde local e da Wolbito se reuniram em um centro de distribuição para carregar um carro com recipientes de mosquitos. Os mosquitos haviam eclodido de sacos de pellets. Cada pellet contém ovos e uma mistura para alimentação. Nas cidades participantes, os pellets são inseridos na água e os insetos nascem.

Enquanto o carro saía do centro de distribuição e percorria lentamente Joinville às 7h da manhã, a agente de saúde Lúcia Jordan abaixou a janela e segurou um recipiente aberto no ar, sacudindo-o algumas vezes com força para liberar os mosquitos. Ela repetiu o gesto várias vezes enquanto o carro fazia lentas curvas pelos bairros da cidade.  

Niterói (RJ) foi um das primeiras cidades do Brasil a ser totalmente protegida pelo método. As liberações ocorreram entre 2017 e 2019. Os casos de dengue caíram quase 90% em toda a cidade após o tratamento, em comparação com a média dos 10 anos anteriores a 2017. Durante o surto histórico de dengue em 2024, quando muitas cidades brasileiras registraram números recordes de casos, Niterói contabilizou menos de 2 mil, cerca de um quarto da média anterior ao tratamento.

“Não é comum lidar com um projeto para liberar mosquitos quando toda a nossa história de prevenção de doenças foi justamente lutar contra eles”, disse Ana Eppinghaus, coordenadora de vigilância em saúde da Fundação Municipal de Saúde de Niterói, na época. “Aceitamos o desafio.”

Na próxima década, Luciano Andrade Moreira pretende proteger metade da população brasileira usando a Wolbachia.

O método pioneiro de Scott O’Neill na Austrália já é utilizado por 15 países, e evidências de várias regiões mostram que a incidência de dengue cai drasticamente depois que os mosquitos com Wolbachia se estabelecem. O número de casos diminuiu em todas as cidades do Brasil onde a Wolbachia se consolidou. Moreira diz que seu maior problema agora é produzir mosquitos rápido o suficiente para atender à demanda.

Mesmo com os avanços, as novas tecnologias de combate aos mosquitos não são 100% à prova de falhas de implementação e até interesses particulares. Série de reportagens da Pública mostrou que em São Paulo, um empresário conseguiu lucrar com armadilhas usando sua influência com a prefeitura, e falhas na manutenção dos produtos os transformaram em verdadeiros criadouros de mosquitos.

Alguns políticos também continuam relutantes em se comprometer com o programa dos mosquitos com Wolbachia, especialmente quando Moreira diz que os resultados podem levar um ano ou mais para aparecer. “Nosso programa não é como um spray que mata todos os mosquitos e resolve o problema”, disse ele.

Sair da versão mobile