O Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025: foram quatro mulheres assassinadas por dia. O aumento da violência contra mulheres e também contra animais reacende o debate sobre o papel das masculinidades nesse cenário. Mais do que episódios isolados, esses crimes revelam uma cultura de agressividade que atravessa as relações pessoais e é incentivada e, por vezes, até exibida nas redes sociais.
No Pauta Pública da semana, a conversa é com a antropóloga Isabela Venturoza, que pesquisa masculinidades e atua em grupos de reflexão com homens autores de violência e em rodas de conversa sobre o tema com adolescentes. Cofundadora do Instituto Feminista de Cuidado (IFC), Venturosa analisa como discursos e práticas violentas são tão eficientes em se espalhar e a importância de trabalhar diretamente com meninos e homens para prevenir a violência.
“Hoje, num país que tem mais de cinco mil municípios, a gente tem menos de 400 grupos de reflexão e reabilitação para homens autores de agressão. E um cara que comete agressão uma vez vai cometer de novo se não tiver um espaço para pensar sobre aquilo”, afirma.
Leia os principais destaques da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 202
Como romper o ciclo de violência de homens e meninos?
6 de fevereiro de 2026
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Episódio discute caminhos para construir masculinidades não violentas em diferentes esferas da sociedade
Como você está vendo o aumento desses números de feminicídio, a partir das suas pesquisas também sobre masculinidades?
Eu acho que esses números dizem um pouco da insuficiência dos mecanismos com que a gente conta hoje. A Lei Maria da Penha é um grande avanço para o Brasil, uma lei bastante completa, que prevê muitas medidas importantes. Mas, na prática, ela não é aplicada na sua integralidade. Então, temos o problema de uma lei que é referência internacional, justamente por não ser apenas punitiva. Ela tem dispositivos educativos, que buscam ressocialização e campanhas de prevenção, mas quando olhamos a prática, pouco disso acontece.
Eu trabalho há muitos anos com uma metodologia conhecida como grupos de reflexão e reabilitação para homens autores de agressão. Hoje, num país com mais de cinco mil municípios, temos menos de 400 grupos desse tipo. E um homem que comete agressão uma vez tende a cometer novamente se não tiver um espaço sistemático para pensar sobre aquilo, produzir outras ferramentas para estar no mundo e aprender a respeitar as mulheres.
Isso é apenas no campo em que eu trabalho, na ponta com os homens. Se pensarmos no caso das mulheres, tem um número muito reduzido de casas-abrigos, e de Delegacias de Defesa da Mulher especializadas, operando 24 horas, que é como deveriam operar. Porque os crimes acontecem mais à noite e nos finais de semana, quando os homens estão em casa, não no horário comercial. Também não há juizados especializados em todos os municípios, nem uma série de estruturas previstas na lei – que vai fazer vinte anos – e ainda não existem.
Há também outra questão, [que é] a lei tem limites. Sozinha, ela não muda a sociedade. Se não fizermos essas conversas em outros espaços como na escola, na cena pública, no Legislativo, na televisão, nas novelas, nas séries, lugares de transformação cultural, não haverá mudança. Temos ainda um grande desafio, que é alcançar os homens. Onde estão os homens? As mulheres não precisam ser ensinadas que não devem apanhar; os homens precisam ser ensinados que não devem bater.
Também existe um processo que não é exclusivo do Brasil, o avanço dos conservadorismos, quase como um passe livre para a misoginia, somado a novas ferramentas para praticar violência. Pesquisas recentes mostram como o espaço digital tem sido usado para atacar mulheres. Há estudos sobre a monetização da misoginia, com conteúdos que somam milhões de visualizações.
Essa escalada de violência, cujo extremo é o feminicídio, vem acompanhada de outras formas de violência que também cresceram. A violência contra a mulher é a única que não teve queda nos últimos estudos. O país continua violento, mas houve redução em vários crimes, exceto nos que têm recorte de gênero. Na verdade, todos os crimes têm um recorte de gênero. O homicídio de homens por outros homens também tem essa marca.
Esse contexto político produz um cenário em que os homens também se tornam mais violentos. Um cara que briga no trânsito, sai e dá um tiro no outro. […] O cara vai entregar iFood, o homem quer que ele suba, ele fala ‘não vou subir’, [o outro] desce com uma arma. Então, tem toda essa discussão.
Como é seu trabalho com adolescentes nas escolas?
Eu trabalho em escolas há pelo menos 10 anos. Toda a minha formação com pesquisas fazendo extensão em escola, com esse tipo de diálogo, palestra e roda de conversa. Agora, nos últimos tempos, muito das violências do bullying e de violências misóginas e racistas e homofóbicas também acontecem nos grupos de WhatsApp da molecada. Então, há uma extensão entre a violência que é praticada na sala de aula, em outros espaços de lazer, recreação,e o uso de aplicativos, de tecnologia e tudo mais.
O pessoal pirou agora na série Adolescência, mas essa é uma discussão que a gente já estava fazendo antes, e as escolas tinham pouca habilidade para lidar com isso, além da solução de tirar o celular que foi um ganho. Isso já ajudou a ter um pouco de controle daquele espaço e tentar também não fazer jovens ficarem colados em tela.
Recentemente [fui chamada] para ir numa escola, eu fiz oito rodas de conversas com meninos. Encontros reflexivos, que a gente chama. Isso se deu com um companheiro meu que se chama Ismael dos Anjos, que também trabalha com masculinidades. Dialogando com os meninos eu vejo que eles estão num espaço de formação que não é diferente do que foi para os meus irmãos e para os meus pais em termos de uma pedagogia de gênero. Você vai pra escola que te ensina a ser mulher e te ensina a ser homem, e se você não couber nessas caixas é muito difícil de transitar.
Então os meninos continuam lidando com a escola como esse espaço de formação, dessa subjetividade masculina muito binária, muito em oposição ao que é a mulher, muito tentando se afirmar a partir de um certo lugar de masculinidade para não ser marginalizado. E o uso da tecnologia tem intensificado certas coisas. E aí quando eles passam por mim, por meus parceiros de trabalho, passam a ter mais referências para questionar certas ações.
Quando as escolas me chamam para fazer algum tipo de proposta de intervenção e pensar com eles, eu vejo que a gente consegue tirar [os jovens] de um lugar, às vezes, passivo até. Às vezes, ele não cometeu nenhuma violência direta, mas estava lá, estava batendo palma, estava de algum modo também mirando naquilo. Quando eles passam por esses processos de reflexão, eu vejo que eles conseguem produzir outras coisas.
Não é simplesmente chegar para o menino e falar: isso é errado, não faz isso, foi muito feio etc. Apesar de ser preciso colocar limites na juventude e até muito além da juventude. Mas só o fato de você convidar essa pessoa para estar num espaço de reflexão sobre aquilo e ela parar para pensar um pouco as coisas e rascunhar outras possibilidades, faz com que esse sujeito, possa se produzir de outra forma dali para frente. Então, tem sido um pouco essa minha experiência.
Como você vê os pais nessa equação? Existe uma maneira de, de fato, fazer diferença enquanto parentalidade nesse assunto, tirando estereótipos e culpabilização também?
Eu acho que é uma questão que não dá para ser determinista. Temos uma constelação de atores que estão influenciando esses eventos. Por exemplo, tivemos um ataque extremo no Espírito Santo, em Aracruz, em que o pai tinha dado um livro do Hitler de presente para o jovem e, às vezes, também havia armas em casa. Então, existem situações em que o pai é a referência, e não necessariamente uma referência positiva. Olhando para o Brasil hoje e para os discursos de muitos homens, a referência da casa nem sempre é positiva.
Mas, por outro lado, a gente também tem casos em que os pais são tranquilos, acompanham os filhos e se surpreendem com o que aconteceu. Então, não é uma relação de determinação direta, de correlação direta, mas a gente sabe que dentro da família também há uma referência que pode ser copiada ou rejeitada.
E se a família guarda armas em casa, não acompanha o que os filhos consomem, a gente tem um problema. Mas é mais do que a família, é uma constelação de atores que envolvem os próprios amigos, a escola, a mídia, e até o videogame.[…] O próprio espaço dos chats de jogos online também vai ativando certas coisas.
As pessoas estão discutindo um pouco mais sobre como acompanhar os adolescentes hoje, principalmente com o uso do celular. E fico pensando como é que a gente faz essas conversas, não só pela lógica da proibição e dessa tutela em cima toda hora, mas como fomentar espaços para o pensamento crítico e ético, desde muito cedo com crianças e adolescentes. Não por uma via meio moralista, cristã, mas por uma via de uma discussão sobre gênero, sobre raça e classe,que também passa pelo uso das redes.
Quando teve a explosão de casos de violência extrema, em escolas, que teve com mais frequência no Brasil nos últimos anos, muita gente começou a falar de cultura de paz. Começou a falar de psicólogo na escola, e sim, eu acho que podemos fazer a conversa por aí. Mas, pouca gente falou sobre a necessidade de fazer grupos com meninos como uma metodologia de prevenção. Pouca gente falou que a discussão passa por discutir questões sociais. […]
Eu tenho tido alguns braços de ferro na internet, com algumas companheiras feministas, que partem muito de um feminismo punitivista, querendo mais lei, mais punição, prisão perpétua, pena de morte etc. E pouca gente pensando um ‘advocacy’ [estratégias para influenciar tomadores de decisão e gerar políticas públicas mais avançadas] em termos de projetos socioeducativos que de fato produzam outra visão de mundo. Outra cultura que faça a pessoa pensar criticamente, se sensibilizar e produzir outras formas de estar no mundo e se relacionar com as pessoas e consigo mesmo.
Eu não quero pegar ninguém no colo, a pessoa que mata [ou comete violência com outra] precisa ser responsabilizada. Mas isso não vai diminuir a violência. O endurecimento de pena e a prisão não resolveu o problema da violência contra as mulheres e da violência como um todo. Não é isso que muda a sociedade. As pessoas acham que prisão, que pena de morte, prisão perpétua, diminui violência, quando não diminui.
A mudança vem da transformação da visão de mundo e da cultura. É tornar essa nossa cultura menos machista, menos sexista, menos violenta e produzir outras masculinidades. Então, pra mim, trabalhar com masculinidades passa por tudo isso junto.E fazer uma discussão que é sempre interseccional e que está sempre pensando de que homens a gente está falando.