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Guerra no Irã, protestos e o futuro do regime

por Redação Capital Brasília
14 de março de 2026
em Brasil, Política
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Guerra no Irã, protestos e o futuro do regime
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No último 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciaram um ataque militar contra o Irã, na chamada “Operação Fúria Épica”. O ataque deixou centenas de mortos e ampliou o risco de uma escalada regional e até de uma nova corrida nuclear. Em meio aos ataques militares, as narrativas também entraram em disputa. Enquanto parte da imprensa e da população global acredita no objetivo de “libertar” o povo iraniano, dentro do país o conflito envolve disputas mais amplas e interesses que vão além da retórica de liberdade.

Para falar sobre os conflitos internos e avaliar os desafios para redefinir o futuro do país, o Pauta Pública conversou com Parvin Ardalan, jornalista, escritora e ativista feminista. Cofundadora do Centro Cultural das Mulheres Iranianas e da Campanha “Um Milhão de Assinaturas”, Parvin vive hoje exilada na Suécia. Ela fala sobre sua trajetória pessoal, perseguições enfrentadas dentro do regime e como os Estados Unidos e aliados representam apenas mais uma forma de dominação, mas destaca que “nessa situação de fragmentação social, algumas pessoas passaram a concordar até com a guerra, porque pensavam que essa seria a única maneira de provocar uma mudança de regime”.

Ardalan ainda destaca que o discurso dos Estados Unidos e Israel, de liberar o povo iraniano, não corresponde ao que acontece na realidade: “A guerra continua, muitas pessoas foram mortas e outras se espalharam pela região. […] A situação atual é muito difícil porque, de um lado, somos contra os países usarem o povo para seus próprios interesses. Por outro lado, enfrentamos a ditadura no Irã, que há muito tempo oprime, mata e reprime a população. Encontrar uma solução é extremamente difícil. Mas precisamos nos posicionar contra essa forma de dominação vinda de ambos os lados.”

Confira os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo:








EP 207
Guerra no Irã, protestos e o futuro do regime


13 de março de 2026
·

Ativista iraniana fala sobre as camadas dos conflitos no Irã e avalia os desafios para redefinir o futuro do país








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Com ataques dos EUA e de Israel, mudança de regime, massacres. Temos visto muita desinformação na imprensa e nas redes sociais, inclusive entre pessoas da diáspora. Você poderia contextualizar para o público brasileiro o que realmente está acontecendo?

Não é fácil nem para nós. Primeiro, é importante dizer que olhar os acontecimentos à distância, da diáspora, sempre envolve riscos e possíveis mal-entendidos. Isso significa que estou olhando de fora para dentro. E tentando analisar o que está acontecendo.

Para entender o que acontece hoje no Irã, precisamos ver isso como parte de um ciclo mais longo de protestos que vem se desenvolvendo há anos. Desde 2009, tivemos muitas manifestações populares. E com o tempo a distância entre elas foi ficando menor. Por exemplo, protestos de 2017 a 2020. Também houve protestos de professores, aposentados e trabalhadores. Todos relacionados a crises econômicas, ambientais e à perda de legitimidade da República Islâmica. Um dos maiores foi em setembro de 2022. Depois do assassinato de Gina Mahsa Amini,uma jovem curda morta por causa do hijab, que é obrigatório por lei. Depois que a polícia moral a atacou e ela morreu no hospital, começaram grandes protestos.

Foi quando também criamos a rede “Feminists for Gina”. As mulheres passaram a tirar o hijab nas ruas. Isso não significa que a lei mudou. Mas mostra que as mulheres estão tentando mostrar autonomia e agência sobre como elas querem se vestir e como querem ocupar o espaço público.

Nós temos essa história do passado no Irã, e a mais recente onda de protesto, desta vez, começou em dezembro de 2025. Foi no fim de dezembro de 2025 que parte de Teerã protestou na rua. E foi por causa do aumento de preços de tudo. Os protestos começaram nos bazares de uma das áreas importantes de Teerã e se espalharam para centenas de cidades, envolveram grupos sociais diferentes, especialmente jovens, e a escala de participação parece ter sido maior do que muitos protestos anteriores que tivemos durante a última década.

E, ao mesmo tempo, este protesto também revelou novas dinâmicas políticas e tensões dentro da oposição. Então, a situação no Irã hoje é formada por várias realidades que se sobrepõem. Uma sociedade que tem tido um ciclo contínuo de protestos, um Estado que responde principalmente com repressão e a oposição fragmentada, com diferentes visões para o futuro do país.

E, ao mesmo tempo, o Irã estava entrando em outro movimento sensível internacionalmente, com a renovação da tensão e as negociações em torno do programa nuclear do país. E, no meio da situação, com a internet já frágil, os ataques militares pelos Estados Unidos e Israel, em 28 de fevereiro, adicionaram uma nova e muito perigosa dimensão para a crise e complicaram a situação.

Apesar das diferenças locais claras, as ações de Trump no Irã são muito semelhantes às que ele tomou na Venezuela. Em nome de libertar o povo, ele invade, ataca, sequestra, derruba governos e já não esconde seus interesses, como o petróleo. Agora ele está dizendo que precisa participar da escolha de um novo líder. Como você escuta essa narrativa de Trump de se posicionar como um salvador que vem de fora para resolver os problemas do país? E o que deve acontecer agora no Irã?

Na verdade, a narrativa de que um poder externo pode salvar o país por meio de intervenção militar é algo que vimos muitas vezes em nossa história. Ela costuma aparecer na linguagem da libertação ou da democracia. Mas, na realidade, geralmente está profundamente conectada a interesses geopolíticos e econômicos. Por isso, muitos iranianos escutam essa narrativa com grande ceticismo. Ao mesmo tempo, também precisamos entender o nível de frustração e exaustão dentro da sociedade iraniana.

Na última década, as pessoas foram repetidamente às ruas. Cada vez que esses movimentos surgiram, foram respondidos com repressão e violência, sem qualquer mudança política significativa. Essa longa experiência de repressão criou um sentimento de desespero em muitas pessoas. Nesse contexto, algumas começam a acreditar que qualquer força externa poderia ajudá-las a mudar o sistema atual.

Às vezes se ouve dentro do Irã a frase: “qualquer coisa seria melhor do que isso”. Mas esse tipo de pensamento geralmente vem de um lugar de exaustão, e não de uma visão política clara para o futuro. Ao mesmo tempo, a própria oposição permanece profundamente fragmentada.

Por exemplo, alguns grupos apoiam a monarquia em torno de Reza Pahlavi, enquanto outros, incluindo muitos grupos democráticos, republicanos e da sociedade civil, além de movimentos de mulheres e feministas, defendem mudanças que venham de baixo para cima, e não impostas de cima.

Durante as manifestações de 2025, quando Reza Pahlavi convocou as pessoas, e mais de um milhão foram às ruas, tivemos uma situação ambígua. Por um lado, foi a primeira vez que mais de um milhão de pessoas participaram de uma manifestação desse tipo. Naquele período, a internet estava completamente desligada e não podíamos fazer quase nada. Nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026 houve um massacre, quase um genocídio, contra manifestantes. Mais de mil pessoas foram mortas pelo governo em apenas dois dias.

Esse sentimento de exaustão aumentou ainda mais. Quando Reza Pahlavi convocou as pessoas, muitas estavam pensando que não havia outro caminho. Para muitos, parecia que um “salvador” estava chegando, porque os Estados Unidos diziam que queriam negociar sobre o programa nuclear com o governo iraniano e estavam enviando forças militares para a região. Israel também dizia que estava tentando salvar o povo.

Ao mesmo tempo, existe um grupo monarquista cujo apoio tem aumentado. Nessa situação de fragmentação social, algumas pessoas ficaram tão revoltadas que passaram a concordar até com a guerra, porque pensavam que essa seria a única maneira de provocar uma mudança de regime. Assim, a ideia de mudança de regime tornou-se mais presente e mais forte do que outros debates, especialmente entre pessoas dentro do Irã.

Essa situação tornou-se ainda mais paradoxal quando Ali Khamenei, líder do Irã, foi morto em um ataque israelense. Em 28 de fevereiro houve ataques ao Irã e muitos membros do aparato militar foram mortos, especialmente da Guarda Revolucionária (IRGC), além do próprio Khamenei. Esse clima fortaleceu ainda mais a ideia de que talvez os Estados Unidos pudessem intervir e mudar o regime.

Mas, infelizmente, isso não corresponde ao que acontece na realidade. A guerra continua, muitas pessoas foram mortas e outras se espalharam pela região. Os Estados Unidos não estão pensando nas pessoas, nem no bem-estar do país. Há muitos fatores que ainda vão aparecer gradualmente.

No dia 8 de março foi anunciado que Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo Ali Khamenei, se tornou o novo líder. Ou seja, eles estão tentando reproduzir algo semelhante ao que ocorre no debate monarquista em torno de Reza Pahlavi, o filho do antigo xá assumindo o poder. Agora querem colocar Mojtaba, o filho do líder supremo, no lugar do pai. Isso significa uma espécie de nova forma de monarquia, mas em forma clerical. Estamos vivendo um momento muito incerto.

O Irã enfrenta agitação social interna, pressão militar externa e profunda fragmentação política. A verdadeira questão é se uma transição democrática pode surgir de dentro da sociedade iraniana, por meio de alianças amplas e resistência civil, ou se o futuro será moldado por grupos militares, pela guerra ou por interesses geopolíticos de diferentes potências. Nada disso está claro para nenhum de nós.

No debate feminista, especialmente na rede Feminists for Jina, sempre afirmamos que não concordamos com a guerra. Somos contra a guerra. Não queremos a volta da monarquia nem outra forma de ditadura. A situação atual é muito difícil porque, de um lado, somos contra os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e de Israel, que tentam usar o povo para seus próprios interesses. Por outro lado, enfrentamos a ditadura no Irã, que há muito tempo oprime, mata e reprime a população. Encontrar uma solução é extremamente difícil. Mas precisamos nos posicionar contra essa forma de dominação vinda de ambos os lados.

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