O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro e de Cilia Flores seguem repercutindo desde os primeiros dias do ano. O episódio reacende debates sobre soberania, intervencionismo e os limites do uso do discurso do combate ao narcotráfico como justificativa para ações militares e políticas externas agressivas.
Em entrevista ao Pauta Pública desta semana, o cientista político Guilherme Casarões analisa os riscos de transformar o discurso do combate ao chamado “narcoterrorismo” em licença para invadir países, derrubar governos e redesenhar fronteiras à força. A partir da ofensiva do governo Donald Trump contra a Venezuela, ele explica como a chamada “guerra às drogas” vem sendo usada há décadas pelos Estados Unidos como estratégia de projeção de poder militar, econômico e geopolítico sobre países estruturalmente vulneráveis da região.
Professor da Florida International University, nos Estados Unidos, e coordenador do Observatório da Extrema Direita, Casarões também alerta que “a gente está diante de um momento particularmente nefasto para as Américas como um todo”, já que os Estados Unidos passaram a se conceder “absolutamente o direito de dominar, de maneira militar, econômica, de infraestrutura, o que seja, toda a região de acordo com os seus interesses”.
Um cenário que, além de aprofundar tensões geopolíticas, abre espaço para o fortalecimento de narrativas autoritárias e transnacionais.
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 200
Trump joga o tabuleiro do mundo pro ar – com Guilherme Casarões
Como você avalia as acusações de ligação ao narcoterrorismo para justificar a captura do Maduro e da sua esposa pelo governo Trump?
É preciso dar um passo atrás e pensar que a relação dos Estados Unidos com a produção, o fluxo, o fornecimento de drogas para os consumidores no país, vem sendo objeto do que a ciência política e relações internacionais chamam de securitização. Ou seja, não se trata a questão das drogas como uma questão simplesmente de aplicação da legislação. Não se trata o combate às drogas meramente com uma perspectiva de segurança pública e nem mesmo de saúde pública. A perspectiva de combate às drogas, no caso dos Estados Unidos, tem muito a ver com uma projeção de interesses militares.
Então, a famigerada guerra às drogas não surte os efeitos desejados na saúde e na segurança pública. Não reduz o crime, não coloca fim na dependência química ou coisa do tipo. Ela cria uma possibilidade para os Estados Unidos projetar e consolidar o seu poder internacional, sobretudo diante de países que são estruturalmente muito vulneráveis. E a militarização da guerra às drogas é um fenômeno com mais de 40 anos. É um tipo de estratégia que o país segue usando para poder dominar o espaço geopolítico, econômico e até mesmo o espaço ideológico latino-americano.
E a justificativa, nesse momento, tem muito a ver com tirar a China do continente americano ou não deixar que acessem recursos estratégicos da Venezuela, por exemplo, mas não só.
Esse retorno de [Donald] Trump à Casa Branca mistura três elementos fundamentais. O primeiro é que esse novo governo Trump articula dentro de uma renovada doutrina Monroe [América para os americanos], em que uma de sua dimensão é do combate às drogas. Mesmo que seja uma pauta que hoje tem um sentido profundamente doméstico, já que os EUA já atingiram 70 mil mortes anuais por fentanil. Além de uma profunda situação de dependência de opióides e drogas no geral, que afeta, sobretudo, as populações de classe média baixa dos Estados Unidos.
O segundo elemento é o vínculo permanente que o governo Trump faz de associar a migração ilegal ao narcotráfico, acusando praticamente todo imigrante não documentado nos Estados Unidos de ser um potencial colaborador de cartéis que operam desde o México, de El Salvador, da Colômbia, ou da Venezuela.
O terceiro elemento diz respeito ao controle direto de recursos estratégicos e naturais, por parte dos Estados Unidos, na América Latina. Por muito tempo, a América Latina foi uma fornecedora natural de energia, de recursos estratégicos, minerais sobretudo, para os Estados Unidos. A China, ao longo dos últimos 20 anos, ocupou esse espaço, Os chineses viraram o principal parceiro comercial de, virtualmente, todos os países latino-americanos ao longo dos últimos 20 anos. E os Estados Unidos agora dão um recado muito claro de não deixar que a China tenha acesso aos recursos de terras raras e petróleo.
Então, por um lado, a gente está diante de uma estratégia antiga, porque a guerra às drogas não é nova, mas uma composição de fatores que é inédita e que rompe, sobretudo, o padrão de relacionamento dos Estados Unidos com a América Latina, agora pautado pela violação sistemática e recorrente de quaisquer princípios organizadores da ordem regional por parte da grande potência dos Estados Unidos.
O que é a renovação da Doutrina Monroe neste governo Trump?
Essa doutrina, lançada em 1823 por James Monroe, diz em resumo que a América é para os americanos. E para o Brasil isso tinha uma implicação muito direta, porque o país tinha acabado de se tornar independente. Os Estados Unidos, naquele contexto, tinham apoio de repúblicas recém-independentes da América Espanhola. […] Essa construção vai ser a bússola dos Estados Unidos na relação com o hemisfério desde então, e cada presidente, depois de James Monroe, interpreta essa doutrina de acordo com seus interesses de curto prazo.
A Doutrina Monroe foi o principal instrumento de articulação, até psicológica, coletiva, de dominância dos Estados Unidos com relação àquilo que muitos articuladores da política americana chamavam de quintal dos Estados Unidos. Principalmente, a América Central e o Caribe, mas também, por extensão, a América do Sul.
O presidente que decididamente acabou com a doutrina Monroe, foi o Barack Obama. Ele decretou isso e foi o presidente, que de alguma maneira, distensionou e tentou abrir as relações dos Estados Unidos com Cuba, que era o último resquício da Guerra Fria na região. Quando Trump chega em 2017, ele vai destruir muito desse legado que o Obama tinha deixado. No primeiro mandato, ele não falava de retomar a doutrina Monroe, até porque a plataforma do Trump era, sobretudo, isolacionista. Mas, nesse segundo mandato, ele não só retoma a doutrina Monroe, como a complementa com o chamado Corolário Trump.
[O Corolário Trump] está no documento da Estratégia de Segurança Nacional, publicado em todo mandato presidencial americano. Em dezembro do ano passado, o governo Trump publicou um documento em que ele reconhece pela primeira vez que o mundo é dividido entre grandes potências que podem perseguir as suas esferas naturais de influência.
Durante muitas décadas os Estados Unidos se orientaram a partir da busca de uma hegemonia global sobre o planeta inteiro, e o Trump rompe com isso. O que pode parecer, num primeiro momento, uma coisa boa, pensar que os Estados Unidos não querem mais dominar o mundo. Mas, na verdade não, porque ao abandonar essa pretensão global, os Estados Unidos esvaziam e às vezes até destroem os mecanismos fundamentais de funcionamento, minimamente consistentes, dessa ordem internacional que vigorou por oito décadas: o multilateralismo, a cooperação e uma certa ideia de democracia que era defendida por alguns governos americanos. [Isso] não era necessariamente bom ou ruim, mas havia uma certa moralidade por trás da ação americana que hoje acabou completamente.
Nesse mundo reconhecido pelo documento do Trump de estratégia de segurança nacional, as grandes potências estão livres para, por interesses econômicos, geopolíticos ou militares, se expandirem pelas suas esferas naturais de influência ou pelos seus ‘quintais’. [Segundo o documento], aos Estados Unidos cabe, exclusivamente, a exploração dos recursos naturais, da infraestrutura, do fluxo de pessoas, naquele que é considerado o espaço natural de interesse americano, que são as Américas.
Trump já havia falado em sua campanha eleitoral em intervir nos países da região em função do combate ao narcotráfico. Discursos que se tornaram muito rapidamente políticas concretas, a partir do momento em que ele voltou à presidência e que se transformaram em doutrina de estratégia. Ou seja, a gente está diante de um momento particularmente nefasto para o Brasil, para a América Latina e para as Américas como um todo. Porque eu também estou incluindo Canadá e Groenlândia, em que os Estados Unidos se deram absolutamente o direito de dominar de maneira militar, econômica, de infraestrutura, o que seja. Dominar toda a região de acordo com os seus interesses.
O que está no documento é muito claro: O interesse norte-americano vai prevalecer sobre as Américas. Isso é um sinal muito complicado para todos os países da região que ainda acreditam minimamente em soberania, em cooperação, em respeito à autodeterminação dos povos.
Você acha que essa retórica do combate ao narcoterrorismo pode virar uma dessas bandeiras fortes da extrema direita, como a do combate à “ideologia de gênero” ou a perseguição aos imigrantes?
Eu acho que sim. A gente pode voltar no próprio Olavo de Carvalho, que já desde a década de 1990 escrevia sobre uma conexão, vamos dizer, narcopolítica, entre os partidos do Foro de São Paulo, demonizado pelo Olavo de Carvalho desde muito tempo atrás, e as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], por exemplo. Eu me lembro que esse era o grande argumento que se usava ali no começo dos anos 2000.
Essa construção segundo a qual a esquerda não só propaga o comunismo, mas se organiza financeiramente em torno de uma conexão umbilical com o crime organizado é uma narrativa que foi ensaiada na campanha de 2018. Aquela ideia da ligação do Lula com o PCC, aquela expressão “diálogo cabuloso”. Em 2022, teve o uso distorcido da sigla CPX para tentar imputar sobre o Lula e [sobre o] PT uma relação com o crime organizado dos morros do Rio de Janeiro, do Complexo do Alemão, o que também não tem cabimento, mas foi dito. Volta e meia aparecem relatos e fake news sobre a quantidade de presos que votaram no PT nas eleições A, B ou C. Então, assim, esses são temas que já foram ensaiados diversas vezes na retórica da extrema direita.
A grande questão agora, justamente para voltar ao ponto e amarrar, é que a gente tem uma legitimação internacional muito clara dessa estratégia. Porque, enquanto isso era confinado a uma discussão de política interna, a uma discussão casuística, circunstancial, a coisa tinha muito menos potencial de colar.
Agora, a partir de falas do governo americano, a partir de um clipe ali do [presidente de El Salvador] Nayib Bukele falando alguma coisa, isso se transforma numa pauta que, mais do que simplesmente nacional, vira transnacional. E acho que essa é a tendência, porque os governos estão caminhando todos nesse sentido. Essas construções vão ficando muito poderosas do ponto de vista simbólico e, sobretudo, a partir do momento em que ganham legenda em inglês ou em espanhol. Então, eu acho que isso é um alerta importante, isso tem um potencial destrutivo.
E, de novo, cabe sobretudo ao presidente Lula, se for de fato disputar a reeleição, tomar medidas até preventivas, do ponto de vista político. Para mostrar o compromisso que se tem com relação à pauta de maneira séria, de maneira correta, e que não se contamine por nenhum tipo de interesse estrangeiro de fazer do Brasil, ou de qualquer país da região, o quintal dos Estados Unidos.
