A decisão do ex-governador Ibaneis Rocha de sinalizar um possível afastamento do MDB-DF da base política da governadora Celina Leão provocou forte desgaste nos bastidores do poder em Brasília e abriu uma crise inesperada dentro do grupo político que comandou o Distrito Federal nos últimos anos.
A mudança de postura causou estranheza entre aliados e integrantes da própria base governista, principalmente porque o discurso defendido até pouco tempo atrás era justamente o da continuidade política e da manutenção da unidade construída ao longo de quase oito anos de gestão.
Na última quarta-feira (20), Ibaneis recebeu em sua residência o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, o presidente da Câmara Legislativa e do MDB-DF, Wellington Luiz, além do deputado federal Rafael Prudente. O encontro, visto inicialmente como um movimento de fortalecimento político da legenda para as eleições de 2026, ganhou contornos de ruptura após manifestações públicas do ex-governador demonstrando decepção com Celina Leão.
A reação nos bastidores foi imediata. Integrantes do meio político lembram que Celina esteve entre as figuras mais leais ao projeto liderado por Ibaneis desde o início da gestão. Nos momentos mais delicados enfrentados pelo governo, especialmente durante crises institucionais e períodos de forte desgaste político, foi ela quem assumiu a linha de frente administrativa do Distrito Federal, sustentando a estabilidade do governo e preservando a interlocução institucional enquanto o então governador enfrentava turbulências políticas.
A avaliação predominante entre interlocutores do Palácio do Buriti é de que a ruptura acontece em um momento considerado inadequado politicamente, sobretudo diante dos desafios fiscais e administrativos enfrentados pelo GDF. Para setores da base, a exposição pública do conflito transmite a imagem de fragmentação interna justamente quando o governo necessita de estabilidade e articulação política.
Após as declarações de Ibaneis, Celina Leão respondeu publicamente por meio das redes sociais. Em tom sereno, mas firme, a governadora afirmou ter recebido as manifestações com tranquilidade e ressaltou que sempre atuou com lealdade, responsabilidade e espírito público durante todo o período em que esteve ao lado do ex-governador como vice-governadora.
Sem adotar discurso de confronto direto, Celina fez questão de marcar posição institucional. Disse que, agora, ocupa a chefia do Executivo e que sua responsabilidade exige compromisso com os fatos e com a realidade administrativa do Distrito Federal.
Na manifestação, a governadora afirmou ter herdado uma grave crise no Banco de Brasília e um cenário fiscal delicado, citando um rombo bilionário nas contas públicas. Segundo ela, decisões adotadas desde que assumiu o comando do governo podem ter desagradado setores políticos e econômicos, mas afirmou que lealdade não significa abrir mão de princípios ou ignorar problemas estruturais.
“Lealdade é não trair os próprios princípios, não fugir da verdade e jamais abandonar a população quando ela mais precisa”, afirmou.
A crise evidencia não apenas um desgaste pessoal entre duas das principais lideranças do grupo político que dominou a cena local nos últimos anos, mas também antecipa uma disputa interna que poderá influenciar diretamente a sucessão de 2026 no Distrito Federal. Nos bastidores, o temor entre aliados é de que o rompimento fragilize a base governista e abra espaço para rearranjos políticos em um cenário que já começa a ser desenhado para a próxima eleição.
