Livro revela ligações do Grupo Folha com a repressão na Ditadura Militar

Obra investiga como o Grupo Folha colaborou com o regime militar, expondo demissões arbitrárias, manipulação de informações e conexões com a repressão política.

Falsidade ideológica. A Folha "inventou" o abandono de cargo da repórter Rose Nogueira alterando a data de nascimento do filho. Créditos: Arquivo pessoal

Falsidade ideológica. A Folha "inventou" o abandono de cargo da repórter Rose Nogueira alterando a data de nascimento do filho. Créditos: Arquivo pessoal

O recém-lançado livro A Serviço da Repressão: Grupo Folha e Violações de Direitos Humanos na Ditadura, publicado pela editora Mórula, joga luz sobre um capítulo obscuro da história da imprensa brasileira e da ditadura militar (1964-1985). A obra detalha como o Grupo Folha, comandado por Octávio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira, contratou dois agentes da repressão para cargos de alta hierarquia, permitindo acesso a informações privilegiadas sobre trabalhadores.

O levantamento faz parte de uma iniciativa decorrente de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o Ministério Público Federal e a Volkswagen. A montadora admitiu ter colaborado com o regime ao violar direitos de seus funcionários e financiou investigações sobre outras empresas que também possam ter atuado em conluio com a repressão.

Os jornalistas e historiadores Ana Paula Goulart Ribeiro, Amanda Romanelli, André Bonsanto, Flora Daemon, Joëlle Rouchou e Lucas Pedretti lideraram o trabalho que resultou no livro. A pesquisa detalha episódios que evidenciam a colaboração do Grupo Folha com a ditadura, destacando, entre outros, o caso da jornalista Rose Nogueira.
O caso Rose Nogueira: demitida durante a prisão

Rose Nogueira foi demitida do jornal Folha da Tarde enquanto estava presa no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em São Paulo, sob acusação de “abandono de cargo”. Na época, a jornalista estava de licença-maternidade, direito que até o regime militar respeitava. No entanto, documentos revelam que a data de nascimento de seu filho foi adulterada pelo jornal para justificar a demissão.

Em depoimento à Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, Rose relatou o ocorrido:

“Para poder fazer essa gracinha de me dar abandono de emprego, que só fui saber 20 anos depois, a Folha falseou a data do nascimento do meu filho. (…) Eu era repórter de cultura e variedade, e a Folha da Tarde noticiou minha prisão por terrorismo.”

O livro também resgata o papel de órgãos como o Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), o maior centro de torturas da ditadura, onde centenas de militantes foram presos, torturados e mortos. A Operação Bandeirantes, precursora do DOI-Codi, foi financiada por grandes empresários, incluindo representantes da imprensa.

A Serviço da Repressão oferece uma contribuição inestimável para o entendimento de como empresas privadas colaboraram com a repressão estatal e violaram direitos fundamentais. Além de ampliar o debate sobre o papel da imprensa durante o regime militar, o livro levanta questões sobre memória, verdade e justiça no Brasil.

O lançamento reacende discussões sobre a responsabilidade das instituições no período, evidenciando a importância de não apenas reconhecer os erros do passado, mas também de garantir que tais práticas não se repitam.

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