O encontro de cerca de três horas entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva na Casa Branca, nesta quinta-feira, 7 de maio, demonstrou que apesar dos ‘altos e baixos’ na relação entre os líderes, os dois países buscam “administrar tensões” diante de interesses de cada lado. “O encontro não representa um alinhamento pleno, mas uma tentativa de administrar tensões”, avalia o coordenador do Curso de Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Alexandre Coelho.
“O encontro entre Lula e Donald Trump representa uma tentativa de estabilização pragmática das relações entre Brasil e Estados Unidos. Mais do que uma aproximação ideológica, a reunião sinaliza o esforço dos dois governos para manter canais diplomáticos abertos em meio a divergências políticas, comerciais e estratégicas”, afirma.
Essa foi a terceira vez que o presidente Lula encontra-se com Trump em seu terceiro mandato. A primeira ocorreu em setembro de 2025, na 80ª Assembleia Geral da ONU, quando Trump surpreendeu o mundo ao elogiar Lula durante seu discurso. Um mês depois, eles voltaram a se encontrar na capital da Malásia, Kuala Lumpur. A reunião durou cerca de 40 minutos e se deu nos bastidores de em evento da Associação das Nações do Sudeste Asiático, em meio a negociações para a redução de tarifas comerciais a produtos brasileiros impostas por Trump. Também nessa ocasião, Trump elogiou “a trajetória política” do brasileiro.
Já no encontro desta semana, outros temas parecem ter sido discutidos numa reunião sem a presença da imprensa. Segundo André Araújo, professor de Política e Relações Internacionais, o objetivo da diplomacia brasileira era “afirmar o peso do Brasil no sistema internacional, visando ampliar sua autonomia, ou seja, garantir sua agenda junto aos Estados Unidos”. “Desse modo, mantém-se uma relação que é próxima, mas sem haver a dominação de um sobre o outro, visando consolidar um grau de igualdade entre as partes”, acrescenta Araújo.
Com a longa duração da reunião, três horas, Lula conseguiu escapar da coletiva em conjunto com Trump. O presidente brasileiro também conseguiu evitar a presença de jornalistas e fotógrafos durante a conversa. Com isso, a divulgação dos diálogos acabou ficando para as falas do próprio Lula, após a reunião, e repercutiu positivamente tanto internamente como no exterior.
Na leitura da professora de Política e Relações Internacionais Ana Carolina Marson, o clima que se seguiu no pós-encontro foi uma “construção deliberada de positividade”. “A manifestação pública do lado estadunidense e o otimismo cauteloso da delegação brasileira sugerem esforços coordenados para sinalizar avanços, ainda que sem compromissos concretos imediatos”, diz.
Marson ainda ressalta que mesmo tendo construído um “ambiente tático favorável”, a reunião só terá valido realmente a pena diante da “capacidade de ambas as partes de converter gestos políticos em resultados institucionais mensuráveis — um teste que recai, sobretudo, sobre os mecanismos de acompanhamento técnico e os prazos para negociações futuras”.
Economia supera discursos ideológicos
Essa visão pragmática adotada pelos dois presidentes é explicada, de acordo com Alexandre Coelho, pela prioridade em focar em seus próprios interesses econômicos.
Na análise do professor, “para os Estados Unidos, o Brasil continua sendo um parceiro relevante na América Latina, tanto por seu peso econômico e territorial quanto por sua importância em temas como minerais críticos, segurança regional, energia, cadeias produtivas”. Ele ainda chama atenção para o fato que, nesse cenário, os norte-americanos enxergam a China, outro parceiro comercial estratégico para o governo, como um competidor pelos recursos brasileiros.
“Nesse contexto, o desafio brasileiro é negociar com Washington sem comprometer sua política externa independente e sua relação com outros parceiros, especialmente a China”, alerta. Ele acrescenta que “a reunião também mostra que o comércio internacional se tornou cada vez mais geoeconômico: tarifas e restrições comerciais não são apenas instrumentos econômicos, mas mecanismos de pressão política”. Alexandre Coelho
A professora Ana Carolina Marson alinha-se a esse pensamento afirmando que temas como as tarifas bilaterais e a cooperação em terras raras, discutidos na reunião segundo Lula, são o “núcleo duro da disputa comercial e tecnológica entre as duas economias, com implicações diretas para as cadeias globais de suprimento”.
O Brasil insere-se nessa pauta como parceiro estratégico já que contém a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da China. Um dia antes da reunião entre os presidente, na quarta-feira, 6 de maio, a Câmara dos Deputados aprovou em votação simbólica o PL 2780/24, que instaura a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). Entre as novidades do texto está a criação do Fundo Garantidor da Atividade Mineral (Fgam) com aporte de R$ 2 bilhões da União e de um programa para incentivar o beneficiamento e a transformação de minerais críticos no Brasil, com incentivos federais de R$ 5 bilhões. O texto seguiu para o Senado Federal.
