Nobel da Paz: as polêmicas, de Hitler a Trump, e o fenômeno do peacewashing

O prêmio Nobel é uma das maiores consagrações mundiais, mas não está livre de polêmicas. A entrega do do prêmio Nobel pela da venezuelana Maria Corina Machado, laureada no ano passado, ao presidente dos EUA, Donald Trump, ilustra como a condecoração se tornou uma ferramenta de disputas políticas.

Ex-parlamentar e líder da oposição ao governo de Nicolás Maduro, Machado celebrou o sequestro do presidente venezuelano no último dia 2 de janeiro e pediu que seu candidato, Edmundo González, fosse declarado presidente. González concorreu com Maduro e, segundo contagens extraoficiais, recebeu 67% dos votos, mas a Justiça Eleitoral venezuelana apontou a vitória de Maduro com 51,2%, sem apresentar as atas aos observadores internacionais, o que gerou protestos e uma crise diplomática.

Mesmo com a queda de Maduro, o regime chavista se mantém no poder com a antiga vice-presidente, Delcy Rodríguez, na presidência interina. Nesse cenário, Machado utiliza seu principal trunfo: um Nobel da Paz cobiçado por Trump.

Machado e Trump se encontraram nesta quinta-feira na Casa Branca, mas de portas fechadas. Ambos confirmaram que a medalha foi entregue a Trump “pelo trabalho que eu fiz”, segundo o pesidente americano escreveu na sua rede Truth Social. A foto foi da entrega publicada horas depois nas redes sociais. O prêmio foi emoldurado e continha uma dedicação de Machado “em agradecimento pela sua extraordinária liderança em promover a paz pela força, promover a democradia e defender a liberdade e a propriedade”.

Um nobel como moeda de troca política

Para Caio Rubini, mestre em pensamento político e social pela Universidade de Sussex, a busca de Trump pela medalha não é apenas vaidade, mas “uma tentativa de converter um poder bruto e disruptivo em capital simbólico atemporal”. O historiador aponta a pressão de Trump sobre Machado como “uma mensagem de agressividade política muito profunda”.

“Quando Trump acena para esse Nobel da Corina, ele está operando uma distorção completa no conceito de paz. A mensagem que fica é de legitimidade [daquilo] que não vem mais de um reconhecimento diplomático global. Na verdade, a gente está vendo um sistema de troca de favores, entre aliados ideológicos […] É uma tentativa de lavagem de imagem, o que seria chamado de peacewashing”, afirma Rubini.

Em entrevista à Fox News, Machado afirmou que entregar o prêmio a Trump seria um gesto de gratidão do “povo venezuelano”. A declaração surtiu efeito, e Trump confirmou um encontro com a ex-deputada nesta quinta-feira (15), declarando que receber o prêmio “seria uma grande honra”. A Fundação Nobel, contudo, afirmou em nota que o prêmio não pode ser “transferido, compartilhado ou revogado”.

O histórico controverso do prêmio da paz

O Nobel da Paz é a categoria mais questionada desde sua criação, em 1901. Em 1939, o deputado sueco Erik Brandt indicou Adolf Hitler de forma irônica, como um protesto à indicação do primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que havia assinado o Acordo de Munique com o líder nazista. No fim, ninguém recebeu o prêmio naquele ano, pois Hitler deu início à Segunda Guerra Mundial.

Outras indicações polêmicas incluem Joseph Stalin, em 1945 e 1948, por sua participação no fim da guerra.

Entre os premiados, o Secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger (1973) é um dos mais questionados. Premiado por negociar o cessar-fogo no Vietnã, ele foi acusado de crimes de guerra, como o bombardeio ao Camboja e ao Laos e o envolvimento na Operação Condor, que apoiou ditaduras na América Latina, incluindo a do Brasil. No mesmo ano, o líder vietnamita Le Duc Tho recusou o prêmio, denunciando que os EUA haviam violado o acordo. A premiação de Kissinger levou à renúncia de dois membros do comitê norueguês.

Outros laureados geraram polêmica por ações posteriores ao prêmio. A birmanesa Aung San Suu Kyi (1991) foi acusada de envolvimento no genocídio contra a minoria muçulmana em Mianmar. O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed (2019), iniciou uma guerra civil um ano após receber o prêmio por um acordo de paz com a Eritreia.

Um espelho do ocidente?

O Nobel da Paz é definido por um comitê de cinco membros indicados pelo Parlamento da Noruega. Para a professora Débora Tavares, doutora em literatura pela USP, o método de escolha reflete “o microcosmo do pensamento nórdico”, com ‘juízes’ e premiados compartilhando o “mesmo ciclo ideológico, político e econômico”.

“A escolha de uma opositora venezuelana […] prova o quê? Que o comitê funciona como uma extensão do corpo diplomático ocidental, e não como um conselho de pensadores supostamente livres e intelectualmente honestos”, afirma.

As controvérsias incluem a ausência de Mahatma Gandhi, indicado cinco vezes, mas nunca premiado. A justificativa oficial da Fundação Nobel para não conceder o prêmio em 1948, ano de seu assassinato, é contestada pela visão de que Gandhi foi preterido por sua oposição ao império britânico.

“O prêmio Nobel funciona mais como um espelho do narcisismo ocidental […] do que como um mapa dos feitos da humanidade”, opina Caio Rubini. “A premiação ainda é limitada por um teto geográfico e racial. Nas categorias de paz e literatura, cada vez mais o prêmio se tornou uma ferramenta de política externa. Não aponta mais o melhor, mas aquilo que convém a uma narrativa específica, liberal, europeia e norte-americana”.

Além da paz: outras polêmicas do Nobel

As polêmicas não se restringem ao Nobel da Paz. Em 1995, surgiram denúncias de que a indústria farmacêutica italiana Fidia teria pago para garantir o prêmio de Medicina de 1986 para a neurologista Rita Levi-Montalcini. O comitê negou a acusação.

Em 2017, o Nobel de Literatura foi abalado por denúncias de assédio sexual e estupro contra Jean-Claude Arnault, marido de uma integrante da Academia Sueca, o que levou à renúncia de seis membros.

James Watson, vencedor do Nobel de Medicina em 1962, foi afastado de suas funções no laboratório Cold Spring Harbor por declarações racistas. Para a professora Débora Tavares, o acúmulo de polêmicas é sintoma de um “descompasso anacrônico”, já que a Fundação Nobel mantém as mesmas regras do testamento de Alfred Nobel, de 1895.

“O mundo de 1895 […] era um mundo de impérios coloniais. Manter essas regras intactas agora em 2026 é ignorar a descolonização, as lutas antirracistas, a emergência de novas potências”, conclui Tavares.

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