Entre tantas notícias quentes – o encontro de Lula e Trump, o senador Ciro Nogueira enterrado no Master até o pescoço – às vezes a gente perde o fato essencial, aquele capaz de revolucionar o que pensamos sobre nós mesmos e trazer novas perspectivas de ação.
A história foi contada pelo repórter Daniel Biasetto no jornal O Globo na segunda-feira passada, dia 4 de maio, e me levou a um estado de maravilhamento, que tenho que compartilhar com vocês.
Em um território da Amazônia protegido pela presença de um único indígena isolado – do qual se sabia quase nada desde que foi avistado nas matas de Rondônia, na fronteira com a Bolívia, em 1996 – pesquisadores da Universidade de Brasília descobriram uma “ocupação indígena profunda e sofisticada, que permaneceu invisível por séculos sob a copa das árvores”.
Um “patrimônio de valor incalculável”, como definiu o arqueólogo Francisco Pugliese ao pedir ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o tombamento federal imediato da área, fundamentado em um mapeamento feito com sensoriamento laser (que permite observar a área sem a vegetação) pelo Laboratório de Arqueologia Indígena da UnB.
Com o uso dessa tecnologia, os arqueólogos descobriram a existência de uma “rede de caminhos” com mais de 110 quilômetros de trilhas ancestrais que ligam assentamentos com aldeias circulares e recursos naturais, indicando uma ocupação contínua de mil anos no mínimo e um elo perdido: a conexão de culturas da Amazônia com as do Brasil Central, como evidencia um dos achados, a primeira casa escavada no solo na região.
“As casas subterrâneas são estruturas geralmente associadas a povos Jê do Sul do Brasil, como os Kaingang e Xokleng, e são tradicionalmente interpretadas como adaptações a climas mais frios das regiões de planalto do Sul e Sudeste brasileiro. Sua presença na Amazônia, em um ambiente tropical de floresta densa, contradiz frontalmente esta interpretação e sugere que os processos de migração, adaptação ou difusão cultural dos grupos Macro-Jê foram muito mais extensos e complexos do que se pensava”, explicou Pugliese ao Globo, esclarecendo que há quase um ano aguarda a resposta do Iphan ao seu relatório.
Outro detalhe descoberto pelos arqueólogos chama a atenção de quem já ouviu falar do “índio do buraco”, um personagem tão fascinante quanto o horror que moldou a sua vida, assim chamado por abrir covas no chão enquanto se movimentava na mata. O estudo arqueológico encontrou mais de 1.300 buracos no agora denominado “Complexo Arqueológico Tanaru”, localizado na área de 8.070 hectares da TI Tanaru.
Símbolo da resistência dos 115 povos indígenas isolados registrados pela Funai no país, o “índio do buraco” foi avistado pela primeira vez por madeireiros e teve sua existência confirmada por indigenistas em 1996. Permaneceu no território até ser encontrado morto em seu tapiri em 2022, “deitado na rede, e paramentado [com penas de arara] como se esperasse a morte”, como contou o repórter Rubens Valente em coluna para a Agência Pública de agosto daquele ano.
O apelido insólito dá a medida do nosso desconhecimento sobre o indígena, do qual não se sabe até hoje o nome, a língua ou cultura a que pertencia, da qual se acredita que ele era o único remanescente. De acordo com o indigenista Marcelo Santos, ouvido por Valente, o “índio do buraco” foi jogado na solidão depois que o grupo do qual fazia parte sofreu diversas violências e desapareceu com a sua morte.
“Ele não confiava em ninguém em sua volta porque viveu várias experiências traumatizantes com os não indígenas. Ele temia pela própria vida. Um conjunto de fatores levou a essa solidão. Há relatos de que indígenas isolados foram mortos na região com veneno misturado à comida. Acreditamos que, por isso, ele nunca aceitou a comida que deixávamos para ele na mata”, explicou Santos a Valente.
Um genocídio perpetrado pelos brancos que, para ele, significou a destruição da possibilidade de convivência humana (quem mais falará a sua língua, quem saberá o que significam as penas de arara, qual a história de seu povo?) mas que não o impediu de nos deixar o mais precioso dos legados: a floresta preservada (interditada depois que a Funai confirmou a presença do isolado) guardando um legado milenar que pode alterar todo nosso entendimento sobre as culturas ancestrais que nos formaram como povo.
Em setembro do ano passado, o Supremo Tribunal Federal homologou o plano de criação do Parque Nacional Tanaru (o nome vem de um rio que corta a região), proposto pelo governo federal, como “instrumento de reparação da histórica violência e vulnerabilização sofrida pelos povos originários do Brasil”, como definiu o ministro Edson Fachin. O que ganha importância ainda maior com o pedido de tombamento do sítio arqueológico, preservando o passado e o futuro das culturas amazônicas.
É com esse olhar que temos que pensar em quem somos e o que realmente importa para nós. Um povo formado por culturas únicas e ricas em conexão, o que nos torna mais profundos e visionários à medida que respeitamos nossas raízes ancestrais e protegemos a vida e o nosso patrimônio comum. Toda área indígena merece ser demarcada, toda cultura tradicional merece respeito e atenção.
Não podemos ser mesquinhos diante da imagem do homem que protegeu com a própria vida o legado de sua cultura e que soube se preparar para a morte, adornado de penas de arara, guardando até o fim o território sagrado, mesmo estando completamente só.