Era um dos primeiros dias do ano, daqueles inacabados, como se estivessem presos num limbo desde o Natal. Um tempo suspenso, em que a gente já não sabe se é quinta ou sábado, mas que carrega em si um clima de domingo permanente, onde a ansiedade da segunda é substituída pela espera de um ano inteiro que mal começou.
Nesses dias, tudo parece exigir um sentimento, um equilíbrio. É preciso sentir, é preciso desejar; o recomeço imposto pelo calendário é uma armadilha. Mas dessa vez, não quis que fosse assim. Resolvi atravessar aqueles dias como se fossem quaisquer dias, embora estivesse completamente fora da rotina. Me propus a um ócio quase completo, um ato de desobediência às convenções sociais, apenas para ver o desfecho.
O que acontece quando a gente se permite o nada? Acendi um cigarro. E no primeiro trago, a vida real, o aqui, o agora. A fumaça que desmanchava naquela tarde era como um pensamento efêmero. E a sua lentidão calma, quase silenciosa, representava bem a cidade naquele instante.
O que eu ainda não sabia é que nesse movimento eu cometeria uma sucessão de pequenos erros. Não me lembro como o celular foi parar em minhas mãos – ele tem vontades próprias. O primeiro erro, quase ingênuo: buscar apenas distração numa rede de vídeos. Acomodei-me no sofá. Parecia o passatempo perfeito. Seriam horas perdidas com a fofura de cachorrinhos e lontras. Era só o que eu queria.
Você já tentou não fazer nada? De verdade? Conectado às redes sociais, é impossível. Nunca subestime o algoritmo. Ele não é como a TV, que você abandona ligada por preguiça de alcançar o controle. O algoritmo é mais íntimo, mais perigoso. Ele sabe do seu tédio antes mesmo que você o sinta. E, quando ele percebeu minha disposição para o vazio, não me deu descanso: entregou o eco de outras solidões.
De repente, saem os cachorrinhos e entra um melancólico vídeo sobre a beleza de não fazer nada protocolar por um período de férias. Milhares de curtidas. Centenas de comentários. E qual foi meu segundo erro? Mergulhar neles, buscando identificação como quem busca o mar em dia de calor.
Ali, no caldo das opiniões alheias, a guerra: os que acusavam o isolamento e os que o santificavam. Senti o impulso de entrar na briga, de digitar minha verdade. “Gente, é só cada um fazer o que quer, não?”. Apaguei para não atiçar a fera do engajamento.
As redes nos convidam a todo instante para um mergulho contínuo na validação mútua; você entra buscando se refrescar e, quando percebe, já está fundo demais, o que, sem cautela, nos afoga. Melhor seguir meu próprio conselho, sem precisar torná-lo público. Precisava apenas do cigarro. Fui para a janela; queria focar no mundo real. Mas a mente, essa traidora, já estava em chamas com aquelas micro dosagens de dopamina. Olhei para a tarde pacata lá fora e dei mais um trago.
Puxei o ar fundo e respirei o silêncio que era a única coisa realmente minha naquele instante. E cometi meu único acerto: comecei a escrever. Porque, no fim, talvez seja assim que o nada vire algo que dá pra segurar.
Percebi, então, que a minha vida inteira foi um estado de alerta. Aprendi a me calar para não criar ruído. Um silêncio que cansa. O mundo real, mesmo pacato, ainda permite esse respiro fora do mar agitado por estímulos incessantes. Ele exige esforço, mas é preciso escolhê-lo.