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Paul McCartney quase me mata

por Redação Capital Brasília
6 de abril de 2026
em Brasil, Política
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Paul McCartney quase me mata
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Uma noite de música em Brasília termina no silêncio de um hospital. Aos 36 anos, Ed se vê em uma UTI com o coração comprometido e a sensação de que sua vida está por um fio. Entre o humor ácido e o medo real, ele reconstrói o que o levou até aquela maca — e encara a pergunta inevitável: como a comida entra nessa conta?

A investigação que nasce desse susto ultrapassa o plano pessoal. Neste episódio, o trabalho revela um campo de batalha invisível: alimentos ultraprocessados, interesses econômicos gigantescos e uma realidade alimentar projetada para moldar nossos hábitos.

Além do diagnóstico brutal, a narrativa propõe a reflexão sobre como a obesidade vai além de uma questão da disciplina e pode envolver um sistema saboroso pensado para ser quase inescapável.

Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra:

[Ed Wanderley] Estar numa UTI é lidar constantemente com o vazio. Repetidas vezes. O tempo se arrasta. Os ponteiros avançam temendo o próximo passo. Preencher esses espaços com sons de gente pode ser sinal de que algo não está certo. É exatamente o que não se quer por aqui. Numa rotina de tratamento intensivo, você relativiza tudo. Até a vida. Especialmente a vida… Perdi alguns vizinhos nos dias em que estive no leito 5. Sem nome, sem rosto. Apenas vazios que, em silêncio, me fizeram companhia por horas. Muitas. Até não mais… 

[Ed Wanderley]: Hospital Alvorada, Distrito Federal, dezembro de 2023. Longe da família, sem autorização sequer de companhia, num leito intensivo, eu morri. Essa é a história que te conto a partir de agora. 

[Música gravação de show]

[Ed Wanderley]: Viva e deixe morrer… Nada mais irônico. Ao menos pude segurar até o bis e dizer que vi um dos Beatles, em carne e osso, a poucos metros, alcançado por berros alcoolizados, em plena forma física. Forma física dele, no alto de seus 81 anos. Muita gente, animação, pulos além dos joelhos, suadeira, sede… Ok, não tô bem não. Para falar a verdade, eu nem deveria estar aqui. Estava graças a um amigo que veio do Recife a Brasília com o velho “tenho um ingresso sobrando”.

[Entrevista com Diogo Dantas] 

[Diogo Dantas]: A intenção era ir vender, né? Mas aí eu pensei, pô, vou vender e tal. Isso aqui não vai mudar em nada financeiramente. Vou propor a Ed, ver se ele vai, gosta de música e tal. 

[Ed Wanderley]: Eu não ia dizer não.

[Diogo Dantas]: É, não tem como negar uma proposta indecorosa dessa, né?

[Ed Wanderley]: Esse é Diogo Dantas. Ele é que era o fã alucinado do quarteto de Liverpool. Fui a reboque. E, claro, esse foi um motivo extra para que eu segurasse meu B.Os. quando comecei a passar mal.

[Entrevista com Diogo Dantas]

[Diogo]: De repente, tu, de uma animação notória, assim, você deu uma aquietada. Eu achei que você tinha cansado ou estava… Enfim, estava mais reflexivo. Alguma música que remetia a algum momento aí da sua vida. Remetia a seu pai, alguma coisa. 

[Ed Wanderley]: Meu pai, Edmilson Wanderley, havia morrido há pouco mais de um ano.

[Entrevista com Diogo]

[Diogo]: Você só falou que ia no banheiro. E eu sei que na hora que tu saiu, eu tive o tino de sair um pouco atrás. O Ed é um cara muito educado e tal, ele,se ele estiver morrendo, ele não vai me falar, porque ele já vai dizer, porra, o cara veio aqui ver o show, já me deu o ingresso, aí meio que eu vou estragar a experiência do cara.  E nesse tempo, claramente, ele era de um grupo de risco, assim, ele não tinha práticas saudáveis, estava acima do peso e tal, então não seria um absurdo ele ter algum problema com a pressão naquele momento. Chego lá, tá você na urgência, sentado já, com uma socorrista lá. 

[Ed Wanderley]: Do estádio, percorro uma odisséia. E sigo rindo. Aliás, algo que ainda farei muito desde os primeiros dias de internação nessa madrugada de 1º de dezembro. Cá estou eu, numa maca hospitalar, aos 36 anos, próximo dos 150 quilos, com a capacidade cardíaca reduzida a 36%. Não é só uma coincidência de números. É uma certeza. Eu vou morrer. 

[Ed Wanderley]: O que reforça essa ideia, é uma crença que me acompanha desde os 13 anos, a “Maldição dos 36”, que nunca se fez tão concreta. Eu conto mais pra frente essa história, só perceba quantas vezes o 36 volta nessa jornada. E apesar de chegar à conclusão de que o fim não é por acaso, nesse momento, eu rio. Percebo que meu prazo de vida está chegando ao fim, e então, eu oceano…

[Gravação na ambulância, registro pessoal de Ed Wanderley]

[Ed]: Digo logo que tô aqui com Eva. Isso. Primeira vez que vou andar de ambulância. 

[Eva]: Isso. 

[Ed]: Agora só vai faltar jetski, o Lago Paranoá que me aguarde. ||| (00:15) Agora vamo ter que fazer o grito de guerra “Sirene, sirene”. 

[Ed]: Já ligou a sirene, porra! Vê se dá pra ouvir, ó! Tá ligada a sirene!

[Ed Wanderley]: Eu sou Ed Wanderley e esse é o A Última Bolacha, uma jornada que teve início no fim. Depois de um ataque cardíaco aos 36 anos durante um show de Paul McCartney, meus caminhos pessoais e profissionais se misturaram. Nos meses seguintes, passei a investigar não apenas para reportar, mas para reaprender a viver. Foram dezenas de documentos lidos, entrevistas conduzidas, seis mil quilômetros rodados e, enfim, mais de 50 kg eliminados. Agora eu levo você comigo a cada passo.

[Ed]: De alimentos prontos industrializados ao diet, light, zero. Açúcar, canetas emagrecedoras, bariátrica. As apostas eram muitas, mas eu não vou contar de cara os caminhos que tracei. E foram alguns. Antes é preciso entender o que se passa nessa cabecinha cheia de problemas. “Escolher é perder sempre”, disse o filho de Jô Soares, o gordo que me inspirou desde a infância e a quem eu quase me junto…

[Ed]: Uma criança gorda é como um ponto brilhante na escuridão. Não passa batida. Eu sou do tipo “magro por foto”. Só acredito que em algum momento da vida não estive acima do peso porque é o que denuncia uma foto da minha festa de aniversário de quatro anos exibindo os bíceps negativos aos convidados, em um papel levemente azulado de revelação analógica e sem muita resolução. 

[Ed]: O tema da festa era Changeman, os tio-avôs dos Power Rangers. De memória, mesmo, não lembro de nunca ter tido um corpo reto, desde criança. Até minhas pernas são um pouco tronchas. E sempre fui gordinho. E esse inho, carinhoso, esconde a condescendência do folião pernambucano que nunca chama as coisas como são. Rever esse passado para planejar dias diferentes passa fundamentalmente pelo que se faz e pelo que se ingere. Eu te convido para essa jornada, mas já alerto: é indigesta.

[Ed]: Neste primeiro episódio, o princípio era o verbo. E o verbo era comer. O ultraprocessado nosso de cada dia e nosso pedido diário silencioso para que o acaso “livrai-nos de todo o mal”. Amém

[Ed]: Episódio 1: Paul McCartney quase me mata

[Áudio de propaganda do biscoito Aveia e Mel da Nesfit]

[Narração da propaganda]: É pura aveia. É puro mel. Aveia e mel. O novo biscoito da São Luiz Nestlé.

[Ed]: O biscoito Nesfit aveia e mel… ou seria bolacha? Bom a tal delícia, por anos, me serviu de refúgio nas várias dietas que enfrentei. Mas não dá para emagrecer comendo um pacote fit por dia. Não testem. Em abril de 2025, o Procon de São Paulo autuou a Nestlé porque o biscoito de aveia e mel não tinha… mel. 

[Áudio de propaganda do biscoito Aveia e Mel da Nesfit]

[Narração da propaganda]: É pura aveia. É puro mel. 

[Ed]: O mesmo foi feito para o “Nestlé creme de leite”, uma mistura ultrapasteurizada com soro de leite, um subproduto, que na hora das compras no supermercado muita gente sequer identificava diferença. Propaganda enganosa, identificou o Procon.

[Áudio música da propaganda biscoito de creme de leite da Nestlé]

[Ed]: R$13 milhões a multa para a Nestlé, a empresa suíça que literalmente vale 1 trilhão de reais e que, só em 2024, faturou R$27 bilhões com o mercado brasileiro. Procurada pela Pública, a empresa afirmou que cumpre rigorosamente as legislações vigentes, inclusive em relação aos rótulos e comunicação dos produtos. Sobre os produtos que anunciavam aveia e mel sem ter mel, a empresa disse:

[Leitura Nota | Áudio gravado]

[Stela Diogo]: Cabe destacar que não fazem mais parte do portfólio da empresa. A Nestlé já apresentou sua defesa às autoridades, reforçando seu compromisso com a ética e a transparência na publicidade de seus produtos.

[Ed]: Essa é a nossa produtora Stela Diogo. É ela quem vai fazer as vezes de porta-voz e ler as respostas de todas as empresas citadas daqui pra frente nesse podcast. Segundo a revista Forbes, a Nestlé segue como a maior fabricante de alimentos do mundo. Mas aí é que tá. Para uma das vozes científicas mais citadas no mundo na última década, esse tipo de produto sequer deveria ser encarado como comida.

[Sonora chegada na casa de Carlos Monteiro]

[Ed]: Oi, bom dia. Carlos Monteiro, no 92? Ed Wanderley. Doutor Carlos, prazerzão estar aqui com o senhor. Apesar desse frio. Eu fui em São Paulo, estou acostumado mais não.

[Ed]: Carlos Monteiro é médico epidemiologista e professor da Universidade de São Paulo, USP. Um dos cientistas mais citados no mundo nos últimos dez anos. Ele liderou a equipe que cunhou o termo ultraprocessado além da classificação Nova, que divide os alimentos de acordo com o nível de processamento. Há os alimentos in natura, diretos da natureza. Os minimamente processados, que são preparados, cortados, temperados, moídos, enfim, passam por um ajuste mínimo para o consumo. Os processados, que são aqueles que recebem açúcar, gordura, sal e outras substâncias para terem o sabor ou durabilidade minimamente alterados. E aí entram os pães, as conservas, os queijos, etc. E, enfim, os ultraprocessados.

[Entrevista com Carlos Monteiro]

[Carlos Monteiro]: O ultraprocessado, uma das maneiras de definir é assim: são fórmulas para todas as idades. Enquanto a fórmula infantil é específica para o lactente, para a criança pequena, os ultraprocessados são consumidos em todas as idades atualmente e são fórmulas. São fórmulas para diferentes públicos, etc. Mas são formulações que substituem os alimentos e as preparações culinárias. Porque como é que a gente se alimenta? 

[Ed]: De alimentos?

[Entrevista com Carlos Monteiro]

[Carlos]: De alimentos. Você pega uma banana, é aquele alimento in natura que não houve transformação, saiu da natureza e você consumiu. Mas a maior parte dos alimentos são preparados, são cozidos, temperados, misturados. E aí você tem as preparações culinárias. Durante muito tempo a alimentação foi feita ou de alimentos in natura, sem nenhum tipo de preparação, ou na maior parte das vezes alimentos preparados nas cozinhas com os ingredientes culinários. E esse foi o jeito que a humanidade se alimentou durante séculos, milênios. 

[Ed Wanderley]: Em time que tá ganhando…

[Entrevista com Carlos Monteiro]

[Carlos Monteiro]: O ultraprocessado é uma coisa relativamente recente que surge para substituir o alimento e as preparações culinárias e maximizar o lucro da indústria. E causar doenças. Esse é o problema. Aí é que a equação não fecha.

[Ed Wanderley]: Para falar a verdade, o termo ultraprocessado, que já soa bem tradicional, mas ele é recente. O conceito sequer existia quando eu era criança. O primeiro estudo publicado com a palavra só veio em 2009 e rapidamente encontrou eco no mundo todo, com estudos revisando a proposta e mencionando o estudo feito no Brasil.

[Entrevista com Carlos Monteiro]

[Carlos Monteiro]: O Brasil foi muito importante em relação às pesquisas, o Cesar Victora.

[Ed Wanderley]: Cesar Victora, epidemiologista brasileiro, vencedor do prestigiado Prêmio Gairdner de Saúde Global.

[Carlos Monteiro]: Eu lembro que o primeiro trabalho dele era um estudo de casos de controles. Ele mostrou que as crianças que não recebiam leite materno, ou que eram desmamadas nas primeiras semanas de vida, o que era muito comum naquela época hoje não, hoje é bem diferente a situação, elas tinham um risco, eu lembro, de 23 vezes maior de morrer precocemente do que as crianças amamentadas. E isso foi fundamental, no mundo inteiro, para ver que a fórmula infantil não é a solução para nada. As crianças têm que receber leite materno e por que elas têm que receber o leite materno? Tem um pouco a ver com essa questão do ultraprocessado. 

[Ed Wanderley]: Monteiro explica que fomos desenhados naturalmente para receber o leite materno como o único alimento até os seis meses. E nele se concentra desde a água até a proteína que precisamos. Somente depois, nosso corpo passa a precisar de outros alimentos.

[Carlos Monteiro]: Esse leite tinha um monopólio nessa época. Era a única que produzia a fórmula infantil, né? Então, esses trabalhos que a gente fazia, mostrando o impacto do desmame nas doenças e a necessidade de regular completamente a publicidade dessas fórmulas infantis, que acontecia naquela época é que a Nestlé visitava essas maternidades, os representantes, e doavam amostras grátis dessas fórmulas infantis. E as mães saíam da maternidade já com uma latinha de leite de amostra grátis. Agora, a fórmula infantil era uma coisa complicada, porque se a mãe não amamenta e você não tem um banco de leite, que seria a segunda opção, banco de leite humano, então a mãe morreu, adoeceu, não pode amamentar a criança, não tem um banco de leite. O que é o melhor? A fórmula infantil. É o papel que ela tem, mas usada excepcionalmente.

[Ed Wanderley]: Sim, a fórmula infantil seria o primeiro ultraprocessado que a gente consumiu.

[Carlos Monteiro]: Esse é o primeiro embate, porque evidentemente, como a questão do ultraprocessado, se eu sou uma indústria de alimentos e eu produzo fórmulas infantis, o que eu quero? Que toda criança receba fórmula infantil. É a única forma que eu tenho de maximizar seus lucros. Então você passa a ter um interesse oposto, que opõe a saúde pública ao lucro da indústria. E aí essa é a primeira briga.

[Ed Wanderley]: O estudo liderado por Carlos Monteiro associou o consumo de ultraprocessados a mais do que obesidade. Além dela, outras 32 doenças estariam relacionadas ao consumo, incluindo hipertensão, diabetes e até alguns tipos de câncer. Mas não é porque o produto passa por um processamento industrial que ele é ultraprocessado.

[Carlos Monteiro]: O arroz e o feijão, ele é industrializado. Você tem uma indústria por trás daquilo. Você seca o arroz, o feijão e embala. A farinha, o macarrão, as massas, o azeite, os óleos, a manteiga. Então, a indústria de alimentos é fundamental, é absolutamente necessária. Só que hoje, indústria, o que ela fez? Ela foi da fórmula infantil até o macarrão instantâneo, até a barra de cereal, até os produtos para emagrecimento, tudo. As sobremesas que eram normais, feitas com ingredientes conhecidos, passam a ser produtos ultraprocessados, fórmulas.

[Ed Wanderley]: E segundo a equipe que classificou os ultraprocessados, não há uma margem estipulada para o consumo seguro desses alimentos. E cada organismo reage de uma forma ao estímulo dessa ingestão. Mas esse é o ponto. Considerando que os produtos são aprovados pelas autoridades sanitárias, qual o caminho? Não consumir? 

[Carlos Monteiro]: Em primeiro lugar, a gente precisa entender o seguinte, por que a indústria prefere fazer o ultraprocessado do que fazer o alimento processado normal? Porque dá muito mais lucro. Quer dizer, o ultra processamento é um modelo de negócio, precisa entender isso. A indústria não faz para as pessoas adoecerem, ela faz porque ela conseguiu, com esse modelo de negócios, maximizar a lucratividade. Tem estudos mostrando, inclusive, isso, que a indústria de alimentos é uma das que tem margem maior de lucro por conta do alimento ultraprocessado. Então é por isso que ela faz isso.

[Ed Wanderley]: E nossos hábitos vão mudando numa velocidade cada vez mais acentuada e natural.

[Carlos Monteiro]: Talvez tenha sido essa do refrigerante normal. Então, em vez de você tomar café, ou chá, ou água, você vai consumir o refrigerante. E aí ela foi conseguindo fazer, em vez de um macarrão normal, você vai consumir um macarrão instantâneo. E aí ela foi conseguindo entrar na sua dieta e a fase mais recente que a gente vê. Porque como as pessoas adoeceram e a obesidade passou a ser uma pandemia. O que ela faz? Ela começou a criar produtos para essa clientela que não está satisfeita com o peso, que gostaria de ter mais saúde e tal. E manteve o modelo de negócios E de fato apurou o modelo de negócios Porque como ela faz um produto diferenciado, ela tem condições de cobrar mais caro.

[Ed Wanderley]: E vou te dizer, barato e diferenciado mesmo é comida de família, né? Só de falar bate a fomade, a mistura de fome com saudade.

[Sonora de música natalina]

[Ed Wanderley]: Após 15 dias internado, era época de Natal em 2023. E eu fui planejar os próximos passos do meu tratamento junto à minha família materna, em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. 

[Ed Wanderley]: Chegando aqui nos bastidores do Natal, porque a pessoa tem que infartar perto do Natal, né? Porque aí a ceia é pra ter mais graça. Aí tô aqui com as cozinheiras. Eu queria só dizer uma coisa que eu achei uma solução. Tá com vontade de comer? Bota uva passa. Bota uva passa que passa. Bota, ó, tia, no arroz vai o quê? Uva passa. Na rabanada vai o quê? Uva passa. Ó, no suco de goiaba vai o quê? Uva passa. Vai ter que ir uva passa em todo canto, irmão. Bota uva passa que passa. Aí vai ser isso, porque eu vou comer porra nenhuma. 

[Ed Wanderley]: Quando recebi a alta, eu estava muito animado. E tal qual balão de festa no dia seguinte, eu murchei rapidamente. Entre sangue colhido e comida de hospital, eu perdi quase 12 quilos. Mas não era suficiente. Aliás, longe disso. A recomendação médica deixava claro. Aquele era só um primeiro passo.

[Entrevista com Sérgio Wu]

Rapaz, quando você chegou lá no hospital, chamou atenção assim você internou por causa de uma crise hipertensiva foi o que tinha me passado no prontuário e tudo. 

[Ed Wanderley]: Esse é o cardiologista Sérgio Nogueira Wu, que me atendeu quando eu tive o ataque cardíaco e me acompanha desde então.

[Sergio Wu]: E na investigação inicial você tinha uma alteração muito grave no coração com a suspeita de infarto prévio, insuficiência cardíaca grave, uma fração de ejeção de 36%.

[Ed Wanderley]: Perceba esse bendito número…A maldição dos 36 vai fazer total sentido.

[Sergio Wu]: E já com a miocardiopatia dilatada avançada, e aí na investigação a gente pediu cateterismo para avaliar essa possibilidade de infarto prévio e a gente viu que realmente não confirmou o infarto. Você tinha uma lesão moderada em uma das artérias mas que colocou mais a suspeita pra miocardite. E aí isso é o quadro. Quando a gente investigou com a parte bioquímica, tudo juntando uma possibilidade de diagnóstico de diabetes, você tinha uma hemoglobina glicada de 7,2, o normal é 5,7 e acima de 6,5 já é um diagnóstico de diabetes. Então você tinha uma obesidade mórbida, tinha diabetes e por causa desse coração fraco, pra poder recuperar o coração tinha que perder bastante peso pra ajudar a recuperação do coração.

[Ed Wanderley]: Desafio posto, mas é preciso entender uma coisa aqui. De um lado, havia uma crença maligna me dando a certeza de que eu morreria até os 36 anos. De outro, havia o recado médico, formal, de que a saída para salvar meu coração seria perder peso. E assim, pelas próximas semanas, para mim, comer virou um passe livre para o precipício. Sabe aquela lenda de que comer uma salsicha te rouba 8 minutos de vida? Pois é, entrei em modo balanço. E para evitar que os créditos subissem na minha tela preta, comia o mínimo possível. Jejuns, que eu dizia serem intermitentes, mas que chegaram a entrar pelo terceiro dia antes que um pedaço de hóstia pudesse me ressuscitar. Para evitar retenção, diminuía a água. E o resultado se apresentava todas as manhãs no banheiro, quando religiosamente passei a conferir a balança. Em alguma lógica pouca, científica, eu associava 100 gramas a um punhado de mesas. E ali fui, do meu jeito torto, tentar vencer o meu prazo de validade.

[Sonora trecho da música Socorro Deus]

[Ed Wanderley]: A estratégia não foi a mais sustentável, nem a mais inteligente. Ainda assim, foi necessário um desmaio para me obrigar a repensar os passos. Com o mesmo objetivo em vista, mas ciente da necessidade de buscar saúde e longevidade, comecei a fazer o que faço de melhor. Não, eu sei que uma vozinha sua aí disse comer, mas me refiro a pesquisar, fazer contatos, questionar. Foi como toda essa investigação começou. A pergunta mais básica nesse cenário seria avaliar o que, afinal, eu poderia comer. E bem no início dessa missão, uma obra começou a fazer barulho internacional.

[Ed Wanderley]: O best-seller Gente Ultraprocessada, de Chris Van Tulleken, chegou às prateleiras mundiais em abril de 2023 jogando sal em muitas feridas e trazendo um pouco de tempero para o banquete. O britânico, apresentador da BBC e médico especialista em saúde global, duvidava dos brasileiros da USP e decidiu, no alto dos seus 40 anos, documentar um teste feito em si mesmo. Apostar numa dieta 100% composta por ultraprocessados, o que pouco fazia parte de seus hábitos regulares. Essa eu queria ver. E pouco antes do lançamento no Brasil, conversamos com ele sobre o assunto. Eis o que ele diz com dublagem de nosso designer de som, Ricardo Terto.

[Entrevista com Chris Van Tulleken | Dublagem Ricardo Terto]

[Ricardo Terto]: Então nós vimos três grandes efeitos. Eu ganhei uma enorme quantidade de peso, 6 quilos em um mês. Então, se você ganha 6 quilos em um mês por um ano, eu dobro o peso do meu corpo, chego a 160 quilos.

[Ed Wanderley]: Tulleken disse que a experiência mostrou três efeitos. O primeiro foi o ganho de 6 quilos em um mês. O segundo, uma mudança na resposta hormonal à comida. E, por fim, uma desregulagem no sistema de recompensa do cérebro, na área que determina, entre outras questões, os nossos vícios.

[Ricardo Terto]: Eu estava sempre com fome e eu estava constantemente comendo. Na verdade, não importa muito o que eu comia, a comida ultraprocessada arruinou a minha capacidade de sentir saciedade.

[Ed Wanderley]: Tulleken disse ainda que levou quatro anos para se livrar do peso que ganhou no teste e que a melhora do sono e do humor após o término do experimento já foi sentida em apenas 48 horas. 

[Ricardo Terto]: Eu não estou recomendando isso para todo mundo. Mas, no meu caso, eu tive que tirar cada mínima molécula de comida ultraprocessada da minha dieta. O que significa que, muitas vezes no meu dia, eu simplesmente não podia comer.

[Ed]: Eu simplesmente não podia comer. Ultraprocessados, no caso. Essa frase ecoou na minha mente. É a sensação que eu tenho desde criança. Literalmente. Isso porque eu cresci assim:

[Áudio de propaganda do chocolate Baton]

Amiga dona de casa, olhe fixamente nesse delicioso chocolate. Toda vez que a senhora sair com seu filho, vai ouvir minha voz dizendo: Compre batom, compre batom, seu filho merece batom.

[Ed Wanderley]: Esse era um incentivo que eu recebia nos intervalos dos programas da Rede Manchete e da TV Globinho. Não vou dizer que foi isso o que me fez comer, claro. Foi o sabor mesmo. Inclusive, saudades! Mas você não vê mais esse tipo de publicidade. E isso não é por acaso. Regular a exposição a esse tipo de propaganda é uma missão que cabe ao Congresso. E quando o alvo são as crianças, a situação é ainda mais delicada.

[Entrevista com Adriana Accorsi]

[Adriana Accorsi]: As pessoas que quiserem continuar se alimentando com ultraprocessados, elas vão poder fazer isso.

[Ed Wanderley]: Essa é a deputada delegada Adriana Accorsi, autora de projetos para proibir ultraprocessados não apenas nas telas de crianças e adolescentes, mas também nas escolas.

[Entrevista com Adriana Accorsi]

[Accorsi]: Com a lei, a retomada do plano de aquisição de alimentos que o presidente Lula lançou, a gente tem como comprar os alimentos de todas as escolas públicas na agricultura familiar. Isso está sendo feito, está sendo organizado. Então, esse é o objetivo.

[Ed]: Até porque o ambiente de escola é de formação

[Accorsi]: É de formação. E muitas vezes os pais não têm poder sobre isso. Sobre que alimento está sendo oferecido na escola. E até sobre a publicidade. A criança está assistindo um desenho. Você acha que ela está tranquila ali vendo um desenho, direcionado para a idade dela, que você permitiu. 

[Ed Wanderley]: Em Brasília, a questão dos ultraprocessados é encarada muito mais que pelo viés da saúde pública. Tem a ver também com o bolso. E é justamente nesse ponto que a corda estica.

[Entrevista com Nilton Tatto]

[Nilton Tatto]: A gente fez um movimento muito, muito grande durante a discussão da reforma tributária que era para ter o imposto diferenciado, para aquilo que a gente chamou de imposto do pecado.

[Ed Wanderley]: Esse é o deputado federal por São Paulo Nilto Tatto.

[Nilton Tatto]: Então, álcool, tabaco, e a gente queria incluir os ultraprocessados, né? Era esse o movimento também para colocar. Nós não conseguimos manter na reforma tributária, os ultraprocessados.

[Ed Wanderley]:
Mas por quê? 

[Nilton Tatto]: Por causa da pressão, evidentemente, de toda a cadeia de produção de alimentos.

[Ed Wanderley]: Tatto apresentou um projeto para regular a publicidade de ultraprocessados. Até hoje, a proposta não encontrou espaço para sair do papel.

[Nilton]: Então aí o lobby aqui é muito grande. Tem gente que quer conversar, que quer dialogar, mas isso acontece dependendo por onde, como é que vai caminhando o projeto, né? Então sempre tem. Aí é comum vim querer explicar, mostrar as razões dele, então isso é normal aqui dentro.

[Ed Wanderley]: E não chegaram a fazer pressão para retirar esse processo? 

[Nilton Tatto]: Não, não fazem de forma explícita, eles sabem trabalhar. Na verdade eles sabem que é um projeto que eles precisam se organizar para derrotar e eu mesmo digo, apresentei o projeto, mas eu não tenho muita esperança.

[Ed Wanderley]: Depois de ler o livro com o experimento de Tulleken e ouvir parlamentares sobre a distribuição e propaganda de ultraprocessados, uma questão básica me deixou incomodado. Se esses produtos são liberados para consumo, regulados, estudados… como poderiam ser, de todo, ruins? Por isso, fui buscar em que lugar o nome de Carlos Monteiro e o próprio termo “ultraprocessado” poderiam não ser dos mais saborosos. E foi assim que cheguei ao Instituto de Tecnologia de Alimentos, o Ital, em Campinas. Eu estava interessado em entender a visão de quem cria e atesta a qualidade do que consumimos. Foi lá que eu conheci Luiz Madi.

[Entrevista com Luis Madi]

[Luiz Madi]: Eu sou Luiz Madi, engenheiro de alimentos, segunda turma de engenharia de alimentos do Brasil, e trabalho no Ital há 52 anos e meio, então eu consegui viver e ver o que estava, o que aconteceu em relação à indústria de alimentos.

[Ed Wanderley]: O Ital é ligado à Secretaria de Agricultura do estado de São Paulo.

[Ed Wanderley]: Há 15 anos foi cunhado um termo que se popularizou no mundo inteiro, que é a questão dos ultraprocessados. E é um termo um pouco sensível para a indústria que acabou recebendo esse golpe e tem lidado com ele desde então. Vocês contestam esse termo ultraprocessado? Você acredita que ele não deveria ser utilizado?

[Luis Madi]: Então, eu acho que você e a maioria da população brasileira não entende exatamente o que ele quis dizer com ultra processamento. Carlos Monteiro, lá em 2009. O Guia saiu em 2014. Carlos Monteiro, em 2009, criou o ultraprocessado pensando exatamente. Aquele que passa por vários processamentos, tudo, não deu muito certo. Não deu muito certo, porque o iogurte é um produto milenar, extremamente útil do ponto de vista de nutrição para nós. Eu, hoje, consegui introduzir iogurte com granola, todos no café da manhã, melhorando o meu processo digestivo, inclusive, intestinal. Então, eu acho que isso é importante. Iogurte, cálcio, vitaminas, quer dizer, por que não? Iogurte é classificado como o quê?

[Ed Wanderley]: Depende, não é?

[Luis Madi]: O iogurte em geral. 

[Ed Wanderley]: Porque tem os dois. 

[Luis Madi]: A classificação leva para uma generalidade muito grande e esse é o grande questionamento. A sua pergunta foi bem clara “vocês se questionam?” sim. Essa forma tão genérica de classificar, sim. Vamos pegar os estudos de biscoitos. Tem 600 tipos de biscoito e biscoito é ultraprocessado? A pergunta é: qual deles?  Iogurte é ultraprocessado? Qual deles? Então foi uma coisa muito genérica que o mundo deixou claro. Essa generalização não serve para políticas públicas. Não serve. Por que quem foi o prejudicado em tudo isso? O consumidor. O consumidor não sabe direito. Deve ou não deve comer? Deve consumir iogurte? Que tipo de iogurte? Depende. Equilíbrio, uma dieta balanceada. Então, se eu exagero numa feijoada, eu tenho que contrabalançar. Nós estávamos até discutindo esses dias aí, o input-output. Eu gosto da palavra em inglês, que é entrada e saída. Se entra mais, não tem como. Você tem que fazer sair mais. E uma da forma que poucas pessoas colocam, poucas, é a parte de exercício físico. A parte de exercício físico é queima de calorias, movimentação.

[Ed Wanderley]: O senhor acredita que há 15 anos a qualidade dos produtos industrializados era inferior ao que a gente encontra hoje?

[Luis Madi]: Você não tenha dúvida.

[Ed Wanderley]: Em relação ao quê? 

[Luis Madi]: Em relação ao quê? À segurança, você entende? Às padrões de qualidade, que a gente tinha no menor, e à parte de química e microbiológica. Você tem a parte de ciência e tecnologia de alimentos praticamente em todo o Brasil, porque é uma área, a indústria de alimentos é uma área diferenciada das outras indústrias. Onde está a indústria automobilística? Um, dois, três lugares. Onde está a indústria de petróleo? Um, dois, três, quatro lugares. Onde está a indústria de alimentos? Nos 5.600 municípios.

[Ed Wanderley]: Biscoito de mel que não leva mel, iogurte de morango que não tem morango. Aproveitei para perguntar a Madi sobre essa prática e como ela representaria esse avanço de qualidade que ele estava falando.

[Luis Madi]: Isso eu acredito que não é bom, não é bom. Isso acontece em toda a sociedade, nos diversos segmentos da sociedade, e tem que ser combatido, tem que ser combatido. Mas é uma coisa tão grande que a hora que você pegar um ou dois ou três casos, ele é pequeno em relação ao volume que nós estamos falando. Ao volume que nós estamos falando. Nós estamos falando de 11% do PIB brasileiro do setor de alimentos. Você está falando de uma coisa assim, pontual, porém, que tem que ser combatida.

[Entrevista com Luis Madi] 

[Ed Wanderley]: Mas o que vem acontecendo também agora, que virou uma trend também, é da indústria começar a fazer subprodutos de outros produtos. Então, por exemplo, o leite condensado que sempre foi leite condensado, depois vira bebida láctea. Aí o sabor chocolate vem com aroma de chocolate, ou então com toque de chocolate, não vem mais chocolate, é sabor chocolate. 

[Luis Madi]: Eu não trazeria isso para o lado da indústria, talvez seja uma exigência da sociedade. O que a sociedade quer hoje? Diferentes produtos, com diferentes categorias e com uma coisa o tempo todo, preço menor.

[Ed]: Mas a questão financeira justificaria, por exemplo, a pessoa não saber se está comprando leite condensado ou composto lácteo?

[Luis]: Não. O que nós temos que ter é comunicar ao consumidor para que ele tenha isso. Você está trazendo o lado da desconfiança. Olha, eu estou desconfiando que a indústria, só que não, a indústria está fazendo o que o consumidor quer, diferentes produtos e mais econômico. Agora, a comunicação teria que ser melhor. Vários pesquisadores do Ital trabalharam durante vários anos auxiliando a Anvisa a estabelecer padrões de qualidade, estabelecer limites e tudo. Então, quando eu falo assim, não, mas esse aqui tem aditivo, tem, e foi aprovado? Foi. E por que você não compra? Então, vamos questionar a Anvisa? Não, a Anvisa segue os seus padrões. A FDA, Food and Drug Administration, segue os seus padrões, e a saúde pública, a saúde do consumidor é o fator mais importante. 

[Ed Wanderley]: Durante a entrevista, eu fui presenteado com uma cópia do livro organizado pelo Itaú, Brasil Food Safety Trends de 2030. E aí já saí folheando. Nele há diversos estudos do Instituto sobre pães, sucos, biscoitos, bolos e massas. Todos são assinados pelo Itaú e têm apoio de associações das indústrias, como a ABIA, Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, ou a ABIMAP, Associação Brasileira da Indústria de Massas Alimentícias, Pães e Bolos Industrializados. Cada uma reúne dezenas de empresas. 

[Ed Wanderley]: Inclusive esses livros que você me deu são patrocinados por elas têm a BR Foods, tem a Fugini em que medida esses estudos e essas posições do Ital elas ficam blindadas do conflito de interesse já que a indústria está próxima?

[Luís Madi]: Essa é uma pergunta que nos meus 52 anos e meio talvez eu mais respondo é uma orientação do mundo, de governo. Não tem conflito algum, porque não tem influência nenhuma dessas empresas nos trabalhos. O Ital nasceu no dia 30 de agosto de 1963, com a ideia de auxiliar a indústria. Sempre auxiliou a indústria, sem a interferência nas suas atividades.

[Ed Wanderley]: O auxílio é incontestável. As conclusões das pesquisas do Itaú são frequentemente utilizadas por empresas do ramo alimentício para fundamentar cientificamente respostas à sociedade. Alguns chamariam essa relação de lobby. E a cada nova informação, o cenário fica mais curioso. O senhor não acredita que a indústria tem nenhuma responsabilidade nesse contexto de obesidade que o Brasil enfrenta?

[Luís Madi]: Eu não tenho informação, não tenho condição de afirmar isso. Eu acho que fica muito difícil qualquer pessoa afirmar que é a indústria responsável.

[Ed Wanderley]: Não, responsável não, se não tem alguma responsabilidade.

[Luís Madi]: É difícil você afirmar, assim. Você pode falar assim, o poder aquisitivo é o maior fator?

[Ed Wanderley]: Certamente faz parte, né?

[Luis Madi]: O grau de obesidade de diferentes poderes aquisitivos varia?

[Ed Wanderley]: Sim. Mas o senhor não acha curioso que há 40 anos, quando essa questão dos produtos prontos e de a cultura de alimentação ser muito mais familiar e feita em casa, e as pessoas continuavam inseridas no mesmo cenário de pobreza que o Brasil enfrenta, e as pessoas comiam mais em casa e comiam menos comidas prontas, o nível de obesidade era menor porque foi esse o ponto de partida da teoria, né? O senhor não acha que essa relação existe?

[Luis Madi]: Eu não tenho a clareza disso. Eu não tenho a clareza. A dificuldade da alimentação era maior. E, assim, nós torcemos pela vida útil do brasileiro. Você entende? Naquela época, morria-se mais cedo. Naquela época, você tinha mais problemas gastrointestinais do que você tem hoje. E por que diminuiu isso?

[Ed Wanderley]: Por conta da tecnologia da medicina, né?

[Luís Madi]: Sim. É a associação dos dois. Da tecnologia de alimentos e da medicina.

[Ed]: O senhor acredita que as pessoas vivem mais porque elas comem melhor hoje

[Luís Madi]: Eu não tenho dúvida.

[Ed Wanderley]: Mesmo com o nível de obesidade sendo muito mais alto?

[Luís Madi]: Sim. Porque aí é um descontrole. É um descontrole que eu diria que é social. Esse descontrole da sociedade é só brasileiro? Não. 

[Ed Wanderley]: De forma nenhuma.

[Luís Madi]: Inglaterra, Estados Unidos, pode escolher.

[Ed Wanderley]: Em outras palavras, o problema do fumo seria do fumante, e o das drogas, do dependente químico. Quem produz e vende não tem nada a ver com meu descontrole.

[Ed Wanderley]: O senhor falou, por exemplo, que tem uma pessoa que cozinha para o senhor, no meio do dia, à noite e tudo mais. Eu queria saber quanto desses produtos que passam por escrutínio público, esses produtos industrializados, quanto isso faz parte da sua dieta hoje?

[Luís Madi]: Ela faz parte da minha dieta e tem uns que eu adoro.

[Ed Wanderley]: Em que volume? Em que volume? Em que proporção?

[Luís Madi]: Eu falei para você. Se você quiser gastar 4 mil reais por mês de alimentação, você vai. Eu estou voltando ao almoço, eu tenho saladas, aí eu tenho legumes cozidos, aí hoje é segunda. Então deve ter frango grelhado. Você entende?

[Ed Wanderley]: Tem o cardápio do dia.

[Luís Madi]: Não, não. Quarta é peixe, quinta é um produto suíno. E aí vai. Mas você paga 4 mil por mês para gastar nisso. Aí eu chego com a vontade de comer, que nem eu comi ontem à noite, presunto, comi presunto cru, presunto outro, aí comi mortadela italiana com pão, delicioso, delicioso.

[Ed Wanderley]: Da padaria ou de forma?

[Luís Madi]: Coincidentemente foi da padaria. Mas eu uso os dois. O pão de padaria, que a gente gosta, fizeram vários testes, e chegando que na hora que você vai tirando o sódio dele, ele vai perdendo a atratividade.

[Ed Wanderley]: Mas essa decisão não é uma decisão que fica ali no limite ético?

[Luís Madi]: Qual?

[Ed Wanderley]: De você manter o sódio para poder ele continuar atraente.

[Luís Madi]: É que senão você não vende.

[Ed Wanderley]: É que senão você não vende… Essa frase me tocou. Mas, como descobrimos, bastaria ter controle. Até então, eu não tive essa maturidade. Além disso, como Madi descreveu de sua experiência pessoal, também não tenho os tais R$4 mil por mês dedicados à alimentação. Nessa primeira fase após a internação, a aposta que fez a diferença foi a restrição. Zero pão, zero açúcar, zero tantas coisas. Naturalmente, a balança reagiu. Meses mais tarde, um desses pecados, no entanto, voltou à minha rotina. E um trecho que eu deliberadamente deixei de fora da minha conversa com Carlos Monteiro mais cedo no episódio me assombra no balanço ao final de cada dia. Até porque, se fosse para excluir alguma coisa completamente da minha vida e enxergar como veneno, o pai da teoria dos ultraprocessados é bem categórico:

[Entrevista com Carlos Monteiro | Gravação de Ed Wanderley] 

[Carlos Carlos Monteiro]: Ah, refrigerante. É, não, refrigerante… Não, eu tenho quase que repulsa, assim, dessa coisa de… Aliás, tem outra coisa interessante, acho que o Chris fala isso no livro dele, né? Todas as artimanhas pra você fazer gostar de alguma coisa que você não gostaria normalmente… Então, por exemplo, uma estratégia de refrigerante é gelo. Você pegar uma Coca-Cola e tomar um copo sem gelo, você é capaz de vomitar. E por quê? Porque você tem repulsa pela quantidade de açúcar que tem.

[Ed Wanderley]: Nossa senhora das protuberâncias, não me quebre, não, que aí é um vício difícil de romper. Até fiquei seis meses sem refrigerante, mas confesso que vou ter o vício depois. Zero, pra pesar menos na consciência. Mais ultraprocessado que isso, impossível.

[Ed Wanderley]: A classificação nova, aquela que estabelece o conceito dos ultraprocessados, tem opositores de peso no mundo todo. Mas nessa busca sobre o melhor caminho que eu deveria seguir, uma das vozes mais relevantes que propõe revisar e atualizar a teoria, criando uma espécie de classificação nova 2.0, me chamou a atenção.

[Ed Wanderley]: Arne Astrup, o agora ex-CEO da dinamarquesa Novo Nordisk. A Novo Nordisk é a desenvolvedora da semaglutida, composto dos medicamentos Ozempic e Wegovy, que você já deve ter ouvido falar. Mas o que o homem mais poderoso de uma empresa, que disparou para o top 5 entre as mais lucrativas da Europa e sozinha mudou o PIB da Dinamarca, se preocupa com o que é ou não ultraprocessado? Qual o interesse em financiar estudos para uma eventual reclassificação dos alimentos? Foi o que perguntei à Fundação Novo Nordisk, braço da empresa que financiou a iniciativa.

[Leitura nota | Áudio gravado]

[Stela Diogo]: A busca por conhecimento do que torna a comida prejudicial é um debate na comunidade científica há muitos anos. E nosso projeto se propõe a ajudar a esclarecer e facilitar os consumidores a fazerem escolhas mais saudáveis. Concordamos que o nome Nova 2.0 foi uma escolha infeliz. A equipe da Universidade de Copenhague não se refere mais ao projeto como uma atualização da classificação nova. Apesar de receber apoio financeiro da Fundação, o projeto da Universidade é independente e liderado por pesquisadores de renome. Nós não temos influência sobre os resultados.

[Ed Wanderley]: O movimento da Fundação Novo Nordisk inspirou uma revolta na comunidade acadêmica, incluindo do pai da teoria dos ultraprocessados, Carlos Monteiro, que assinou, junto a quase cem cientistas, uma carta de repúdio contra a iniciativa. Nenhuma fonte consultada soube explicar com clareza qual o interesse desse financiamento. Arne Astrup, que deixou o cargo de CEO em 2024, também nunca deixou clara a sua intenção. Ah, e eu esqueci de dizer: nos últimos anos, Astrup atuava também como consultor para outras grandes empresas, entre elas Ferrero, McDonald’s e Nestlé. Ultra-bem-relacionado.

[Ed Wanderley]: A gente conversa mais sobre os medicamentos mais pra frente, prometo. Mas é que bastou mencionar Ferreiro e Nestlé que a boca encheu d ‘água. Até esse momento, eu já entendi que preciso fugir das comidas prontas, ultraprocessadas, e voltar para a comida raiz. Mas e quando a comida raiz, de berço, é rica em outro mal? Um mal delicioso. É isso que preciso investigar para fazer essa mudança de vida dar certo. No próximo episódio, um mergulho doce e amargo, em casa. Nós desembarcamos em Pernambuco para falar de açúcar e de como a cultura local tem a ver não apenas com esse, que é o maior vício da minha vida, mas com a identidade negra, com política e com um legado escravista que continua banhado a saudosismo numa das capitais mais miscigenadas e controversas do país.

[Ed Wanderley]: Mas por enquanto, vamos pro placar. Comecei a jornada com 145 kg, saí do hospital com 133 e nesse primeiro mês, me livrei de mais 8. Cheguei a 125, põe menos 20 kg pra essa conta. Ainda falta muito. Mas você segue como meu cúmplice nessa jornada. Vamos nessa?!

Créditos Podcast [Ed Wanderley]: A Última Bolacha é uma produção original da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, realizada com apoio dos Institutos Ibirapitanga e Serra Pilheira. Esse podcast foi escrito por mim, Ed Vanderlei, com a colaboração de Stela Diogo e Cláudia Jardim. Cláudia também colaborou com a investigação jornalística que deu origem a essa série. A produção e pesquisa de material de arquivo é de Estela Diogo, com apoio de Rafaela de Oliveira. O projeto é uma ideia original de Natália Viana. A captação de áudio em campo foi feita pelos técnicos Davison Barbosa, Etienne Karen, Gil Neves, Stela Diogo, Tatiane Santos e Vinícius Machado. A locução foi gravada no estúdio da Agência Pública, com trabalhos técnicos de Ricardo Terto. Sofia Amaral fez a direção de locução e a coordenação geral da série. O desenho de som é de Ricardo Terto, que também fez a edição e finalização dos episódios. A trilha sonora original é de Ana Sucha e trilhas adicionais do Epidemic Sound. A identidade visual é assinada por Matheus Pigozzi. Obrigado por sua companhia. Gostou? Então compartilhe esse resultado e segue a Agência Pública nos tocadores e redes sociais para não perder nenhum lançamento. E acesse o nosso site, apublica.org.

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