Em outubro de 2016, quase três anos antes de sua morte na prisão, Jeffrey Epstein trocou e-mails com um associado, Ramsey Elkholy, sobre a possibilidade de adquirir uma agência de modelos brasileira, revelou o jornal O Globo nesta terça-feira (3). O objetivo, conforme revelam os novos arquivos divulgados nesta semana pelo Departamento de Justiça dos EUA, era explícito: “ter acesso a garotas”.
Elkholy apresentou um relatório sobre três das maiores agências do país — Elite, Ford Models e L’Équipe — e ponderou sobre a melhor estratégia. “Presumo que você está mais interessado no acesso a (emoji de uma garota)”, escreveu a Epstein, sugerindo que um concurso de modelos seria ideal por atrair “garotas caipiras sem experiência”. A negociação com a Ford Models foi negada pelo CEO da agência no Brasil, Decio Restelli Ribeiro, afirmando não se recordar do fato e negar que a empresa estivesse à venda.
A descoberta, no entanto, reforça o interesse de Epstein no Brasil, como revelou a Agência Pública ao apurar a expedição ao Brasil do agente de modelos Jean-Luc Brunel, um dos principais cúmplices do bilionário norte-americano, em 2019. A reportagem mostrou como, meses antes da prisão do bilionário, Brunel esteve em uma extensa viagem de recrutamento que passou por diversas capitais brasileiras. Ele buscava adolescentes com a promessa de uma carreira internacional, chegando a visitar a família de uma menina de 13 anos para oferecer um contrato em dólares.
De acordo com reportagem da BBC News Brasil, ao menos 4 mil menções ao Brasil foram identificadas nos Epstein Files até o momento, incluindo troca de e-mails e mensagens de Jeffrey Epstein a funcionários e amigos, além de fotos e notícias sobre personalidades brasileiras. Entre os achados, por exemplo, há uma troca de e-mails de agosto de 2012, na qual o financista pergunta a Brunel sobre a modelo Luma de Oliveira, então recém-separada do empresário Eike Batista. “Eike Batista, namorada? Você mencionou isso para mim”, questiona Epstein. Brunel responde: “Eu mencionei a Luma de Oliveira. Ele era ou é casado com ela”.
A curiosidade sobre brasileiras se soma a um depoimento de 2010, também parte dos arquivos, em que uma testemunha afirma que Brunel era o intermediário para Epstein conseguir garotas de programa no Brasil, incluindo adolescentes. A teia de conexões se estendia, segundo os documentos, a uma rede de contatos locais que facilitava o acesso às potenciais vítimas.
A Pública entrevistou a advogada francesa Anne-Claire Le Jeune, que representa algumas das vítimas de Brunel em processo judicial no país europeu. Ela explicou que oficialmente Brunel foi indiciado por estupro de adolescente e assédio sexual, mas as suspeitas iam muito além. A advogada confirmou que, embora o foco da agência de Brunel tenha se voltado para modelos brasileiras nos anos 2000, não há, no processo, vítimas do país. “Sabemos que houve viagens com o objetivo de recrutar jovens modelos brasileiras.”
A advogada detalhou o padrão de comportamento de Brunel, que consistia em abordar jovens modelos de agências menores, em festas e boates, prometendo impulsionar suas carreiras. Ele as convidava para fazer uma sessão de fotos em sua casa, oferecia uma bebida e, em seguida, as vítimas relatavam um “apagão total”, acordando enquanto eram estupradas. “Havia um forte sentimento de impunidade e de poder absoluto”.
