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Raio-x dos militares na Venezuela indica cansaço com chavismo mas manutenção da ordem

por Redação Capital Brasília
10 de fevereiro de 2026
em Brasil, Política
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Raio-x dos militares na Venezuela indica cansaço com chavismo mas manutenção da ordem
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Em 2025, dois meses após María Alejandra Díaz Marín deixar a Venezuela e chegar exilada à Colômbia, ela buscou proteção junto ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, a Acnur. Nesse dia, a advogada e doutoranda em Segurança da Nação, viu ao seu redor três militares venezuelanos desertores. Um se aproximou e disse: “Doutora, veja, eu sou do primeiro anel e aquele que está sentado ali também”. A Guarda de Honra é o corpo especial responsável pela segurança presidencial. O jovem disse a Díaz Marín que a deserção é assustadora porque eles são presos se pedirem baixa — o pedido de desligamento.

Ela observou que esses jovens não chegavam aos 22 anos, que saíram da Venezuela sem atendimento médico evidente, com seus filhos pequenos e sapatos rasgados, caminhando até a Colômbia. Com surpresa, lembrou que naquele dia “havia uma quantidade significativa de entrevistas para desertores”. “Não, doutora, eu não aguento essa perseguição. Ligaram para minha esposa nos acusando de traidores”, confessou o jovem militar, visivelmente emocionado, enquanto aguardavam a entrevista na Acnur, em uma cidade colombiana.

Além disso, o militar desabafou dizendo que estava “mal alimentado, mal vestido, não nos dão nem armamento, porque inclusive têm medo de que possamos fazer algo. Nos desarmaram, doutora”, recordou Díaz Marín, que relata que as forças armadas foram precarizadas, e que a desconfiança do regime de Nicolás Maduro em relação aos militares o levou a entregar sua vida cegamente aos cubanos que o protegiam.

A história dos três jovens militares desertores não é uma exceção, antes o contrário. É um fato que militares têm deixado as forças venezuelanas, apesar da perseguição do regime de Maduro, que governou o país até o seu sequestro pelos Estados Unidos em janeiro deste ano. Com o fim do governo de Maduro e início da presidência de Delcy Rodríguez, a questão se tornou ainda mais proeminente: as Forças Armadas se manteriam fiéis à nova presidente em exercício?

A Agência Pública conversou com especialistas venezuelanos, que acreditam que, por ora, o governo mantém a unidade de comando dentro das forças militares. Esse fator teria sido determinante para a decisão de Donald Trump ao permitir que Rodríguez se mantivesse no poder.

Contudo, a repressão do regime dificulta e muito medir essa fidelidade — até mesmo que esse assunto seja conversado com jornalistas.

A Pública consultou a opinião do deputado governista Francisco Arias Cárdenas, que respondeu: “Vou te dar [a opinião] em breve” e despediu-se cordialmente. Esse militar foi companheiro de armas de Hugo Chávez e, no ano passado, foi promovido a general por Nicolás Maduro.

Embora alguns especialistas consultados afirmem que é muito difícil, neste momento, visualizar o mapa de opiniões dentro das forças militares devido ao silêncio imposto pelo terror, ao mesmo tempo identificam uma corrente colaboracionista e outra que presume que a intervenção militar de 3 de janeiro foi um teatro de uma entrega pactuada.

Bases das Forças Armadas estão cansadas da crise econômica

Sebastiana Barráez é jornalista e a principal especialista venezuelana na área militar. Ela considera que “se os Estados Unidos tivessem querido que outro assumisse o poder, teriam feito isso facilmente, porque não houve resistência no dia 3 de janeiro”.

Em 2019 foi o último ano em que o Ministério da Defesa da Venezuela divulgou a quantidade de membros da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), com números entre 95 mil e 150 mil combatentes ativos. O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês) assegurou em 2025 que a Venezuela teria 123 mil soldados ativos, dos quais 63 mil pertenceriam ao Exército Bolivariano. “Não há uma estimativa precisa porque eles inflaram os números”, disse a constitucionalista María Alejandra Díaz Marín quando consultada.

Barráez é categórica na entrevista à Pública: “Havia um número antes e outro depois do 3 de janeiro”, e enfatizou que a deserção é evidente, especialmente nos componentes da Guarda Nacional Bolivariana e do Exército, “onde as deserções ocorreram aos milhares”, afirma.

Os especialistas ouvidos pela Pública concordam que a cúpula militar se mantém leal ao governo por interesses financeiros, mas sabem que as bases das forças militares sofrem, como qualquer cidadão, com a crise econômica.

Por outro lado, Díaz Marín considera que é muito difícil que as forças militares topassem uma subordinação à opositora María Corina Machado, depois de ela ter pedido a invasão do país – episódio em que pelo menos 100 pessoas foram assassinadas entre civis e soldados de baixa patente, segundo relatos oficiais.

Os militares defendem a República de uma anarquia

O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, disse em 23 de janeiro diante do monumento de El Callao: “Temos sido perseverantes na preservação da paz” e elogiou a constância das forças militares “para defender a República das mesquinharias, dos egoísmos, das ambições, dos divisionismos”.

Essa declaração é fundamental para compreender a atual doutrina militar e o papel do ministro Padrino López diante dos Estados Unidos. Esse papel de contenção busca “evitar uma rebelião e que não surja um novo militar como Chávez”, que interfira no objetivo de reindustrializar os Estados Unidos, opina Díaz Marín.

No momento da entrevista com Sebastiana Barráez, o embaixador russo na Venezuela, Sergey Mélik-Bagdasárov, havia declarado que a falha de 3 de janeiro foi negligência criminosa e falou em traição. Por isso, Barráez considera que tanto Padrino López quanto o comandante estratégico operacional Domingo Hernández Lárez perderam o apoio da Rússia. “Isso é devastador e por isso eles vão deixar os cargos”, disse. Poucos dias depois, o embaixador russo na ONU, Vasili Nebenzia, apontou diretamente o alto comando militar venezuelano por entregar Maduro.

Vladimir Padrino López, vice-presidente da Defesa e Soberania da Venezuela, afirmou, em discurso no dia 7 de fevereiro, que a Fuerza Armada Nacional Bolivariana (FANB) é a chave para “assegurar a integridade territorial”.

Uma fonte de alto nível e de difícil acesso aceitou falar rapidamente com a Pública, sob condição de anonimato. Pediu para não ser gravada para garantir a confidencialidade, já que no país, por muito menos, há centenas de civis e militares desaparecidos, sequestrados e torturados.

Após uma extensa análise geopolítica, explicou que Trump precisa de parte da população venezuelana para seu objetivo imperialista e, ao mesmo tempo, precisa da ordem interna das forças militares e do Exército. Acrescentou que “bombardear Nicolás Maduro, Diosdado Cabello e Delcy Rodríguez teria resultado em uma anarquia, que não é viável para extrair petróleo”. Sua projeção como pessoa acadêmica e especialista é que haverá uma transição, depois eleições e, em seguida, uma constituinte.

Além disso, essa fonte acredita que em sete meses, segundo os prazos constitucionais, pode ser desmontada a estrutura atual do governo, e que em 10 de janeiro de 2027, um novo presidente pode tomar posse. De outra forma, não será possível renovar os poderes públicos, algo que considera indispensável para Corina Machado.

“Trump não ocupa a Venezuela com tropas porque a estrutura social chavista existe e não vai permitir que ele se desgaste”, defende a fonte, que compartilhou com a reportagem documentos pessoais e a Gazeta Oficial sobre a mudança de comando do sistema defensivo territorial várias horas antes de circularem entre correspondentes internacionais credenciados na Venezuela.

“Não é um tema político. Nas forças militares há muita gente cansada. O décimo terceiro salário para um militar ativo com estudos de pós-graduação foi de 60 dólares [cerca de R$ 314]”.

Padrino López, ministro da Defesa da Venezuela, atua para evitar rebelião e para que não surja um novo militar como Chávez, opina analista ouvida pela reportagem

O cenário do Iraque na Venezuela

“Eu não acredito que a Venezuela pudesse ter terminado como o Iraque ou a Líbia, somos um país muito diferente”, diz Ronna Rísquez, jornalista especializada em crime organizado e direitos humanos, sobre a possibilidade de que as Forças Armadas se dividissem e criassem uma guerra civil. Em seu estilo habitual, equilibrado e prudente, Rísquez considerou que “não há armas na população civil nem entre os opositores”; as armas estão nas mãos do ministro da Defesa, Padrino López, e do ministro do Interior, Diosdado Cabello.

Com outros argumentos, Díaz Marín considera que a ala tecnocrática dos Estados Unidos contemplou a possibilidade de que militares ativos junto a grupos armados atuassem como no Iraque e, a partir de um objetivo pragmático, avaliaram a doutrina cívico-militar-policial e os discursos de Cabello.

“Acho que aqui podem estar se fortalecendo uma nova forma de coletivos”, disse Ronna Rísquez. Os coletivos são grupos paramilitares de civis armados sem identificação, com múltiplas denúncias de violações de direitos humanos e perseguição à dissidência política. Desde o envio de navios para o Caribe e o bombardeio da Venezuela, os coletivos armados exercem funções de segurança pública, estão em grande número nas cidades e agem com total impunidade contra a população civil. Basta ver as caravanas de coletivos e policiais que escoltam Diosdado Cabello.

Segundo Rísquez, o que ocorreu em 3 de janeiro com as forças militares e o Exército venezuelano deixou em evidência que “esse poder militar não é tão forte”. Além disso, disse ter conhecimento de que o número de homens das forças armadas “é totalmente insuficiente”.

O poder econômico “ínfimo” da FANB

Segundo a fonte que falou em sigilo com a Pública, “o poder está no Executivo; as empresas que a Força Armada Nacional Bolivariana da Venezuela possui são algo ínfimo”.

A Pública falou com o jornalista Roberto Deniz, diretor do portal Armando.info, que vê de uma forma distinta o poder dos militares. “Se você vê dessa forma, dirá: sim, hoje em dia o Executivo, os Rodríguez, têm poder demais”, o que não significa que todas as outras facções que têm poder vão perdê-lo, deixar de existir ou serão anuladas.

A constitucionalista Díaz Marín também pondera sobre o poder dos militares, e afirmou que as que empresas são dirigidas por membros das Forças Armadas dependem única e exclusivamente deles e que “a Controladoria-Geral da República não as audita. Não é qualquer coisa. São um poder”, defende.

A jornalista Ronna Rísquez mencionou diversas denúncias públicas sobre o Arco Mineiro do Orinoco, onde coexiste a mega banda Tren de Aragua com funcionários corruptos, e confirmou o segredo aberto sobre funcionários “envolvidos na mineração ilegal”, embora não esteja claro se isso funciona como uma política das Forças Armadas ou se se trata apenas de algumas maçãs podres.

Para Roberto Deniz, o regime venezuelano é uma cleptocracia, na qual os militares “evidentemente têm muito poder econômico”, e questiona a transparência do orçamento do Ministério da Defesa. Na série “Terceirização militar”, demonstraram que uma quantidade significativa de militares ativos também era contratista do Estado. “É ilegal, é contrário às leis”, disse para esta investigação.

Deniz contou que um dos poucos grandes contratistas a quem a estatal Petróleos de Venezuela pagava em dia e concedia muitos contratos é um militar ligado a Diosdado Cabello, que possui uma empresa muito grande. Por isso, considera irrealista pensar que essas estruturas de corrupção vão renunciar a esse poder da noite para o dia.

Ao contrário, para Roberto Deniz, é previsível que Delcy Rodríguez equilibre todas essas forças, assim como Maduro fez ao saber que não contava com a popularidade, o dinheiro e a confiança interna e externa que Hugo Chávez possuía.

No final desta investigação, em 3 de fevereiro, o ministro da Defesa Vladimir Padrino López respondeu que a FANB não foi desleal: «Eu, que vi em primeira mão os pilotos prontos, vestidos para entrar em combate, é claro, com a supremacia aérea que havia, mais de 150 aeronaves no nosso espaço aéreo, era inviável tirar um avião. É enviar pilotos para a morte e para o suicídio”.

Em 5 de fevereiro, foi aprovado em primeira discussão na Assembleia Nacional o Projeto de Lei de Anistia para a Convivencia Democrática. A ONG Surgentes DDHH, cuja codiretora Martha Lía Grajales é prisioneira política com medidas cautelares, denunciou que trabalhadores, camponeses e militares presos por motivos políticos estão sendo excluídos do projeto de lei, muitos deles acusados de crimes de conspiração e traição à pátria: “Merecem menção especial os militares acusados de cometer crimes militares. Seja real ou não sua participação nesses fatos, desde que não tenham causado mortes, eles também devem ser incluídos na anistia”.

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