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Sono na infância: como lidar com a dificuldade de dormir das crianças

por Redação Capital Brasília
28 de janeiro de 2025
em Saúde
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Distúrbios do sono são comuns em crianças e adolescentes e representam um motivo frequente para consultas pediátricas. Embora um número muito pequeno desses grupos sofra de algum problema específico do sono (como apneia obstrutiva, síndrome das pernas inquietas ou narcolepsia), é cada vez mais comum que o público dessa faixa etária tenha insônia. O termo engloba dificuldade para adormecer, de manter-se dormindo ou ter despertares precoces, que ocorrem apesar de um ambiente de sono adequado.

Para que um quadro seja caracterizado como transtorno crônico de insônia, ele deve acontecer mais do que três vezes na semana e durante um período superior a três meses. Sabe-se que que dormir de 30 a 60 minutos a menos por noite reduz significativamente a qualidade de vida relacionada à saúde e, quando isso se torna um problema persistente, impacta o funcionamento emocional, comportamental e cognitivo dos pequenos.

Por trás do sono inadequado podem estar fatores como tempo excessivo de tela, hábitos alimentares pouco saudáveis ​​e obesidade. Os efeitos ainda se expandem para o funcionamento e bem-estar de toda a família.

No Brasil, não há dados oficiais sobre problemas de sono em crianças. A Associação Brasileira do Sono (ABS) trabalha com dados europeus e dos EUA que estimam que a prevalência da insônia pediátrica varia de 15% a 30% em crianças pequenas (3 a 5 anos), de 11% a 15% na idade escolar (6 a 12 anos) e de 20% a 30% em adolescentes.

Essas porcentagens são consideradas alarmantes, especialmente levando em conta as consequências do sono insuficiente nessas faixas etárias.

Desafio para os pais

O manejo da insônia infantil é um desafio para pais e especialistas em sono. Na maioria das vezes, o problema é exclusivamente comportamental: os hábitos da criança e até da família influenciam. O tratamento padrão-ouro nesses casos envolve a higiene do sono (que inclui estabelecer rotina, ir para a cama mais cedo, apagar as luzes e evitar telas, por exemplo) e, principalmente, mudanças comportamentais, que muitas vezes só são alcançadas com ajuda da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).

“A maioria das insônias na infância tem um forte componente comportamental. O primeiro passo é identificar esse comportamento problemático e tratá-lo. E isso não envolve apenas criar uma rotina, é preciso mudar hábitos”, explica a neurologista pediátrica Leticia Soster, do Grupo Assistencial do Sono do Hospital Israelita Albert Einstein.

Por exemplo: na hora de ir para a cama, a criança pode ter um comportamento de adiar o sono pedindo aos pais um copo de água, para ir ao banheiro ou ler um livro. “A criança faz isso como uma forma de resistir ao sono. À medida que os pais vão atendendo esses pedidos, isso vai se tornando uma rotina e a criança passa a estender cada vez mais a hora de dormir”, alerta Soster.

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Segundo a neurologista, a base do tratamento da insônia é justamente quebrar esse padrão de comportamento. E esse é o maior desafio, já que grande parte dos pais não consegue entender que o problema é muito mais complexo. “A maior dificuldade é mostrar que não é somente fazer a sequência ‘banho-naninha-cama’ que vai dar certo. Não basta ter um quarto em tons pastel e achar que isso é o suficiente para um ambiente adequado ao sono”, avisa a neurologista.

Melatonina: sim ou não?

Especialistas da Europa atualizaram as diretrizes para os cuidados da insônia em crianças saudáveis, sem nenhum problema neurológico ou de desenvolvimento, em documento publicado recentemente no Jornal Europeu de Pediatria.

Eles reforçam a importância da higiene do sono, da mudança de hábitos (inclusive com uso do diário do sono) e da terapia cognitivo comportamental como primeiras opções para auxiliar os pais nessa tarefa de regular o sono dos filhos.

Nos casos em que nada disso funcionar, a diretriz sugere o uso de melatonina em baixas dosagens, por tempo limitado, e com acompanhamento médico.

Esse é um hormônio endógeno, produzido pela glândula pineal do cérebro, e cuja principal função é regular o ciclo circadiano, estimulando o sono ao final do dia. Apesar de ser naturalmente produzida pelo organismo, é possível obter a melatonina por meio de suplementação.

O documento reforça que os pais devem ser informados sobre potenciais eventos adversos do uso de melatonina e da falta de dados de segurança de longo prazo. A diretriz também aponta que o uso do suplemento não deve substituir as boas práticas, incluindo a higiene do sono.

Contudo, apesar das ponderações no documento europeu, a recomendação de melatonina chamou a atenção de especialistas, sobretudo por tratar do manejo da insônia em crianças saudáveis.

Na avaliação de Soster, a proposta de usar melatonina como parte do tratamento da insônia em crianças é “extremamente delicada” e pode passar a falsa impressão de ser um caminho facilitador e aumentar o consumo indiscriminado da substância.

“Se estamos afirmando que, na maioria das vezes, a insônia é causada por uma questão comportamental, por que prescrever um hormônio que vai preparar o corpo metabolicamente para o sono, se é possível fazer isso apagando as luzes à noite? Por que dar algo exógeno para uma criança que não tem deficiência desse elemento, e ainda sem estudos de segurança a longo prazo?”, indaga a médica do Einstein.

Soster ressalta que indicar melatonina para crianças saudáveis é diferente de recomendar o suplemento no caso daquelas com alguma doença neurológica, que sabidamente têm mais dificuldade para adormecer (inclusive afetando a produção e liberação da melatonina). Aí, sim, a substância pode ser uma aliada no tratamento.

“O problema dessa diretriz é que ela pode passar a impressão de que temos à mão uma opção mais simples – é só ir à farmácia, comprar e dar o produto para a criança – e muito mais atrativa para os cuidadores, que muitas vezes não estão dispostos a fazer toda essa revisão comportamental com a criança. Não é a falta de melatonina que faz a criança não dormir bem”, observa.

Diretrizes brasileiras

Por aqui, o último consenso envolvendo o tratamento de distúrbios do sono foi publicado em 2019, época em que a melatonina ainda não estava liberada para uso no país.

Foi somente em outubro de 2021 que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a venda de melatonina como suplemento, destinado exclusivamente às pessoas com mais de 19 anos e numa dosagem diária máxima de 0,21 mg.

“Nós citamos a melatonina no consenso de 2019 porque a utilizamos em algumas crianças em casos muito específicos. Mas é preciso ficar bem claro que o ideal é não medicar a criança”, frisa a neurologista pediátrica Rosana Cardoso Alves, da ABS, coordenadora da parte infantil do consenso brasileiro. Segundo Alves, os pequenos devem conseguir dormir espontaneamente. “A família precisa saber conseguir lidar com isso, e nós temos medidas de higiene do sono adequadas para auxiliar nesse processo.”

De acordo com a médica da ABS, a melatonina pode ser recomendada como adjuvante do tratamento de crianças com algum transtorno de desenvolvimento, como transtorno do espectro autista (TEA), ou alguma outra alteração de neurodesenvolvimento que possa atrapalhar o descanso noturno.

“Nos casos em que já estamos em tratamento e vemos que a família está exausta, a tentativa de dar melatonina para melhorar a estabilidade do sono é válida. Mas, como qualquer medicação, ela pode ter efeitos colaterais, por isso temos de monitorar muito de perto e, no caso de crianças, usar doses bem baixas”, ressalta Rosana Alves.

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