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Home Brasil

“Bancada das bets”: quem são os aliados das casas de apostas no Congresso Nacional

por Redação Capital Brasília
30 de junho de 2026
em Brasil, Política
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“Bancada das bets”: quem são os aliados das casas de apostas no Congresso Nacional
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Esta reportagem é parte de uma investigação especial da Agência Pública financiada pelos nossos Aliados, sem nenhum dinheiro de bet. Apoie mais reportagens como essa clicando aqui.

Em meio à guerra narrativa para a definição de “grupo terrorista” no projeto de lei conhecido como “PL Antifacção”, em 18 de novembro de 2025, dois discursos chamaram a atenção numa reunião horas antes da aprovação do texto. Naquele mesmo dia, enquanto o projeto mobilizava a atenção da imprensa, os deputados federais Dr. Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), líderes de seus partidos na Câmara, levantavam coro contra outro projeto, o PL 5.473/25, de autoria de Renan Calheiros (MDB-AL), que propunha aumentar impostos sobre casas de apostas digitais, fintechs e bancos – o texto só foi aprovado duas semanas depois, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado e, até o momento, não entrou na pauta de votação do plenário.

Não foi a primeira vez que Dr. Luizinho e Isnaldo Bulhões estiveram juntos à frente de acordos para impedir que casas de apostas pagassem mais impostos. Em fevereiro deste ano, a dupla também articulou para retirar a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, a Cide-bets, do relatório do PL Antifacção. A relatoria estava a cargo de Guilherme Derrite (PP-SP), que havia se licenciado da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, apenas para assumir o papel no projeto. A contribuição de 15% foi retirada do texto final, num placar simbólico após acordo entre os partidos, preservando as empresas e jogos online e deixando de arrecadar estimados R$ 30 bilhões por ano para a segurança pública.

Ainda mais recentemente, em abril, a dupla também esteve unida em viagem à Ilha de Saint Martin, paraíso fiscal caribenho, da qual também participaram o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Os políticos estavam acompanhados do empresário “Fernandin OIG”, dono do avião, tido como um dos responsáveis pelo “Jogo do Tigrinho” e amigo de Nogueira. A viagem ganhou notoriedade após a Polícia Federal (PF) identificar que sete volumes de bagagem do voo passaram fora do raio x do aeroporto no retorno ao Brasil. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes arquivou a investigação sobre o caso após parecer da Procuradoria-Geral da República.

A Agência Pública apurou que a união de Isnaldo e Luizinho e, coincidentemente, dos parceiros de viagem, não se limita aos episódios destacados pela imprensa. Os quatro foram apontados por dezenas de congressistas ouvidos pela reportagem como integrantes de uma bancada que, embora informal, é influente e articulada nos bastidores: a “Bancada das Bets”. Na dianteira dos esforços pró-bets também estariam o deputado Felipe Carreras (MDB-PE) e o senador Ângelo Coronel (Republicanos-BA).

A “Bancada das bets” atuaria diferentemente de setores como o agronegócio, que conta com uma frente parlamentar própria, composta por 292 congressistas e com ligações com o setor privado, a exemplo do Instituto Pensar Agro (IPA), epicentro do lobby ruralista em Brasília. As bets mobilizam o Legislativo por meio de conversas diretas com lideranças partidárias, fornecendo discursos em defesa das apostas, que vão de argumentos relacionados ao “livre mercado” a narrativas ideológicas que definem o governo como o “vilão cobrador de impostos”.

Ao menos outros 11 parlamentares integrariam essa bancada e já incluíram entre suas atividades a elaboração de projetos de lei ou de emendas que favorecem diretamente as bets. O mais recente deles, protocolado em 27 de maio pelo líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto (PL-PB), quer revogar o imposto de 15% sobre o valor líquido dos prêmios obtidos em apostas de loterias e de bets, para que os vencedores de apostas recebam premiações sem desconto de impostos. “Na minha opinião, [o projeto] não está favorecendo as bets, está favorecendo o consumidor, favorecendo quem ganha”, respondeu Cabo Gilberto, que negou atuar em favor das bets.

Nos bastidores das articulações desses projetos, são comuns convites a coquetéis com empresários e lobistas. A Pública ouviu líderes partidários, assessores legislativos e congressistas, alguns sob condição de anonimato, que, em comum, afirmam que vários convites a esses tipos de evento patrocinados por casas de apostas são originados de uma tríade na Câmara: Dr. Luizinho, Felipe Carreras e Isnaldo Bulhões. 

Mapeando a “Bancada das bets”

Parlamentares que, direta ou indiretamente, contemplaram interesses das casas de apostas online no exercício do mandato.


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Amigos influentes

Doutor Luizinho é apontado como grande articulador das bets pela proximidade com outras lideranças do Centrão, sobretudo Hugo Motta. O reconhecimento do setor, porém, ultrapassa os limites do Congresso. O líder do PP na Câmara foi um dos participantes do “Gilmarpalooza”, apelido dado ao Fórum Jurídico de Lisboa, organizado anualmente na capital portuguesa pelo ministro do STF, Gilmar Mendes. No evento, ocorrido de 1 a 3 de junho, Luizinho assistiu justamente à mesa de debate sobre jogos eletrônicos e apostas online e foi citado nominalmente pela vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a advogada Michelle Ramalho. 

“Temos que fazer uma diferença do que é manipulação de resultado e do que é manipulação de jogo. Inclusive quero cumprimentar ali o nosso deputado Doutor Luizinho, que acaba de chegar, e, desde já, fazer uma provocação que é no que diz respeito a esse tema. Doutor Luizinho, é importante legislar sobre essa distinção”, disse a vice-presidente da CBF. 

Além de Ramalho, participavam o advogado Pietro Lorenzoni, diretor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e filho do ex-ministro de Bolsonaro, Onyx Lorenzoni; e o presidente da ANJL e CEO da empresa Superbet, Alexandre Fonseca. A Superbet é patrocinadora master do Fluminense, cujo presidente, Mattheus Montenegro, também marcou presença no evento.

Dr.Luizinho com Hugo Motta
Dr.Luizinho com Hugo Motta

Doutor Luizinho se diz contra o aumento de impostos e a extinção das plataformas online e afirmou nunca ter recebido qualquer contrapartida das empresas de apostas para atuar no Congresso. O deputado, no entanto, faz questão de destacar a importância da receita gerada pelas companhias. Ao responder questionamentos da Pública, o parlamentar se irritou ao abordar os impostos do setor. “Você não está fazendo essa pergunta, né? Você está de brincadeira. Não taxar as bets, não? Nós estamos com as bets taxadas. As bets estão taxadas. Estão arrecadando mais de 14 bilhões de impostos [no acumulado do ano]”, pontuou.

Dois lobistas que representaram plataformas de apostas no Congresso, ouvidos em reserva pela Pública, foram categóricos ao apontar os nomes mais procurados pela própria empresa e por outras companhias do setor de apostas para negociar propostas legislativas, concordando em dois nomes: o senador Ciro Nogueira e o deputado Dr. Luizinho. 

Um outro nome, no entanto, segundo mediadores do governo Lula e representantes de casas de apostas ainda em atividade no Congresso, também teria sido decisivo para a retirada do Cide-bets do PL Antifacção: Hugo Motta, o presidente da Câmara. Isso porque, o dispositivo foi inserido no projeto pelo Senado, em dezembro de 2025. 

A Pública apurou que o presidente da Câmara se reuniu pessoalmente com o atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima, justamente para tratar sobre o projeto de lei e discutir o apoio do Governo à nova derrubada do dispositivo. O texto retornou à Câmara para nova apreciação e, em 24 de fevereiro, os deputados voltaram a retirar o imposto sobre casas de apostas antes de aprovar o projeto. Procurado, o Ministério da Justiça confirmou oficialmente a reunião com Motta para tratar do PL Antifacção, mas não a pauta que diz respeito às bets.

Tanto na primeira quanto na segunda tramitação do PL Antifacção na Câmara, o nome de Isnaldo Bulhões chamou a atenção pela articulação com outros parlamentares. A atuação também se traduziu em posicionamentos quanto à questão em ambas as oportunidades. Na apreciação original, o deputado não registrou voto em requerimentos do governo para adiar a discussão do projeto em plenário, mas votou a favor do relatório final do relator Guilherme Derrite. 

Na segunda oportunidade, em fevereiro deste ano, o líder do MDB também não votou no destaque apresentado pela Federação Rede/Psol para apreciar os itens do texto separadamente. A aprovação final da matéria aconteceu de forma simbólica, quando há consenso entre as bancadas e os votos não precisam de registro.

Os líderes da Bancada das Bets

Nos corredores do Congresso, seis nomes são recorrentes quando o assunto são as bets. Influência dos parlamentares já fez com que projetos sobre o assunto sejam acelerados ou engavetados na Câmara e no Senado.


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O “cara” das bets grandes

Ao longo de três meses, repórteres da Pública estiveram quase diariamente nos corredores do Congresso abordando parlamentares e técnicos sobre a questão das bets. Entrevistas formais, conversas informais, cafés agendados. Na rotina da apuração, em vários momentos, pouco era revelado, mas surgiam pistas para os próximos passos. 

Numa das entrevistas com um parlamentar influente no Congresso, após quase uma hora, ao deixar o gabinete, a repórter Maira Escardovelli foi acompanhada por um assessor até a porta. Eis que ao apertar sua mão, percebeu um pequeno papel dobrado, que lhe fora entregue discretamente. De um lado, rabiscado à caneta, o telefone de um lobista de clubes de futebol e, de outro, o recado: “F. Carreras é o cara das bets grandes”.

Bilhete entregue à repórter da Pública por um assessor
Bilhete entregue à repórter da Pública por um assessor

Carreras é vocal sobre o setor de apostas, se posiciona a favor da liberação de cassinos no país e não faz questão de esconder o seu argumento quanto às bets quando questionado pela reportagem. “Sem dúvidas. Basta ver como eu voto.” Relator do PL 442/91, que aprovou a possibilidade de jogos de apostas e de cassinos, bingos e até o jogo do bicho operarem no país, o deputado diz que visa “autorizar, depurar, fiscalizar e arrecadar”. “Sou defensor da atividade de forma plural. Parte do setor de apostas já funciona há décadas, sem arrecadar impostos e formalizar empregos”, afirmou à Pública e, apesar de ser apontado como apoio das bets de empresas poderosas, o que ele descreve como “lenda”, disse: “não vejo com seletividade nada do setor”.

O diálogo com esse mesmo setor, no entanto, é descrito pelos colegas como um ponto sensível na articulação do deputado perante os próprios aliados. Um exemplo é um episódio de abril de 2024, durante almoço de reunião com líderes na residência oficial do então presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), evento do qual Carreras participava por se preparar, à época, para deixar a liderança do “superbloco” criado por Lira, com nove partidos e mais de 170 deputados.

À época, o Ministério da Fazenda publicava cronogramas para aprimorar o processo de regulamentação de prêmios e apostas online e o tema ganhava espaço na Câmara com a repercussão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Apostas Esportivas, instalada no Senado naquele mês. 

Ao lançar o tema das bets no encontro, Lira teria sido interrompido por Carreras, que informou que o então presidente não precisaria se preocupar, pois já havia “conversado com o setor” e “construído um acordo”. “Está tudo resolvido”, teria dito, segundo narrado por três líderes diferentes presentes na reunião. “Foi o maior esculacho que vi numa reunião de líderes”, afirmou um deles. 

O evento reuniu assessores e representantes de partidos como PP, Republicanos, MDB, PRD e PSD. Lira teria subido o tom em reclamação que incluiu a acusação de “molecagem” por parte do pernambucano, que, segundo Lira, não teria “autonomia” ou “autorização” para construir acordos sem consultar a presidência da Casa.

O momento, confirmado por funcionários da Câmara, foi negado por Carreras. “Invenção”, resumiu, acrescentando que a relação com Arthur Lira “está ótima”, assegurou. A assessoria do ex-presidente da Câmara negou haver “desavença” entre os deputados (confira a nota).

Sobre o setor de apostas, Lira afirmou que, enquanto presidente da Câmara, “manteve interlocução institucional com diferentes setores da sociedade” a respeito da regulamentação das bets e que “atuou no exercício regular de suas funções públicas, sem vínculo particular com empresas, grupos econômicos ou plataformas de apostas”. Em nota, a equipe do deputado acrescentou ainda que “eventuais propostas sobre tributação, regulação ou restrição do setor devem ser analisadas pelo Congresso Nacional de forma técnica, transparente e dentro do devido processo legislativo”.

Segundo apurou a Pública, Lira teria se sentido “traído” por Carreras porque o ex-presidente da Câmara trabalhou pela aprovação do novo Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse). O programa do governo federal concedeu isenção fiscal, linhas de crédito e refinanciamento de dívidas ao setor de festas e contou com uma lei criada por Carreras em 2020 e posteriormente reeditada para manter e ampliar a medida.

Carreras foi um dos beneficiados pela lei que criou, ao receber desoneração fiscal de pouco mais de R$ 1,053 milhão em duas empresas das quais é sócio-investidor: a Festa Cheia Produções e Propagandas LTDA e a Ruffo Comércio de Alimentos LTDA. A informação sobre os benefícios das duas empresas foi revelada pelo Metrópoles após a Receita Federal divulgar, em 2024, a lista de empresas beneficiadas. O programa, encerrado em abril de 2025 ao atingir o teto de renúncia de R$ 15 bilhões, foi criado originalmente para amenizar os impactos econômicos da pandemia de covid-19 no setor de eventos.

Vocal em defesa das bets, Carreras também apoia a legalização de cassinos no Brasil e não esconde sua posição sobre o setor
Vocal em defesa das bets, Carreras também apoia a legalização de cassinos no Brasil e não esconde sua posição sobre o setor

Em entrevista à Pública, Carreras usou discurso semelhante ao de representantes da CBF, lembrando que, no Congresso, foi feita “uma CPI de manipulação de resultados, não de bets”, e destacou o potencial arrecadatório e de geração de empregos das casas de apostas. Sobre ter o nome apontado por colegas e lobistas, o deputado afirma que há uma criação de narrativas para “tentar prejudicar” seu trabalho, especialmente em período de eleições, sem, no entanto, esclarecer quem seriam os autores da tentativa.

Para explicar o ponto, Felipe Carreras diz ter sofrido com falta de “sensibilidade” e caído em algumas ciladas por estar “desavisado” e cita um episódio em que teria sido convidado para um jantar de um amigo e, entre os convidados, estava um empresário. “Assim que saí, uma repórter do Metrópoles já me ligou questionando. Tive que reclamar com meu amigo, e eu nem sabia [da lista de convidados]”, comenta. Questionado sobre o ramo da empresa durante a entrevista, Carreras mudou de assunto sem responder. O empresário em questão era Ernildo Júnior de Farias, dono da PixBet, casa de apostas online da Paraíba e uma das maiores patrocinadoras de tradicionais eventos realizados em Pernambuco pela Festa Cheia Produções, empresa da qual Carreras é sócio e disse estar licenciado.

Rostos dos bastidores 

Parlamentares que não integram a Bancada das Bets mas são frequentemente citados como aliados dos integrantes e cuja influência os tornam essenciais na costura de acordos sobre o assunto no Congresso.


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A [longa] articulação no Senado

No Senado, o presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, é, de longe, a figura mais associada ao setor de jogos e apostas, tanto nos holofotes quanto nos bastidores. Nos corredores do Senado, foi criticado pelos pares por articular para que o relatório final da CPI das Bets fosse engavetado – a primeira rejeição do tipo em 10 anos de CPIs no Senado.

Fontes no Congresso frequentemente lembram o depoimento de Fernandin OIG à CPI, em novembro de 2025. Então, o membro da comissão, Ciro Nogueira, fez questão de interceder em favor do empresário em meio a alfinetadas da relatoria da CPI – que reclamava da dificuldade de encontrar Fernandin OIG no Brasil para intimá-lo a depor. “O Ciro [Nogueira] realmente tem visibilidade, defende, fala, não se envergonha”, disse um membro da base do governo que participou da comissão.

Senador Ciro Nogueira
Senador Ciro Nogueira

Além disso, reportagem da Piauí apontou, em julho de 2025, que relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apresentados na CPI das Bets revelaram que Fernandin OG adquiriu em Teresina três apartamentos de um mesmo edifício, construído pela incorporadora Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, da família do senador, que disse à revista não ter conhecimento da venda, que totalizou R$ 1,55 milhão.

Procurado, Ciro Nogueira não respondeu aos questionamentos da Pública até o momento. Este espaço será atualizado em caso de manifestação.

Colega de CPI e um dos membros que votaram pela rejeição do relatório, o senador Ângelo Coronel (Republicanos-BA) é apontado como um dos principais defensores do setor de apostas no Senado. Ele fazia parte da base do governo no início da atual gestão de Lula, o que foi um dos motivos pelos quais foi escolhido para relatar o projeto de lei que regulamentou as bets no Brasil em 2023.

Como relator, o senador atuou para reduzir os tributos que seriam cobrados de casas de apostas no processo de legalização junto ao governo, cortando parte do valor aprovado na Câmara. Na prática, o parlamentar reduziu de 18% para 12% o valor a ser cobrado anualmente das operadoras de bets em relação ao GGR (a receita final das empresas com os jogos, já subtraídos os prêmios pagos aos apostadores) e também enxugou o valor a ser pago de imposto de renda por cada premiação – caindo pela metade, de 30% para 15%, num movimento que agradou às casas de apostas e às associações que as representam.

Na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, em novembro de 2025, Ângelo Coronel defendeu as taxas já reduzidas como bastante elevadas para o setor, durante uma troca de farpas com a colega Soraya Thronicke, ex-relatora da CPI das Bets, que defendia que as empresas pagavam poucos impostos. “Acho que ela precisa fazer as contas direitinho, porque não são somente 18% que as bets pagam, é só verificar que as bets pagam hoje 12% de GGR, como eu disse, pagam PIS-Cofins, contribuição social de 9%, Imposto de Renda de 15%, adicional de mais 10%. Vai dar uma carga tributária de mais de 60%”, alegou o senador.

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Perguntado pela Pública sobre sua posição sobre as bets no país, Coronel disse que continua “sendo favorável”, mesmo reconhecendo o problema do vício. “Se hoje os casos de vício nos jogos são mais evidentes, é porque existe um mercado legalizado, regulado e fiscalizado. É preciso acabar com a falácia moralista de que a proibição do jogo vai acabar com o vício como num passe de mágica. […] Só a legalização permite a destinação de recursos arrecadados com impostos sobre os jogos para o tratamento daqueles que perdem o controle das apostas”, defendeu. 

Quando o assunto são as bets, o Senado guarda grandes contradições, algumas que ficaram evidentes a partir da instauração da CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas, em abril de 2024, uma segunda comissão sobre o assunto que tramitou sem relação com os trabalhos da CPI das Bets. 

Para a CPI das Apostas foi escalado como presidente o senador Jorge Kajuru (PSB-GO). Antes, ele já havia feito propaganda para a BetEsporte durante um programa de entrevistas na TV Meio, do Piauí, como destacou a Folha de S.Paulo. À época, ele disse se tratar de um merchandising da emissora e ter feito pesquisa que indicou que a empresa seria séria, mas se comprometeu a não fazer mais propaganda para empresas de bets, tópico que viria a investigar na comissão que passou a presidir. Já em 2025, durante a discussão da MP do IOF, Kajuru fez proposta de emenda para evitar futuros aumentos de impostos ou criação de novos tributos sobre essas empresas.

Para a relatoria da CPI das Apostas foi designado o senador Romário. O ex-jogador tem, até hoje, relação direta com ao menos uma bet, por meio de seu canal no YouTube, a RomárioTV, que tem oferecimento da Superbet. A mesma empresa também patrocina o America Football Club do Rio de Janeiro, do qual Romário é presidente desde 2024. A parceria se manteve mesmo durante os trabalhos da CPI das Apostas, como também revelou a Folha.

A Pública procurou os senadores Kajuru e Romário para se manifestarem sobre as questões, mas não obteve resposta até o momento.

A CPI foi encerrada pedindo o indiciamento de Bruno Tolentino, tio do jogador da Seleção Lucas Paquetá, e dos empresários William Pereira Rogatto e Thiago Chambó Andrade e propondo emendas constitucionais para elevar pena por fraude em resultados esportivos e avisos obrigatórios sobre o riscos das apostas, além do sistema para facilitar pedidos de autoexclusão de jogadores nas plataformas. As casas de apostas não foram penalizadas.

Imagem de plenária no Senado
Articulação no Senado é mais discreta que na Câmara dos Deputados

Paciência e regulamento debaixo do braço

Pelo fato do mandato no Senado durar oito anos, a articulação política na Casa tem um ritmo diferente, ao feitio de lobbies mais discretos – como, por exemplo, manter determinados projetos de lei contrários às bets e aos jogos online sem tramitação ou mesmo sem análise pelos parlamentares. Exatamente a postura apontada por fontes no Congresso em relação a alguns senadores.

Um exemplo é o líder do bloco formado por PP e Republicanos na Casa, Dr. Hiran (PP-RR), ex-presidente da CPI das Bets, alvo de críticas por não ter pautado todos os depoimentos aprovados. O senador é o atual presidente da Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor (CTFC) e ainda não deu início à tramitação de um projeto que aumenta impostos sobre as bets após quase um ano do protocolo da proposta.

Outro parlamentar bastante lembrado pelo mesmo recurso de não dar encaminhamento a propostas contra o setor de jogos e apostas é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Tal impressão foi mencionada por um dos senadores ouvidos pela Pública, o oposicionista Eduardo Girão (Novo-CE), da bancada evangélica e um dos principais críticos de jogos e apostas na Casa, que qualificou Alcolumbre como um “defensor da jogatina”.

Girão é um dos autores de propostas contra as bets que estão paradas atualmente no Senado e também citou o apoio do presidente da Casa a uma proposta que pode legalizar cassinos e o jogo do bicho. “O próprio PL dos cassinos e bingos, quando passou pela Câmara, se não me engano, foi votado na véspera do Carnaval por votação virtual, remota, para excluir o debate. O que o Davi fez aqui na véspera do fim do ano? No último dia [de trabalho do Senado em 2025], ele botou para votar no virtual. Ele botou para votar com um requerimento de urgência… mas quando ele perdeu no requerimento, ele tirou ‘de pau’, porque ele viu que ia perder”, disse Girão. Vale lembrar que o mesmo projeto conta com a assinatura do próprio Alcolumbre, como mostra o site do Senado.”

Sem resposta

Ao longo das últimas semanas, a Pública procurou, por telefone e email, as equipes de Ciro Nogueira, Davi Alcolumbre e Efraim Filho, Hugo Motta e Isnaldo Bulhões, para questioná-los sobre os pontos apresentados na reportagem e suas relações com as casas de apostas, mas, até o momento, não recebeu resposta. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado. 

As informações desta reportagem incomodam um mercado bilionário. A Agência Pública não aceita dinheiro de casas de apostas e investiga quem lucra com o vício alheio. Se esta investigação te indignou, apoie o jornalismo independente e fortaleça esse trabalho.

ENTRE NESSA BRIGA COM A GENTE

Uma CPI para comprovar uma certeza: “Ninguém ganha das bets”

Não é comum uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) rejeitar seu próprio relatório final. Foi isso o que ocorreu na manhã de 12 de junho de 2025, na conclusão da CPI das Bets, quando, pela primeira vez em 10 anos, o relatório final de uma CPI no Senado foi rejeitado. Um total de 16 empresários e influenciadores, incluindo Virgínia Fonseca e Deolane Bezerra, ficaram livres de indiciamentos por propagação de bets e jogos como o “tigrinho”.

Senador Cleitinho tira foto com Virginia Fonseca durante sessão da CPI das Bets em que a influencer estava na condição de testemunha
Senador Cleitinho tira foto com Virginia Fonseca durante sessão da CPI das Bets em que a influencer estava na condição de testemunha

O encerramento da comissão sem responsabilização relevante de envolvidos no império das bets frustrou a expectativa do público que acompanhou os trabalhos da CPI, que tornou-se um canal de desabafo e denúncia sobre as próprias experiências com as bets. Relatos dramáticos obtidos pela Pública chegaram aos gabinetes dos senadores, expondo a face mais cruel do vício.

“O relato que faço é sobre mim mesma, pois comecei a jogar esta droga, e hoje olho e consigo ver o tamanho da desgraça feita em minha vida. Eu perdi tudo o que tinha e hoje estou com um superendividamento. Minha família não sabe, tenho vergonha de expor, mas se for para contribuir e salvar outras pessoas, fico à disposição”, escreveu em uma das mensagens uma advogada do Paraná. 

Os relatos deram conta do adoecimento psicológico de parte da população, bem como de histórias de quem perdeu tudo o que tinha, e até relatos de mortes de familiares devido às dívidas dos jogos online.

Um longa batalha

Ao relembrar da rejeição do relatório final e das pressões sofridas à época, em entrevista à Pública, a relatora da CPI, senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), foi categórica: “ninguém ganha das bets”. A senadora conta que entrou com o requerimento de criação da CPI sem ter conhecimento prévio sobre a atividade no Brasil e, após o fim dos trabalhos, já propôs ao menos 18 projetos de lei para aumentar o controle sobre as apostas esportivas no país.

Senadora Soraya Thronicke
Senadora Soraya Thronicke

Legislar contra as bets, no entanto, causa consequências. “Foi um processo muito difícil: ao longo da CPI eu tive de andar com seguranças do Senado, para minha proteção e da minha família. Isso porque recebi uma série de ‘recados’ e ameaças veladas, com gente que me dizia no Congresso que eu ‘não sabia com quem estava mexendo’, que devia ‘tomar cuidado’, ‘falar menos’, que devia ‘deixar quieto’”, disse Thronicke.

A senadora não foi a única parlamentar a dizer que “ninguém ganha das bets”. O próprio presidente da CPI, senador Dr. Hiran (PP-RR), disse o mesmo na derradeira sessão da CPI, ao rebater críticas sobre sua condução dos trabalhos e atacar jogos que se baseiam em algoritmos (“esses joguinhos de tigrinho, de zebrinha”), mas isentando apostas em modalidades esportivas – como o futebol.

Naquele dia, o relatório foi rejeitado em sessão esvaziada: 4 votos a 3. “Calculamos um empate na votação, então tinha chances de ser aprovado. Mesmo assim, eu sabia que se [o relatório] não passasse eu entregaria tudo para as autoridades do mesmo jeito, nem que fosse sozinha… foi exatamente o que eu fiz. Eu não iria prevaricar diante daqueles crimes”, afirmou Thronicke.

Senador Eduardo Girão
Senador Eduardo Girão

Um dos membros da comissão mais críticos às bets, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) disse à reportagem que houve uma articulação política nos bastidores para barrar o relatório. “A gente ia ganhar, indiciar essa turma e pedir mais investigações, mas houve uma manobra do Centrão, com senadores que nunca chegaram lá para perguntar e participar das oitivas, mas que foram só para votar contra…”, afirmou Girão à Pública.

Além da relatora e de Girão, apenas o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) votou a favor do relatório, enquanto os senadores Ângelo Coronel (então no PSD, hoje no Republicanos-BA), Efraim Filho (então no União Brasil, hoje no PL-PB), Eduardo Gomes (PL-TO) e Professora Dorinha Seabra (União-GO) votaram contra, formando maioria para a rejeição do material.

Entre quem votou contra, somente Ângelo Coronel respondeu, em nota, o motivo de seu voto: “falta de tempo para avaliar o relatório”. “Foram 541 páginas disponibilizadas na véspera da votação, indiciando pessoas sem elementos concretos que pudessem nos dar certeza de práticas criminosas”, alegou o senador, que foi um dos mais favoráveis aos interesses das bets ao longo dos trabalhos da comissão: “sou favorável aos jogos porque acho que o jogo é uma fonte de receita”, afirmou na sessão final dos trabalhos.

O resto do mundo joga. Então, será que nós brasileiros é que somos [sic] errados? Claro que você gosta de cerveja, eu gosto de whisky, isso é natural. Você gosta de apostar em cavalo, eu posso gostar de apostar em futebol
Ângelo Coronel
Senador

Inicialmente, o senador baiano não fazia parte da CPI e também não assinou o requerimento de criação dela, mas seu partido à época, o PSD, permitiu que ele fosse nomeado como membro titular por sua proximidade com o tema, na condição de relator do projeto de lei que regulamentou as bets no Brasil – aprovado no Congresso e sancionado no fim de 2023.

À Pública, Coronel não escondeu sua posição “favorável” a jogos e apostas no país. “É preciso romper o paradigma de ordem moral e enxergar as apostas de quota fixa [bets] como atividade econômica”, segundo ele, que ainda afirmou que “é preciso acabar com a falácia moralista de que a proibição do jogo vai acabar com o vício como num passe de mágica. […] O vício independe da legalização ou não, mas só a legalização permite a destinação de recursos arrecadados com impostos”.

Ainda de acordo com a apuração da Pública, o membro da CPI mais atuante na defesa das bets na comissão foi o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Nogueira é amigo pessoal do empresário Fernando Oliveira Lima, o ‘Fernandin OIG’, dono da One Internet Group (OIG), apontado como o grupo por trás do ‘jogo do tigrinho’ no Brasil e um dos principais alvos da CPI, como evidenciou a piauí em maio de 2025. 

Durante o depoimento de OIG à CPI, Nogueira discursou: “Esse rapaz poderia aqui não ter falado nada nesta CPI. Ele tem uma decisão da Justiça que o protege, fez questão de tentar ajudar a CPI, demonstrando toda boa vontade, toda boa intenção, é uma pessoa que está legalizada”. 

Na sessão, OIG negou ser o dono do Jogo do Tigrinho. “A negativa de alguns depoimentos e a condução de outros já mostrava que não havia chance de uma conclusão minimamente aceitável da CPI, especialmente no depoimento daquele empresário do Piauí [Fernandin OIG]”, disse à Pública, na condição de anonimato, um dos membros da CPI que faz parte da base do governo Lula no Senado. “Ali ficou claro que um senador da República tinha comparecido só para cumprir o papel de advogado do rapaz”, afirmou. 

Os bastidores da CPI das Bets no Senado ficaram marcados por acusações de corrupção que, até o momento, carecem de comprovação oficial. A Polícia Federal abriu investigação após denúncias de que um lobista teria cobrado R$ 50 milhões de empresários do setor para evitar convocações e indiciamentos pela comissão. O investigado teria se valido de uma suposta proximidade com senadores. O contexto ganhou força considerando que na CPI anterior, na Câmara, também houve denúncias de propina envolvendo um deputado federal, também em investigação pela PF. O ex-assessor do Ministério da Fazenda José Francisco Manssur confirmou à reportagem ter sido informado sobre uma suposta tentativa de extorsão, mas ressaltou que nunca foi abordado por parlamentares com propostas ilícitas.

Além disso, a credibilidade da CPI também foi afetada pelos depoimentos de influenciadores que fazem propaganda para bets e foram convocados para a comissão, a exemplo de Virgínia Fonseca. O depoimento da influenciadora, que tem cerca de 100 milhões de seguidores nas redes sociais, em maio de 2025, ganhou notoriedade negativa quando os próprios senadores tiraram fotos com a depoente. “Foi uma desmoralização”, afirmou membro da CPI, ouvido em reserva, sobre o desfecho da comissão, que descreve como “melancólico”.

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Redação Capital Brasília

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