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Canetas do milagre

por Redação Capital Brasília
27 de abril de 2026
em Brasil, Política
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Canetas do milagre
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Enquanto dietas falham e cirurgias assustam, um novo fenômeno invade consultórios, redes sociais e abdômens em casas de todas as classes sociais: as “canetas emagrecedoras”. Medicamentos criados para tratar diabetes se transformam em objeto de desejo global, prometendo uma solução rápida para a obesidade.

Ed acompanha a ascensão dessa indústria bilionária e descobre um universo em que ciência, marketing e política se entrelaçam, enquanto pacientes disputam acesso aos medicamentos e gigantes farmacêuticas travam batalhas silenciosas. 

Por trás da promessa de milagre, surgem perguntas incômodas: quem realmente se beneficia dessa corrida? Quais os reais riscos dessa moda? E o que acontece quando um problema social complexo começa a ser tratado como simples questão farmacológica?

Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra:

[sonora de cortes de mídias em redes sociais]

[narração da sonora]: Bom dia! Vamos na saga do Ozempic; Vlog do meu 1º dia usando a Ozempic; Pra mim assim, o Ozempic foi uma coisa que, assim, mudou a minha vida; Se você não me segue já clica aí pra me seguir e acompanhar esse processo.

[Ed Wanderley]: A promessa é quase de milagre.

[sonora de cortes de mídias em redes sociais]

[narração da sonora]: Como eu sai dos 80 kg pros 60 kg em cinco meses?; Ozempic; Mounjaro; Ozempic; Mounjaro; Ozempic; Ozempic. 

[Ed Wanderley]:De anônimos a famosos. O que se formou foi um movimento cultural, abraçado de bom grado pela indústria, que comemora o efeito manada a cada apaixonado espontâneo. De cantores sertanejos ao magnata Elon Musk. Não faltam cabeças para divulgar voluntariamente medicamentos. Repito, medicamentos. Que deveriam tratar uma enfermidade. Repito, enfermidade, doença.

[sonora de reportagem em noticiário | Gravação SBT News]

[narração da sonora]: A semaglutida foi a primeira substância a chamar atenção para a eficácia do tratamento do diabetes e, consequentemente, na perda de peso. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária decidiu priorizar o registro de novos produtos que contém os princípios ativos liraglutida e semaglutida presente nas fórmulas das canetas. 

[sonora de reportagem em noticiário | Gravação Jornal Nacional]

[narração da sonora]: Além da semaglutida, agora também estão nas farmácias as canetas de tizerpatida. 

[Ed Wanderley]: Semaglutida, liraglutida, tizerpatida. Os palavrões da moda geraram, literalmente, corrida às farmácias e um perigoso mercado paralelo.

[sonora da gravação em reportagem | Gravação do portal Rede Serra Azul]

[narração da sonora]: Vou pedir pra você tirar a calça toda, tá?

[narração da sonora]: Tá.

[Ed Wanderley]: O que você ouve são os remédios em forma de canetas caindo ao chão depois que um homem abre as calças em uma revista no Aeroporto de Fortaleza.

[sonora de reportagem em noticiário | Gravação Fantástico]

[narração da sonora]: A Receita Federal informou que as canetas estavam com um passageiro vindo do Reino Unido e eram transportadas de maneira irregular. Além da grande quantidade, não tinham receita médica, nem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, para entrar no país.

[Ed Wanderley]: As apreensões desse tipo se multiplicaram em 2025 depois da explosão de popularidade do caminho para o emagrecimento fácil. Esses medicamentos existem há quase duas décadas. Segundo a Receita Federal, sete canetas foram apreendidas em aeroportos brasileiros em 2023. Apenas nos primeiros quatro meses de 2025, antes do Mounjaro ser liberado para comercialização no país, a apreensão desses tipos de medicamento chegou a 10 mil unidades. A carga, avaliada em mais de 17 milhões de reais, vem sendo trazida aos poucos, clandestinamente, sem refrigeração e sem segurança, para alimentar sonhos impulsionados e multiplicados pelas redes sociais, e pela tradicional busca pelo corpo perfeito que insiste em não sair de moda.

Eu sou Ed Wanderley e nos próximos minutos eu te conto como eu morri. Esse é o A Última Bolacha, uma jornada que teve início no fim. Depois de um ataque cardíaco aos 36 anos durante um show de Paul McCartney, meus caminhos pessoais e profissionais se misturaram. Nos meses seguintes, passei a investigar não apenas para reportar, mas para reaprender a viver. Foram dezenas de documentos lidos, entrevistas conduzidas, seis mil quilômetros rodados e, enfim, mais de 50 kg eliminados. Agora eu levo você comigo a cada passo. Neste episódio, nós vamos nos debruçar sobre as glutidas e patidas, ou, como seus colegas de trabalho ou faculdade chamam: as canetas emagrecedoras. 

Episódio 4: As Canetas do milagre

[Sonora conversa de Ed com a mãe | Gravação de Ed Wanderley]

[Mãe]: Tá quente. É moela.

[Ed Wanderley]: Cabo Frio, Rio de Janeiro, março de 2024.

[Sonora conversa de Ed com a mãe | Gravação de Ed Wanderley]

[Mãe]: Mentira… … 

[Sonora conversa de Ed com a mãe]

[Ed]: Plano de saúde nem tá pago

[Ed Wanderley]:Durante toda a minha internação na UTI, mantive minha mãe longe de Brasília, onde o fatídico show aconteceu. Desde que perdemos meu pai, em março de 2021, ela deixou Pernambuco para viver na região dos Lagos, no Rio de Janeiro, onde temos mais familiares. Quando a reencontrei, a balança já marcava algumas dezenas de quilos a menos.

[Sonora conversa de Ed com a mãe]

[Mãe]: Não tem janta não. 

[Sonora conversa de Ed com a mãe]

[Tia]: Prepara uma jantinha para ele.

[Sonora conversa de Ed com a mãe]

[Mãe]: Vou preparar agora.

[Sonora conversa de Ed com a mãe]

[Ed]: Vocês terminaram de decidir minha vida já? 

[Sonora conversa de Ed com a mãe]

[Mãe]: Eu só estou falando.

[Sonora conversa de Ed com a mãe]

[Ed]: Só perguntando se faltou alguma coisa.

[Sonora conversa de Ed com a mãe]

[Tia]: Quer macaxeira?

[Sonora conversa de Ed com a mãe]

[Ed]: Estou de boa, tia. Obrigado.

[Ed Wanderley]: É, a tentação também vem na forma de cuidado. Mas, com o desafio de recuperar a capacidade cardíaca, que estava em 36% quando saí do hospital, após um ataque cardíaco aos 36 anos, e, de quebra, conseguir quebrar a Maldição dos 36, uma crença antiga que me fez acreditar que eu só teria 36 anos de vida, eu tive que enfrentar uma mudança radical de hábitos e aprender a resistir. Prestes a completar um ano da minha internação e já com a silhueta redesenhada, duas perguntas viraram quase tão frequentes quanto “bom dia”. A primeira: “fez bariátrica?”, mas essa resposta eu já te contei no terceiro episódio. E a medalha de ouro: “tá usando caneta?”. Nada contra. Tenho até amigos que usam. Mas, de alguma forma, o questionamento parecia carregar uma provocação a reboque: “por que você está tomando o caminho mais difícil?”. E, em determinado momento, sem que o ponteiro da balança baixasse além dos 52 kg eliminados naqueles onze meses, e com o marco de um ano de meu ataque cardíaco já virando a esquina, confesso, eu já nem sabia responder a essa pergunta. E resolvi investigar.

Numa ponta de caneta, não faltam promessas de facilidades. E por falar em promessas, não demoraria muito para essa avalanche chegar também à política. O próprio presidente Lula, em 2025, pediu aceleração por parte da Anvisa dos pedidos de registros das versões nacionais da semagultida, o Ozempic, que já podem ser comercializadas depois da queda da exclusividade da empresa que o produzia em março de 2026. O movimento é uma resposta política ao interesse popular que já motivou a última campanha para eleições municipais.

[Sonora declaração de Eduardo Paes | Gravação Rio TV Câmara]

[Eduardo Paes]: E como promessa é dívida, ainda mais se feita à Ema Jurema, criamos  um programa de combate à obesidade que já estabelece as bases para aquisição da Semaglutida Ozempic a partir da quebra da patente do medicamento.

[Ed Wanderley]:Primeiro de janeiro de 2025. Esse é um trecho do primeiro pronunciamento de Eduardo Paes ao assumir o seu quarto mandato na cidade do Rio de Janeiro. Com um sorrisinho no rosto, o social democrata disse que honraria a promessa feita, quando ainda era candidato, à Ema Jurema, animal de tecido, personagem do jornal carioca Extra, que conduz entrevistas, por vezes maravilhosas, na cidade, por vezes, bem administrada. Houve quem não tenha gostado.

[Sonora vídeo de Jojo Todynho | Vídeo de Metrópoles]

[Jojo]: Gente, eu vou falar uma coisa para vocês. Esse Eduardo Paes é um descarado, né? Usando a pauta nossa sobre a saúde, sobre obesidade, para não que vai dar Ozempic para os outros. Ele não cuidou nem dele. Ele não cuida nem do do trabalho que ele tem que fazer. Imagine de quem sofre com obesidade. Obesidade é doença, né? Sair distribuindo Ozempic, achando que vai fazer é é milagre, não. Toma vergonha dentro da tua cara, Eduardo Paes. Não tem vergonha não, descarado”

[Ed Wanderley]: Calma, Jojo Todynho. O prefeito reforçou o que já havia dito, com todas as letras: que o Rio de Janeiro “não teria mais gordinho”.

[Sonora vídeo de Jojo Todynho]

[Jojo]: Não tem um dorflex, não tem um paracetamol, não tem médico, não tem seringa, não tem gaze, não tem nada. 

[Ed Wanderley]: A cantora Jojo Todynho fez essa publicação em seu perfil nas redes sociais, enquanto matava um pastel de carne diante da câmera do celular. Paixões. Muitas. O tema da obesidade mexe com os brios de muita gente, mas com as canetas emagrecedoras o tema se voltou, mais uma vez, para um velho mantra: “só é gordo quem quer”. A versão digital zilenial do “É só ter força de vontade” e, não vamos esquecer: dinheiro, muito dinheiro.

Já que eu estava no Rio e movido pela curiosidade, eu precisava descobrir se emagrecer hoje em dia sem o uso desses medicamentos seria mesmo o caminho mais difícil. Primeiro, eu precisava encontrar alguém que entendesse o desafio com a balança que eu estava passando, e que tivesse seguido esse caminho. Eu não queria chorar as pitangas de gordo. Queria ouvir a experiência de quem, como eu, também busca espaço para rir durante essa jornada. Dizem que é remédio melhor até que as canetas. E assim, me vi batendo na Porta do Fundos. E o ator Fábio de Luca jogou um coquetel molotov na minha curiosidade.

[Entrevista com Fábio de Luca | Gravação de Ed Wanderley]

[Ed]: Ô, Fábio, mas me conta, como é que tá a experiência da novela? 

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: Cara, um barato. Tô achando mó barato. Porque eu sempre quis fazer assim, né? Já fiz algumas participações em novela e tudo mais, mas nunca tinha feito uma inteira. 

[Ed Wanderley]: Você deve conhecer Fábio de Luca pelo Porta dos Fundos e pelo papel de Detetive Sabiá na novela Eta Mundo Melhor.

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: Que a gente, pra ser ator validado, tipo, não, cara, é ator mesmo, tem que fazer uma novela na vida, pelo menos uma. Então, aí isso ficou. Então, hoje eu me sinto validado. Gente, sou ator mesmo. Fiz uma novela, pelo menos uma fiz.

[Ed Wanderley]: E à luz do detetive, deixa eu ir direto ao ponto… obesidade.

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Ed]: Cara, você teve uma experiência um pouco diferente da minha, assim, porque pra mim, desde criança, eu sempre tive que lidar com isso. Então, eu fico pensando… Pra mim, sempre foi um incômodo a questão de ser ponto de referência.

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: Ai, sei como é.

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Ed]: Quando é que tu percebeu que passou a vivenciar isso?

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: Na pandemia eu engordei 50 quilos.

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Ed]: Na pandemia?

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: Na pandemia. Durante a pandemia. É muito comum também quando você é gordinho… Ainda mais se você for humorista. Às vezes até vira humorista por causa disso. Você já chegar fazendo a piada já pra ninguém fazer, né? “Ei, onde é que esse gordo vai sentar?” Sei lá. Uma coisa assim, né? É… Pra…

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Ed]: É uma defesa também, né?

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: É. E então… É… É um mecanismo de defesa, como você diz, e muito natural.

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Ed]: Te incomoda essa alcunha de tipo “ah, é o gordo do Porta dos Fundos”?

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: É, me incomoda e não era assim assim, não era assim até há pouco tempo porque tinha o Totoro. Totoro era o gordo do “Porta dos Fundos”, e eu quando entrei, não entrei para o público, não foi tipo assim, “o novo Totoro”. O que me incomoda é porque, ah não, como ator queria ser lembrado porque é o cara que eu acho engraçado no Porta, tipo, é o meu preferido, o que eu não gosto, o que eu acho bobo, sei lá, não como o “gordo”.

[Ed Wanderley]: E como ele é criatura do universo digital, não é difícil imaginar que o preconceito é quase tão recorrente quanto o café da manhã, né?

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: A diferença é que acho que no imaginário popular e muitas vezes na gente mesmo que o gordo está gordo porque quer. “Tá desse jeito também, pô, não toma uma vergonha, né?”, não emagrece e tal. Então, é difícil as pessoas entenderem, talvez, a gordofobia como sendo um problema sério, né? Que é quase justificável para algumas pessoas. Tipo, essa crítica. “Não, tem que ouvir mesmo para poder tomar vergonha e emagrecer.”

[Ed Wanderley]: Após uma temporada num spa, o ator decidiu aderir ao tratamento da obesidade com o uso das chamadas canetas emagrecedoras.

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: Sofrendo de tudo, que eu posso imaginar, porque aquilo dá um enjoo muito grande. Mas até emagreci um pouquinho, tudo foi indo. Só que aí eu tive que parar, porque aí eu não mudei para o mundo. 

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Ed]: O que é um pouquinho? 

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: Um pouquinho? 20 quilos. 

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Ed]:Um pouquinho?

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: Não, é porque para mim, eu fiquei um pouco menos.

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Ed]: 20 quilos? 

[Entrevista com Fábio de Luca]

[Fábio]: Mas 20 quilos, eu tenho que emagrecer uma pessoa. O problema do Ozempic, para mim, foi que começou a me dar alguns eventos de muita fraqueza, assim, do nada. E eu tive isso na Globo, uma vez lá. Passei mal, achando que eu ia ter aquela pressão baixa. No primeiro dia que eu fui gravar com a Amora Mautner, eu falei, “Pronto, já era”. Tive que parar, o set teve que parar, porque eu passei mal. Eu falei, “meu Deus, dizem que essa mulher é o capeta”, nada. Fui lá, realmente fazer o tipo, como se fosse um… Explicar o que aconteceu para o médico, me examinou, voltei, continuamos a gravar, tudo certo. Só que estava acontecendo às vezes, por causa do Ozempic.

[Ed Wanderley]: Muita gente fala dos enjôos que sente ao tomar esse tipo de medicação. A gente precisa entender algumas questões para navegar esse universo. Ozempic, na verdade, é um nome comercial para um remédio contra diabetes. Wegovy, é um outro, fabricado pela mesma empresa, só que voltado ao tratamento de obesidade e de gordura no fígado. Ambos usam uma mesma molécula, a semaglutida. Já o Mounjaro tem um outra molécula, a tirzepatida, que é uma prima, um pouco mais forte. Esses nomes vão se repetir muito daqui pra frente, então melhor entender o que ele significa.

A semaglutida e a tirzepatida são medicamentos chamados de “análogos de GLP-1”, outra expressão que ainda vamos ouvir muito. E o que eles fazem? Eles imitam artificialmente esse hormônio natural, que altera nossos níveis de insulina e glucagon, o GLP-1. E aí o que é que rola? O açúcar no sangue diminui, nossa digestão leva mais tempo que o comum, o que influencia nossa sensação de saciedade e diminui nosso apetite. Em outras palavras, ele tenta nos fazer não querer comer e ter a sensação de estar cheio por mais tempo. Você deve estar se perguntando a diferença entre os dois. A tirzepatida imita não apenas um, mas dois hormônios, além do GLP-1, reproduz também o GIP, o que faz dela uma molécula mais poderosa.

Agora que você já entendeu como essas substâncias funcionam, vamos aos benefícios. Eles estão mais que documentados semanalmente na imprensa e no universo de influência de médicos e entusiastas nas redes sociais. Em 16 meses, os pacientes podem perder de 15 a 23% do peso. Isso contando gordura e, por vezes, até músculos, a chamada “massa magra”. Esse alívio para o organismo descomprime o coração, facilita a circulação e impacta o corpo positivamente. E é nessa parte da informação que o entusiasmo geral vem se concentrando. Mas tem cascas de banana nesse cenário. Um estudo da Universidade de Ulster mostra que, sem o uso de um análogo de GLP-1, só 10% dos pacientes conseguiram manter a perda de peso, e isso com auxílio de dieta controlada e exercícios. Os outros 90% recupera até dois terços de tudo que perderam em apenas um ano depois de parar o tratamento. A Universidade de Oxford foi além. Comparou o reganho de peso de usuários das canetas com outras formas de perda de peso e concluiu: quem usa esses medicamentos recupera os quilos deixados para trás com até quatro vezes mais velocidade. E, com um agravante: recupera com uma composição corporal que normalmente conta com menos músculos do que antes do tratamento. É, aposto que não deu tempo de você entender isso nas dancinhas e memes dos stories. Na prática, para garantir os efeitos, é preciso se manter tomando o remédio sempre. Um compromisso eterno, de efeitos de longo prazo que ainda estão sendo descobertos pela ciência.

“Olha, mas perder 20% do peso parece ótimo, maravilha, quando eu começo a aplicar”? Sabe aquela história de que quando a esmola é demais, o santo desconfia? Pois bem, eu que passo longe de santo, e frouxo que só eu, me pego pensando: Será mesmo que mexer com o organismo nesse nível é coisa tão simples e sem risco significativo? A resposta, como tudo na vida, vai depender de a quem você pergunta.

[Entrevista com Lucio Monte Alto | Gravação de Ed Wanderley]

[Lucio]: A Novo Nordisk, eles estão conseguindo fazer um filme no mundo de tanto problema. Então, com isso aqui, vocês fazem um belo documentário. 

[Ed Wanderley]: Esse é Lucio Monte Alto, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Medicina da Obesidade, a Sbemo. A sociedade moveu uma ação civil pública contra a Novo Nordisk, empresa que popularizou a molécula da semaglutida e que até março de 2026 tinha exclusividade para vendê-la com os nomes comerciais Ozempic, para diabetes, e WeGovy, para obesidade. Sozinha, a Novo Nordisk mudou o PIB da Dinamarca e virou febre. Atualmente a companhia vale pouco mais que 1 trilhão de reais. Você não ouviu errado. Trilhão.

[Entrevista com Lucio Monte Alto]

[Lucio]: Ela teve, há muitos anos atrás, nos Estados Unidos, uma ação civil pública também que partiu do governo americano após uma investigação do FBI. Da Polícia Federal Americana e do FDA, que é a Agência de Vigilância Sanitária Americana. Por justamente omitir uma informação relevante e importante na bula, que é a contraindicação nos casos dos pacientes portadores de carcinoma medular de tireóide e de síndrome neoplásica múltipla tipo 2.

[Ed Wanderley]: Câncer, em especial o de tireoide. Na prática, seria uma contraindicação para quem já teve ou tem casos na família.

[Entrevista com Lucio Monte Alto]

[Lucio]: E apesar da multa milionária aplicada na ocasião e a mudança feita nos Estados Unidos, ou seja, a necessidade de incluir na bula como uma contraindicação grave, a Novo Nordisk, quando chegou no Brasil, ela replicou o mesmo erro. Ela trouxe para o Brasil, com aval da Anvisa, que também errou, porque é a Agência de Vigilância Sanitária no Brasil, uma Bula que simplesmente não tinha contraindicação. E continua, inclusive, sem ela, porque isso não foi ainda modificado.

[Ed Wanderley]: Nos Estados Unidos, a Novo Nordisk foi multada em quase 59 milhões de dólares, cerca de 320 milhões de reais, e obrigada a incluir a contraindicação nas bulas. Já na versão brasileira, regulada pela Anvisa, não há essa contraindicação, mas um lembrete de “precaução”. Os riscos mais graves listados incluem o retardamento prolongado do esvaziamento gástrico, em bom português, a paralisação do nosso sistema digestivo; a pancreatite, uma inflamação perigosa no pâncreas; e o que é descrito como neuropatia óptica isquêmica anterior, o que quer dizer perda repentina da visão, em alguns casos irreversível. Cegueira. Completa. E eu duvido muito que aquele seu colega de trabalho que te recomendou uma injeção que “tá todo mundo usando” para perder uns quilinhos tenha dito, em algum momento que existe a chance de seu estômago parar ou de você ficar cego. Eu procurei a Anvisa. A agência confirmou esses riscos, disse emitir alertas de segurança sobre eles e que, no entanto, “até o momento, a conclusão é de que os benefícios continuam a superar os riscos identificados”.

O ano de 2025 foi movimentado para o mercado das canetas emagrecedoras. A Organização Mundial de Saúde incluiu as primas liraglutida, semaglutida e tizerpartida na lista de Medicamentos Essenciais. Ou seja, uma recomendação que governos de todo o mundo buscassem ampliar o acesso a essas substâncias, que têm o alto preço como grande impeditivo no Brasil. Um mês de tratamento sai entre R$ 700 a R$ 3 mil em algumas cidades. E, nesses momentos, você percebe como há uma boa vontade para enxergar os remédios como “salvadores da pátria”. Muita gente reportou esse anúncio como um incentivo ao uso massivo de canetas. Mas, a organização fez duas ressalvas cruciais: a primeira é de que o tratamento seria recomendado para tratar diabetes e obesidade. Obesidade de fato. E deve ser sempre associado a dieta e exercícios, em vez de encarado como shakes milagrosos que podem ser adquiridos a cada esquina. O segundo é que a tendência de sobrepeso e obesidade no mundo se mantém, e deve atingir 3 bilhões de adultos até 2030, em outras palavras, nós temos uma arma contra um problema, não uma solução, muito menos um milagre. 

A forma como as canetas passaram a ser consumidas também preocupou organizações de saúde no Brasil. Quando questionei a Anvisa, a própria agência admitiu que, por se tratarem de, nas palavras dela, “medicamentos novos, cujo perfil de segurança a longo prazo ainda não é conhecido”, eles requerem monitoramento e vigilância. Foram 1579 notificações de problemas com as canetas até março de 2025. 52 casos de problemas na visão, alguns levando a cegueira sem cura. E quem você já ouviu falar que fez exame de visão antes ou durante o uso das canetas? Tem mais. No Brasil, a incidência de pancreatite é mais que o dobro da registrada na literatura médica global, a informação também é da Anvisa. Só depois desse volume de problemas, esses medicamentos, que antes tinham venda livre em qualquer farmácia, passaram a ser restritos no país. Desde o primeiro semestre de 2025, eles são tarja vermelha, ou seja, para comprá-los, é preciso ter uma receita, uma recomendação médica. E não é difícil encontrar quem faça o uso por conta própria e com medicamentos similares, manipulados ou contrabandeados. Isso também não é por acaso.

Mesmo com altos preços e a compra menos facilitada, o mercado de canetas é promissor. As vendas bateram 260 bilhões de reais em 2024 no mundo e a projeção é que cheguem a 650 bilhões no ano de 2034. No Brasil, das notificações relacionadas a problemas ligados ao uso desses medicamentos, 38% eram de uso fora das recomendações médicas, ou seja, o off label, “para perder alguns quilinhos”, sem acompanhamento. Eu sentei para conversar com a Ana Miriam Fukui Dias, diretora jurídica, de compliance e qualidade da Novo Nordisk no Brasil. A gente falou sobre essa busca desenfreada pelo medicamento, envolvendo até quem não precisa, o que de uma forma ou de outra, por anos, fez a alegria dos acionistas da empresa.

[Entrevista com Ana Miriam Fukui | Gravação de Ed Wanderley]

[Ana]: Mas a gente tem tentado articular, através da nossa área médica, através de educação médica mesmo, de levar esse conhecimento científico, e aí tentando fazer, através das campanhas, o quanto a gente pode, obviamente, tirando, deixando de lado toda a questão promocional, mas fazendo campanhas e colocando informação sobre a doença em si, nos nossos sites, para que a população, porque hoje em dia, eu acho que o que mudou, antigamente a gente ia no consultório, a gente recebia uma prescrição médica e ninguém nem perguntava, você só ia na farmácia e comprava. Hoje em dia, com rede social, com internet, as pessoas chegam no médico e falam “olha, eu vim aqui porque eu quero tomar isso aqui”. Então, as pessoas têm mais conhecimento, então é uma questão, eu acho, da gente trabalhar o quanto a gente conseguir de levar a informação adequada para paciente. Inclusive, para mostrar que, às vezes, é mudança de estilo de vida o que a pessoa precisa, nem todo mundo precisa de medicação.

[Ed Wanderley]: De médicos a jornalistas e influenciadores, todo mundo parece falar bem sobre as canetas emagrecedoras. E eu quis saber da diretora sobre a questão da promoção de seus medicamentos e de treinamentos no Brasil. Esse é um ponto sensível para a empresa após a experiência da Novo Nordisk na Inglaterra, onde, até o ano passado, enfrentava uma suspensão por razões éticas. 

[Entrevista com Ana Miriam Fukui]

[Ana]: Foi um caso muito específico que aconteceu por conta de uma prática, que foi um acordo comercial que foi realizado naquele país especificamente, que acabou gerando uma investigação e concluiu-se na época que havia uma infração ao código de conduta e isso sim gerou o banimento. Mas, sim, existe uma preocupação. A gente ficou, eu acho que serviu de lição aprendida. Por isso que a gente tem normas super rígidas para participação, tudo é muito bem documentado. Primeiro que, assim, é um setor muito regulado. Então, existe um regulamento da Anvisa, que diz até onde você pode ir, o que você pode falar, o que você não pode falar. Então, assim, não existe nada, não é nenhum subterfúgio para a gente poder fazer propaganda de medicamento de nenhuma forma. Então, tem todo esse cuidado com relação a isso. A gente é muito transparente no tipo de pagamento, de patrocínio que a gente faz. Então, esses patrocínios, se necessário publicar, a gente publica no site. Alguns deles são públicos, principalmente para instituições públicas, quando há.

[Ed Wanderley]: A relação entre empresas farmacêuticas e outras empresas, médicos ou associações médicas é um tema recorrente de denúncias em todo o mundo. No Brasil, ainda não há formas tão transparentes de esclarecer conflitos de interesse. Ou melhor, é o velho “tem, mas tá faltando”. Em Minas Gerais, por exemplo, por lei, todos os benefícios recebidos por médicos pagos por empresas devem ser declarados na plataforma DeclaraSUS, mas ela passou quase todo o ano de 2025 com o site quebrado, sem acesso ao público. E olhe que Minas é o único estado a fazer esse tipo de exigência. Num país como um todo, consultorias e outros trabalhos devem ser obrigatoriamente declarados ao Conselho Federal de Medicina, Mas até dezembro de 2025, 0% dos profissionais médicos entregaram suas declarações. E olha que eles nem exigem que os médicos declarem aqueles presentinhos, viagens, congressos.

[Entrevista com Raphael Câmara | Gravação de Ed Wanderley]

[Raphael]: Eu, sinceramente, acredito, inclusive, que a maior parte dos médicos é por desconhecimento mesmo. Entendeu? Eles não desconhecem a resolução, desconhecem como fazer essa declaração.

[Ed Wanderley]: Esse é o porta-voz do Conselho Federal de Medicina, Raphael Câmara, autor da norma, já em vigor, que exige a declaração dos recebimentos por parte do profissional médico.

[Entrevista com Raphael Câmara]

[Raphael]: Ele tem todo o direito de receber o que for da indústria farmacêutica. Contanto que ele publique no imposto de renda dele e declare ao conselho, sem problema nenhum. O que não é correto é os pacientes e outras pessoas não saberem disso. Muitas vezes, os médicos fazem propaganda de determinados medicamentos, vacinas, ósseos, seja lá o que for, muitas vezes, inclusive, pressionando o poder público a comprarem, né? E ninguém sabe que o que tem por trás ali, muitas vezes, é um contrato robusto com a indústria, né? Então, se você soubesse que ele ganha aquele dinheiro da indústria, você levaria isso em conta, ouvir a opinião dele. 

[Entrevista com Raphael Câmara]

[Ed]: O senhor acredita que essa relação com a indústria, hoje, ela caracteriza um problema no Brasil ou ela é irrelevante, a esse ponto?

[Entrevista com Raphael Câmara]

[Raphael]: Não, de irrelevante não tem nada, a resolução, inclusive, é por causa disso. Ela é um problema sim, eu acho que, inclusive, é um problema maior para o sistema público, porque você, hoje, você tem uma pressão enorme dessas indústrias para serem incorporadas no SUS, né, ficam dizendo que são as melhores coisas do mundo e se utilizam de porta-vozes de notório saber, respeitados pela sociedade, que muitas vezes é a imprensa que cria essas pessoas.

[Ed Wanderley]: Além de ainda não ser declarada, na prática, a relação de médicos com a indústria também não é proibida. Eu sei, soa distante, como um filme retratando a década de 90, nos Estados Unidos. O pessoal influenciando médicos com presentes, jantares, viagens, né? Mas essa aproximação, proibida em vários países, é feita às claras no Brasil. Treinamentos, encontros informais e marketing de relacionamento. 

[Representante da Novo Nordisk | Arquivo de Ed Wanderley]

[Representante]: Olha, eu tentei conversar com você pessoalmente lá no nosso café, mas acabou que não deu certo. Então para não enrolar muito, eu vou mandar por áudio aqui mesmo, tá bom? 

[Ed Wanderley]: Essa é uma mensagem de voz enviada via WhatsApp por uma representante da Novo Nordisk a uma médica endocrinologista, em 2024. 

[Representante da Novo Nordisk]

[Representante]: Seguinte, queria muito que você desse uma pequena aula, na verdade não chama nem aula, chama discussão de caso clínico. Não sei se você já participou de algum da Novo, se você sabe como é que é o modelo desse evento.  Senão, vou te explicar rapidinho, tá? É um pequeno grupo, você e mais três pessoas num restaurante e você monta um caso clínico, manda lá para Novo. Aprovado esse caso clínico, você apresenta para esse pequeno grupo. É, queria que você apresentasse de Wegovy, que você tem bastante experiência, enfim, eu acho você incrível com a sua experiência com GLP-1. E você ganha um fee. 

[Ed Wanderley] Fee, taxa em inglês, um agrado, um mimo.

[Representante da Novo Nordisk]

[Representante]: E você ganha um fee para isso de R$ 2.000. E queria muito te envolver nisso. Eu tô montando os grupos aqui. Pensei em você para ser speaker e eu vou chamar outras três nutrólogas e elas são mais nutrólogas do que endócrinos, tá? Mas formar esse grupinho. Aí a gente sai à noite para jantar num lugar bem gostoso. Cê topa?

[Ed Wanderley]: Muita gente topa. Não é difícil encontrar registros nas redes sociais dos encontrinhos de médicos regados a vinho, Ozempic, Wegovy, Mounjaro… Tudo dentro da lei. Lembra que eu disse que Minas Gerais é o único estado que exige declaração dos presentes que os médicos recebem? Entre as empresas que mais doaram para profissionais médicos no estado, adivinha quais estão? A Novo Nordisk, do Ozempic e do WeGovy, e a Eli Lily, do Mounjaro, empresas benquistas, bem ricas e bem relacionadas. Sobre o programa Discussão de Casos Clínicos, envolvendo convite a médicos em jantares para trocar experiências, a Novo Nordisk alegou: 

[Leitura Nota | Áudio gravado]

[Stela Diogo]: Se trata de uma iniciativa de educação médica continuada, uma prática padrão da indústria e considerada essencial para a evolução da medicina e, consequentemente, para a qualidade do cuidado oferecido aos pacientes. É importante destacar que nessas iniciativas não há contato algum da indústria com o paciente. 

[Ed Wanderley] O relacionamento dessas gigantes do emagrecimento vão muito além do contato médico a médico. A aproximação é feita também com associações médicas respeitadas, que ajudam a mostrar o tratamento da tirzepartida e da semaglutida como uma revolução. 

[Entrevista com Clayton Macedo | Gravação de Ed Wanderley]

[Clayton]: Mas é uma revolução. E a revolução maior vem porque a obesidade é uma doença que causa mais de 200 outras doenças. Tipo as clássicas aí, diabetes, artrose, depressão, câncer, hipertensão, cardiopatia, tudo que está associado à obesidade. 

[Ed Wanderley] Esse é Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Sbem.

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Clayton]: E hoje esses medicamentos não agem só na perda de peso. A gente diz que é além da perda de peso. Eles têm outros efeitos, a gente chama de pleiotróficos. Eles agem em outras esferas. E eles diminuem risco cardiovascular, eles protegem o rim, eles previnem diabetes. Já tem aí 100% off-label, não dá para botar na manchete, mas para melhora cognitiva em Alzheimer, para alcoolismo.

[Ed Wanderley] Realmente um milagre encapsulado, né? Antes dessa conversa, eu acompanhava há alguns meses a Sbem e outras associações médicas, por uma questão curiosa: possíveis danos à retina, aos rins, à saúde mental; a cada novo estudo de risco publicado em revistas científicas internacionais divulgados na imprensa brasileira, havia um rápido pronunciamento reforçando a segurança das canetas, e muitas das notas oficiais, inclusive, foram assinadas conjuntamente por associações médicas, em bloco.

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Ed]: Vocês sempre são vocais quando utilizam isso e dizem que é seguro usar. Isso a partir de estudos.

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Clayton]: Não, a gente faz todos os alertas. A Sbem, pelo menos, ela é muito baseada em evidência. A gente faz os alertas contra e a favor. O que a gente não pode é gerar fake news. Mas a ciência ela é assim. O dia que aparecer problemas, a sibutramina, por exemplo, aconteceu isso, a piunglitazona aconteceu isso.

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Ed]: Não, mas meu questionamento é, por exemplo, neuropatia óptica, câncer de tireoide…

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Clayton]: Desculpa, mas esses aí não tem. Não tem em humanos isso aí. Não existe essa evidência. O dia que tiver, vai sair na bula.

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Ed]: Mas ele consta na bula da tizerpatida, essa contraindicação. E não consta na…

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Clayton]: É tudo questão regulatória, né? 

[Ed Wanderley] Eu encontrei Macedo durante um congresso em São Paulo, e aproveitei para perguntar como as associações médicas fazem para evitar conflitos de interesse, estando em proximidade com a indústria farmacêutica.

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Clayton]: A gente declara uma obrigação, né? Declaração de conflito de interesse e a grade científica dos congressos não tem interferência da indústria farmacêutica, nem um pouco. Tem simpósios patrocinados.

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Ed]: Mas qual é a justa medida entre as sociedades médicas e as indústrias farmacêuticas se unirem enquanto colaboração, enquanto apoio, enquanto troca financeira?

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Clayton]: Isso é bem separado, não existe… O compliance da indústria é bem rigoroso e a sociedade, eu te garanto que elas não participam desse tipo de… As grades científicas são discutidas por uma comissão científica que é independente da comissão, por exemplo, organizadora do Congresso. 

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Ed]: Quem convidou o senhor para o congresso de hoje, quem foi? 

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Clayton]: Hoje foi a Novo Nordisk. 

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Ed]: E isso aí, no caso, declara e está tudo…

[Entrevista com Clayton Macedo]

[Clayton]: Legal, hoje não teve a apresentação do slide, mas a gente já tem um slide que é obrigatório. Tu declara todos os teus conflitos, não só da palestra que está dando.

[Ed Wanderley] E, por falar em palestra e congresso, a Novo Nordisk está, há pelo menos quatro anos, entre os principais patrocinadores do Congresso Brasileiro de  Endocrinologia e Metabologia e do Congresso Brasileiro de Atualização em Endocrinologia e Metabologia, os dois maiores eventos anuais realizados pela Sbem.

Não há dúvidas. As canetas funcionam. E estão na boca de todos, voluntariamente. O senador Davi Alcolumbre bradava a quem quisesse ouvir os benefícios da tirzepatida, o Mounjaro, antes mesmo que o medicamento tivesse venda autorizada no Brasil. Jogadores de futebol profissional do São Paulo protagonizaram uma polêmica depois que o nutrólogo da equipe recomendou a alguns deles usarem tirzepatida. Por Deus, até a estrela internacional do tênis, Serena Williams, fez propaganda dizendo que as canetinhas foram a solução para seus quilinhos pós-gravidez.

[Propaganda com Serena Williams | Reprodução em reportagem de Meio e Mensagem]
[Narração da propaganda]: They say GLP-1’s for weight loss is a shortcut. It’s not. It’s science. I’m Serena Williams, and I’m a real Rowe member.

[Ed Wanderley] Afinal, quem não iria querer embarcar nesse milagre? É claro que alertar que uma medicação seria apenas para tratar doenças pode soar exagerado aos ouvidos de quem só escuta a expressão “resultados rápidos”. E o desejo coletivo encontra nas redes sociais a pólvora perfeita para se alastrar.

[Sonora de trechos de vídeos em redes sociais]

[Narração]: Toma Mounjaro? 

[Narração]:Não! 

[Narração]:Sim! 

[Sonora de trechos de vídeos em redes sociais]

[Narração]: Começar minha dieta, é hoje que eu aplico esse Mounjaro.

[Narração]: Tá louco, Gordinho, guarda o  Mounjaro aqui dentro, olha essa lapa de provolone chegando pra você, começa a dieta amanhã

[Ed Wanderley]: É publicidade criativa, eu sei, e pode parecer, mas não é piada. Esse desejo coletivo sem limites gera problemas inimagináveis, num nível que, até o início de 2026, muita gente sequer imaginava ser possível. Eu contei, com exclusividade aqui na Pública, que além dos efeitos adversos das canetas emagrecedoras, a Anvisa também investiga 65 mortes no Brasil associadas ao uso desses remédios. Até o fim de 2025, nenhuma veio ao conhecimento do grande público. 65. Parecem poucas? Pernambucano que sou, eu levo logo a discussão pra casa. Você certamente já ouviu falar das mortes por incidentes com tubarão no meu estado, correto? Já deve até ter feito piada com o mar do Recife. Pois bem, por lá, foram 26 mortes desde 1992. Em 35 anos, 26 casos. E se você for em praias como a de Boa Viagem, você vê placas a cada cem metros recomendando que as pessoas evitem entrar no mar. No caso das canetas, são mais que o dobro de mortes suspeitas. Duas vezes e meia mais vítimas, mas quase ninguém tem pensado duas vezes sobre os medicamentos milagrosos antes de se jogar e mergulhar. 

Cabedelo, Paraíba. Novembro de 2025. Integrantes de quadrilhas juninas deixaram de lado os tradicionais sorrisos da festa e silenciaram, em choque. Do lado de fora do Cemitério de Cabedelo, dezenas deles se juntam a colegas de trabalho e familiares, todos incrédulos, na despedida da entusiasta da dança típica Jéssica Manuelly Ataíde, de apenas 31 anos. Conhecida no município da região metropolitana de João Pessoa por participar frequentemente de eventos e escolas de dança, sozinha ou com a filha pequena, Jéssica sofreu uma queda abrupta de glicemia no sangue e uma complicação a levou à morte. O choque no organismo foi provocado por um medicamento para imitar o GLP-1. Uma caneta, que, ali mesmo, em frente ao Cemitério, a língua popular deu conta de rastrear: “Pelo Instagram, acha fácil”, “todo mundo toma”. A causa da morte precoce foi confirmada oficialmente pelo Instituto Médico Legal, como explicou Flávio Fabres, chefe do Núcleo de Medicina e Odontologia Legal da Paraíba.

[Entrevista com Flávio Fabres | Gravação de Ed Wanderley]

[Flávio]: Ela teve uma hipoglicemia severa, uma hipoglicemia de 10, e o normal de a gente ter a glicemia do nosso organismo é entre 60 e 99. Quando o indivíduo apresenta uma hipoglicemia severa dessa, eventualmente ele perde a consciência, ele não tem mais condição de responder por si. E durante a autópsia do corpo foi visto que havia muita comida no interior das vias respiratórias. Houve, na realidade, um refluxo dessa comida do estômago dela para as vias respiratórias. Tinha comida onde não era para ter comida, infelizmente. E isso aí foi porque ela perdeu os mecanismos de proteção e causou essa sufocação.

[Ed Wanderley] Eu entrei em contato por telefone e pelas redes sociais com familiares de Jéssica. Também com amigos e colegas do grupo de dança. Abalados, ninguém quis gravar entrevista. O medo era um só: que Jéssica fosse responsabilizada pela própria morte, enquadrada de forma irresponsável, como se seu desfecho estivesse em suas mãos.

[Entrevista com Flávio Fabres | Gravação de Ed Wanderley]

[Flávio]: Eles ficaram cientes do que tinha acontecido. Eles sabiam que ela estava fazendo o uso da medicação sem acompanhamento. Tanto o irmão falou comigo, quanto a cunhada. Ambos falaram comigo e diziam pra ela e eles disseram pra mim, “A gente estava dizendo pra ela, mas ela quis, né?”. Infelizmente aconteceu isso aí, na hora que dá um problema, o pessoal não quer corrigir o problema, quer encontrar uma pessoa pra apontar o dedo pra dizer que tá errado, né?

[Ed Wanderley] Mas quando o caso caiu no conhecimento público pela imprensa… foi exatamente o que aconteceu…

[Trecho reportagem SBT News]

Tá pensando em emagrecer? Tô falando pra você mesmo que tá pensando emagrecer. É difícil de ir na academia, é difícil fazer dieta e o pessoal apela pra o que? Pra Canetas emagrecedoras que estão na moda. Olha o que aconteceu com essa mulher de 30 anos. 

[Trecho reportagem TV Tambaú]

Olha, mais um caso aí exclusivo na sua TV Tambaú, foi enterrada hoje a mulher de 31 anos que morreu devido ao uso indevido, olha isso, isso é um perigo, gente, tá? Ela usou aí um medicamento que é indicado para o tratamento de diabetes, tipo 2, mas que tem sido usado para emagrecer.

[Entrevista com Flávio Fabres | Gravação de Ed Wanderley]

A gente não sabe se era realmente uma caneta original que o pessoal está colocando às vezes insulina dentro das canetas. Aí o cara vai ter o barato da insulina. Qual é o barato da insulina? É a hipoglicemia. E fica achando que está fazendo uso do Ozempic ou Mounjaro e na realidade está fazendo uso da insulina. Insulina, você encontra ela de forma bem barata Então o cara vende a caneta num valor cem vezes, às vezes, o que ele compra de insulina e causa esse dano social aí.

[Ed Wanderley] Nos comentários das reportagens, um show de horrores contínuo. A crítica pela não aceitação, um punhado de gordofobia, um outro tanto de machismo. E na briga entre vida humana e medicamento, a defesa tinha um lado claro: “Devia ser falsificado”, dizia um. “Só pode ter sido sem acompanhamento médico”, um outro. “O pessoal quer resultado rápido e já começa com dose alta”, atestou um terceiro. Médicos de sofá, juízes de internet. Opiniões aos montes. A sempre recorrente culpabilização da vítima por algozes que agora diziam “era tão bonita” enquanto antes, sem pudor, bradavam “precisa perder uns quilinhos”. De ilesa, só ela: a caneta.

Ainda falando sobre o tema de mortes no universo das canetas, um ponto paralelo e delicado dessa história ainda vem sendo mantido bem longe do olhar do público. Não, não tem a ver com falsificação, nem com a falta de acompanhamento médico. É o risco da ideação suicida. Um alerta feito através de cooperação internacional de médicos, que contou com o trabalho de dois profissionais no Brasil. E eu fui ao Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, conversar com um deles, esse é o doutor Sergio Schmidt.

[Entrevista com Sergio Schmidt | Gravação de Ed Wanderley]
A gente utilizou aquele conceito de síndrome de deficiência, de recompensa, que são pessoas que têm algumas alterações nessas vias dopaminérgicas. 

[Ed Wanderley] A dopamina é conhecida como “hormônio da felicidade” por ser um neurotransmissor que dá respostas ao cérebro como prazer e motivação.

[Entrevista com Sergio Schmidt | Gravação de Ed Wanderley]

Por ter essas alterações e pelo fato de que essas substâncias, os agonistas de GLP-1, podem modular a resposta da via dopaminérgica, algumas pessoas têm uma probabilidade maior de desenvolver quadros depressivos um pouco mais sérios, envolvendo suicidalidade, risco de suicídio, do que uma outra parte da população. 

[Ed Wanderley] O que o doutor Schmidt aponta é que as canetas, por afetarem nossa lógica de saciedade, podem gerar também uma ausência de substâncias que geram satisfação, prazer, que regulam nossas emoções, o que pode piorar severamente quadros depressivos e de ansiedade. Em outras palavras, o médico reforça, com mais pudor que o normal, que as canetas emagrecedoras funcionam, mas que elas não são para todo mundo. 

[Entrevista com Sergio Schmidt | Gravação de Ed Wanderley]

Pode existir a necessidade de um acompanhamento, particularmente naquelas pessoas que estão sendo tratadas com medicação ansiolítica e antidepressiva. O que é a grande parte das pessoas que têm problemas de sobrepeso e obesidade. Então, é isso que eu acho que esse estudo chama atenção para isso. Não é que não se possa usar, não é uma questão religiosa, “não pode porque a pessoa vai ter suicídio”, “não pode porque”… Não, não é o pode ou não pode, é saber que uma nova medicação como essa exige um cuidado para que a gente consiga evitar um desfecho que pode vir a acontecer.

[Ed Wanderley] Nesse ponto, a gente entra num momento de ovo e galinha. Nos casos de depressão como resultado da obesidade, não tratá-la agressivamente, não seria pior? E quando a obesidade é resultado da depressão? O remédio diante dessas duas doenças, então seria mais um risco? Como decidir se tomo ou não tomo? O mais prudente seria fazer um teste genético?

[Entrevista com Sergio Schmidt | Gravação de Ed Wanderley]

Basicamente a depressão é uma mistura de genética com o ambiente. E, além disso, a depressão não é simplesmente uma regulação das monoaminas, topamina, serotonina, epinefrina… Não, tem um pouco mais do que esses neurotransmissores.  Do que que a gente está falando? De pessoas geneticamente predispostas a ter algum tipo de depressão com disfunção dopaminérgica, com essa questão dessa síndrome de recompensa, deficiência de recompensa… Para essa população, aparentemente, os agonistas do GLP-1 devem ser utilizados com muita cautela. Então, você faz uma análise genética e identifica, olha, essa pessoa tem uma hipofunção dopaminérgica, se eu usar uma droga que vai modular negativamente a dopamina, eu vou ainda reduzir ainda mais os fatores de recompensa dessa pessoa, e posso, com isso, teoricamente, aumentar o risco de suicídio.

[Ed Wanderley] Mas num cenário em que as pessoas estão tomando medicamentos fortes para perder quilinhos indesejados por pura estética, que dirá fazer um estudo, até genético para atestar segurança antes de começar um tratamento? E como abordar quando o vício em comida é também para buscar prazer ou compensar questões psicológicas? Afinal, como verificar o quão segura é a exposição a agonistas de GLP-1?

[Entrevista com Sergio Schmidt | Gravação de Ed Wanderley]

A outra parte da pergunta, que é a mais difícil, são aqueles indivíduos que estão tendo um episódio depressivo que, necessariamente, estão sendo balanceados por alguns hábitos de vida, como, por exemplo, um alimento prazeroso, ou tabagismo prazeroso, ou alcoolismo, ou mesmo uma droga, uma droga ilícita prazerosa. Então, essas pessoas, elas não estão dentro desse quadro genético que a gente está falando, mas elas estão tendo o benefício do aumento da liberação dopaminérgica pra que eles possam sobreviver melhor no mundo que eles estão vivendo.  Na hora que você aborta isso, por abortar essa situação de liberação dopaminérgica, aí você, então, aumenta o risco de agravar um quadro depressivo que era um quadro essencialmente somático e passa a ser também afetivo porque ele estava sendo indiretamente compensado por uma prática prazerosa.

[Ed Wanderley] Mas sem mapeamento genético e com um cenário de vícios e depressão cada vez mais numeroso, resolvi perguntar ao doutor Schmidt que público seria esse, que, na visão dele, não poderia estar submetido ao tratamento.

[Entrevista com Sergio Schmidt | Gravação de Ed Wanderley]

[Ed] Essas pessoas que são resistentes ao tratamento, inclusive, que o senhor acompanha, o senhor daria o ok para usar semaglutida? 

[Sergio] Não. Os meus deprimidos, eu prefiro não correr esse risco.

[Ed Wanderley] Eu procurei a Anvisa para entender como são tratadas as evidências dos riscos graves do uso dos agonistas de GLP-1. A agência disse que pede atualização das informações de segurança sempre que surgem novas evidências ao longo do ciclo de vida de todos os remédios. Sobre a paralisação do estômago, conhecido como retardamento do esvaziamento gástrico, a agência disse já ter feito alertas. A Anvisa também confirmou o risco de perda de visão repentina, mas destacou que a frequência seria muito rara e que os benefícios superam os riscos identificados. Já a questão da ideação suicida, a nota oficial informa que a referência atual não trabalha com dados da pesquisa transnacional que o dr. Sergio Schmidt participou e afirma:

[Leitura Nota | Áudio gravado]

[Stela Diogo] A Anvisa seguiu o posicionamento de outras agências reguladoras de referência, como a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e do Canadá. As evidências disponíveis não sustentam uma relação entre o uso de medicamentos GLP-1 e o suicídio, automutilação e ideação suicida, automutilação na população geral com diabetes mellitus tipo 2, de modo que, no momento, não se justifica a alteração da informação disponível.

[Ed Wanderley] A Anvisa destacou também que o uso desses medicamentos sem a devida orientação médica amplifica “ainda mais os riscos e o potencial de agravos à saúde” e fez a ressalva de que trata-se de medicamentos novos, cujo perfil de segurança a longo prazo ainda não é conhecido, o que requer monitoramento e vigilância. E essa é a questão cada vez mais negligenciada: quando a agência diz que o medicamento é seguro e que os benefícios superam os riscos, ela se refere na comparação com pacientes com comorbidades e os riscos associados à obesidade, especialmente as doenças cardiovasculares, hipertensão e diabetes. Ou seja, considerando o cenário em que o paciente se mantém com obesidade grave, os riscos dos medicamentos valem a pena. A equação de quem usa para perder 3, 5, 10 quilos para o verão é outra, as variáveis são diferentes e ainda não totalmente conhecidas. 

A moral da história é que, apesar da moda, não há milagre e remédio tem que ser encarado como ele é. Remédio. Para tratar uma doença. A busca pela estética parece ensurdecer a consciência coletiva. Se esse é o caminho para você, com obesidade, sobrepeso com comorbidade, diabetes ou gordura no fígado, maravilha. Um médico pode te indicar o caminho e te acompanhar. Caso contrário, considere o custo ao seu corpo, que pode, sim, ir muito além do financeiro. A saída, vista como fácil, ajuda a sufocar o movimento de positividade quanto ao corpo e, considerando os preços dos medicamentos, a ditadura da magreza ganha contornos ainda mais classistas, reforçando a falácia eterna de que se é gordo porque se quer (ou por não ter dinheiro). Para mim, o que ouvi foi o bastante para decidir seguir por outro caminho por enquanto.

[Ed Wanderley]: Eu comecei essa jornada com 145 kg, em dezembro de 2023, e até novembro de 2024 foram 52 kg eliminados em nosso placar. Eu ainda me livrei de outros 6, mas antes, eu tive que voltar para uma UTI de hospital. Na luta contra a obesidade, a gente se defende dos sustos com a saúde, da balança, do julgamento dos outros e até da própria cabeça. E no último episódio de A Última Bolacha, a gente fala sobre tudo isso. E eu te conto também como um médico de UTI me deu a confirmação derradeira para a Maldição dos 36, que me perseguia desde a adolescência. E você saboreia comigo essa última bolacha.

Créditos Podcast

[Ed Wanderley]: A Última Bolacha é uma produção original da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, realizada com apoio dos Institutos Ibirapitanga e Serrapilheira. Esse podcast foi escrito por mim, Ed Wanderley, com a colaboração de Stela Diogo e Claudia Jardim. Claudia também colaborou com a investigação jornalística que deu origem a essa série. A produção e pesquisa de material de arquivo é de Stela Diogo com apoio de Rafaela de Oliveira. O projeto é uma ideia original de Natália Viana. A captação de áudio em campo foi feita pelos técnicos Davysson Barbosa, Ethieny Karen, Gil Neves, Stela Diogo, Tathiane Santos e Vinícius Machado. A locução foi gravada no estúdio da Agência Pública, com trabalhos técnicos de Ricardo Terto. Sofia Amaral fez a direção de locução e a coordenação geral da série. O desenho de som é de Ricardo Terto, que também fez a edição e finalização dos episódios. A trilha sonora original é de Ana Sucha e trilhas adicionais do Epidemic Sound. A identidade visual é assinada por Matheus Pigozzi. Obrigado por sua companhia. Gostou? Então compartilhe esse resultado e segue a Agência Pública nos tocadores e redes sociais para não perder nenhum lançamento. E acesse o nosso site, apublica.org.

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