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Chuvas colocam parques alagáveis em Recife à prova e áreas de risco seguem expostas

por Redação Capital Brasília
14 de maio de 2026
em Brasil, Política
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Chuvas colocam parques alagáveis em Recife à prova e áreas de risco seguem expostas
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Nos primeiros cinco dias de maio, Recife recebeu 91% da média mensal de chuvas do mês. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a capital de Pernambuco concentrou 290 mm de chuva, sendo que o volume médio para todo mês de maio é de 317,1 mm. Com os abalos deixados pelas enchentes ao longo desses dias, a eficiência dos Parques Alagáveis construídos na cidade foi colocada à prova. Os espaços foram criados e são geridos pelo Programa de Requalificação e Resiliência Urbana em Áreas de Vulnerabilidade Urbana (ProMorar), criado pela Prefeitura de Recife em 2022.

Há quatro anos, em maio de 2022, Pernambuco enfrentou enchentes que vitimaram 133 pessoas, além de deixar milhares desabrigadas. A região metropolitana do Recife foi uma das áreas mais afetadas, com 81 mortes, além das 50 ocorridas na capital. Outros dois falecimentos ocorreram nessa época, em função das chuvas, nos municípios de Limoeiro e Bom Jardim. Em setembro do mesmo ano, a prefeitura do Recife criou o ProMorar, um projeto que contou com financiamento próprio e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O objetivo era diminuir os impactos das chuvas nas áreas de risco da cidade que já eram habitadas, com promoção de áreas verdes, saneamento básico e drenagem urbana.

Uma das soluções criadas, inicialmente, pela Autarquia de Urbanização (URB) da prefeitura, e em seguida incorporada pelo Promorar, foi a construção de parques alagáveis, lugares construídos às margens dos rios com a função de absorver águas transbordadas, diminuindo as enchentes. Hoje, Recife conta com dois parques alagáveis: o Campo do Barro, inaugurado em janeiro deste ano, localizado no sudoeste do município, com custo de R$ 3,4 milhões, e o Tejipió, instalado em novembro de 2024, entre as zonas sul e oeste da capital pernambucana, com investimento de R$ 2,5 milhões.

Para o arquiteto, urbanista e educador da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase/Pernambuco), André Araripe, as construções feitas pelo ProMorar não fizeram efeito nestas recentes chuvas. “Em algumas situações, houve um aprofundamento [das enchentes]; eu citaria a comunidade de Jardim Uchôa [no bairro de Areias, zona oeste de Recife]. Ela está sendo cada vez mais afetada, o tempo de escoamento da água está cada vez aumentando mais. Ou seja, passa a chuva e a água fica acumulada durante muito mais tempo”, diz o urbanista.

Em 2024, a Agência Pública já registrava como o projeto dos parques alagáveis tinha riscos de despejar milhares de famílias, e a falta de transparência do ProMorar junto às comunidades. Na época, o urbanista André Araripe já denunciava os problemas das construções.

Para o pastor Geazi Pedro, que atua na região do Campo do Barro junto à população que sofre com os constantes alagamentos, o parque alagável Campo do Barro não teve nenhuma influência para eles. “A área [do parque] é muito pequena, considerando o volume de água. Nessa última enchente que teve agora [em maio de 2026], a água que não era para ser passada subiu para a rua”, explica.

O pastor também relatou que as promessas feitas durante a inauguração do parque alagável em 2024 não se concretizaram. “A prerrogativa de que a Imbiribeira [zona sul de Recife] não alagaria mais, nem o Ipsep, foi desmentida nas últimas chuvas. A Avenida Imbiribeira alagou, e alagou muito”, afirma o pastor.

Por que isso importa?

  • Os alertas de chuva e alagamento em Recife e região metropolitana seguem no mês de maio. Na última terça-feira, 12 de maio, vários pontos da capital pernambucana ficaram alagados em função das chuvas.
  • Segundo a Defesa Civil do Estado, Pernambuco contabilizava nesta quarta-feira, 13 de maio, com 1.088 pessoas desalojadas e 2.003 desabrigadas.

Na opinião de Araripe, o impacto do Parque do Barro, assim como o alargamento do rio Tejipió, na Região Metropolitana de Recife, foi insuficiente para sanar os problemas totais das comunidades ribeirinhas do rio. A solução, para ele, seria um conjunto de iniciativas que o ProMorar teria condições de dimensionar.

Para ele, o que falta são “obras mais estruturantes, como bacias de retenção mais acima do rio, na região de Sapu Nu [comunidade localizada no bairro Curado, zona sudoeste de Recife] e no limite com [o município de] Jaboatão [dos Guararapes], para a retenção de águas. Isso não foi dado nenhum encaminhamento”, explica. Além disso, a falta de manutenção nos canais que desembocam no rio também é um fator de frustração para o urbanista.

Em nota, a prefeitura de Recife disse que o parque abrange “a área total de mais de 23 mil metros quadrados com capacidade de armazenar, temporariamente, um volume de cerca de 1,5 mil metros cúbicos. Isso equivale a 1.500 caixas d’água de mil litros” Para a prefeitura, durante a chuva ocorrida no dia 1º de maio, o parque “ajudou a reduzir os impactos [da chuva] ao armazenar temporariamente a água e diminuir a vazão, contribuindo para reduzir a velocidade do escoamento e amenizar os danos previstos”.

Reassentamento sem solução

Além da insatisfação com a drenagem urbana, a falta de transparência e o reassentamento de famílias que moram em áreas de risco ainda são criticados pelo pastor e pelo urbanista. Geazi vê uma negligência do poder público com os moradores da Zona Especial de Interesse Social (Zeis). Obras estruturais como melhoria das ruas, reassentamento de pessoas que moram em áreas de risco e titularidade da terra aos moradores, ainda não foram feitas, mesmo com três anos de duração do programa.

No início de 2025, junto com arquitetos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o pastor Geazi e outros representantes da comunidade, enviaram ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) um projeto habitacional em terrenos perto do Jardim Uchôa. A ideia era assentar os moradores por meio de uma oferta condizente com a renda familiar da comunidade. A proposta foi encaminhada ao MPPE antes da concretização do projeto do Parque Linear Jardim Uchôa que está previsto, mas sem data para começar a construção.

“Estou entristecido e enraivecido com isso, porque faz três anos que a gente escuta o que o povo está dizendo. […] Você tem famílias que estão dilaceradas emocionalmente porque não conseguem dormir, porque não sabem se qualquer dia vai ter uma enchente. A pessoa não tem a dignidade de poder comprar um sofá para a casa dela porque, no inverno, vai perder tudo”, relata Geazi Pedro.

Para André Araripe, a remoção das famílias nas áreas de risco e o reassentamento delas é um ponto sensível e conflituoso. Ele ressalta, entretanto, que se as obras estruturais tivessem sido feitas há dois anos, para conter os alagamentos, já estariam avançadas.

O urbanista ainda percebe um receio da gestão do município em fazer obras de assentamento de moradores em meio a um ano eleitoral.

Os valores baixos das indenizações, que não facilitariam uma mudança digna, junto com o sentimento de estarem sendo prejudicados, pela falta de transparência nas obras e ações do programa, criariam um sentimento nos moradores de que a remoção seria prejudicial, na avaliação de Araripe. Por isso, obras que não são tão eficazes durante os alagamentos, mas não afetam diretamente as famílias, são priorizadas. Caso dos parques lineares, que “não servem para acumular água, função que poderia diminuir a questão dos alagamentos”, explica Araripe.

“É como se fosse uma tática de defesa. Avançar com as obras que não trazem pautas conflitivas, ou podem ser negativas para a vida do governo, em detrimento de obras que precisariam ter sido priorizadas, porque de fato teriam um impacto maior nesse processo da redução da inundação”, explica.

Segundo o urbanista, parques alagáveis apresentam mais vantagens para reduzir as enchentes, mas têm o lado adverso de remoção de casas, e comunidades, para a sua implantação.

Perguntada sobre o realocamento das famílias afetadas pelas obras do ProMorar, a prefeitura respondeu à Pública que serão construídos “três [prédios] habitacionais no bairro do Jiquiá. Os empreendimentos totalizam 480 unidades, com investimento na faixa de R$ 84 milhões, divididos entre os conjuntos Jiquiá I (80 unidades); Jiquiá II (240 unidades) e Jiquiá III (160 unidades). Da mesma forma, será erguido o habitacional dos Coelhos, com 424 unidades e investimento em torno de R$ 74 milhões, destinado às famílias que hoje moram em palafitas e habitações precárias.” [leia a nota na íntegra]

Acúmulo de chuvas pressiona finalização de obras

Com as enchentes de maio, e o acúmulo de chuvas em Recife no mês de abril, que foi de 479 mm e superou em 178% o volume médio para o mês entre 1990 e 2020, a finalização das obras do Promorar fica mais necessária. Algumas delas, no entanto, estão previstas para terminar até 2028.

“No caso de Recife, [a mudança no regime climático] se soma à questão do aumento do nível do mar. As marés estão mais altas. Quando se associa maré alta com precipitação pluviométrica e chuva intensa, é tragédia anunciada para as regiões alagadiças. […] A maré tem atingido picos históricos de 2,30 metros, o que tem sido mais recorrente. Agosto está com a expectativa das marés mais elevadas. O tensionamento nessas regiões aumenta, ou seja, é água entrando pelo mar, é água caindo do céu, é água descendo do rio [e tudo isso] sem contenção, sem espaço de escoamento e causa, exatamente, uma inundação de regiões cada vez maiores”, alerta André Araripe.

Mesmo com dúvidas se as obras serão finalizadas em 2028, Pastor Geazi entende que o ProMorar é uma proposta boa, mas o que entra em questão é a gestão e a comunicação do programa com a comunidade. “A gente não é contra o programa [do ProMorar], apenas queremos que o programa seja cumprido”, ressalta.

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