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Mãe perde filho para as bets e luta para ver influenciadores na Justiça: “são traficantes”

por Redação Capital Brasília
3 de julho de 2026
em Brasil, Política
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Mãe perde filho para as bets e luta para ver influenciadores na Justiça: “são traficantes”
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Esta reportagem é parte de uma investigação especial da Agência Pública financiada pelos nossos Aliados, sem nenhum dinheiro de bet. Apoie mais reportagens como essa clicando aqui.

Vânia poderia ser adjetivo. Retrato vivo de quando o Estado falha em prevenir tragédias anunciadas, a professora de 54 anos virou órfã às avessas de um filho de 26, há dois anos. Desde então, se soma à multidão de famílias amputadas pelo crime que hoje buscam o poder público e a Justiça em busca de algum sentido, mas, em seu caso, encontra uma dificuldade a mais: o que enfrenta nem crime é. Ainda. E, em plena Copa do Mundo, o lembrete constante de sua perda está nas redes sociais, nas transmissões dos jogos, estampado em paradas de ônibus ou em cada intervalo comercial, onde quer que olhe, quase sempre associado a rostos sorridentes que dizem convidar apenas para “diversão”.

Para todas as instâncias, Vânia de Souza Borges diz que o filho, Rafael, foi vítima de traficantes. “Eles são traficantes, sim. Talvez uma modalidade diferente e mais moderna do tráfico. Assim como o traficante de cocaína, que é tão penalizado pela lei, eu não tenho dúvida que essas pessoas também são traficantes. Elas induzem as pessoas, levam a pessoa ao erro, induzem as pessoas até que elas percam tudo”, diz a professora que quer responsabilizar influenciadores pelos estragos das bets que ajudam a disseminar.

“Eles comercializam um produto, eles simulam que é uma coisa, e esse produto não é. […] Muitos deles fazem uma publicidade simulando o ganho de dinheiro nessas plataformas, mostram uma riqueza exorbitante, dando a entender que essa riqueza veio dessas plataformas, quando a gente sabe que não é bem assim, que eles estão na verdade ganhando por trás, que eles não estão jogando”, resume. Vânia perdeu o filho, mas não a consciência.

Foi com esse objetivo que a moradora de Uberlândia (MG) buscou o Congresso Nacional durante a realização da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets em 2024. A carta, escrita por ela após, sem sucesso, buscar ajuda na Polícia Civil mineira e também no Ministério Público do estado, estava entre os milhares de arquivos da CPI aos quais a Agência Pública teve acesso. 

O relato de uma mãe cujo filho tirou a própria vida na casa em que residia acabou arquivado junto ao relatório dos trabalhos da comissão, o primeiro a ser rejeitado em 10 anos no Senado, deixando de indiciar 16 responsáveis por empresas de apostas online e influenciadores. Desde então, o território ocupado pelas bets no orçamento da família brasileira só cresceu, chegando, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a R$ 360 bilhões apenas no ano passado.

Sob controle

Rafael Borges Amaral trabalhava em um lava-jato próximo de casa. Era sua especialidade. Já havia até montado um com recursos próprios anos atrás. “Não tinha preguiça”, faz questão de pontuar a mãe, Vânia. Aos 26 anos, investia em trabalhos manuais e no próprio talento com as pessoas para ganhar a vida, por, ainda na juventude, decidir que não seguiria o caminho do ensino superior.


Ex-nadador federado do Praia Clube de Uberlândia, até os 15, e descrito como brincalhão e extrovertido, o rapaz queria ser empreender, tomar as próprias decisões e conquistar os desejos que nutria desde menino, como a moto, comemorada pela família quando adquirida.


“Ele guardava o dinheiro dele, a princípio guardava, comprava as coisas que ele gostava, sempre à vista, nunca foi menino de se endividar, não. Ele sempre foi muito responsável, ele juntava o dinheiro, comprava e trabalhava, acordava muito cedo, espontaneamente, cinco e meia da manhã…


“Ele ia trabalhar e a jornada dele era uma jornada bem puxada”, conta a professora e mãe. Rafael, como tantos, queria ficar rico. Muito rico. E “tinha ficado sabendo de gente que tinha ganhado” dinheiro apenas jogando, se divertindo.


A mãe conta que ele não saía do celular, mas, como qualquer jovem, passava tempo jogando, conversando nas redes sociais, pensava ela. Mas os momentos de introspecção e concentração absoluta na tela passaram a varar as noites.


Vez ou outra, madrugadas viradas em claro desembocavam no horário do trabalho do dia seguinte. “Mãe, eu já ganhei tanto, é muito bom isso aqui”, dizia, segundo a professora, que disse lembrar com clareza as respostas.


Quando protestava, ouvia que estava tudo sob controle, “que ele sabia até onde podia ir”. Não sabia. Nem ele, nem a família. “A gente foi notando umas coisas diferentes nele”, relembra Vânia ao remontar seus dias nos oito meses de apreensão que viveu aquele pesadelo.

O carinho tradicional, conta, deu lugar a explosões agressivas. Rafael, mais isolado, começou a faltar ao trabalho.

“Só que chegou num momento que eu comecei a perceber que ele começou a se desfazer de bens dele, bens materiais. Ele vendeu a moto”, segundo a mãe, “sem razão”. “E de repente o dinheiro desapareceu”, afirma.

“Todos nós tentamos muito conversar com ele, todos nós, eu, meu esposo, minhas filhas, todos nós. Às vezes, eu acordava no meio da noite, ele estava jogando, eu ia lá, chorava, cheguei a chorar mesmo, pedir para ele sair do computador, porque eu sabia, eu tinha certeza que aquilo era fraude”, lamenta Vânia, ao contar como as sucessivas brigas fizeram o filho sair de casa para morar com a avó.

Quando eu entrava no assunto, ele não aceitava. E aí ele ficava diferente, já não era mais aquele menino doce, e ficava agressivo comigo, falava coisas que às vezes me ofendiam, e a gente entrou em atrito, eu e ele. Atrito constante. Até que num determinado dia, esse atrito foi um pouco mais exaltado e ele resolveu ir para a casa da minha mãe, também uma pessoa mais idosa
Professora Vânia
Mãe de Rafael

Longe da vigilância dos pais, Rafael pode ter se sentido mais à vontade, mas a situação não melhorou. O dinheiro começou a faltar para sair com os amigos, fazer coisas do dia a dia, e o constrangimento da própria situação financeira ficou cada vez mais pesado. O cenário foi descrito em mensagem de áudio enviada a um amigo pelo Instagram, em que dizia trabalhar, trabalhar, e ver todo o dinheiro ir para o jogo. “Se eu tivesse ouvido minha mãe, se eu tivesse ouvido minha família”, chegou a lamentar.

A saída que encontrava era apostar o dinheiro que ganhava, para tentar recuperar o que já havia perdido antes. Mas aí, novas perdas se somavam ao quadro. Era 23 de março de 2024, aniversário das duas irmãs de Rafael. Em mais uma madrugada de esperança por desfechos diferentes, à 1h48, o jovem fez uma transferência de R$ 30 para uma empresa de pagamentos conhecida por atuar nos sistemas de bets que ele conhecia tão bem. 

Foi a última aposta feita por Rafael.

Sob controle

Rafael Borges Amaral trabalhava em um lava-jato próximo de casa. Era sua especialidade. Já havia até montado um com recursos próprios anos atrás. “Não tinha preguiça”, faz questão de pontuar a mãe, Vânia. Aos 26 anos, investia em trabalhos manuais e no próprio talento com as pessoas para ganhar a vida, por, ainda na juventude, decidir que não seguiria o caminho do ensino superior.


Ex-nadador federado do Praia Clube de Uberlândia, até os 15, e descrito como brincalhão e extrovertido, o rapaz queria ser empreender, tomar as próprias decisões e conquistar os desejos que nutria desde menino, como a moto, comemorada pela família quando adquirida.

“Ele guardava o dinheiro dele, a princípio guardava, comprava as coisas que ele gostava, sempre à vista, nunca foi menino de se endividar, não. Ele sempre foi muito responsável, ele juntava o dinheiro, comprava e trabalhava, acordava muito cedo, espontaneamente, cinco e meia da manhã, ia trabalhar e a jornada dele era uma jornada bem puxada”, conta a professora e mãe.

Rafael, como tantos, queria ficar rico. Muito rico. E “tinha ficado sabendo de gente que tinha ganhado” dinheiro apenas jogando, se divertindo. A mãe conta que ele não saía do celular, mas, como qualquer jovem, passava tempo jogando, conversando nas redes sociais, pensava ela.

Mas os momentos de introspecção e concentração absoluta na tela passaram a varar as noites. Vez ou outra, madrugadas viradas em claro desembocavam no horário do trabalho do dia seguinte. “Mãe, eu já ganhei tanto, é muito bom isso aqui”, dizia, segundo a professora, que disse lembrar com clareza as respostas. Quando protestava, ouvia que estava tudo sob controle, “que ele sabia até onde podia ir”.

Não sabia. Nem ele, nem a família. “A gente foi notando umas coisas diferentes nele”, relembra Vânia ao remontar seus dias nos oito meses de apreensão que viveu aquele pesadelo. O carinho tradicional, conta, deu lugar a explosões agressivas. Rafael, mais isolado, começou a faltar ao trabalho.

“Só que chegou num momento que eu comecei a perceber que ele começou a se desfazer de bens dele, bens materiais. Ele vendeu a moto”, segundo a mãe, “sem razão”. “E de repente o dinheiro desapareceu”, afirma.

“Todos nós tentamos muito conversar com ele, todos nós, eu, meu esposo, minhas filhas, todos nós. Às vezes, eu acordava no meio da noite, ele estava jogando, eu ia lá, chorava, cheguei a chorar mesmo, pedir para ele sair do computador, porque eu sabia, eu tinha certeza que aquilo era fraude”, lamenta Vânia, ao contar como as sucessivas brigas fizeram o filho sair de casa para morar com a avó.

Quando eu entrava no assunto, ele não aceitava. E aí ele ficava diferente, já não era mais aquele menino doce, e ficava agressivo comigo, falava coisas que às vezes me ofendiam, e a gente entrou em atrito, eu e ele. Atrito constante. Até que num determinado dia, esse atrito foi um pouco mais exaltado e ele resolveu ir para a casa da minha mãe, também uma pessoa mais idosa
Professora Vânia
Mãe de Rafael

Longe da vigilância dos pais, Rafael pode ter se sentido mais à vontade, mas a situação não melhorou. O dinheiro começou a faltar para sair com os amigos, fazer coisas do dia a dia, e o constrangimento da própria situação financeira ficou cada vez mais pesado. O cenário foi descrito em mensagem de áudio enviada a um amigo pelo Instagram, em que dizia trabalhar, trabalhar, e ver todo o dinheiro ir para o jogo. “Se eu tivesse ouvido minha mãe, se eu tivesse ouvido minha família”, chegou a lamentar.

A saída que encontrava era apostar o dinheiro que ganhava, para tentar recuperar o que já havia perdido antes. Mas aí, novas perdas se somavam ao quadro. Era 23 de março de 2024, aniversário das duas irmãs de Rafael. Em mais uma madrugada de esperança por desfechos diferentes, à 1h48, o jovem fez uma transferência de R$ 30 para uma empresa de pagamentos conhecida por atuar nos sistemas de bets que ele conhecia tão bem. 

Foi a última aposta feita por Rafael.

Culpa, castigo e o mito da responsabilidade

Vânia é descrita pela psicologia como “sobrevivente”. Não é apenas um estado de espírito ou figura de linguagem, mas uma condição de um luto marcado por estigma, raiva, isolamento e, em doses brutais e irracionais, culpa de quem é diretamente envolvido com vítimas de mortes não naturais do gênero. “Eu buscava respostas, eu buscava culpados, eu me culpava, eu me punia, mesmo sem entender o porquê”, afirma. “Durante o velório, colegas também me relataram que ele falava, que se perdesse novamente, ele iria fazer isso, porque ele não suportava mais”, lembra. Mas a resposta nunca lhe pareceu suficiente.


“Eu cheguei a me culpar por não ter dado para o meu filho [o que ele precisava], porque eu não tinha conhecimento da dimensão do problema. Eu achava que fosse apenas uma má vontade. Uma falta de interesse dele em sair do vício. Então, eu entendo hoje que não é…”


“Que isso é mais grave do que a gente pensa. Que é sério, que é um vício, que precisa de ajuda, precisa de tratamento”, conta a professora.


Vânia foi atrás de acesso às senhas, às contas, anotações… Todas as pistas que a permitissem dar algum senso de lógica ao episódio. Abrir essa caixa de Pandora permitiu que a professora experimentasse parte do cotidiano do filho.


“No e-mail dele, eram, assim, dezenas de publicidades chegando todos os dias, nas redes sociais dele também o tempo todo, muita propaganda, influencers, gente de toda forma tentando aliciar”, descreve. “Eu vi a pressão que ele sofreu”, resume.


A revolta se traduziu numa missão de responsabilizar quem acredita ter contribuído para a morte de Rafael. Vânia procurou primeiro a Polícia Civil de Minas Gerais, mas esbarrou num quesito básico: a falta de “provas”.


“[A polícia] me recebeu, assim, com bastante indiferença. Por ser um auto-extermínio [se] pressupõe que não há uma pessoa que tenha diretamente contribuído para a morte”, conta.

Insatisfeita, foi ao Ministério Público, tanto nas promotorias criminal e do consumidor, mas o desfecho foi semelhante. “Outro dia recebi a resposta, que o processo iria ser arquivado, porque nada ficou comprovado”, afirma. 

Eu percebo assim, que é uma coisa que, sozinha, eu não vou conseguir nunca. O que eu quero? Eu quero que isso, de alguma forma, ajude evitar que isso venha a acontecer com outras pessoas, porque está acontecendo. Não dá para fechar os olhos e achar que não está
Professora Vânia
Mãe de Rafael

A carta ao Senado, escrita por Vânia, foi um apelo para que histórias como a de Rafael não passassem batida. “Ele era bombardeado o tempo todo com propagandas desses jogos que são cassinos online tais como: Blaze, Tropa do Luva Oficial, Playpix, Bet 7k, Poker Novinet, Parimatch, Jogapix, Sports Bet.io”, escreveu a professora, antes de elencar uma série de influenciadores que conseguiu identificar terem impactado a conta do filho. 

“Acho uma tremenda hipocrisia quando a gente vê sendo veiculado, por exemplo, na TV, propagandas de bets, pedindo para que as pessoas joguem com responsabilidade. A pessoa que está viciada, ela não tem esse domínio, do que seja responsabilidade ou do que não seja. É um vício. Então, falar, ‘jogar com responsabilidade’, isso aí não basta”, reclama, pedindo por legislação mais rigorosa. 

A professora de Uberlândia quer justiça, mas nem sempre há força para lutar. “O luto é cheio de altos e baixos, né? Tem dia que eu estou menos mal, tem dia que eu estou péssima, mas não me resta alternativa a não ser continuar a vida”, afirmou à Pública, sobre a motivação para seguir os dias sem Rafael. “Eu comecei a ser sepultada naquele dia, né? Tenho mais duas filhas, mas um pedaço meu já está sepultado”.

Enquanto não há definição sobre a possibilidade de proibir as bets no país ou do papel dos influenciadores no incentivo aos jogos de azar, a discussão segue em suspenso. Da mesma forma é a sensação do luto da mãe que quer responsabilizações, que, como no caso de Vânia, atinge um não-lugar em que o tempo é relativo. Do alto de seu apartamento, de onde conversa com a reportagem, ela fala como se acostumou a aguardar por dias diferentes e respostas outras.

“Minha filha criou um álbum [de fotos de Rafael]. Parece que ficou lindo. Me entregou há mais de um ano. Eu não tive coragem de abrir até hoje. Eu falei para ela que um dia eu vou abrir, mas por enquanto não. Porque eu sei que se eu abrir, começar a folhear, eu vou ver situações que nós vivemos e que nunca mais vamos viver mais. E aí, eu sei que isso vai me baquear”, se emociona, na residência da família, em que Rafael ainda habita no quarto ainda dele. “O psicólogo pediu que eu desfizesse, mas eu não tenho coragem. Está do mesmo jeito”. 

Mas nada mais será igual.

Culpa, castigo e o mito da responsabilidade

Vânia é descrita pela psicologia como “sobrevivente”. Não é apenas um estado de espírito ou figura de linguagem, mas uma condição de um luto marcado por estigma, raiva, isolamento e, em doses brutais e irracionais, culpa de quem é diretamente envolvido com vítimas de mortes não naturais do gênero. “Eu buscava respostas, eu buscava culpados, eu me culpava, eu me punia, mesmo sem entender o porquê”, afirma. “Durante o velório, colegas também me relataram que ele falava, que se perdesse novamente, ele iria fazer isso, porque ele não suportava mais”, lembra. Mas a resposta nunca lhe pareceu suficiente.


“Eu cheguei a me culpar por não ter dado para o meu filho [o que ele precisava], porque eu não tinha conhecimento da dimensão do problema. Eu achava que fosse apenas uma má vontade. Uma falta de interesse dele em sair do vício. Então, eu entendo hoje que não é. Que isso é mais grave do que a gente pensa. Que é sério, que é um vício, que precisa de ajuda, precisa de tratamento”, conta a professora.

Vânia foi atrás de acesso às senhas, às contas, anotações… Todas as pistas que a permitissem dar algum senso de lógica ao episódio. Abrir essa caixa de Pandora permitiu que a professora experimentasse parte do cotidiano do filho.

“No e-mail dele, eram, assim, dezenas de publicidades chegando todos os dias, nas redes sociais dele também o tempo todo, muita propaganda, influencers, gente de toda forma tentando aliciar”, descreve. “Eu vi a pressão que ele sofreu”, resume. A revolta se traduziu numa missão de responsabilizar quem acredita ter contribuído para a morte de Rafael. Vânia procurou primeiro a Polícia Civil de Minas Gerais, mas esbarrou num quesito básico: a falta de “provas”.

“[A polícia] me recebeu, assim, com bastante indiferença. Por ser um auto-extermínio [se] pressupõe que não há uma pessoa que tenha diretamente contribuído para a morte”, conta. Insatisfeita, foi ao Ministério Público, tanto nas promotorias criminal e do consumidor, mas o desfecho foi semelhante. “Outro dia recebi a resposta, que o processo iria ser arquivado, porque nada ficou comprovado”, afirma.

“Eu percebo assim, que é uma coisa que, sozinha, eu não vou conseguir nunca. O que eu quero? Eu quero que isso, de alguma forma, ajude evitar que isso venha a acontecer com outras pessoas, porque está acontecendo. Não dá para fechar os olhos e achar que não está.” – Professora Vânia, mãe de Rafael

A carta ao Senado, escrita por Vânia, foi um apelo para que histórias como a de Rafael não passassem batida. “Ele era bombardeado o tempo todo com propagandas desses jogos que são cassinos online tais como: Blaze, Tropa do Luva Oficial, Playpix, Bet 7k, Poker Novinet, Parimatch, Jogapix, Sports Bet.io”, escreveu a professora, antes de elencar uma série de influenciadores que conseguiu identificar terem impactado a conta do filho.

Acho uma tremenda hipocrisia quando a gente vê sendo veiculado, por exemplo, na TV, propagandas de bets, pedindo para que as pessoas joguem com responsabilidade. A pessoa que está viciada, ela não tem esse domínio, do que seja responsabilidade ou do que não seja. É um vício. Então, falar, ‘jogar com responsabilidade’, isso aí não basta”, reclama, pedindo por legislação mais rigorosa.
Professora Vânia
Mãe de Rafael

A professora de Uberlândia quer justiça, mas nem sempre há força para lutar. “O luto é cheio de altos e baixos, né? Tem dia que eu estou menos mal, tem dia que eu estou péssima, mas não me resta alternativa a não ser continuar a vida”, afirmou à Pública, sobre a motivação para seguir os dias sem Rafael. “Eu comecei a ser sepultada naquele dia, né? Tenho mais duas filhas, mas um pedaço meu já está sepultado”.

Enquanto não há definição sobre a possibilidade de proibir as bets no país ou do papel dos influenciadores no incentivo aos jogos de azar, a discussão segue em suspenso. Da mesma forma é a sensação do luto da mãe que quer responsabilizações, que, como no caso de Vânia, atinge um não-lugar em que o tempo é relativo. Do alto de seu apartamento, de onde conversa com a reportagem, ela fala como se acostumou a aguardar por dias diferentes e respostas outras.

“Minha filha criou um álbum [de fotos de Rafael]. Parece que ficou lindo. Me entregou há mais de um ano. Eu não tive coragem de abrir até hoje. Eu falei para ela que um dia eu vou abrir, mas por enquanto não. Porque eu sei que se eu abrir, começar a folhear, eu vou ver situações que nós vivemos e que nunca mais vamos viver mais. E aí, eu sei que isso vai me baquear”, se emociona, na residência da família, em que Rafael ainda habita no quarto ainda dele. “O psicólogo pediu que eu desfizesse, mas eu não tenho coragem. Está do mesmo jeito”. 

Mas nada mais será igual.

Proteção que se passa adiante

Vânia de Souza Borges, aos 54 anos, segue atuando como professora de adolescentes. Para encarar os dias após a perda, diz, faz acompanhamento médico, recorre a medicação contra depressão e faz questão de contar a história de sua família como forma de impedir que o roteiro se torne ainda mais comum do que tem testemunhado em grupos de apoio.

“Eu, sendo professora, educadora, eu tenho conversado muito com meus alunos, dentro do possível, tentado esclarecer, tentado sempre conversar, alertar, mostrar, né? Às vezes, uma pessoa de fora falando, eles escutam muito mais do que os próprios pais”, fala, lembrando da própria experiência.

“Eu lido com adolescentes. Então, numa faixa etária, assim, que eu sei que também é muito propícia para entrar nesse tipo de vício, então eu tenho tentado dessa forma”, alerta, na esperança de que o trabalho individual, por menor que seja, faça a diferença diante do coletivo, visando a segurança de famílias dos mais diversos tipos espalhadas pelo país, uma missão que tomou para si, em busca de sentido. 

“Eu vou fazer Justiça. Como eu falei, meu filho não volta, mas existem os outros filhos ainda, filhos de outras pessoas que eu não gostaria que isso tivesse acontecido”, conclui. A professora não quer que outras mães sejam Vânia. Porque Vânia poderia ser adjetivo: aquela que sobrevive ao nadar contra a maré.

Precisa de ajuda ou conhece quem precisa?

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio. O serviço é voluntário e gratuito, disponível 24h pelo número 188 e todos os dias também por chat ou email. O sigilo é garantido.

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